No Mato-Dentro

Para sairmos da grande cidade é preciso trilhar seus tristes caminhos de periferia, lixo jogado nas ruas e o povo pobre nos pontos de ônibus. Mas lá na frente, mal e mal vislumbradas, as montanhas já nos auguram, em pálido azul que se confunde com o cinzento, a passagem por mais aprazíveis lugares. Em marcha sinuosa e intercalada pelos quebra-molas, passagens de linha de ferro e semáforos, ladeando as grandes filas de moradias toscas e sem reboco, vamos deixando para trás essa “mancha urbana” – coisa que aqui é sempre uma “mancha”, pelo menos em relação ao destino que esta gente deveria ter, mas não tem. Mas é ir em frente – fazer o quê? E assim alcançamos a velha cidade, vizinha quase emendada à metrópole adjacente, herdando dela e até piorando o que de mal possa haver. Mas em todo caso, além da ponte do rio histórico, alguma coisa mais bela se anuncia e logo se confirma, mas se reduz a uma única rua, só, aquela fileira de casarões, seus telhados sobranceiros, uma ou outra igreja ou capela, o que sobrou de um chafariz ou de um aqueduto. As placas comerciais escandalosas, anunciando negócios e mercadorias, em barafunda, meio que estragam ou contaminam tudo. Mas pelo menos os quintais ainda ostentam suas mangueiras centenárias, neste momento em florada, cujo cheiro é possível sentir mesmo dentro do carro. Continuar lendo “No Mato-Dentro”

Visão de uma cidade em trabalho de parto: As Margens da Alegria

Li, por esses dias, dois textos que falam da visão de uma cidade nascente – Brasília – naquele período mágico em que tudo indicava que o Brasil ia dar certo. Éramos campeões mundiais de futebol, de tênis, de boxe e de esperanças. Uma nova capital estava sendo erguida nos fundões do país. Nada mais emblemático. Falarei do primeiro desses textos aqui, o conto “As Margens da Alegria”, de Guimarães Rosa. Na sequência quero trazer Clarice Lispector e Vinicius de Morais, Sophia de Mello Breyner e outros, enquanto vou tentando colecionar mais e mais. Antes de começar, um preâmbulo. JGR trouxe vários personagens infantis à luz em sua obra. O mais notório talvez seja Miguilim, em “Campo Geral”, mas não podemos esquecer do Quinzinho de “Conversa de Bois”; de Nhiinha, a “Menina de Lá”; dos irmãos e do primo de “A Partida do Audaz Navegante”, além de outros. Acrescento a tal galeria este outro menino, não nomeado que ia “com os tios, passar dias no lugar onde se construía a grande cidade. Era uma viagem inventada no feliz; para ele, produzia-se em caso de sonho. Saíam ainda com o escuro, o ar fino de cheiros desconhecidos”. Continuar lendo “Visão de uma cidade em trabalho de parto: As Margens da Alegria”

Vaga, lembrança…

Resolvi escrever minhas memórias… Pouco ortodoxas, diga-se de passagem. Por que?Minha história acabou? Por certo que não. Até este 30 de julho de 2020, dia em que finalizo estas linhas, ela continua firme e forte. E pretendo que se prolongue. Penso na Morte, mas espero que a recíproca não se verifique tão cedo, como disse Woody Allen. Mas devo dizer que, por muito tempo, achei … Continuar lendo Vaga, lembrança…

Lição de anatomia

Primeiro dia de Faculdade… A aula que assisti é impossível de ser esquecida, magna, na melhor acepção da palavra. Entramos no grande auditório da Faculdade, no antigo prédio da Avenida Alfredo Balena e lá nos esperava uma penca de professores, vestidos com longos jalecos e até alguns em paletó e gravata. Assistimos uma hora inteira de peroração empostada, que culminou com um teste de conhecimentos médicos e perguntas diretas a membros da plateia. Teve gente que tremia, inclusive eu, confesso. De duas dessas perguntas de que ainda me lembro: “como diagnosticar a condição chamada flatus morbidus acutissimus? Qual a indicação terapêutica do hálux? No final, como a potestade que coordenava os trabalhos tinha falado em exercícios a serem cumpridos para uma próxima aula magna, acerquei-me dele cheio de respeito para saber qual seria exatamente a tarefa demandada. A resposta que ouvi foi taxativa e me trouxe de volta à realidade: abre as orelhas, calouro! Cesar Augusto de Barros Vieira era o nome dele – e se tornou um grande amigo meu, anos mais tarde,

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O analista de Cordisburgo

Meu amigo não está entre nós há muito tempo. Só para contextualizar, quando ele se exilou, o Capitão ainda não havia deixado sua roça paulista e Sérgio Moro nem havia nascido e muito menos havia resolvido se prestava vestibular para o curso de Direito ou para Publicidade… Mas me impressiona muito o modo como ele é capaz de acompanhar e emitir opiniões pertinentes sobre a realidade brasileira, especialmente na política. Às vezes suas frases são meio misteriosas, mas logo se esclarecem, a cada fornada de notícias de jornal.

