Sim, era preciso visitá-lo. Ele, o Velho Tio, fazia parte de nossa vida, desde a mais remota infância. Da minha vida, mais do que da dele, meu irmão mais novo, que teve menos convivência com tal figura, para mim tão marcante. Ele morava longe, cumpria fazermos aquela viagem longa, que deveria ser premeditada, porém sem termos tempo para tanto.
– Fizeram uma cachorrada comigo, era como ele explicava a origem dos acontecimentos que o derrubaram, sem apelação, na cama que poucas semanas depois o acolheu na morte. Falava da passagem atabalhoada do velho cão de fila da fazenda pela porta da cozinha, onde ele justamente tomava um café e acendia o cigarro de palha habitual nas manhãs. E sem mais se viu jogado ao chão, gerando um doloroso calombo na coxa, que ele mesmo, no ato, diagnosticou como uma fratura de cabeça do fêmur.
Os dias, aliás, as semanas que se seguiram foram atrozes. Na pequena cidade não puderam fazer outra coisa se não lhe acalmarem as dores. A solução foi enfrentar longas horas de estrada esburacada na velha ambulância municipal. Na chegada à capital, duas penosas horas de engarrafamento.
Mas ele escapou vivo neste primeiro momento, foi operado e se viu enviado de volta à fazenda, com uma haste de aço atravessada no grande osso da coxa. Para voltar andar, lhe disseram, era questão de tempo e paciência.
O tempo passou a paciência ficou cada vez mais reduzida. O filho lhe substituiu na lida diária de administrar a colheita do café. Por sorte já estava preparado para tanto. O neto, adolescente, veio lhe servir como “enfermeiro”, o que significava lhe trazer o marreco de urinar algumas vezes por dia e mais as refeições, que ele sistematicamente recusava. Era um bom menino e procurava distrair o avô com alguma conversa, que não se sustentava por mais do que alguns minutos, sendo frequentemente interrompida pelo avô com um gesto impaciente ou até mesmo com um cochilo extemporâneo.
Diante da preocupação do filho e da nora de que precisava se alimentar melhor, na ausência destes engabelava o neto a lhe trazer, com disfarces, uma exótica mistura de suco de frutas, melado ou mel, mais aguardente, uma ou duas vezes ao dia e em pouco tempo com frequência ainda maior. Ao filho, que lhe reprovou tal expediente, alegou que havia lido em uma “revista médica” que aquela era uma fórmula perfeita para pessoas acamadas, que precisariam, acima de tudo, de soluções energéticas, como aquela. O filho e a nora lhe proibiram de se alimentar – ou se “energizar” – assim, mas o neto, despido de maior autoridade sobre o avô, um tanto temoroso dos ataques irados dele e, principalmente, ansiando se ver livre de pressões e chamados constantes ao leito, através da campainha que o velho mandara providenciar, facilmente se viu convencido a atender tais pedidos, incluindo nisso não revelar aos pais o verdadeiro andamento de suas práticas de enfermagem.
Para nós, sobrinhos, de fato não havia como esquecê-lo. Passados tantos anos ainda eram fortes para mim aquelas lembranças de infância, o homem claro e alto, para nós, crianças, maior ainda, a nos trazer o cheiro de currais e as histórias de lugares de nomes e paisagens sugestivos. A cada ano éramos apresentados a um novo primo. Aqueles almoços de família regados a conversas, brincadeiras e a comida inigualável da esposa, nossa Tia. As tragédias que nos espreitavam no meio da alegria: meu avô, em seguida, um tio ainda jovem, depois um primo, filho dele, que se afogou ainda adolescente, ou nem isso, o que nos fez, anda crianças, a sentir o cheiro da morte. Mas acima, bem acima de tudo isso, pairava a figura daquele Tio, que bem representava vida e exuberância em nosso cenário infantil.
