As atribulações do Professor Epaminondas

15 JUL: Não é que eu acredite em numerologia ou na força dos nomes na vida das pessoas, essas coisas. Mas este nome que meu pai decidiu me batizar, pelo amor de Deus… É uma carga terrível na vida de um cristão, ou membro de qualquer outra religião. Apelidos nunca me faltaram: micro-ondas, tira-ondas, quebra-ondas e por aí vai. Aquele velho metido a erudito diz que foi buscar isso no meio dos gregos, de um famoso general de Tebas, mestre de armas, conhecido pelas suas estratégias militares imbatíveis. Mas tal nome precisava cair logo em mim, o mais novo de sete irmãos? Não sei se eu ficaria melhor como Pelópidas, Péricles, Calógeras ou Solón, que são os nomes de meus outros irmãos homens. Por incrível que pareça, nenhum de nós se viu nomeado como Alexandre – e eu bem ficaria feliz com tal nome. Epaminondas, que nome, pelamordedeus… Essa foi apenas uma das muitas presepadas que o velho Antenor aprontou na vida, metido a erudito como era. Minha boa e velha mãe Esperantina – que Deus a tenha – bem sabia disso, mas mesmo assim se casou com ele. E a mim foi dado o destino de carregar este nome, da mesma forma que um burro carrega sua cangalha. Fazer o quê?

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17 JUL

Este diário me acompanha desde a data em que fui nomeado Professor Nível I-A no sistema municipal de educação em Cata Preta, esta cidade meio grande e muito fuleira, no fundão deste Estado onde tudo parece nascer torto. Comecei a escrever neste caderno para registrar, com certo orgulho, a minha conquista em um concurso público, muito disputado por sinal, embora isso tenha se transformado depois em lamentação, porque eu quisera ser outra coisa, engenheiro por exemplo, a abrir estradas, construir edifícios, vencer rios e pântanos. Ou até policial, para desvendar crimes. Mas estudante de escola pública, como sempre fui, tive que me contentar com um curso mais acessível na universidade, adequado às minhas condições, não tanto intelectuais, mas principalmente econômicas. Foi assim que vi professor. De História, o que já é um consolo para mim, pois pelo menos me ajuda entender essa sociedade esquisita na qual a gente é obrigado a viver hoje em dia.

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01 AGO

É impossível não lembrar de meu pai aqui neste bairro Nova Esperança. Aliás, se falo “bairro” é pra ser generoso, além de seguir a designação oficial que deram a isso aqui. Vamos aos fatos. É uma parte da antiga Colônia Dona Izildinha, uma fazenda que foi devorada pela cidade há décadas atrás, regurgitada sob a forma de uma arruado tosco, invadido pela classe operária e depois, gradualmente, pela classe média, dada sua proximidade com o centro da cidade. Este córrego Sujo – sim, um nome próprio com “S” maiúsculo – (nunca um nome foi conferido a um local de forma tão premonitória), que um dia foi transposto por gente sem terreno e sem casa e assim surgiu esta Nova Esperança, onde nem novidade e muito menos esperança fazem parte do panorama, onde o esgoto se despeja nas ruas e os urubus voam rasteiros. Mas eu queria falar era de meu pai, o Astolfo.

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02 AGO

Gosto de saber da explicação para os nomes das pessoas, como no meu maldito caso, que já esclareci. Agora, este nome Astolfo, sinceramente, não sei de onde vem e nem o que significa. O velho também não gostava dele, tanto que era conhecido e preferia ser chamado de outra coisa, não muito melhor em termos de sonoridade: Antenor, que sempre me pareceu soar como algo próximo a bolor ou horror. Sei lá, só sei que é outro nome feio à beça. O velho A. (poupo-me de pronunciar seu nome, seja o verdadeiro ou o falso), veio da roça ainda menino e foi criado por aqui em Cata Preta, ajudando o pai feirante, tão pobre e tão bruto, pelo que sei, como outros seus diversos filhos, meu pai e meus tios, pelo menos os que eu conheci. Mas ele tinha seu valor, conseguiu estudar e até mesmo fazer um curso de contabilidade, mas aquele jeitão bruto e meio violento nunca o abandonou. Digo que esta vila Nova Esperança (nem nova nem outra coisa) me faz lembrar meu pai pela alta incidência de gente como ele, meio bruta e um tanto ignorante, migrantes dos sertões, com filhos criados ao Deus-dará e mulheres sofredoras nas mãos de machos sem piedade. Sorte que o A. casou com Esperantina, de extração um pouco mais alta na pirâmide social, herdando de meu avô Colombo uma casa e um terreninho, no bairro das Telhadas, onde tive a sorte de ser criado, bem mais ajeitado do que esta Vila N.E., onde por azar dou expediente. Então, creio que está esclarecido: andar por essas ruas, conviver com essas crianças, conversar com um e outro nas reuniões de país, ouvir as novidades da vizinhança – tudo isso me aproxima ao puro estilo Antenor de existir.

