Chapada dos Veadeiros

Aqui é a Chapada dos Veadeiros. Ou melhor, estamos em um dos muitos vales que foram abertos pela força das águas que correram através dos tempos a partir das terras mais altas, acima dos mil metros de altitude, como é o caso daquelas onde se hoje assenta a cidade de Alto Paraiso. Um dia, há mais de cem milhões de anos, tudo isso foi o fundo de um grande oceano. Quando as imensas placas que formam a superfície da terra se moveram, a água de tal mar simplesmente fez o que ela sempre faz, agiu sob a força de gravidade e rolou para as partes mais baixas. No seu caminho, abriu vales como este, do ribeirão São Bartolomeu, que corre para o rio Paranã, que corre para o Tocantins, que corre para o Amazonas, e para o mar, desaguando na Bahia de Guamá, onde está a cidade de Belém.

A nossa Chapada é especial e famosa, mas na verdade pertence a um sistema muito maior, o Planalto Central do Brasil, descrita em pinceladas largas, sofisticadas e quase barrocas por Euclides da Cunha na introdução de Os Sertões. Assim disse ele:

…. Sem linhas de cumeadas, as maiores serranias nada mais são que planuras altas, extensas rechãs terminando de chofre em encostas abruptas, na molduragem golpeante do regímen torrencial sobre o terreno permeável e móvel. Caindo por ali há séculos as fortes enxurradas, derivando a princípio em linhas divagantes de drenagem, foram pouco a pouco reprofundando-as, talhando-as em quebradas que se fizeram canions, e se fizeram vales em declive, até orlarem de escarpamentos e despenhadeiros aqueles plainos soerguidos. E consoante a resistência dos materiais trabalhados variaram nos aspectos: aqui apontam, rijamente, sobre as áreas de nível, os últimos fragmentos das rochas enterradas, desvendando-se em fraguedos que mal relembram, na altura, o antiqüíssimo “Himalaia brasileiro”, desbarrancado, em desintegração contínua, por todo o curso das idades; adiante, mais caprichosos, se escalonam em alinhamentos incorretos de menires colossais, ou em círculos enormes, recordando na disposição dos grandes blocos superpostos, em rimas, muramentos desmantelados de ciclópicos coliseus em ruínas ou então, pelos visos das escarpas, oblíquos e sobreanceando as planuras que, interopostos, ladeiam, lembram aduelas desconformes, restos da monstruosa abóbada da antiga cordilheira, desabada… Mas desaparecem de todo em vários pontos. Estiram-se então planuras vastas. Galgando-as pelos taludes, que as soerguem dando-lhes a aparência exata de tabuleiros suspensos, topam-se, a centenas de metros, extensas áreas ampliando-se, boleadas, pelos quadrantes, numa prolongação indefinida, de mares. É a paragem formosíssima dos campos gerais, expandida em chapadões ondulantes —grandes tablados onde campeia a sociedade rude dos vaqueiros…

Não! Não corra atrás do dicionário… Euclides tem a língua solta mesmo, não é nada contra você – e eu. Mas sua descrição mostra que estamos diante de coisa monumental, como certamente você deve ter percebido ao longo da estrada que vem de Brasília até aqui. Mas se quiser ver pessoalmente esses tais grandes blocos superpostos, em rimas, muramentos desmantelados de ciclópicos coliseus em ruínas, de que Euclides fala, dê uma chegada até o portão de entrada, já que aqui dentro o bambuzal tomou cota da vista e, ali da rua, dê uma olhada no horizonte montanhoso à sua direita. Não confere?