Mais tarde, o cheiro dos currais e as histórias de lugares distantes mudaram de cenário. Ele agora abria estradas e rodava por toda parte em sua camionete amarela. Sempre personagem de nossa infância. E tudo teve seguimento quando eu, já estudando na universidade, buscava fugir da cidade nos finais de semana, pegar um ônibus na rodoviária, quando o sabia presente no povoado vizinho, onde a família agora residia, entre uma viagem e outra do chefe, para encontrá-lo, sempre receptivo. Primeiro, o jantar copioso da Tia e o doce de leite com queijo das búfalas que ele mantinha por acreditar em tal tipo de pecuária, segundo ele muito mais vantajosa do que a do gado comum. Depois a varanda, onde a nossa conversa escorria alternando ênfase, agitação, placidez, indo da literatura à agricultura, da ciência à política, das coisas do espírito a alguma anedota picaresca.
No meio de tudo o ingrediente da Poesia que nunca lhe faltou. Em alguma pausa da conversa, ele se levantava e pegava um livro na estante, não raramente aproveitava para nos servir de algum destilado especial e dava início a uma récita poética, que ele fazia boa parte de cor. O Padre e a Moça, por exemplo. Nunca ninguém traduziu pela palavra falada este poema de Drummond, com tanta verve e com tanta emoção. E não poucas vezes o sol nos alcançava ali na varanda, trazendo luz e certeza de que conversas como aquelas eram a essência da vida.
Um lema que bem caberia a ele: conversar é preciso; já viver, que seja da maneira possível, nada mais.
Mais recentemente, ele já Patriarca, em seu refúgio sertanejo, entre alguns milhões de pés de café, irrigados com tecnologia de ponta, estive com ele por algumas vezes, sem levar em conta a distância. Sua vitalidade custava a ceder, parecia não se abalar com o fumo e as muitas cachaças. Com tanta tecnologia agrícola em volta, ele, de outra geração, às vezes parecia até ter nascido em tal ambiente. À noite, as conversas iniciadas na minha juventude ainda mostravam inesgotável fôlego. Só que eu, nos meus cinquenta, já não encontrava disposição para encarar o sol chegar; mas ele, vinte e tantos anos mais velho, sim. Para dormir, muitas vezes, usava apenas um banco de madeira. – é a porcaria da coluna, dizia, mas mesmo assim já amanhecia com profunda disposição para retomar a conversa, entre um cigarro e outro, fosse sobre o tema da véspera ou algum poema que ele descobrira em seus livros, passando pela flutuação dos preços dos insumos agrícolas, com a devida ressalva sobre suas discordâncias relativas às tecnologias médicas ou a política econômica do governo. Sujeito opinioso!
Entretanto, pelo que sabíamos mesmo à distância, meu irmão e eu, as coisas iam de mal a pior com ele, que não voltara a andar, tinha dores cada vez mais fortes, além de um constante estado de espírito deprimido, miserável. Então cabia visitar o Velho, mesmo de improviso, pois não sabíamos se ainda o alcançaríamos vivo se adiássemos a viagem.
E lá fomos, para enfrentar aquelas centenas de quilômetros, quase a metade disso por estradas suspeitas, como disse alguém, praticamente “solúveis em água”. E era tempo de chuvas, um mês de janeiro típico na região. Seguir em frente era a única opção, eu queria muito ver o Velho ainda vivo.
Tudo conspirava, tanto em relação ao estado de saúde do Velho, como em nosso desfavor. Saímos de casa debaixo de um chuvaréu de se cortar com faca. É bem verdade que a chuva se acalmou daí a pouco, mas nosso pensamento se fixava nos muitos quilômetros ao final da jornada, naqueles trechos de estrada, por assim dizer, solúveis. E esta parte, apesar das horas decorridas, chegou mais depressa que esperávamos,
Era um caminho ainda não conhecido por nenhum de nós. Em determinado trecho, diante da informação de um policial de que “nos eucaliptos tomássemos a esquerda”, eu havia entendido assim, mas meu irmão pela mão contrária. E por aí fomos, no meio de uma lamaceiro bíblico, intensificado pela chuva que agora voltar a cair sem interrupção. Nos demos conta que a estrada tinha cada vez menos movimento de carros e que os buracos e valetas, além da própria lama, só faziam ameaçar cada vez mais. Pensamos em retornar, mas um caminhão atolado, em sentido contrário, logo diante, nos demoveu de fazer a meia volta.
