A paciente do leito catorze

– Doutor Belisário, a paciente do leito 14 quer falar com o senhor.

Lá vem Dona Julia de novo, ela adora arranjar tarefas para mim, sempre é isso. Aliás, todo mundo aqui no hospital parece que precisa falar comigo… E nesta enfermaria de desenganados é pior ainda. O que será que essas pessoas esperam de um médico? A capacidade de fazer milagres? A verdade é que para alguém que se mete neste raio de especialidade da oncologia, não poderia ser diferente. A culpa é mesmo minha… Bem que a minha mãe dizia, meu filho essa coisa que você escolheu para trabalhar vai acabar lhe fazendo mal, você devia ser ginecologista, ou quem sabe pediatra. De fato, acho que já está me fazendo mal, muito mal, depois de 10 anos inteiros vendo gente morrer. E sofrer. E o que é pior, pessoas chegando a mim como se eu tivesse um poder mágico de lhes restituir a vida, a saúde, a normalidade. Isso é para os fortes e eu começo a ver que não é, definitivamente, o meu caso. E que diabos, a paciente número 14 tem nome! E se chama Letícia…

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Urucuia, um Rio, um Personagem

Eis aqui o roteiro, escrito por mim, do documentário que eu e meu amigo Cristiano Barbosa estamos lançando (ver link ao final).

Urucuia. Para muitos brasileiros, talvez a maioria, este nome não tenha maior significado. Mas para quem leu Guimarães Rosa e viajou pelas Veredas do Grande Sertão não é assim. É um rio, caudal de forte presença, acidente geográfico que não só é personagem do livro, também reserva da natureza, abrigo de fortes personagens. Estes, sertanejos, gente modesta, mas acima de tudo rija e valente. Por lá andamos eu, Flavio Goulart e meu amigo Cristiano Barbosa, no luminoso veranico de janeiro de 2025. Fomos atrás de tal rio-personagem e de suas personagens-pessoas. E aqui vamos narrar o que encontramos… Nas palavras de Guimarães Rosa, o Urucuia nasce em terras altas demais, nos montões oestes. Foi por aí que começamos nossa viagem, nos altos chapadões que cercam a cidade de Formosa, aqui tão perto do DF. Formosa esta que já não faz jus ao nome… E a partir do povoado de Bezerra, às margens da BR 020, encontramos águas matrizes deste rio, depois de alguns km. Um pequeno e precioso Lago Azul, uma de suas múltiplas nascentes, o anuncia, entre os municípios de Formosa, Buritis e Cabeceiras, em Goiás. Os fazendões e margens de bom render anunciados por Rosa já aqui mudaram de feitio, dominados pelo maquinário agrícola pesado e os exatos compassos dos pivôs centrais,

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Não foi um amor exemplar, mas o resto não interessa

Eu a vi pela primeira vez na cantina da faculdade onde eu iria cursar uma disciplina indispensável ao meu doutorado. Morena, alta, de cabelos longos e olhos profundos, possuía uma beleza misteriosa, meio mediterrânea, sei lá, talvez misturando, traços árabes e italianos. Descobri logo após que seria minha colega de classe e eu, curioso em saber mais sobre ela, pois que me encantaram aqueles olhos profundos, com poucos minutos de conversa descobri que era formada na área de Humanas, trabalhava em serviço público e estava ali, de retorno à faculdade em que se formara, para se aperfeiçoar e alcançar uma promoção, nada mais. Nada de carreira acadêmica, como eu. Na sequência, fiquei sabendo de sua origem interiorana, denunciada pela maneira como pronunciava os “r”, sendo também um tanto tímida e de conversação restrita ao essencial.

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Apenas mais uma história de amor

Era o primeiro dia de uma primeira semana de aulas na Faculdade de Medicina. Cumpria obedecer ao ritual estabelecido de que os novatos doassem sangue. Ele foi lá, espichar o braço, em conformidade com os trâmites, e percebeu, na maca ao lado, a figura de uma moça de cabelos longos e escorridos, óculos de míope, meio no estilo gatinho, com um narizinho levantado, que de outra forma lhe teria passado como defeito, por dar à criatura um jeito presunçoso. Naquele caso específico, definitivamente não. Ela também recém aprovada no vestibular, tal como ele, se viam pela primeira vez.

