Nós que amávamos a Revolução

Eram dois na noite escura. Esta era a primeira frase do livro que eu ia escrever. Na realidade, éramos dois que perambulávamos pelas ruas estreitas de nosso bairro de ruas calçadas em pedra, onde acordávamos todo dia com o apito da fábrica de tecidos, na nossa casa que pouco se distinguia da moradia dos operários, naquela cidade oprimida entre montanhas, em muitas noites escuras, que a singeleza das luminárias amareladas era incapaz de clarear. Passamos a ser três quando um primo de meu amigo se juntou a nós. Saíamos todas as noites, pela hora da novela, que então já “entorpecia as massas”, como rezava nossa cartilha militante, filosofando, tramando obras literárias, tentando equacionar o futuro da humanidade e, quem sabe um dia, participar da revolução no país.

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A Morte acidental do Eletricista

Paródia inspirada em A Morte Acidental de um Anarquista, do autor italiano Dario Fo, peça de teatro que, por sua vez, parece ter sido inspirada em O Inspetor Geral, do russo Nikolai Gogol. E que os leitores perdoem tais liberdades com obras tão alheias como clássicas.

CENA 01 (Sala de espera de uma unidade típica do sistema de saúde no Brasil, com mobília barata, paredes descascadas, piso defeituoso, um único banheiro com a porta semiaberta. Nas paredes cartazes feitos à mão anunciam proibições e negativas diversas. Cinco ou seis pessoas (US) esperam, pacificamente. Uma mesinha no canto, aparentemente destinada a recepcionista ou alguém com tais funções, permanece vazia durante todo o tempo. Há um relógio na parede, de tipo comum. No canto, uma escada encostada na parede, junto a fios soltos descendo do teto. Ao fundo uma porta na qual se lê: “Entrada permitida apenas para o pessoal da Administração”. Um homem agitado (HR) anda para lá e para cá, consultando a toda hora seu relógio.)

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Histórias nasais

Um dia desses, confesso, por me faltar alguma coisa mais significativa, ou útil, para fazer, passeando pela internet, como acontece em ocasiões assim, me dei com um vídeo antigo, em preto e branco e cheio de chuvisco (do tempo que isso se chamava vídeo-tape, com hífen e tudo) no qual Juca Chaves cantava um antigo sucesso dele, nos anos 60. Chamava-se, tal peça, autorreferente, Meu Nariz ou Meu Nasal (ou algo assim) e eu mais uma vez – e tantos anos depois – achei graça na verve deste antigo menestrel, que anda sumido ou, quem sabe, já morreu. Aliás, fico às vezes espantado com a quantidade de gente da minha geração que anda morrendo por aí. Faz parte, pelo menos ainda tenho mortes a lamentar. Pode ser que algum dia, nem isso me servirá de consolo. Mas para quem não conhece, vejam só a graça que o Juca tem (ou tinha…): nasal, ah meu nasal / como falam mal deste nasal, que é tão normal / diz o mundo imundo e essa gente infeliz / que o meu nariz, é maior que a miséria do país / maior que o busto da Lolô / maior ainda, que o sorriso do Nonô…

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Aquele homem

Que personagem! Por alguma razão, talvez por não desejar repetir sobre a terra o que a terra engolirá, não se casou, sem que isso significasse castidade ou celibato definitivos – aspectos, todavia, não declarados ao público em geral. Viveu uma vida de funcionário público modesto, depois de uma carreira como bancário, da qual se afastou muito antes de se aposentar, não tolerando, ao que parece, aquele ambiente de guichês, horários, gerentes e regras fiscais, além de motivos de saúde. Morou sempre em quartos de hotéis, variando na qualidade, sempre reduzindo-a, à medida em que ia ficando mais velho e com o salário encurtando cada vez mais.

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Visita ao Velho

Sim, era preciso visitá-lo. Ele, o Velho Tio, fazia parte de nossa vida, desde a mais remota infância. Da minha vida, mais do que da dele, meu irmão mais novo, que teve menos convivência com tal figura, para mim tão marcante. Ele morava longe, cumpria fazermos aquela viagem longa, que deveria ser premeditada, porém sem termos tempo para tanto.

Fizeram uma cachorrada comigo, era como ele explicava a origem dos acontecimentos que o derrubaram, sem apelação, na cama que poucas semanas depois o acolheu na morte. Falava da passagem atabalhoada do velho cão de fila da fazenda pela porta da cozinha, onde ele justamente tomava um café e acendia o cigarro de palha habitual nas manhãs. E sem mais se viu jogado ao chão, gerando um doloroso calombo na coxa, que ele mesmo, no ato, diagnosticou como uma fratura de cabeça do fêmur.

