Saí de casa para aquela viagem com a sensação de que alguma coisa diferente ia me acontecer. Eu vivia em plena crise de um casamento que, fazia tempo, começara a dar sinais de cansaço. Melhor dizendo, a crise era, já há alguns anos, a expressão viva do que eu vivia ao lado de Maria Alice. Meus sonhos, havia tempo, apontavam para uma vida totalmente diferente e também para uma mulher diferente daquela que dormia ao meu lado e da qual eu mal sabia com o que sonhava. O que sei é que sonhávamos diferente, eu cheio de planos com foco coletivo, tanto quanto possível; ela aderida ao panorama do lar e da família, tratando meus devaneios sociais como se fossem coisa equivocada, ou pelo menos, incondizente com a vida familiar restrita com a qual ela se identificava.
Viajava eu para um encontro profissional, de gente da gestão pública, como eu, um tipo de evento que eu dera de frequentar nos últimos tempos, um pouco para fugir do que eu considerava uma vida sem horizonte e um tanto opressiva ao lado dela, outro tanto porque me vi alçado a certa importância no grupo profissional do qual eu fazia parte, no qual eram tradicionais e quase obrigatórios aqueles encontros esporádicos, mas que se amiudavam ultimamente. Naquele momento, nossos filhos começavam a não depender muito de mim, que já havia me transformado em uma espécie de pai sobre rodas, o que me não deixava de me facilitar tais escapadas, pois buscá-los na escola e levar ao futebol ou à aula de música eram coisas que eu poderia delegar a um terceiro ou um casal amigo, por exemplo. Para Maria Alice, claro, o motivo de tais viagens que se tornavam frequentes, fazia parte daquele primeiro grupo de motivos, o do escape, nada mais, o que lhe acarretava dissabores e ciúmes cada vez que elas ocorriam. E assim me mandei para a grande cidade do Sul do país, onde havia coisas importantes acontecendo no meu campo profissional, onde viviam figuras de destaque no mesmo.
Algumas semanas antes do encontro, dentro do clima das tradicionais articulações preparatórias, recebi a visita de um colega de outra cidade, figura que já se mostrava notável no panorama corporativo. Eu não o conhecia e ele estava de passagem pela cidade onde eu morava e fez questão de me fazer uma visita, segundo ele, por ter interesse em conhecer mais de perto as coisas que a equipe que eu coordenava estava fazendo por ali – as quais, na verdade eu nem achava que fossem tão significativas assim. Ele gentilmente afirmou que o nosso trabalho, ao contrário do que eu imaginava, estava ficando conhecido fora de nossos limites, mesmo sendo ele gestor em uma capital, enquanto nós ali não passávamos de gente do interior. Trocamos, então, muitas ideias sobre o dia a dia de nossos afazeres, bem como das perspectivas políticas de nossa entidade nacional, em processo de fundação, sobre o que compartilhávamos a ideia de que ainda havia muito por fazer, em nível mais amplo, estadual e até federal, ele me colocando (e eu a ele) como participantes potenciais de tal missão. Conversamos muito e ao final meu novo amigo me avisou que uma pessoa de sua assessoria iria me ligar nos próximos dias, para que eu lhe passasse diretamente algumas informações e documentos sobre nosso trabalho, que ele tinha especial interesse em conhecer de forma mais aprofundada. Tudo na base de telefone e ECT – naquele tempo não havia internet, não é demais lembrar.
Os dias se passaram e eu já havia até esquecido de que haveria um contato quando ele aconteceu. Do outro lado da linha alguém me falava da parte de meu colega da capital e das informações que eu havia prometido providenciar. Era uma voz feminina, educada, articulada, pausada, um tanto grave, bastante calorosa, que me deixou, à falta de outra palavra, mobilizado, sem que eu pudesse especificar de alguma forma o que era isso e por que acontecia. Mas o fato é que coloquei foco naquilo e me dediquei, por algumas horas (ou foram dias?) a tentar imaginar como seria a dona daquela voz: alta, baixa, loura, morena, feia, bonita, casada, solteira? Naquele momento, devo admitir, com um casamento fazendo água, algumas ideias de índole romântica, talvez erótica, me acalentavam os pensamentos.
Para meu espanto e satisfação, a dona da voz me deu um indicativo que me fez acentuar a tal mobilização íntima, ao dizer que também estaria presente na reunião que aconteceria daí a alguns dias e que eu poderia levar tais documentos que eram desejados pelo seu chefe, para serem entregues pessoalmente.
Em poucos dias e em certo clima de espera, peguei o avião, depois um ônibus e cheguei lá.