O erro agora estava evidente. Na pequena cidade que nos apareceu inesperadamente, por não constar do nosso roteiro original, pedimos informação sobre o prosseguimento da jornada. Havia um magote de gente na praça principal, aparentemente esperando alguma coisa. A informação que ali nos deram foi de que se tratavam de trabalhadores das plantações e café, que estavam ali desde o começo do dia esperando um caminhão que viria para trazer-lhes o pagamento da semana e também conduzir alguns deles de volta a suas casas, para passarem o final de semana. Em relação a um possível trajeto de retorno foram taxativos: já havia pessoas dali que haviam tentado nos últimos momentos e estavam de volta.
Fazer o quê? Seguir em frente.
E seguimos. Na primeira ladeira que enfrentamos, um ônibus atolado já nos fez perder quase uma hora, depois de termos descido do carro para ajudar a empurrá-lo. A cena se repetiu mais duas ou três vezes, com outros veículos, até mesmo um trator.
Até que a noite chegou.
Para resumir, fomos saltando de cratera em cratera, de poça de lama em poça de lama, raspando a lataria do carro nos barrancos da beira da estrada, parando de vez em quando para desenlamear os faróis do carro, felizmente sem precisarmos nos deter outras vezes, até que avistamos ao longe as luzes de uma cidade. Não era ainda o nosso destino, mas às dez horas da noite, cansados, sujos e esfomeados que estávamos, resolvemos parar por ali mesmo, para dormir, comer qualquer coisa e seguir viagem no dia seguinte, se encontrássemos abrigo.
Por sorte, no pequeno hotel, modesto, mas digno, havia um quarto com duas camas, além de chuveiro quente, lençóis e toalhas acolhedores.
A aventura do dia seguinte foi mais rápida, apenas umas poucas horas, mas mesmo assim não nos vimos livre de dois ou três atolamentos, além de paradas para ajudar terceiros a se desatolarem,
Pelo meio da tarde pudemos, finalmente, encontrar nosso personagem e abraçá-lo, não sem antes esperar que ele acordasse de um sono sepulcral. O enfermeirinho nos contou que antes de dormir ele havia ingerido uma boa garrafada daquele preparado miraculoso, supostamente recomendado pela tal “revista médica”. Teria valido a pena tanto sacrifício, tantas horas naquele inferno de lama e buracos?
Seu despertar não nos trouxe melhores presságios. Onde tinha ido parar aquele o homem claro e alto, através do qual nós crianças tínhamos a visão de tantos lugares estranhos e ouvíamos histórias mirabolantes? Ele já não estava mais ali. Ao contrário, era apenas um homem esgotado, e mostrava agora outra fisionomia. Tinha se transformado realmente em um velho, este agora real, prostrado em uma cama, numa atmosfera impregnada de cheiro de cigarro, urina e suor pisado, debaixo de uma ladainha de queixumes, relativos aos médicos, à família, à sorte, à vida, enfim.
Por ali ficamos apenas quatro ou cinco dias, para cumprir a obrigação a que nos impusemos, mas ele pouco se somou com a nossa presença, passando a maior parte do tempo a cochilar, ou mesmo entregue a devaneios alcoólicos.
Na nossa despedida, em raro momento de vigília, solicitou ao neto que fosse lhe trazer algo, guardado, ao que parece, numa gaveta recôndita. Era uma caixa de camisa, pesada de papéis, que ele me entregou dizendo apenas: leia isso quando puder. O tom de sua fala não me autorizava a fazer alguma indagação. Apenas tomei o volume e o coloquei na mala, mais nada, deixei para depois entender o que seria aquilo.
A estrada de volta já estava seca e empoeirada, denunciando os efeitos da mudança do tempo, nem sempre para melhorar as coisas, como aquele céu azul que se exibia, dominante, mas também em prenúncios de sentido contrário.
