Sobre o Direito de Viver (e de Morrer)

Assisti recentemente um filme que me marcou profundamente: A Short Stay in Switzerland (Uma Curta Estadia na Suíça), no Brasil Escolhas da Vida, uma produção britânica para TV, de 2009, dirigido por Simon Curtis e escrito por Frank McGuinness. A protagonista é a atriz Julie Walters, no papel da Dra. Anne Turner, tendo sido vencedora do prêmio Emmy por sua performance neste filme, sendo também indicada a diversos outros prêmios. É inspirado numa história real, tendo como tema o direito à morte assistida e digna, como acontece na Suíça, onde o procedimento é legal, inclusive para estrangeiros.

O filme conta a história baseada em acontecimentos reais relativos à médica britânica Anne Turner, que depois de cuidar de seu marido com uma neuropatia grave, descobre ser portadora de doença semelhante. Ela renuncia a continuar vivendo e busca convencer os filhos quanto à sua decisão, procurando assim uma clínica de suicídio assistido na Suíça, para onde a família vai em segredo, para fugir das rigorosas leis do Reino Unido. No filme, há cenas muito tocantes, por exemplo, quando Anne se despede de seu gato, quando os filhos lhe dão o último adeus ou mesmo quando uma cuidadora e amiga tenta convencê-la – em vão – a não realizar o procedimento. É clara a militância pela legalização do suicídio assistido e pelo direito de acesso ao mesmo, com dignidade. É impossível assisti-lo sem ser tocado pelo seu forte conteúdo emocional, ao mesmo tempo repleto de reflexões sobre tão controversa e significativa experiência que é a morte voluntária e assistida. Os atores perfazem excelentes atuações e a direção trata com empatia, sensibilidade e humanidade tal situação difícil e desafiadora, seja para Anne ou para sua família, que é o direito de morrer e da garantia da decisão pessoal de alguém encerrar a própria existência, em vez de sofrer prolongadamente, com dor e aviltamento do usufruto da vida. Como em certo momento diz o filho da personagem para suas irmãs: a questão não está entre morrer ou viver, mas sim na escolha entre uma boa morte e uma morte ruim. Há profundas discussões sobre o caráter de possível egoísmo e covardia em tal gesto; a revelação da personagem de estar chorando não por ela, mas pelos filhos que ficam; a coragem da mesma em tornar pública e inclusive documentada sua decisão, além do profissionalismo e da humanidade da equipe da clínica de suicídio assistido na Suíça. Em certo momento ela diz para a amiga e cuidadora que tenta demovê-la do gesto: é você está com medo disso, eu não

Convenhamos, o direito à vida é algo inquestionável, mas há uma diferença profunda entre direito e dever quanto a isso, o que implica em que cada uma seja um protagonista essencial nas decisões sobre os cuidados que esteja disposto a receber na etapa final de sua vida. Isso acarreta que se deve ter, acima de tudo, o direito de viver, mas jamais o dever de se continuar vivo contra a própria vontade, cabendo a cada pessoa desenvolver e exercer a percepção de sentido que a vida deve ter e rejeitá-la quando isso escapar de sua concepção de bem vivê-la. Não é que seja preciso amar a morte ou desejá-la, mas sim ampliar o debate sobre os fatos que rodeiam, sem preconceitos e ideias pré-concebidas, sem medo, como etapa natural da existência. A morte, afinal, deveria ser “vivida” de acordo com as aspirações e crenças, além da liberdade e autonomia das pessoas. Mais do que simples destino deve ser considerada direito humano fundamental, a ser experimentado com dignidade, de forma que ninguém seja constrangido a continuar vivo sendo portador do que considera um grau insuportável de sofrimento. Uma boa morte, assim, deveria ter como cortejo a autonomia, a autodeterminação, a dignidade e, no limite, a morte voluntária e assistida, incluindo-se nisso: a recusa terapêutica; o direito aos cuidados paliativos, ao invés das “heroicas” experimentações terapêuticas; as funestas iniciativas que porventura venham apenas a prolongar o processo de morrer; e, finalmente, a morte assistida.

Para assistir o filme dublado, em português (não há versão legendada) acesse: ESCOLHA DE VIDA -DUBLADO- filme completo 2015 – YouTube

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