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02 AGO

Mas não estou aqui para falar do velho Astolfo, que seja Antenor. Sigo adiante.

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10 AGO

Nova Esperança, feitas as ressalvas necessárias, na prática é uma favela – mais uma – a se estender na periferia de uma cidade meio grande, que cresce como um câncer. Não tem quase nada, mas já foi pior. Pelo menos hoje temos a escola Duque de Caxias, onde leciono, uma unidade Básica de Saúde, inacreditavelmente apelidada de Córrego Sujo, uma Delegacia de Polícia e meia dúzia de igrejas evangélicas, além de um barracão que deveria ser a igreja dos católicos, onde quase ninguém mais vai, onde se instalou um desmanche de carros. Nas evangélicas alguns pilantras disputam o dízimo pago pelos incautos, mas devo abrir exceção, para ser justo, ao Ezequiel, da Igreja Cristo Liberta, que parece ter bem mais consciência e formação teológica do que os seus demais colegas. Parece, não tenho certeza ainda. Depois falo dele, com maior detalhe.    

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05 SET

Como eu já disse aqui, é um peso danado alguém se chamar Epaminondas. Pior ainda escapar do enxame de apelidos que botam na gente. As crianças, ou melhor, os adolescentes da sétima e oitava série que me cabem, ao que parece se apiedaram de mim e passaram a me chamar de Epa, tio Epa, ou Tiepa, como preferem. Eu aceitei, claro soa bem melhor. No princípio aqui a relação com eles era complicada, aprontavam de tudo, não só caprichando nos apelidos como até fazendo certas graçolas mais pesadas, até me atirando pedras e outros objetos nas ruas. Até que um dia rodei a baiana com eles: – olha aqui, se é para sacanear, contem comigo. Vocês precisam de nota para passar de ano, carecem de mostrar algum sucesso para suas famílias e vizinhos. Ou não? Hem? O’quei? Então não se esqueçam que isso tudo está em minhas mãos. Pois é, parece que funcionou. Ao mesmo tempo passei a dedicar maior atenção a eles também na hora do recreio, às vezes entrando até nas partidas de futebol e de queimada com que se digladiam nessas ocasiões, mesmo que isso me custe ter que passar metade do período com a roupa suada. Mas acho que compensou o esforço, hoje me respeitam e até fazem de mim um confidente ocasional – e isso é coisa que faz diferença por aqui.

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11 OUT

Aqui na escola minha jornada é movimentada, para dizer pouco. Acidentada ou atribulada talvez sejam palavras mais certas. Preparar e dar aulas é o mais fácil, mas no meio do caminho tem a relação nem sempre tranquila com as famílias desses adolescentes, o enfrentamento das confusões entre eles, a insegurança de andar por essas ruas na entrada e na saída do trabalho. Quando falo das famílias, falo apenas das poucas que costumam vir até aqui, nas reuniões oficiais da escola, pelo menos. Na verdade, apesar dos pesares, quem costuma vir com mais frequência são as mães, é raro ver um pai. Em tais momentos, às vezes o tema, longe de ser o aproveitamento escolar ou as necessidades da escola, chega até aqui sob a forma de brigas de vizinhos, que por incrível que pareça se desdobram para dentro da escola. Esses encontros, apesar de tudo, trazem até a nós professores e demais pessoas da equipe, uma filtragem do cotidiano dessa comunidade da Nova Esperança em sua vida real, com as batidas policiais, a violência dos traficantes, os estupros domésticos, a falta de saúde, o desemprego, o mal estar generalizado que atinge a maioria etc etc e etc.

O caso do Moisés, por exemplo.