Dias depois ele teve que ser removido para nova internação na capital, nova cirurgia, novo círculo de seu inferno particular. Teve a sorte de que esta nova fase durasse apenas algumas semanas, antes de seu descanso definitivo.
Como lembrança mais perfeita dele, o recital de O Padre e a Moça, de Drummond, que ele sabia fazer como ninguém. O livro aberto à sua frente era só para dar apoio, pois o texto lhe era quase todo conhecido, de memória.
Frase sua que guardei, relativa a um personagem poderoso, com o qual mantinha amizade histórica: não lhe devo obrigações, apenas finezas. Dele, do Velho Tio, eu poderia dizer algo semelhante, pois cumulou-me de tais finezas por toda a vida. Por exemplo, de saber dizer o que pensava, de forma tão desabrida, mas ao mesmo tempo atenciosa; pela coragem em enfrentar os desafios que a vida lhe trouxe: perdas de filhos, mudanças de lugar e a sistemática destruição das coisas que produziu; por sua sabedoria de inventar coisas quando delas não sabia quase nada, como lhe criticava a mulher; pela inteligência criadora, prática e abrangente; pela capacidade de carregar o mundo dentro de si e jamais ter sido sovina em compartilhar suas emoções e lembranças.
Para mim, sem medo do lugar-comum, mesmo sentindo seu fim bem próximo, eu ainda o sentia bem vivo, em sua verve, em sua sabedoria, em suas contradições. Uma existência luminosa, para além da dor e da decadência física.
Somente quando cheguei em casa, dias depois, resolvi abrir aquela misteriosa caixa de camisa. Como eu suspeitava eram papéis que ele guardava ali dentro. Manuscritos, em sua letra firme e perfeitamente regular. Aqui e ali uma palavra ilegível, bem poucas, no total. No final, uma página rasgada ao meio, com provável intenção de cancelar algumas linhas, possivelmente de arremate, por algum motivo – quem poderia sabê-lo? De imediato me pus a ler aquilo, repleto de curiosidade e afeto.
***
<<I’m old, but I am happy. Escutei isso no radio outro dia. Não sei inglês quase nada, mas o bastante para perceber o sentido da frase, afinal formada por menos de meia dúzia de palavras banais. Quem cantava, quem compunha, de onde vinha aquela canção, o restante da letra: era impossível saber, para mim, pelo menos. Mas o que captei era o bastante para gostar da mensagem. É que ando pensando em coisas assim ultimamente. Eu tenho me dado conta que estou velho– e me sinto cada vez menos capaz, para tudo. Mas, e sobre a felicidade? Algum dia será que eu [ilegível]?
Nos dias de hoje, eu vivo dias de muita solidão na fazenda. O filho que me acompanhou na lida por muitos anos agora toma conta de tudo e diz querer me poupar de preocupações, mas com isso só me faz suspeitar de que me esconde algo, quando nada, para fazer as coisas lá do jeito dele, que eu acho serem simplesmente malfeitas. Sempre fui assim, exigente. Do neto que me assiste de perto, adolescente, rebelde com os pais e com os irmãos, mas muito atencioso comigo, não posso me queixar. Me atende sempre que é chamado, até mesmo para coisas tão prosaicas como me trazer a vasilha de urinar. Ou mesmo, cheio de cumplicidade, me providenciar a boa dose diária de boa cachaça, que gosto de tomar adicionada a suco de goiaba ou outras frutas da estação. Porque aqui nesta cama, corpo imobilizado por uma fratura de fêmur, a mim realmente falta disposição para comer qualquer coisa. Acho de verdade que esta mistura de álcool e suco, com bastante açúcar ou melado, já seria o bastante para me dar o suporte que preciso, ainda mais imobilizado e sem poder nem mesmo dar um giro pelo quintal.