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Foi assim (Amor em tempos de pandemia)

Parecia em cena de filme. Eu dirigindo pela noite a dentro, tendo pela frente horas e horas de estrada deserta, para estar com aquela pessoa tão querida e especial, em seus prováveis últimos dias ou horas de vida. Eu vivia aquilo como um transe, desencadeado pelo telefonema que recebi ao chegar do trabalho. Sim, ela chegava ao fim.

Eu não a via havia algum tempo, seis ou sete semanas, mais exatamente, afastados que estávamos pelos terríveis acontecimentos que fizeram as pessoas guardarem distância umas das outras, por meses a fio. Falávamos, entretanto, quase todos os dias e eu acompanhava, de longe, os percalços de um tratamento médico que já há tempos era percebido, por ela a e depois por mim, como infrutífero e devastador.

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Menina na janela

Manhã de chuva, mas poderia ser também de sol forte e pleno. Lá estava ela. Na janela. O pai na roça, a mãe lavando roupa, os irmãos mais velhos na escola. Só ela em casa, triste, triste. Também, será por que dona Teresinha, a professora dos pequenos, tinha que adoecer justo agora? Nem a companhia de Malhada, a gata, era capaz de lhe trazer consolo, até porque a danada dera para namorar e mais ficava a andar por aí do que vir brincar com ela. E tudo demorava a passar, demais. A mãe queria ela quieta em casa. De outra vez tinha saído para dar uma volta e quase foi atropelada pela motoca do Zé Caxeiro. Para não dizer que não tinha nada para fazer, a mãe mandou vigiar a água na chaleira, para desligar, quando fervesse – vê se pode uma coisa assim. Ela era capaz de muito mais!

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Inhotim revisitado

Até há poucos anos atrás este nome era de conhecimento circunscrito aos moradores de Brumadinho, na região metropolitana de BH e, fora disso, no máximo aos viajantes ou trabalhadores da Estrada de Ferro Central do Brasil, por denominar uma estação da mesma, em tal município. Senhor Tim, um inglês de nome Timothy, dos primórdios da mineração do ferro no século 19 na região, talvez seja uma possível origem de tal nome, mas há outras explicações, que não caberia detalhar agora. O fato é que hoje todo mundo sabe o significado dessa denominação. Vamos ver o há na web sobre tal empreendimento diz:

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Calendário florístico de Brasília: cega-machado

No auge da seca o cerrado é capaz de coisas extraordinárias, como a florada do cega-machado. E ela não vem sozinha, entrando em cena ainda com os ipês exorbitando sua amarelice, concorrendo com os ipês-rosa, embora estes sem dúvida sejam mais modestos do que ela e antecedendo, por pouco tempo, a alvura de neve de outros ipês e também explosão variegada  de sapucaias e cagaiteiras. É um tempo de farra florística e cromática na qual ninguém ousaria botar defeito! Vamos ver o que nos dizem os tratados botânicos.

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Pelos Sertões do Rio Doce

Dos três grandes rios mineiros, São Francisco, Grande e Doce, este último aí se tornou bastante notório apenas por dar nome à grande companhia mineradora (a qual, aliás, até já mudou de denominação). Nada de atravessar vários estados, alimentar grandes projetos de irrigação, atrair turistas em várias de suas paragens, possuir uma cachoeira monumental em sua nascente, gerar megawatts de energia para o progresso do país – coisas assim. Em todos esses quesitos, o Rio Doce é bastante modesto. Mas em compensação, é em suas margens, a meio caminho entre suas nascentes nas encostas da Mantiqueira e sua foz no Oceano Atlântico, que a sabedoria, a generosidade e o espírito público de Sebastião e Lélia Salgado criaram o Instituto Terra, através do qual uma enorme área devastada pela pecuária e pela agricultura predatórias está sendo recuperada, não só em termos do resgate de sua cobertura vegetal original, mas também quanto à facilitação do reaparecimento de inúmeros mananciais. Além disso, um centro de educação ambiental e treinamento agroflorestal, um potente viveiro produtor de espécimens da mata atlântica, uma magnífica atração turística que a região até então não conhecia, para não falar na marcante promoção de cidadania e da consciência ambiental. E, principalmente, ter se constituído em empreendimento que enche de orgulho, alegria e esperança a quem o visita. Acho que são motivos mais do que suficientes para alguém, como eu, sair de Brasília, pegar um avião para BH e depois enfrentar (melhor dizendo, curtir) dez longas horas em trem de ferro para lá se chegar. De fato, valeu a pena, e aqui relato um pouco do que vi e senti por lá.

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