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20 OUT

Moisés é bom aluno, ou seja, se interessa pelas aulas, gosta de ler, tem notas razoáveis. Isto é, quando tem condições de frequentar as aulas, pois ele é mais um que possui ambiente tumultuado em casa. A mãe é manicure, trabalha em casa e às vezes na casa das clientes, mas tem uma vida amorosa complicada, com um meio marido, meio namorado, que usa drogas e fica violento quando está chapado, vindo às vezes para casa para se esconder de rivais ou mesmo da polícia. Sei disso por conta da Glorinha, a agente de saúde que costuma interagir com a gente aqui na escola e que me traz informações importantes sobre o que rola dentro das casas das pessoas, às quais ela tem mais acesso do que nós. Grande Glorinha! É uma menina – tem pouco mais de 18 anos – dedicada e consciente do ponto de vista social, uma daquelas pessoas que consegue entender os problemas da comunidade dentro de uma visão que não é moralista, nem religiosa, muito menos simplista. Eu diria que essa aí sabe o que é dialética! Ah, mas o Moisés… este aí merece umas linhas somente para ele.

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01 NOV

Hoje Ezequiel, o Pastor, veio falar comigo. Diferente de outros do meio evangélico não veio trazer um discurso pronto. Longe disso – eu quase caí pra trás de tanta surpresa – queria ouvir minha opinião sobre umas tantas coisas que acontecem aqui no bairro. Por exemplo, uso de drogas, violência entre a moçada, ambiente doméstico, sexualidade, coisas assim. Eu nem acreditei no que ouvia e até fiquei em dúvida como começar a conversa. Enquanto eu matutava, ainda perplexo, ele felizmente se adiantou. Achava tudo meio degringolado por aqui, faltando ações conjuntas na comunidade, por exemplo, das igrejas, da escola, do postinho. Concordei com ele, é claro, mas ao mesmo tempo não deixei de revelar minhas dúvidas a respeito da melhor maneira de agir. Ele me falou que também não tinha soluções, mas achava que era preciso começar a conversar sobre isso. Para minha surpresa maior ainda, enxertou na conversa algumas citações do Velho Testamento, falando de Jacó, Abraão, Jessé e outros patriarcas, que me pareceram pertinentes aos problemas que preocupavam a ele e a mim. Sinceramente, foi a primeira vez que ouvi um evangélico citar a Bíblia com tal propriedade, não como um receituário de condutas relativas a isso ou aquilo, ainda mais desatualizadas em milênios.

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03 NOV

Salve Ezequiel! Na conversa ele aproveitou para me dizer, meio à queima roupa: – sei não, acho que você desconfia de mim... Ele tinha razão, acho que não consegui disfarçar totalmente a birra que tenho por pastores evangélicos. E me esclareceu: era vinculado a uma denominação tradicional, Presbiteriano ou Metodista, não sei bem, que se apunha àqueles neopentecostais que dominavam a cena ali em Nova Esperança. Seu trabalho tinha foco na juventude e sua perspectiva pastoral era libertária, trabalhando com teatro, música e jogos, dentro de um movimento que incluía outras denominações protestantes e inclusive católicos. Que eu ficasse tranquilo a seu respeito, a pouca conversa que tivemos já tinha mostrado a ele que havia sintonia entre nós. Agradeci e expliquei para ele que realmente eu estava meio de pé atrás, mas que seus esclarecimentos me pareceram sinceros. Quanto à opção por esta ou aquela religião, preferia ficar de fora, apesar de ser de família católica, ao que ele contestou que isso não seria problema para trabalharmos em conjunto. Achei animadora tal conversa. Parece que Ezequiel ganhou confiança em mim, quando eu argumentei que achava o nosso campo de ação muito reduzido, eu na escola e ele na sua igreja, disse que concordava, mas que de sua parte tinha planos futuros de se lançar na política. Isso me arrepiou num primeiro momento, mas depois, pensando melhor, acho que ele tem razão, mas jamais será a minha opção.