Me vejo jogado em tal situação já se vão vários meses – eu até perdi a conta. Mas sem dúvida, eu já soube o que é dispor da felicidade, já havia sentido isso muitas vezes [palavra ilegível]. E mesmo nesse momento, diante da situação em que vivo, penso muito nisso, não ainda como perda irreparável, mas sem dúvida como um estado ou uma pulsação que cada vez menos me sinto em condições de recuperar. Ainda mais beirando os oitenta…
Ultimamente dei para lembrar com frequência – e até sonho com isso – de meus tempos de juventude na escola agrícola, para onde meu pai me enviou para ver se eu tomava jeito na vida, até os dezoito anos dedicada inteiramente a amizades que ele considerava pouco apropriadas. E por causa também de algumas aventuras não muito ortodoxas, pelo menos para o padrão de uma família tradicional como a nossa. Mas o que meu pai não poderia sequer desconfiar era de que, na verdade, eu viria a conhecer um verdadeiro paraíso naquele novo paradeiro. Amigos aos montes, farras ao alcance das mãos, gente acolhedora, pelo menos em relação a minha pessoa e o que era mais inédito, a descoberta de um antes insuspeitado gosto pela carreira agrícola. E assim ao longo de três anos, farreei, fiz amigos, namorei com quem quis e ao final, de forma gloriosa e para a maior satisfação do velho, obtive meu diploma de técnico agrícola – e com louvor. E, ato contínuo, ainda saí dali empregado.
Ali, na velha escola agrícola, bucolicamente instalada na velha cidade sem maiores atrativos, vejo hoje que vivi momentos realmente felizes. Mas certamente houve outros. O emprego obtido naquela repartição pública supostamente voltada para a pesquisa em agricultura, serviu mesmo foi para me abrir portas para novas oportunidades. Fiquei ali pouco tempo, por não me resignar aos burocratas do serviço público, um tanto desatualizados nas técnicas agrícolas, sempre a me impor regras obtusas. Mas eu não queria me indispor com ninguém, não era [palavras ilegíveis – possivelmente “meu feitio”]. E sempre atento ao que se passava no cenário externo àquele mundinho, descobri um anúncio em que uma empresa procurava funcionário para atuação em ramo de atividade que de certa forma me era próximo. Era uma empreiteira de obras públicas, que se dedicava também à criação de gado de raça. Eu, embora pertencesse ao ramo vegetal, não me intimidei com a natureza do trabalho. Fui para uma entrevista, que se prolongou muito além do que aquelas a que se submeteram os outros candidatos e saí de lá contratado. Mais do que isso, como se fosse eu um amigo de longa data dos entrevistadores. Sem grande esforço, diga-se de passagem.
Na despedida da estação de pesquisa levei comigo, para minha incontestável felicidade, o olhar especial de uma das moças que vivia ali, filha de um dos antigos funcionários, com o qual eu tinha boas relações. E se a tal estação não fora capaz de produzir grandes frutos para mim, aquele olhar, sim. Em pouco tempo estava formado um casal, que ao contrário daquele ambiente improdutivo, iria logo reproduzir-se, com fecundidade, ao modo dos matrimônios daquela época e lugar: filhos, filhos, filhos. Nove no total, já nos primeiros dez ou doze anos de casamento. Ali, e na sequência, com certeza me sentira feliz mais uma vez. Como, aliás, ainda não tinha sido, porque agora tinha uma bela mulher a meu lado – é bem verdade que sempre ocupada com o nascimento anual de uma nova criança. Mas eu ganhava bem, morava em boa casa, tinha carro e conforto e cuidava daqueles zebus com verdadeiro gosto, chegando mesmo a pensar que eu nascera para aquilo, não propriamente para cultivar hortaliças. E feliz mais uma vez me senti, logo cativando a amizade dos donos e de seus amigos, que viram em mim, mais do que um funcionário dedicado, um sujeito bem informado, de boa prosa, repertório variado e também portador de capacidade de se relacionar, entretendo-os em conversações que muito apreciavam.