Já instalado em hotel, depois de algum tempo circulando entre pares no salão do Centro de Convenções onde ocorreria a abertura do evento, pude ver meu amigo de novo e com ele, finalmente, a dona da voz. E a fila de interrogações que eu havia feito intimamente a respeito dela finalmente foram esclarecidas, ao ver em minha frente uma pessoa das mais significativas, para dizer pouco. Uma mulher morena e alta; mais ou menos da minha idade; cabelos curtos (como eu gosto, ainda hoje!); expressão doce; afável; nada tímida, sem deixar de ser recatada. Uma daquelas pessoas que conversam com você olhando nos olhos. Em uma única palavra: eu vi naquela mulher uma expressão magnética, melhor dizendo, sem medo de adjetivação hiperbólica, linda! E ainda possuía aquela voz, grave e calorosa, meu Deus…
Da última coisa que me lembrei, naquele momento, é que eu era casado – e para todos os efeitos, bem casado – embora a minha situação matrimonial estivesse passando pelas turbulências que já citei, quase naturais e obrigatórias para um casal que estava junto havia quase quinze anos e que, além do mais – aí eu já perseguia, sem dúvida, uma espécie de álibi – por estar vivendo em meio a uma penosa construção de uma casa monumental, que consumia as energias minhas e de Maria Alice já havia pelo menos três anos. Enfim, um daqueles momentos em que o diabo espreita, com ímpeto provocador, do meio do redemoinho. Mais tarde, ainda no mesmo dia, descobri que a dona da voz – eu já sabia seu nome: Katia – tinha também um matrimônio sólido. E mais, que o seu marido era, simplesmente, uma graduada autoridade púbica em sua cidade de origem.
A verdade é que, naquele momento, nem em sonhos delirantes eu poderia imaginar o desfecho que aquilo teria. E já naquele preâmbulo da reunião, entabulamos conversação, primeiro sobre as questões oficiais que nos haviam mobilizado nos dias anteriores. E também acabaram por incluir cenas da nossa vida, aí incluídos filhos, famílias, sonhos, aspirações, posições políticas, gostos musicais e literários. Tudo sem qualquer esforço, como se um vasto menu de assuntos se desenrolasse para nós, diretamente de uma esfera externa, misteriosa e benfazeja. O desfecho de tal tarde foi apenas o previsível, o de combinarmos de nos encontrar mais tarde, uma vez encerradas as atividades de abertura do encontro, para retomarmos a conversa interrompida. E nos ajustamos quanto a isso durante uma pequena caminhada, junto com outras pessoas, entre o Centro de Convenções e o hotel, onde estávamos todos hospedados. Éramos não mais do que uma dúzia de pessoas naquele passeio, mas quem contava de fato, já àquela altura dos acontecimentos era apenas ela e eu; eu e ela, já admitindo que minha narrativa tenha se tornado um tanto hiperbólica, mesmo decorridos tantos anos destes acontecimentos. O resto parecia não existir. E isso foi apenas preâmbulo da noite, mas inteiramente superado por esta.
Depois do bla-bla-bla da abertura solene fomos, sempre em grande penca, para uma casa noturna, com comida, música ao vivo e principalmente bebida. Para mim e para ela o que ocorreu de substantivo foi a conversa que sobreveio; o resto, beber, comer, dançar, foi apenas pano de fundo. E conversamos desbragadamente, noite a dentro. Uma ou duas vezes dançamos, separados, olhos que procuravam olhos, mas sem fixar. Pois quem mandava em nós, ainda, era o pudor.
Procuramos um canto mais afastado, uma espécie de jardim interno, para que a conversa não fosse perturbada pelo ambiente ruidoso. Não havia qualquer intenção de pecado nisso. O maravilhamento era total e nossos olhos estavam postos, um no outro, com reciprocidade total, sem outra querência que não fosse a de captar cada palavra, cada gesto, cada piscadela ou arregalo, cada sorriso. Encantamento! Eis que, já sem medo de mais hipérboles, encontro a palavra que descreve aquela mágica da qual éramos personagens felizes e assustados. O grupo de amigos que também viera ao encontro e que estava no mesmo ambiente bem o percebeu, ao me dirigir aqui e ali os tradicionais comentários picantes, quando por acaso nos encontrávamos, no bar ou no banheiro, por exemplo. Mas o que importava? Que falassem…
O fim da noite não foi aquele corriqueiro e previsível, mas dada a penca de gente com a qual nos movíamos, talvez tenhamos encontrado algo ainda melhor, ou não susceptível da maldade alheia. Já amanhecia o dia quando finalmente saímos, como ali chegamos, todos ou quase todos se dirigindo ao mesmo hotel. A logística nos era impiedosa: ela tinha companhia no quarto e eu também. Um café da manhã no próprio hotel foi o que pensamos para encerrar a noitada, já que agora era feito o dia. Mas o restaurante ainda não estava aberto e nos foi oferecida, como compensação, a possibilidade de mandarem o café no quarto. E assim foi feito. A situação era prosaica: sentados na cama, frente a frente, quatro pessoas, os dois personagens centrais desta história e seus respectivos acompanhantes de quarto, sorvendo um mísero cafezinho acompanhado de pão de queijo. E só.