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10 NOV

Sem esquecer do Moisés, quero falar da Suélen. Ou Swellenn, como ela soletra ao se apresentar. É minha aluna também, criatura inteligente sem dúvida, mas dispersiva e bagunceira em excesso. Tem sacadas ótimas, por exemplo, quando falamos da vinda da família real para o Brasil, quando ela fez considerações comparativas muito pertinentes sobre as tramoias políticas do Brasil de hoje, principalmente em relação à dependência de um país estrangeiro mais forte. Mas se esta garota é um vendaval de curiosidades e percepções, traz consigo esmagadoras contradições. Carrega uma dúzia de piercings no corpo, da cabeça aos pés, “inclusive em partes secretas”, como ela não titubeia em insinuar, além de duas dezenas de tatuagens. Tem um carisma e um domínio impressionantes sobre os colegas machinhos, enquanto arrecada rivalidades com as demais garotas. Com os professores alterna entre a postura desafiante e a sedução. Comigo mesmo já tentou as duas coisas, mas no momento vive um momento da segunda modalidade, ao que me parece para ver se consegue uma nota melhor na prova bimestral que se aproxima. Mas deixa pra lá. No momento, parece estar de namoro – segundo me revelou Glorinha – com uma figura suspeita, meio sinistra, um cara recém chegado ao bairro, tudo indica que ligado à bandidagem. Aqui é sempre assim, difícil encontrar alguém que caminha em linha reta, principalmente entre esses jovens. É gente cruzando a linha a todo momento. Mas voltando a Swellenn, sem dúvida é uma cabocla inteligente. Numa aula outro dia me trouxe duas definições supimpas: Mais-Valia é aquilo que nós ganha e eles toma da gente; Luta de Classe é o jeito que eles sempre f* a gente.

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12 DEZ

Ah, Glorinha… Esta é uma que parece cruzar a linha também. Pelo menos é que aparenta, com o tipo esquisito que às vezes a acompanha nas visitas domiciliares. Mas deixa pra lá. Uma coisa é certa: é charmosa como quê… Será que toparia alguma coisa comigo? Bem que eu gostaria. Mas com companhias com as quais ela anda, melhor deixar qualquer pretensão de lado.

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Nem tudo é bandidagem ou linha cruzada por aqui, há também histórias bem certinhas, como a do Otávio. Filho de gente pobre, mas com família estruturada: pai, mãe, poucos irmãos, uma avó ou tia que reside com eles (segundo me informa a Glorinha). Só tira notas boas comigo e o mesmo acontece nas outras matérias. Nas exatas é um furor, tendo desenvolvido um método próprio de fazer contas, que o transforma em verdadeiro computador, fazendo multiplicações de três x três ou mais dígitos com uma rapidez impressionante. Já faturou duas olimpíadas de matemática. Outro dia a Clara, professora de Comunicação, me mostrou uma redação dele, sobre o tema do racismo, na qual ele dá um show de conhecimento, estilo e capacidade de síntese, definindo com perspicácia a questão do racismo estrutural e falando de suas implicações na vida política e social do país. Uns garotos assim é que animam alguém a continuar sendo professor, como é o meu caso, embora me passe às vezes pela cabeça a ideia de fazer concurso para a Polícia Técnica. Ao mesmo tempo me vejo torturado pela sensação de que mesmo para gente bem dotada e até brilhante como Otávio, o futuro é muito incerto, ainda mais tendo nascido e crescido em um lugar com essa Nova Esperança, onde não existem novidades e muito menos esperanças.       

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03 MAR

Moisés hoje me apareceu com um olho roxo e seu caderno amarrotado e sujo de sangue. Perguntei a ele o que lhe tinha acontecido e ele foi lacônico, disse que foi uma briga, mas não me disse com quem nem a causa do acontecido. Vou ver se Glorinha sabe alguma coisa sobre isso. Este garoto precisa ser cuidado de perto, acho que enfrenta uma barra especialmente pesada em casa.