Sempre fui assim desde os meus tempos de menino. E ali na empresa isso fazia com que não raramente eu fosse convocado para jantares na sede da fazenda, onde fazia boa figura diante de camaradas notáveis da pecuária, da política e das finanças, que ali acorriam frequentemente, em regabofes memoráveis, nos quais muita coisa era decidida, para o bem (deles) ou para o mal (do Estado). Chegou ao ponto mesmo de o patrão me dizer, certa vez, que gostava de contar sempre comigo à mesa de tais jantares festivos, opinião também de alguns de seus convidados, pois todos me prezavam – e muito. Não seria pura [palavra ilegível] minha? Talvez… Mas pensando bem, o que mais uma pessoa poderia querer na vida a não ser o reconhecimento de suas reais qualidades?
Vida seguindo, o patrão decidiu que eu seria mais útil na empreiteira de obras públicas de que também era dono. – Você tem talento para fazer a peãozada trabalhar, me dizia, entre gargalhadas. E assim eu pulei dos zebus aos moto-scrapers Caterpillar de muitas toneladas. O homem tinha razão: em comum entre uma tarefa e outra tinha a tal da peãozada, com os mesmos hábitos de fazer corpo mole, a mesma vontade de levar vantagem. E ali também pude dar meu recado, sendo até bem acolhido pelos ditos peões, apesar de frequentemente tomar medidas severas em relação aos faltosos e relapsos no trabalho. Trabalho de empreiteira de obra pública, como se sabe, tem que ter produtividade, medido que é em metros cúbicos, horas trabalhadas ou algo assim, não tem como enganar o governo. Ou melhor, até se engana bastante, mas tem que ter método…
Alguns anos passei nesta lida. Rodei pelo menos cinco estados do país, fazendo ponte, ferrovia, estrada e barragem. Nem tudo que se começava, prosseguia ou era concluído, pois muitas vezes no meio do caminho o [ilegível] era interrompido. Obra de governo, sabe como é… Vi muito equipamento sendo abandonado à ferrugem e ao crescimento do mato. Mas eu não era pago como fiscal, mas sim como operador. Um dia tudo aquilo foi por água abaixo. A empresa, acumulando uma dívida gigantesca, não suportou uma entressafra prolongada de obras canceladas, numa mudança de governo. Os credores, que até ontem eram também sócios financistas nas obras públicas, vieram e tomaram tudo. Fui despedido, tive até direito a uma boa indenização, mas ela ficou retida na massa falida da empresa e fiquei esperando uma decisão judicial que caducou sem ter nunca acontecido. Mas nem por isso me considerei infeliz, pelo contrário, sempre achei que era sorte trabalhar com algo que realmente gostava e sabia fazer, apesar do sacrifício que isso representou para minha mulher e para os seis, depois sete e depois nove filhos, que foram nascendo durante tal período.
Não fiquei desempregado, salvo por alguns poucos meses. Amigos meus ainda no tempo do curso técnico eram agora responsáveis por grandes projetos agropecuários, construídos à base do que se chamava na época de incentivos fiscais. Uma verdadeira máquina de captar e aplicar dinheiro. E tome empreendimentos de plantar pêssegos, mangas, abacates, nogueiras – o que tivesse cotação em dólar e representasse abertura para a pauta de exportações do país, naquela época de milagre econômico. Um por um, entretanto, aqueles [ilegível, possivelmente “empreendimentos”] agrícolas de proporções faraônicas foram sendo planejados, plantados, adubados e depois abandonados às formigas e às ervas daninhas. Como me disse um diretor de companhia: nossa especialidade é a captação de dinheiro, não a venda de óleo de abacate no mercado internacional. Isso é problema do governo. Faltou dizer do enorme potencial daquilo em alimentar formigas e também uma vasta cadeia de fornecedores e insumos e máquinas, além de políticos de diversas extrações.
Depois veio o café, desta vez com uma empresa familiar, que não dependia dos tais incentivos, mas sim de financiamento bancário normal. Eram outros tempos. Neste novo emprego passei bons anos, até me ver meio aposentado. Pelo menos pude ver, finalmente, resultados de meu trabalho se tornarem concretos e reais, sob a forma de mais de dois milhões de pés de café, numa região onde tal planta mal e mal era conhecida, mesmo assim apenas nos fundos dos quintais. E aquilo foi tarefa de gigantes, chegamos a ter na fazenda mais de quatrocentas pessoas trabalhando, sendo este povo todo alimentado, transportado e também, na medida do possível, cuidado em sua saúde. Chegamos a contratar e instalar uma tecnologia israelense de irrigação, coisa nunca vista por ali e, aliás, em todo o país.
