O que vale uma criatura a não ser poder amar?
Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Drummond, sem dúvida, sabia muito sobre tal assunto, haja vista sua trajetória amorosa pessoal, dividida entre um casamento convencional e um amor de perdição, melhor dizendo (talvez) de real encontro. Juntar pedaços de seu oratório neste campo é exercício inspirador e eu poderia me deter sobre isso, quilometricamente, porque tal tema é permanente em sua obra. Aliás, me lembro de uma famosa entrevista do Poeta ao Pasquim, quando ele, para justificar sua pretensa negativa em atender jornalistas e outros personagens em busca de entrevistas, lacrou com a seguinte afirmativa, ou algo assim: não vejo necessidade, de fato, em dar entrevistas, eu já me exponho mais do que qualquer pessoa através de meus poemas, crônicas e contos. Isso me toca diretamente, como pessoa que também costuma se expor neste quesito. Como eu já disse antes e reitero agora, amor é sempre amor; imaginado ou vivido por inteiro – ou por partes; amor com ventura ou com angústia; com alegria ou tristeza; com esperança ou desespero; com alivio ou dor. Sempre o mesmo e sempre diferente. É assim que aqui vai mais uma seleção de textos meus sobre este candente tema que é o Amor. Como veem, eu também me exibo e já me esbaldei em escrever sobre tal tema, mas gostaria mesmo é de tê-lo praticado de forma mais intensiva e, principalmente, bem sucedida. Antes de passar aos meus textos, indicados abaixo, vamos a Drummond, que sempre diz o que é preciso dizer: Amor é privilégio de maduros / Estendidos na mais estreita cama, / Que se torna a mais larga e mais relvosa, / Roçando, em cada poro, o céu do corpo. /É isto, amor: o ganho não previsto, / O prêmio subterrâneo e coruscante, / Leitura de relâmpago cifrado, / Que, decifrado, nada mais existe / Valendo a pena e o preço do terrestre, /Salvo o minuto de ouro no relógio / Minúsculo, vibrando no crepúsculo. / Amor é o que se aprende no limite, / Depois de se arquivar toda a ciência / Herdada, ouvida. Amor começa tarde
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Todo mundo conhece a indisposição que Carlos Drummond de Andrade demonstrou, ao longo de toda sua vida, em relação à exposição de suas questões pessoais na mídia. De certa feira, ele chegou a declarar ao Pasquim, ainda nos anos 70, que realmente não via graça nenhuma em dar entrevistas, visto que sua vida já era suficientemente contada e detalhada nas centenas ou talvez milhares de poemas e crônicas que tinha escrito, tudo extensivamente público e notório desde sempre.
Em um poema de 1938 Carlos Drummond de Andrade levanta a possibilidade de que, para resolver os problemas de um “mundo caduco” talvez fosse o caso de “dinamitar a ilha de Manhattan”. Alguns veem nisso uma antecipação do 11 de setembro. Mas com “Os bens e o sangue”, de 1951, não seria bem o caso de uma antecipação profética do que ocorreu em Mariana? Espiem: “E virá a companhia inglesa e por sua vez comprará tudo / e por sua vez perderá tudo e tudo volverá a nada / e secado o ouro escorrerá ferro, e secos morros de ferro / taparão o vale sinistro onde não mais haverá privilégios…” /