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04 ABR

Aqui na escola Duque de Caxias cada dia é um dia. E nada melhora, só fica piorzinho. Hoje teve o maior quebra pau na hora do recreio. Um garoto partiu pra cima de um desafeto e chegou a deixá-lo desmaiado no chão. Rivalidade antiga, parece que derivada de questões de família, é o que dizem. A mãe de um dando colher de chá para o pai de outro, ou vice versa. Aqui é assim… O desacordado voltou logo a si, depois de um copo de água fria que lhe jogaram na testa. O agressor se mandou, pulando o muro da escola, pois o portão estava trancado no momento. Brigas costumeiras desencadeadas por este aí. Curioso é o nome dele: Pacífico. A história é a mesma de sempre, apenas previsível: família desestruturada, pai caindo pelos bares, mãe desempregada, irmão mais velho militando no tráfico, uma irmã supostamente garota de programa. Ele, o tal Pacífico, na verdade um tremendo belicoso, apesar de ser o mais novo da família. Tem a cabeça raspada cheia de cicatrizes. Não fosse pelos músculos bem desenhados, pareceria um sobrevivente de campo de concentração. Aquele olhar cinzento, Deus me livre, até assusta a gente. Em outra confusão que aprontou foi preciso chamar a polícia, o que desta vez foi evitado, pois os meganhas chegaram batendo e mostrando as armas pra todo mundo. Se parar o bicho pega, se correr, atropela. Aqui é bem assim.   

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06 MAI

Quando vejo essas histórias, que quase sempre têm um pai ausente ou violento chego a me consolar de ter sido destinado a mim apenas um Antenor, que sempre foi meio metido a valentão, mas pelo menos não bebia e tratava minha mãe relativamente bem, sempre presente no sustento material à família. A mania dele em ler compulsivamente almanaques e velhas enciclopédias encadernadas me parece agora tão inocente… Ainda mais agora que ele adoeceu, acho que está na hora de exercitar algum tipo de perdão.

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11 JUN

Rezando ou não, ou melhor dizendo, à moda dos evangélicos, orando ou não orando ao Senhor Jesus, as assombrações aparecem. Além do Ezequiel, que sem dúvida é do bem, existe por aqui um outro pastor, o Benedito, que é zero em teologia, mas nota dez na arte do dízimo, se é que vocês me entendem. Ele é legítimo representante das tais empresas de fé que infelizmente se impuseram por toda parte. O estrupício me procurou se oferecendo para colaborar com a escola, no caso, ministrando conteúdos sobre o que ele chama de verdade bíblica sobre a origem da vida. Em outras palavras, a ideia de que deus (o dele…) criou o mundo naqueles seis dias regulamentares e depois descansou. Não dá para acreditar numa coisa assim em pleno século 21, mas aqui em Nova Esperança parece fazer parte da paisagem. Ele já havia falado com a Isa, professora de Ciências, mas essa não lhe deu atenção e por tal motivo veio tentar comigo, já que tal tema, segundo ele, faz parte real da história da humanidade. Expliquei que os conteúdos educativos no país são determinados pelo MEC, ao que ele repostou que em tal órgão predominam os comunistas e os ateus, além de mulheres sapatões. Vê se pode… Sua filha Anita foi minha aluna no ano passado e atualmente já está, digamos assim, no mercado de trabalho, como obreira na grande igreja em forma de castelo que sua seita construiu no centro da cidade. Quero falar dela mais tarde.

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12 JUN

Por sorte, para que eu não perca definitivamente as esperanças com o caminhar da humanidade, Ezequiel, o Bom Pastor, já me falou que precisamos conversar sobre alguns temas que ele acha importante, e que vê em mim (menos mal) um possível apoiador. E citou alguns assuntos, tais como a controvérsia da ideologia de gênero (expressão da qual ele discorda), a misoginia, a violência doméstica, a babaquice (expressão dele!) do apartidarismo nas escolas. Ele me disse ainda que já levantou algumas dessas questões em sua igreja, mas que tem notado que isso provoca dissabores e até afastamentos de alguns fiéis. Ele sabe que não tem como promover grandes mudanças a partir da escola, mas gostaria de ouvir minha opinião sobre tais assuntos. Sugeri que levássemos tal discussão ao colegiado da escola e que de minha parte ele poderia cotar com total apoio. Aproveitou para me contar que a mãe de Moisés, adepta de sua igreja, o procurou, preocupada com a relação entre o companheiro e o filho, que não se suportam, com situação agravada recentemente pelas insinuações que tal homem tem feito a respeito da sexualidade do enteado, que ela admite terem fundamento. 