Em certo momento eu, num arroubo de empolgação, já sem o pudor de me demonstrar romanticamente, falei a ela de uma canção de que eu gostava intensamente, e que o amanhecer já instalado fora da janela me fez recordar: clareia manhã, o sol vem apagar a clara estrela, a qual eu, desajeitado, trauteei, sem esquecer que os desafinados trazem também no peito um coração. Quando chegou a hora do verso que dizia loucos de paixão, creio que tive consciência – talvez ela também – de que a brincadeira parecia estar indo longe demais…
Não aconteceu mais nada? Não aconteceu, naquele momento, pelo menos, pois, nos despedimos logo em seguida. Para sempre ou apenas por algum tempo mais? Àquela altura era impossível saber…
O que veio depois começou a dar sinais intensos logo em seguida. Na longa viagem de volta, que fiz de carona no carro de um colega, por falta de conexões aéreas, já me vi com a mente absolutamente ocupada em lembrar de cada detalhe dos dias passados e, principalmente, da noite anterior. E me vinham os ecos daquela interminável conversa noite a dentro, cada detalhe indo e voltando, aos pulos como um gafanhoto, em minha memória, em ato de verdadeira epifania. As músicas que ela gostava; os clássicos que lhe faziam a cabeça; as recordações de infância; a última gracinha do filho pequeno; os atropelos do trabalho no órgão público. Cada fragmento daquele já me parecia algo que pertencia a mim também. O tal alumbramento, de que falava o poeta, agora não mais com uma moça nua no banho, mas sim por uma simbólica interação verbal e visual com outra pessoa. Em certo momento, dado meu estado de relativo silêncio e isolamento dentro do carro, o próprio caroneiro, meu companheiro de quarto, que participara daquele estranho café da manhã à beira-cama poucas horas antes, me veio com alusões maldosas a respeito do meu alheamento durante a viagem. – E aí, companheiro, tu tá é apaixonado?
A chegada em casa não me foi mais tranquila. Maria Alice, que se indispunha visceralmente com minhas partidas, não mudava seu estado de espírito nas chegadas. Me recebeu friamente e com mil incumbências de caráter doméstico, inclusive relativas às crianças. Nenhuma palavra se o encontro tinha sido bom, proveitoso ou algo assim. Era o jeito dela, de sempre. Depois de alguns dias, a casa nova ficou pronta e foi hora de providenciar a mudança, antes tão ansiada, mas que naquele momento me pareceu sem maior sentido. Na noite anterior à mudança, que seria a despedida da casa que também havíamos construído juntos em tempos melhores, me bateu uma inusitada angústia e quando me dei conta, tive que sair da cama para ir ao banheiro, simples e puramente para chorar… Não sabia de quê e nem para quê – ou para quem – mas chorei como um bebê que se perdeu da mãe e se viu no meio de alguma multidão desconhecida. Minha vida mudava e eu não sabia dizer para onde ia e nem se eu daria conta daquilo.
Nos dias que se seguiram, já na casa nova, meu comportamento já não era o mesmo. Minha filha mais velha, adolescente na ocasião, notou e se chegou mais a mim. Maria Alice, em seu feitio habitual, manteve a postura distante e um tanto severa de sempre, aumentando as cobranças que me fazia a respeito das responsabilidades domésticas, sem dar o devido desconto para o fato de que minha ausência nos dias anteriores me trouxera maiores obrigações no serviço. Eu me pilhava contemplativo, suspiroso, melancólico, contemplando, em total alheamento o mundo, vendo o cair da tarde na grande varanda da nova moradia, ainda não mobiliada, que me parecia de uma imensidão quase galática.
Maria Alice só fazia me olhar desconfiada, mal escondendo uma mágoa feita sem palavras, mas com indefectíveis olhares. Um dia, muitos dias depois, num rompante que eu já não esperava, finalmente me inquiriu sobre o que estava acontecendo comigo – e acrescentando, cheia de reticências: – depois de sua última viagem... Eu falei: – nada… E mantive esta inverdade por quanto tempo fui capaz, ou seja, por três ou quatro longos meses. Mesmo quando admiti estar passando por algo diferente e complicado, ainda assim fui evasivo: – não sei, acho que preciso de um tempo…
Quando finalmente me senti liberado dos trabalhos ainda pendentes da mudança e da carga de trabalho na Secretaria, resolvi escrever a Katia, de forma ainda cautelosa, dizendo que tinha sido um prazer conhecê-la, que gostaria, quem sabe, de revê-la, se ela já conhecia o novo disco de Jobim, que o pôr do sol na minha cidade andava maravilhoso, etc. Alguns dias depois, ela me respondeu, declarando ter adorado receber minha carta, com o conteúdo restante mais ou menos na mesma intensidade da minha, embora ainda muito formal. Nesta altura, eu já me sentia como um personagem de um daqueles filmes de ficção futurista, pilotando uma nave espacial acelerada, de cuja cabine se via as estrelas sendo deixadas para trás, dentro de uma paisagem com mais e mais pontos luminosos em fuga vertiginosa.