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JGR em Mim

Conheci Guimarães Rosa, ou melhor, a obra dele, aos 19 anos de idade, recém ingressado na Faculdade de Medicina. Eu poderia me considerar, na ocasião, um bom leitor, pelo menos superior à média dos jovens de minha idade, apenas com a carreira da leitura interrompida pelas agruras daquele ano que passei me preparando para o vestibular. Conheci assim, antes disso, Machado de Assim, Jorge Amado, Graciliano, Monteiro Lobato, Mark Twain, Steinbeck, e muitos outros, mas JGR, até então, não. Naquele momento, vestibular resolvido, eu finalmente estava livre, aparentemente, para continuar a minha carreira de leitor. Pero no mucho, pois agora aquele livro pesadão de anatomia, o muito famoso Gardner, Grey & O’Hailly, me bloqueava as brechas para novas incursões que me compensassem o período de jejum quase total em termos de consumo literário. Assim, por algum motivo, curiosidade talvez, fui atrás daquele livro que já me pulsava no horizonte, o Grande-Sertão, do qual eu cansara de ouvir falar, embora sempre interditado por uma decantada dificuldade em seu destrinchamento. Mesmo assim resolvi partir para o grande desafio, indo em frente e adquirindo-o com uns trocados que havia ganho em aulas particulares. Nas minhas mãos, aquela marcante edição de 1965 de Grande Sertão: Veredas, com sua capa verde e negra, ilustrada por Poty e tudo mais que se tinha direito, fez bela carreira e até hoje, em versão encadernada para não desmanchar de tanto ser folheado, se mostra na estante bem aqui do meu lado. Aí entra uma boa coincidência: coisa semelhante parece ter acontecido, na época, com meu grande amigo, e colega de colégio e depois de faculdade, o curvelano-belorizontino Dalton Luiz Ferreira Alves, de tal forma que, de repente, fomos enfeitiçados pelo monólogo riobaldiano e passamos a dialogar com molde naquilo, de forma meio exagerada, inclusive diante dos cadáveres, nas aulas de anatomia. Na mesma ocasião, tivemos um recesso na faculdade e fomos, um pequeno grupo de quatro colegas, entre eles Dalton, passar uns dias no sítio do pai de um deles, nos arredores de BH. Ali, o espírito do Grande Sertão, ainda não baixado nos demais, fez de mim e Dalton exaustivos porta-vozes do universo rosiano, como se estivéssemos a atravessar o Liso do Sussuarão. Os colegas presentes ainda não dominavam tal universo como nós, de tal forma que logo se encheram daquilo, ao ponto de nos pedirem para acabar com aquela parolagem, que começava a cansá-los, dada nossa conversa permanentemente dialetal-riobaldiana. Mas não houve ofensa, com aqueles dias temperados por completa bonomia, a nos munir de disposição para voltar a enfrentar o insosso Gardner, Grey & O’Hailly e aquelas mesas de mármore do anfiteatro de anatomia. Por alguma razão, sem prever realmente algum desdobramento daquilo, anotei a lápis, na contra capa do livro, a data em que encerrei minha primeira leitura, no exato dia oito de abril de 1968, e também depois, por mais seis ou sete vezes, as datas correspondentes a cada término, sempre com encantamento e emoção. Infelizmente não me lembrei de fazer o mesmo com Sagarana, Primeiras Estórias e com as novelas do Corpo de Baile, mas bem que devia ter feito, para somar, quem sabe, talvez vinte ou trinta incursões, no total, por tais viagens tão marcantes. Tudo isso dá uma mostra do significado da obra de Guimarães Rosa em minha vida de leitor. Não satisfeito, nos últimos cinco ou seis anos, quando resolvi me dedicar à escrita com mais disciplina, passei a homenagear JGR, digamos assim, em textos de variadas têmperas, nos quais, ao lado de alguma irresponsabilidade, coloquei meu respeito e meu amor pela obra rosiana, tecendo assim paródias, compilações, comentários, excertos, resumos, invenções e outras brincadeiras (sérias) com aquele vasto sertão de narrativas, ideias e imaginação, que um dia me encantaram e continuavam a me encantar. É este material que aí segue, pelo que peço vênia aos eventuais leitores (e àqueles eventuais leitores que talvez conheçam, mais do que eu, a obra rosiana), com minha sinceríssimas desculpas por tal ousadia, que certamente será perdoada pelo sentimento de amorosidade por tal objeto, o qual não nego e procuro não me desgarrar. Sendo assim, vamos em frente.

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O Paradoxo Kalunga

Conheço a Chapada dos Veadeiros há mais de 30 anos, quando me mudei para Brasília. Tive até casa e terreno no Povoado do Moinho, em Alto Paraiso, os quais vendi em 2024 para pessoa em condições de cuidar melhor do local do que eu, já cansado das viagens de mais de duzentos km desde Brasília. Entretanto, realmente dizer que conheço a chapada, como afirmei acima, representa, na verdade, um certo exagero, pois nas três décadas que andei por lá na verdade praticamente só circulei nos poucos km que vão de Alto Paraiso ao Moinho, no rumo Leste, e eventualmente até São Jorge, um pouco mais longe, no sentido Oeste. Somente agora, tantos anos depois de estar na Chapada pela primeira vez é que me decidi a fazer um périplo mais amplo por lá, qual seja um contorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, através de suas fronteiras ao Norte e Noroeste, o que inclui passagens pelos municípios de Cavalcante e Colinas do Sul. É sobre isso a presente narrativa.