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15 JUL

Glorinha, charmosa como sempre, me procura para dizer que está preocupada com Swellenn. Segundo ela, o atual namoro dela com um sujeito ligado à bandidagem é pra lá de complicado, pois envolve uso contumaz de drogas e mesmo risco de vida, além de problemas com a polícia. Aliás, ela parece colecionar namorados estranhos. No momento ela suspeita de que Swellenn esteja grávida, com exames ainda em andamento. Isso seria coisa comum aqui, mas no caso representa uma carga extra num oceano de desgraças, pois a família acaba de se desintegrar por completo, tendo sido a mãe espancada e abandonada pelo padrasto, além de ter um irmão recém diagnosticado com Aids. Glorinha ainda me diz que não tem autorização de sua chefia no Centro de Saúde da Família para tratar de tais assuntos fora de sua esfera de trabalho, mas o faz por confiar muito na minha pessoa. Isso me deixa feliz.

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17 AGO

Novo quiproquó no terreiro, ou melhor, no pátio de recreio. Pacífico parte para o esculacho e espanca um colega, inclusive lhe ferindo na barriga com um canivete enferrujado. Foi preciso convocar a ambulância dos bombeiros, que por sua vez chamaram a polícia, não teve como se evitar desta vez. Veio a polícia e entrou empurrando com grosseria os participantes da aglomeração que se formou no pátio, entre eles alunos da escola e gente de fora. Foi um pandemônio verdadeiro. O agressor desta vez foi capturado num terreno baldio próximo à escola e levado para a delegacia e depois para uma instituição de menores infratores. Para piorar as coisas, o episódio confirmou a existência na escola de uma verdadeira gang, pelo tipo de acobertamento que Pacífico recebeu e pelas ameaças que surgiram contra aqueles que se revoltaram com o ocorrido ou depuseram no inquérito policial que foi aberto.  Farejando oportunidades de se impor, Benedito apareceu na sequência, com a proposta de puxar um abaixo-assinado para transformar isso aqui em escola militarizada. Puta que o pariu!

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20 SET

Nem tudo são horrores por aqui. Otávio hoje veio me contar que ganhou a olimpíada de biologia, promovida por uma entidade nacional. Caramba! O mundo pode realmente ser melhor do que é! Enquanto isso, Swellenn, a inquieta, anuncia que dentro em breve estará representando produto eróticos, que vão de géis corporais até vibradores. E ela tem 16 aninhos! Faça ideia quando chegar aos 20… Cada um com seu estilo. E estilo é ingrediente que não falta aqui nessa Nova Esperança.

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25 SET

Aproveitei para trocar ideias com Ezequiel, uma rara voz equilibrada aqui neste pedaço de mundo. Ele também se sente perdido com a situação de Pacífico, acha que deixá-lo solto é de fato muito arriscado, embora receie, como eu, que na instituição de menores para onde o levaram as coisas fiquem ainda piores. Como sempre, analisa ele, Pacífico é um produto esperado de uma família totalmente desestruturada, cuja solução não estaria nem aqui nem agora, ou seja, teria que ter iniciado muito antes, com um arsenal de soluções muito diferente do que temos em mãos. Conversamos e concordamos sobre a maldita alegação que a gente costuma ouvir diante de um caso assim: – tá com pena, leva para sua casa… Sobre a proposta militarizante de Benedito me disse que daquela cabeça não poderia sair nada diferente. Aliás, me adiantou algumas informações sobre tal pessoa, que eu já sabia por alto. Benedito trabalhou por muitos anos na polícia, não como delegado, investigador, escrivão ou coisa assim. Era apenas uma pessoa dos serviços gerais, pouco mais que um faxineiro. Acabou sendo processado e demitido por se envolver com torturas e maus tratos aos eventuais presos, embora não fosse de sua alçada o contato com estes aí. O que acontecia é que ele se oferecia para tais serviços sujos e até mesmo os realizava por conta própria. Depois de afastado da polícia é que teria se “convertido à palavra” e fundado sua própria igreja, intitulada por ele de “3D: Dar o Dízimo a Deus”, fazendo jus a suas reais intenções. E ele nem negava seu passado, utilizando sua história como prova de que “a Palavra e a Verdade salvam”, com as maiúsculas por conta do próprio Benedito, conforme registrado no muro da frente de seu templo. Mas tal sujeito, ao que parece (assim me contou Glorinha), mantém um pé no mundo policial, municiando a Delegacia mais próxima com informações sobre os frequentadores de sua igreja, embora não se pudesse comprovar tal coisa. Eita Nova Esperança!   