Eu não podia me considerar infeliz diante de uma empreitada assim, podia? Cereja no meu bolo foi a homenagem que me fizeram como cidadão honorário no município em que se situava a sede da fazenda. Passei uma semana sendo festejado, fiz um discurso que foi reproduzido no jornal local e mesmo fora dali e até passaram a me chamar de doutor, coisa que eu não pedira a ninguém. O Prefeito da cidade, talvez à falta de gente mais disposta ou qualificada, me convidou para ser Secretário de Agricultura, depois estendendo minhas tarefas à Indústria e Comércio, Ação Social e até mesmo na Educação. Eram glórias em terra de cego, certamente, mas levei tudo a sério e, modéstia à parte, penso ter dado minha contribuição àquela gente simples e de bons modos.
Não tinha como ser mais feliz, de fato. Aqueles momentos constituíam um verdadeiro [ilegível] na vida de uma pessoa. Ver sair caminhão após caminhão, carregados de sacos de café lavado, seco e protegido de pragas, era como o gran-finale de uma sinfonia para mim – e nem poderia ser diferente. O filho que me ajudava, vindo adolescente para minha companhia, mais para ser consertado de uma vida meio vaga, como eu um dia eu também o fora, agora já homem maduro, assumira todos os grandes encargos da propriedade. Agora meus dias podiam ser consumidos mais à sombra de um escritório, entre planilhas e mapas de programação de irrigação, já não dependendo diretamente de minhas visitas e dos embates com a peãozada.
Aliás, pensava eu, já não seria hora de finalmente aproveitar a vida? Mas, na verdade, eu não tinha a menor ideia de como poderia fazer tal coisa. Até que me acontece o inesperado. Eu tomava um café à porta da cozinha, antes de sair para o escritório, e um dos meus cães, enorme animal, resultado de cruzamento de um fila com outro cachorro grande, em perseguição a um vira-lata invasor, passa por mim como um furacão e, na força de suas três ou quatro arrobas, me derruba, com força, ao chão. Antes mesmo da dor chegar, eu escutei o ruído de meu fêmur esquerdo se partindo. Na sequência, dias e semanas de dores horríveis; uma viagem inominável na ambulância municipal; uma cirurgia realizada depois do momento mais adequado, na capital; o resultado sofrível e previsível disso tudo. E como finalização esta cama, esta imobilidade, estes dias que não têm fim nem começo… E principalmente estes pensamentos, que se traduzem na dúvida se seria eu, nos dias de hoje, uma pessoa ainda feliz, como fui em outros tempos, tendo que compactuar agora velhice e incapacidade física.
Isso não é nada, entretanto. Os momentos de alegria que tive começam a ser eclipsados e [ilegível] por enorme sensação de perdas. Perdi em minha vida muito mais do que ganhei, certamente. Os filhos que mais se criaram do que foram criados; a companheira que quase nunca me teve como um verdadeiro marido, presente e solidário; os dois filhos que perdi para a Inominável, sem que pelo menos eu pudesse estar junto deles nos momentos cruciais do ocorrido, para consolar os demais membros da família. As coisas que fiz – e não foram poucas – apenas para serem destruídas, pelas formigas, pela ganância, pela incúria administrativa de terceiros, pela geada, pela inconstância política e econômica do país. Da felicidade mesmo, só percebi breves lampejos. Acho mesmo que a chamada vida real seria apenas o grande e doloroso intervalo entre tais … >>>
Aqui, a página rasgada quase ao meio subtrai talvez um parágrafo ou mais, suprimindo, aparentemente, o arremate do texto.
Sim, assim é a vida, a vida real, um grande e doloroso intervalo… Entre?
***