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A Morte e o Morrer no Grande Sertão

Grande Sertão: Veredas não é, nem de longe, apenas um livro de aventuras e tropelias de cangaceiros no vasto sertão são-franciscano. Muito mais do que isso representa uma profunda e sutil viagem a temas tão variados como o amor; o livre arbítrio; Deus e o Diabo; o bem e o mal; o poder; o sagrado; o transcendental; a vida; a morte. Sim, a Morte, que se faz presente de maneira intensa nas quatrocentas e tantas páginas do livro. Utilizando recursos da internet resolvi fazer uma pesquisa quantitativa sobre isso: o substantivo morte está presente 112 vezes e o verbo morrer, no infinitivo, mais de sessenta, fora sua aplicação em variados tempos verbais. Deixando estas elocubrações aritméticas de lado, resolvi ir além. Considerando a minha atual preocupação com o tema da morte, melhor dizendo, do direito a uma morte digna, voluntária e assistida, resolvi compreender melhor os conteúdos trazidos por tais palavras no GSV e assim demarquei cerca de sessenta expressões do autor, que trago aqui numa tentativa de análise do significado das mesmas. Mas, atenção: aqui fala um simples leitor, uma pessoa que não tem formação em teoria literária, um fã incondicional da obra de JGR, que talvez peque por excesso de autoconfiança ao se meter num desafio de tal monta. Entretanto, penso que serei perdoado, já que o amor pela obra de João Guimarães Rosa me permitiria uma ousadia e um exagero como este e já me vejo redimido de antemão. Para começar, tentei uma catalogação de tais expressões em algumas categorias temáticas, de efeito apenas didático, pois certamente seus significados com muita constância ultrapassam as barreiras entre os diversos temas. São elas: (a) uma Filosofia da Morte; (b) Vida, Morte e Destino; (c) sobre o Ato de Morrer; (d) a Morte e o Amor; (e) Matar e Morrer; (f) encarando a própria Morte.

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Otavita: Vida e Obra (Uma biografia não autorizada)

Nossa, já estou acordada há tanto tempo e nada de aparecer esta moça que vem me trocar. E nem adianta chamar, com a minha própria voz ou com a campainha. Aí é que ela não comparece – nenhuma delas, aliás. Vida difícil aqui. O Jorge Jr, meu filho, outro dia chegou a me dizer que eu reclamo demais, que devia me dar por satisfeita de estar nessa casa de repouso, que é das melhores aqui na cidade, nem adianta procurar por outra melhor. Mas ele, apesar carinhoso comigo, de sempre estar presente e me trazer quase toda vez que vem uns docinhos, umas balas, geleias, empadas e outras coisinhas doces que gosto tanto, não sabe de verdade o que se passa comigo, o tanto que eu sofro. Nem de longe… Ninguém, fora Clara, minha filha mais nova – esta talvez saiba alguma coisa. Aliás, pensando bem, acho que só eu mesmo sou capaz de saber dessas coisas.

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Sobre o Direito de Viver (e de Morrer)

Assisti recentemente um filme que me marcou profundamente: A Short Stay in Switzerland (Uma Curta Estadia na Suíça), no Brasil Escolhas da Vida, uma produção britânica para TV, de 2009, dirigido por Simon Curtis e escrito por Frank McGuinness. A protagonista é a atriz Julie Walters, no papel da Dra. Anne Turner, tendo sido vencedora do prêmio Emmy por sua performance neste filme, sendo também indicada a diversos outros prêmios. É inspirado numa história real, tendo como tema o direito à morte assistida e digna, como acontece na Suíça, onde o procedimento é legal, inclusive para estrangeiros.

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Segredos de Família

Toda família tem segredos, toda família tem histórias, publicáveis ou nem tanto. A minha não foge a tal regra. O caráter ficcional com que encubro as presentes narrativas não pretende encobrir certos pecadilhos revelados e nem exime a ninguém por tê-los cometido. Quem não tem um prontuário assim meio embaçado? Aliás, como saber, de fato, da veracidade de muitas das histórias e das lendas que acompanham qualquer família, qualquer grupamento humano? O tempo, quando passa, faz esta estranha alquimia, de converter narrativas pitorescas em verdades inquestionáveis. Ou vice versa. Sendo assim, não me responsabilizo totalmente pelo que é dito aqui e neste aspecto me apoio em Manoel de Barros: do que conto, boa parte é inventado, a outra parte é mentira mesmo – ou algo assim. Vamos em frente, em busca da essência – não da verdade – de alguns desses possíveis segredos.  

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