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30 OUT

Não há dias totalmente tranquilos aqui em Nova Esperança… Hoje Moisés me pediu para falar comigo depois da aula e depois de algum titubeio foi explícito: será que eu não poderia levá-lo para morar em minha casa? Ele já tinha estado lá e Ismena, minha irmã, o tratara com muito carinho, inclusive cuidando de uns ferimentos que ele tinha na cabeça. Como responder a um pedido como este? Fiquei de pensar, vou conversar com Ismena, mas sinceramente não sei o que fazer.

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11 NOV

A filha do pastor Benedito, Anita, está assediando a diretora da escola par afazer palestras aos alunos. Segundo ela, é para levar a eles “a palavra”. Antonieta, a diretora, é uma daquelas pessoas que tem dificuldades incríveis em pronunciar a palavra “não”. Fez uma reunião para consultar os professores a respeito do assunto. Eu fui bem claro: “não é não”! E fui além, buscando argumentos de fundo histórico e cultural: a laicidade do Estado e de suas instituições é um bem histórico muito precioso para ser assim colocado em risco. A cara de Antonieta foi de quem não tenha entendido muito bem o que eu quis dizer. Mas Isa, das Ciências, estava por perto e me deu apoio na hora. Newton, da Matemática, um banana vaselinado completo e acabado achou que era preciso refletir no assunto, afinal, por que negar um pedido como aquele, que traduzia sem dúvida as boas intenções de uma moça de bem? Ah, sim, nesta proposta estava inserido o namorado de Anita, Silas, um dos crentes mais fiéis do ministério de Benedito, que andava pelas ruas de Nova Esperança de terno e gravata, com uma Bíblia debaixo do braço. Não seria melhor manter distância de gente assim?

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30 NOV

Glorinha, de novo no pedaço, trazendo notícias. Depois da confusão com Pacífico o que se diz por aí é que a bandidagem quer tomar providências, com o objetivo de botar ordem na casa aqui em Nova Esperança. Parece que Pacífico não volta mais. Para onde o levarão, meu Deus? Vê nisso aí o dedo de Benedito como intermediário e que este de fato está fazendo circular nas ruas do bairro um abaixo assinado pedindo a escola militarizada. Tento espichar o assunto com Glorinha, mas ela não parece muito disposta a tanto. Convidei-a para tomarmos uma cerveja qualquer dia desses, mas sua resposta não me foi muito animadora: – fala sério, não conseguindo eu distinguir naquilo se era pergunta ou ameaça. Fica para depois.

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03 MAR

Isso é que dá a gente querer ser criativo. Numa conversa com Ezequiel por alguma razão nos lembramos da música Charles Anjo 45 de Jorge Benjor, achando interessante fazer com a moçada da oitava série uma análise textual da mesma, tendo como mote a importância de se ter um exemplo. Como todo mundo sabe, a letra destaca o impacto de um tal de Charles numa comunidade pobre, sendo apresentado na canção como suposto protetor dos fracos e dos oprimidos, Robin Hood dos morros e tendo sido enviado de férias a para uma colônia penal, o morro que era do céu, um inferno virou – e por aí vai. O retorno do personagem depois de preso pela lei é motivo de grande celebração na comunidade, marcando a volta da paz e do orgulho local, numa carnavalização movida a batucada, feijoada, whisky com cerveja, além de uma saraivada de balas pro ar, mostrando assim o surgimento de uma espécie de mito coletivo.

Para mim, e para Ezequiel também, era uma figuração totalmente incorreta, enaltecendo uma figura fora da lei, violenta, além do mais agente de uma justiça feita com as próprias mãos, que mostrava muito bem o mito de uma malandragem do bem que imperava nos morros, enaltecida muitas vezes pela imprensa e, no caso, pela canção de um compositor super popular como Benjor.

Pois bem, expliquei para a moçada que íamos momentaneamente fugir daqueles assuntos de reinados e regências, para trazer à tona dos dias atuais. – Tudo bem? – Tudo beeeem! Organizei a turma em meia dúzia de grupinhos e pedi que debatessem a letra, que poucos conheciam, por ser algo antigo, quase pré-histórico para eles, depois de a escutarem em um CD player.

