Segredos de Família

Toda família tem segredos, toda família tem histórias, publicáveis ou nem tanto. A minha não foge a tal regra. O caráter ficcional com que encubro as presentes narrativas não pretende encobrir certos pecadilhos revelados e nem exime a ninguém por tê-los cometido. Quem não tem um prontuário assim meio embaçado? Aliás, como saber, de fato, da veracidade de muitas das histórias e das lendas que acompanham qualquer família, qualquer grupamento humano? O tempo, quando passa, faz esta estranha alquimia, de converter narrativas pitorescas em verdades inquestionáveis. Ou vice versa. Sendo assim, não me responsabilizo totalmente pelo que é dito aqui e neste aspecto me apoio em Manoel de Barros: do que conto, boa parte é inventado, a outra parte é mentira mesmo – ou algo assim. Vamos em frente, em busca da essência – não da verdade – de alguns desses possíveis segredos.  

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Amor em tempos de pandemia (e cia.)

Amor, sempre amor. Em tempo de pandemia ou em épocas normais. Apenas imaginado ou vivido por inteiro – ou por partes. Amor com ventura ou com angústia; com alegria ou tristeza; com esperança ou desespero; com alivio ou dor. Sempre Amor, sempre o mesmo e sempre diferente. Aqui vão alguns exercícios que fiz, sobre tal tema. Algumas coisas eu confesso que vivi de fato, mas nem tudo é verdade. Minha nudez não mais me assusta e eu a compartilho com vocês.

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Vida de cachorro

Finais de tarde em muitos domingos, em certo período de minha infância, viajando por aquela rua longa e sinuosa, que nos levava aos confins da cidade, em uma sucessão de bairros que iam variando de razoáveis a pobres, de classe média a gente apenas remediada e, depois disso, a miseráveis e favelados. Mais do que indicativos sociais ou topográficos, para mim e meus irmãos era o retrato vivo de uma dor.

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Alumbramento

Saí de casa para aquela viagem com a sensação de que alguma coisa diferente ia me acontecer. Eu vivia em plena crise de um casamento que, fazia tempo, começara a dar sinais de cansaço. Melhor dizendo, a crise era, já há alguns anos, a expressão viva do que eu vivia ao lado de Maria Alice. Meus sonhos, havia tempo, apontavam para uma vida totalmente diferente e também para uma mulher diferente daquela que dormia ao meu lado e da qual eu mal sabia com o que sonhava. O que sei é que sonhávamos diferente, eu cheio de planos com foco coletivo, tanto quanto possível; ela aderida ao panorama do lar e da família, tratando meus devaneios sociais como se fossem coisa equivocada, ou pelo menos, incondizente com a vida familiar restrita com a qual ela se identificava.

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Matéria médica

Oh cousas todas vãs, todas mudáveis, qual é tal coração que em vós confia? Est’água que d‘alto cai, acordar-me-ia, do sono não, mas de cuidados graves. (Sá de Miranda). Enquanto espero a chegada deste voo várias horas atrasado, minha mulher fazendo suas eternas compras, por que é mesmo que me lembrei deste verso antigo, que me acompanha desde o colégio, graças àquela professora que gostava de autores portugueses? Sim! Já sei, são as coisas sempre mudáveis na vida da gente, além dos cuidados graves, dos quais, nesta fase da vida, bem passado como estou dos setenta anos, é difícil se livrar.

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Nós que amávamos a Revolução

Eram dois na noite escura. Esta era a primeira frase do livro que eu ia escrever. Na realidade, éramos dois que perambulávamos pelas ruas estreitas de nosso bairro de ruas calçadas em pedra, onde acordávamos todo dia com o apito da fábrica de tecidos, na nossa casa que pouco se distinguia da moradia dos operários, naquela cidade oprimida entre montanhas, em muitas noites escuras, que a singeleza das luminárias amareladas era incapaz de clarear. Passamos a ser três quando um primo de meu amigo se juntou a nós. Saíamos todas as noites, pela hora da novela, que então já “entorpecia as massas”, como rezava nossa cartilha militante, filosofando, tramando obras literárias, tentando equacionar o futuro da humanidade e, quem sabe um dia, participar da revolução no país.