Mas o resto continuava como sempre. A vida de pai motorista, as contas a pagar, a crise política local a nos morder os calcanhares, como sempre, na repartição. Maria Alice em sua mesmice carrancuda e desconfiada a meu respeito. E a melancolia vespertina, cotidiana, naquela varanda, com o sol se pondo entre tons de laranja e azul, até que chegavam os vagalumes. Eu me alimentava daquelas cartas semanais, às vezes até mais frequentes, que chegavam em meu endereço oficial, abertas e lidas com um frêmito de emoção e desejo, cada vez mais explícitas, com as declarações iniciais de sintonia, empatia, cuidado, rapidamente transformadas em declarações de amor. Num domingo à tarde resolvi me arriscar a chamá-la pelo telefone, depois de escutar, no radio, Gil cantando I just call to say I love you, mas a voz, embargada, mal me saiu da garganta, embora ela estivesse, ao que parecia, sozinha em sua casa naquele momento. Deu para dizer que eu morria de saudades, ao que ela respondeu, com certo laconismo: o mesmo comigo. Me contou também que estava matriculada em uma formação técnica na capital, a acontecer dentro de algumas semanas.
Esta notícia me tirou o sono e ao mesmo tempo me abriu caminho para elucubrações sem fim, para forjar uma desculpa e estar lá com ela, que estaria, então, próxima a apenas algumas horas de viagem, que eu poderia fazer apenas com uma curta ausência do trabalho, quem sabe apenas um final de semana. Maria Alice, mais uma vez, não ia gostar, como de fato aconteceu. Encontrei, entretanto, mil e uma desculpas e criativas justificativas e fui. Tive que desmarcar um compromisso de família, que eu havia combinado com minha mulher e nossos filhos e só Deus sabe como aquilo foi complicado para mim. Reafirmei para ela a história que vinha repetindo havia algumas semanas, já totalmente inconvincente, a meu ver, de que eu precisava de um tempo só meu. E foi assim que fiz romper todas as amarras para seguir ao encontro de Katia. Na véspera, minha mulher, pela primeira vez em nossa vida de casal, partiu sozinha com as crianças, dirigindo ela própria o carro. Meu coração esfriou de temor, por um lado, mas por outro era todo regozijo: eu ia reencontrar Katia e aquilo não tinha preço e valia qualquer sacrifício. Minha conversa com Maria Alice, na véspera, era seguramente o fim da linha para nós dois, como se confirmou a seguir. Já não era possível voltar atrás, para mim, pelo menos.
Não havia chegado, ainda, o fim da história, ou o início de uma nova saga, para Katia e eu. Longe disso, havia o casamento dela ainda de pé e o meu próprio, de término ainda inconcluso àquele momento. Acima de tudo era necessário testar a hipótese de que valeria a pena nos desfazermos de tantas bagagens para cair num vácuo, sobre cujo sucesso nossa insegurança era total. Mas o fato é que eu sentia que não havia como botar de pé as minhas pontes e nem salvar meu navio para o retorno àqueles quinze anos passados ao lado de Maria Alice. E fui em frente, que nem um foguete interestelar, mais uma vez vendo estrelas passarem a galope pela janela lateral da nave. Lá na frente, porém, eu então não sabia, poderia existir um buraco negro.
E la nave è stata, como num filme de Felini. Um ano – e uma centena de cartas apaixonadas – depois, fomos morar juntos, vivendo uma saga amorosa contínua e acelerada, na qual se mesclaram encantamento, estudo, viagens, poesia, sexo (na cama, na grama, no chão), cozinha-a-dois, erotismo, alegria, convivência em família, mudança de cidade e de trabalho, projetos de vida juntos e tantas coisas mais.
Até que um dia acordei numa cama que não era minha, tendo a meu lado uma pessoa que me parecia tão estranha… Onde aquela clara manhã e a loucura da paixão?
O destino quis que o desfecho dessa história se desse apenas dez anos depois – e não foi nada lisonjeiro. Mas seus ecos ainda se fazem sentir no momento em que escrevo estas linhas, passados quase quarenta anos daquela jornada extraordinária, daquela noite de alumbramento, daqueles dias e noites inesquecíveis, da sensação de estar vivendo coisas totalmente venturosas e inéditas, sem retorno possível; daquele estranho café da manhã num pequeno quarto de hotel.
***FIM***
(08-10-2025)