E assim me preparei para encarar a discussão, para no final reforçar a importância do respeito à Justiça e o valor de não se querer fazê-la valer pelas próprias mãos. Confesso que propus aquela dinâmica com algum grau de desconfiança que as coisas poderiam acontecer fora do planejado, como aconteceu em um outro momento, em que a pauta era o envelhecimento da população. Na ocasião, solicitei aos alunos que entrevistassem alguns velhinhos de sua família ou de sua vizinhança, mediante algumas perguntas que combinamos com antecedência. Elas fizeram aquilo com o maior entusiasmo, mas o material que trouxeram ajudou muito pouco a discussão, pois o que mais havia ali eram lamúrias, manifestações depressivas contra as famílias e o governo, além de saudosismo e conservadorismo exacerbados. Costumo dizer que para um bom professor (como eu penso que sou, modéstia à parte) até um cachorro morto poderia gerar conteúdo e discussões aprofundadas. Entretanto, dessa vez foi complicado…

As opiniões sobre “Charles, Anjo 45” foram as mais variadas possíveis, o que, aliás, era esperado. Eu apostava mais numa abordagem digamos assim, moral ou legalista, mas a turma pensou diferente.

Alguns grupos destacaram o “heroísmo” do personagem, sem entrar na questão de sua legitimidade. A comparação com a ação policial foi frequente, pois segundo eles as vítimas de gente como aquele Anjo 45 pelo menos eram outros bandidos, enquanto a polícia não fazia questão de diferenciar criminosos de inocentes.  Charles aparecia pintado como um autêntico malandro, mas acima de tudo um herói popular, símbolo de justiça e esperança para as comunidades marginalizadas, como era o caso de Nova Esperança. Aliás, houve até sugestões devidamente fulanizadas de possíveis candidatos a Anjo 45 ali no bairro.  Enfim, mesmo vivendo à margem da lei, um tipo como Charles parecia ser admirado e digno de respeito, além visto como alguém a equilibrar as injustiças sociais. Swellenn, que estava inspirada naquele dia, não deixou por menos: – este Charles é demais, deve ter sido um puta comedor de gente!

Naquele mesmo dia liguei para Ezequiel para comentar o resultado do tal trabalho grupal, mal disfarçando uma profunda sensação de fracasso. Ele foi generoso comigo e com a moçada, ao ressaltar a resiliência e a esperança das pessoas nas periferias das cidades, que enxergam em figuras como Charles um símbolo de resistência e justiça diante das dificuldades do dia a dia.

Tudo bem. É vivendo e aprendendo. Nova Esperança não é para principiantes, mesmo.

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11 ABR

Chegou a vez do pobre Antenor… Tive tantas querelas com ele, não é que agora estou até pesaroso? Foi-se do melhor jeito que uma pessoa pode morrer, que é o de dormir sem acordar. Um pai distante, meio violento (mas não tanto como alguns que andam por aí), um machista completo em família, um homem sem qualquer gesto de carinho com minha mãe e seus filhos, um sujeito desconfiado e casmurro, com todo mundo: mulher, filhos, parentes, vizinhos. Nem falo de amigos, pois isso ele nem conhecia. Para não falar só de defeitos, justiça seja feito, sua interação com enciclopédias e almanaques chegava ser espantosa, fazendo dele uma enciclopédia de inutilidades variadas. Passava noites em claro folheando a velha Barsa que ele ganhara de alguém, como descarte. Faça-se ideia de ele tivesse um dia aceitado frequentar a internet, ia ficar impossível, acumulando um cabedal sem precedentes!  Não é que ele tenha virado gente fina só poque morreu, mas a verdade é que bem aqui no fundo do peito, bem no fundo, me baixou um sentimento de perda e de perdão sequer dado ou cogitado durante a vida dele. Só isso. Mas o fato é que me senti de luto.  

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15 ABR

Nem tudo são sombras ou pesares, felizmente. No funeral de meu pai Glorinha me abraçou comovida e disse, para total surpresa minha, que estava à espera, com muita satisfação, aliás, da confirmação do convite para aquela cervejinha. De brincadeira falei: – mas você não vai convidar aquele tipo fantasmagórico que vive lhe acompanhando, né? E ela, de pronto: – não se preocupe Tiepa, aquele é o Tonico, irmão de um cunhado meu, um tipo lelé, completamente autista, que vive no meu pé dizendo que quer me proteger. Ele só cola em mim quando eu permito – e não vai ser o caso.

Eita, Agora de fato há um uma nova esperança! Menos mal, nem tudo está perdido.

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