Mas onde começa realmente tal território? O nome Veadeiros, tradicional, de séculos, se refere a este presente lugar, estendendo-se por um raio de uma centena de km, principalmente na direção Oeste e Norte. Se você for ao Povoado de São Jorge estará trafegando pelo miolo verdadeiro da Chapada; já em Cavalcanti, a mesma já terá seu limite ultrapassado. Na estrada de Brasília para cá, haverá placas em São Gabriel e São João da Aliança que lhe afirmarão que você já está Chapada. Mas é puro marketing daquelas comunidades, que querem pegar uma beiradinha na fama deste lugar. A Chapada fica mais além dali, na direção Norte. O que há em comum entre todas essas localidades, inclusive Brasília, Planaltina, Alto Paraiso, Pirenópolis, Niquelândia e muitas outras, além deste Moinho, é que todas se situam no Planalto Central do Brasil, detalhadamente descrito por Euclides. Mas, atenção: Chapada dos Veadeiros, a verdadeira, é aqui!    

Ela tem esta natureza exuberante, um verdadeiro cartão postal não só do estado de Goiás, mas de todo o Planalto Central. Muitos, como você, já vieram até aqui, de todo o Brasil e de muitas partes do Mundo, para apreciar seus cenários mágicos, compostos por cânions, montanhas, cachoeiras, riachos límpidos, poços, pocinhos e poções, além de uma grande variedade de fauna e flora, onde despontam o Lobo Guará e o Veado Mateiro. Ambos ameaçados, infelizmente.

Atrativo especial desta Chapada é o Pôr do Sol, que merece maiúsculas, além de um clima privilegiado, um tanto seco, com dias quentes e noites frias, característicos do Planalto. Bom lugar para se ver planetas e estrelas, sejam fixas ou cadentes e até mesmo satélites artificiais iluminados pela luz do sol nas alturas, em noites escuras. Com um pouquinho de imaginação, então, você poderá ver muitas coisas mais, quem sabe até aqueles objetos voadores não identificados?

E por falar em imaginação, a Chapada dos Veadeiros é também é reverenciada, até mesmo fora do Brasil, por certa turma, que a têm como uma das regiões do planeta destinadas a receber seres escolhidos nas “esferas superiores”. Alguns a reputam mesmo como a “Capital Brasileira do Terceiro Milênio”. Ver para crer ou crer para ver? Você decide.

 ***

Um pouco de história

O Brasil tem quinhentos e pouco anos de descoberta, mas, é claro, sua história começou muito antes. Assim, há séculos, talvez milênios, o Homo sapiens, em sua variedade americana, já trafegava por estas paragens, formando grupos de caçadores e coletores, provavelmente sem se fixarem em alguma parte. A criação de aldeias e cidades veio bem depois, com a chegada do homem branco. Os primeiros habitantes teriam sido, assim, índios Avá-Canoeiros, Crixás e Goyazes, embora isso tenha sido uma nomenclatura estabelecida pelos portugueses, não necessariamente fiel às reais etnias e grupamentos realmente existentes por aqui. 

Agora imaginem: nestes pouco mais de 500 anos após a chegada dos portugueses, pelo menos na metade deste tempo, ao colonizador esteve quase ausente aqui. Apenas no final do primeiro século de colonização, ou seja, cerca de 1592, os primeiros brancos apareceram no cenário e abriram trilhas. Mas estes apenas passaram por aqui, a real expansão do domínio banco só veio dois séculos depois da chegada portuguesa, por volta de 1730, quando começaram a adentrar em tal território os famosos “bandeirantes”, que um dia foram considerados heróis da raça, mas que hoje sabemos eram apenas operadores de um vasto projeto de exploração da natureza, quando não de escravização dos nativos. Eram eles atraídos pelas possibilidades da descoberta de veios de ouro e pedras preciosas. A bandeira mais significativa desta época foi a de Anhanguera, que percorreu todo o território de onde hoje é Goiás e parte de Tocantins. Eles procuravam ouro no fundo dos riachos e foi assim que se puseram a criar as primeiras vilas e arraiais.