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A Morte acidental do Eletricista

Paródia inspirada em A Morte Acidental de um Anarquista, do autor italiano Dario Fo, peça de teatro que, por sua vez, parece ter sido inspirada em O Inspetor Geral, do russo Nikolai Gogol. E que os leitores perdoem tais liberdades com obras tão alheias como clássicas.

CENA 01 (Sala de espera de uma unidade típica do sistema de saúde no Brasil, com mobília barata, paredes descascadas, piso defeituoso, um único banheiro com a porta semiaberta. Nas paredes cartazes feitos à mão anunciam proibições e negativas diversas. Cinco ou seis pessoas (US) esperam, pacificamente. Uma mesinha no canto, aparentemente destinada a recepcionista ou alguém com tais funções, permanece vazia durante todo o tempo. Há um relógio na parede, de tipo comum. No canto, uma escada encostada na parede, junto a fios soltos descendo do teto. Ao fundo uma porta na qual se lê: “Entrada permitida apenas para o pessoal da Administração”. Um homem agitado (HR) anda para lá e para cá, consultando a toda hora seu relógio.)

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Visita ao Velho

Sim, era preciso visitá-lo. Ele, o Velho Tio, fazia parte de nossa vida, desde a mais remota infância. Da minha vida, mais do que da dele, meu irmão mais novo, que teve menos convivência com tal figura, para mim tão marcante. Ele morava longe, cumpria fazermos aquela viagem longa, que deveria ser premeditada, porém sem termos tempo para tanto.

Fizeram uma cachorrada comigo, era como ele explicava a origem dos acontecimentos que o derrubaram, sem apelação, na cama que poucas semanas depois o acolheu na morte. Falava da passagem atabalhoada do velho cão de fila da fazenda pela porta da cozinha, onde ele justamente tomava um café e acendia o cigarro de palha habitual nas manhãs. E sem mais se viu jogado ao chão, gerando um doloroso calombo na coxa, que ele mesmo, no ato, diagnosticou como uma fratura de cabeça do fêmur.

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Foi assim (Amor em tempos de pandemia)

Parecia em cena de filme. Eu dirigindo pela noite a dentro, tendo pela frente horas e horas de estrada deserta, para estar com aquela pessoa tão querida e especial, em seus prováveis últimos dias ou horas de vida. Eu vivia aquilo como um transe, desencadeado pelo telefonema que recebi ao chegar do trabalho. Sim, ela chegava ao fim.

Eu não a via havia algum tempo, seis ou sete semanas, mais exatamente, afastados que estávamos pelos terríveis acontecimentos que fizeram as pessoas guardarem distância umas das outras, por meses a fio. Falávamos, entretanto, quase todos os dias e eu acompanhava, de longe, os percalços de um tratamento médico que já há tempos era percebido, por ela a e depois por mim, como infrutífero e devastador.

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Menina na janela

Manhã de chuva, mas poderia ser também de sol forte e pleno. Lá estava ela. Na janela. O pai na roça, a mãe lavando roupa, os irmãos mais velhos na escola. Só ela em casa, triste, triste. Também, será por que dona Teresinha, a professora dos pequenos, tinha que adoecer justo agora? Nem a companhia de Malhada, a gata, era capaz de lhe trazer consolo, até porque a danada dera para namorar e mais ficava a andar por aí do que vir brincar com ela. E tudo demorava a passar, demais. A mãe queria ela quieta em casa. De outra vez tinha saído para dar uma volta e quase foi atropelada pela motoca do Zé Caxeiro. Para não dizer que não tinha nada para fazer, a mãe mandou vigiar a água na chaleira, para desligar, quando fervesse – vê se pode uma coisa assim. Ela era capaz de muito mais!

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