Ao mesmo tempo, o tão desejado ouro tinha sido descoberto, em quantidades mais significativas, em Cuiabá. Como a capital do Brasil era, na época, a cidade de Salvador, a região passou a ser também roteiro de vários caminhos que ligavam a capital às minas recém descobertas em Mato Grosso. Viagem de muitos meses e de muitos perigos, com caminhos oficiais e alternativos, pois nem todo mundo estava disposto a pagar aqueles quintos que a Coroa Portuguesa exigia. É nesta época que surge a atual Formosa, antes Arraial dos Couros, onde havia um posto de fiscalização da Coroa e estavam disponíveis algumas facilidades aos viajantes, tais como o conserto e a venda de armas de fogo e a confecção de roupas e outros objetos em couro, donde os nomes do arraial de então e da localidade de Mestre D’Armas, nome ainda presente, designando uma lagoa e também um bairro de Planaltina-DF.        

Consta que escravos negros trazidos por tais bandeirantes, para escaparem de seus algozes fugiam para os vãos entre as montanhas abundantes na região, onde teriam passado a constituir comunidades que deram origem aos atuais Kalungas, na face norte da Chapada dos Veadeiros, atual município de Cavalcante, que aliás representou um ponto estratégico para a ocupação da região, rivalizando com Formosa, dita dos Couros. Mas é provável que o grosso dos escravos tenham fugido em épocas posteriores e de regiões diversas, principalmente da Bahia, quando a escravidão assumiu muito maiores proporções No Brasil.

Existe, portanto, uma tradição histórica quilombola na região, pelo menos em sua parte Norte, onde fica o citado município de Cavalcante. Quanto a estender o mesmo conceito a outras partes da Chapada ainda há controvérsias, embora seja certo que as atuais pessoas afrodescendentes que vivem por aqui, numerosas por sinal, tenham origens, mesmo remotas, comuns a tal grupo étnico e cultural.    

A região de Alto Paraíso, onde estamos, teve seu marco inaugural de povoamento em torno de 1750, com a implantação de uma enorme fazenda, de propriedade de um Francisco de Almeida, denominada Veadeiros, nome que decorre da abundância do também chamado Veado Campeiro, na região. Este empreendimento passa, então, a ser um núcleo de colonização, ao qual foram se agrupando agregados, escravos e outros proprietários, em torno das atividades de pecuária e cultivo de trigo e café. O trigo, aliás, nem é mais plantando por aqui, mas deu fama às terras altas da Chapada e até mesmo o nome à nossa comunidade, Moinho, que deriva da pequena indústria artesanal que aqui se instalou para processá-lo, aproveitando a força da água que descia das terras altas vizinhas.

O ouro era pouco e logo se acabou. Em torno de 1780 a região entrou regime estacionário por quase um século, com nada a perturbar e complicar seu bucolismo. Anos depois, todavia, uma novidade: em 1912 é descoberta uma grande jazida de quartzo e isso atraiu muita gente e fez girar a economia local, então estacionada. É nesta ocasião que o atual povoado de São Jorge se formou e ganhou até certa pujança, cumprindo uma regra válida em outras partes do país e do mundo, qual seja a de que os acampamentos de garimpeiros acabam se transformando em povoados e até mesmo cidades. Vide Ouro Preto e Serra Pelada, por exemplo.

Mas a roda da história girou. Em 1892 chega à região, um pouco mais ao Sul na verdade, a famosa comissão comandada por Louis Cruls, com biólogos, geólogos, engenheiros e outros homens de ciência, tendo como missão delimitar a área da futura capital do Brasil, o que traria, algumas décadas depois, radicais transformações geográficas, políticas e sociais em toda a região do Brasil Central. Em setembro de 1926 a célebre Coluna Prestes atravessou a Chapada, rumo ao Norte. Embora concretamente nada tenha deixado aqui, pois o que se cumpria, na ocasião, era apenas despistar as tropas federais com estavam em seu encalço, certamente legou de herança para o país o sentimento, embora ainda muito vago e remoto, de que a modorra conformista e conservadora dos governos poderia ser um dia transformada em benefício de todos os brasileiros. 

Outro marco histórico, este de 1931, foi a passagem por aqui de um militar, Lysias Rodrigues, vindo de São Paulo em direção a Belém, a serviço da Força Aérea (que então fazia parte do Exército Nacional), para demarcar sítios apropriados para aeroportos de apoio aos aviões do Correio Aéreo. Esta visita não deixou aeroportos por aqui, mas pelo menos gerou uma obra literária de grande interesse para a região, o “O roteiro do Tocantins“, hoje esgotada em toda parte.

A inauguração de Brasília, em 1960, naturalmente desencadeou muitas mudanças no panorama, local e regional, refletindo profundas transformações no país como um todo. Cabe mencionar, em tal contexto, a criação por JK, em 1961, do Parque Nacional do Tocantins (hoje P. N. da Chapada dos Veadeiros), com área original de mais e seiscentos mil ha, quase dez vezes maior que a área atual. Sonho desfeito, portanto.

Na década de 70, com a melhoria das condições de acesso à Chapada, até então dependente de uma estrada de terra solúvel em chuvas, começou a chegar um novo tipo de habitante, gente que deixava a rotina estressante dos centros urbanos em busca de uma vida melhor em contato com a natureza, ou que, pelo menos, tinha descoberto que o país ia além das fronteiras das cidades grandes. Chamá-los apenas de “alternativos” não adiciona valor ou esclarece o que realmente representavam, pois havia entre eles gente de interesses muito diversos, desde pessoas ligadas ao movimento hippie, a espíritas, milenaristas, ufologistas, neo-budistas, membros de correntes esotéricas, terapeutas de diversas naturezas, até curiosos de maneira geral.

Na década de 80 dois fatos diversos em suas origens, porém complementares, tornaram-se um marco decisivo para a realidade de hoje, ou seja, projetos do governo estadual de Goiás e de particulares, denominados Alto Paraíso e Rumo ao Sol respectivamente. O primeiro, ambiciosamente, investia em equipamentos urbanos voltados para o incremento do turismo, tais como hotel, aeroporto e acesso por asfalto com foco também na produção de frutas de qualidade, com vistas à formação de um polo regional de desenvolvimento do Nordeste goiano. Neste caso, as ambições se perderam no confronto com a realidade, pois muitas das obras foram abandonadas; o hotel foi privatizado e as frutas nobres vêm hoje do Vale do são Francisco.

Já o segundo projeto, Rumo ao Sol, visava a instalação e o desenvolvimento de comunidades alternativas, baseando-se em conceitos ligados ao naturalismo e ao misticismo. O conjunto de projetos, genericamente considerados como parte de um movimento “hippie” (embora não fosse apenas isso) atraiu grande leva de migrantes para a região, como já mencionado acima. Houve então a fundação de comunidades alternativas de diversas naturezas, com objetivos de filantropia, autoconhecimento e sustentabilidade. Infelizmente, entretanto, a maioria dessas comunidades já desapareceu ou se viu transformada em empreendimentos agropecuários, tendo seus membros que não retornaram às origens permanecido na terra como pessoas integradas à sociedade dita “normal”, bem menos naturalista ou mística do que as motivações iniciais que os influenciaram alguns anos antes. 

Nos dias atuais a Chapada dos Veadeiros e as comunidades a ela relacionadas continuam experimentando marcantes transformações políticas, sociais e econômicas. A especulação imobiliária é marcante e os grupos adventícios se multiplicam, deixando para trás a antiga dicotomia entre nativos x alternativos. O nome da nova tendência é business. Alugar cachoeiras, como no passado, deixou de ser o filão mobilizador dos empreendimentos, que gradualmente se encaixam em uma lógica global e capitalista, com foco na qualidade mais do que na autenticidade, capitaneadas por aplicativos de reserva on-line e também agências de turismo nos grandes centros urbanos, que oferecem aos clientes desde o traslado a partir do aeroporto de Brasília até acomodações de cinco estrelas.  O que o futuro reserva à Chapada passa naturalmente pelo turismo cada vez mais profissionalizado, mas seus desdobramentos, para o bem ou para o mal, ainda constituem objeto de especulações, nem sempre muito otimistas. Uma coisa é certa: o paraíso hippie e espiritualista, se é que ele existiu algum dia, adquiriu conformação bastante diversa nos dias de hoje.   

 

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