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Vai-se Aldir (como se já não bastasse o que se vive no país …)

Resposta Ao Tempo – Aldir Blanc Batidas na porta da frente é o tempo Eu bebo um pouquinho pra ter argumento Mas fico sem jeito, calado ele ri Ele zomba de quanto eu chorei porque sabe passar e eu não sei Num dia azul de verão sinto vento há folhas no meu coração é o tempo recordo um amor que eu perdi ele ri Diz que … Continuar lendo Vai-se Aldir (como se já não bastasse o que se vive no país …)

Decálogo da Besta

Se este governo der certo, o Brasil dará errado. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, mas não Aquele da Bíblia, mas sim o “DEU$” da Record e dos pastores neopentecostais. Você compraria um carro usado do pai, dos filhos, ou dos vários espíritos que os rodeiam (Queiroz, Negão, Adriano etc.)? Justiça seja feita, ele foi sincero: deu sinais de que faria tudo isso … Continuar lendo Decálogo da Besta

Angelo Barbosa Monteiro Machado: in memorian

Hoje, seis de abril de 2020, a internet me trouxe a notícia: morreu Angelim. Quem passou pela Faculdade de Medicina ou pelo Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, a partir dos anos 60, sabe muito bem de quem falo. Impossível esquecer do criador do Show Medicina; do professor de inesgotável conhecimento; do cientista cujo conhecimento ia da glândula pineal às libélulas, do cerebelo humano à ecologia do cerrado; do inventor de histórias; do impagável frasista; do destacado ambientalista; do escritor inspirado. Muitos personagens, muitos mesmo, em uma só pessoa. Tinha raízes mineiras tão profundas como a Mina de Morro Velho, mas parece nunca ter feito muita questão delas. Aníbal, Cristiano e Lucas (Machado) eram seus tios, Maria Clara sua prima, cada um com sua marca indelével: na literatura, na política, na medicina e no teatro. Ele tinha um pouco de tudo isso e mais alguma coisa. Fui seu aluno em 1967, depois o vi poucas vezes, mas notícias dele sempre me chegavam, pessoa querida, múltipla, generosa e iluminada que era. Deixou inúmeras histórias saborosas, que contava com gosto e a cada vez aumentando um ponto. Conto duas delas aqui. Mas a lenda que deixa é ainda maior… Continuar lendo “Angelo Barbosa Monteiro Machado: in memorian”

Pandemonia (5): Escolhas forçosas…

PESTEEste coronavírus (prefiro chamá-lo assim, por um nome que todo mundo conhece), veio para virar o mundo de pernas para o ar. Quem tinha as pernas fora do devido lugar ou, pelo menos, o cérebro em tal condição, como o Presidente da República, parece não ter entendido as coisas direito. Mas não é o meu caso, nem dos distintos leitores deste blog, certamente. Na Itália, o mundo já está virado. Na Suécia e na Coreia do Sul, nem tanto. A esta altura dos acontecimentos, apesar da imprevisibilidade da pandemia, o Brasil ao que tudo indica vai, malgrado nosso, se achegar ao modo italiano e não ao escandinavo ou oriental. E entre tantos prejuízos, seja de vidas, de empregos, de credibilidades, de atividades econômicas, há um que talvez seja o mais dramático: o das escolhas forçosas que as equipes de saúde terão que fazer para decidir quais pacientes receberão as terapias necessárias, como é o caso dos ventiladores mecânicos, entre outras, e quais não terão tal direito, simplesmente porque não haverá equipamentos suficientes para todos. A situação italiana prima pela tragédia, mas pelo menos suscitou a elaboração de recomendações éticas para admissão a tratamentos intensivos, ou sua negativa, nas condições excepcionais de desequilíbrio entre necessidades e recursos disponíveis como se vê agora, conforme documento emitido pela Società Italiana di Anestesia Analgesia Rianimazione e Terapia Intensiva (Siaarti). Dramáticas escolhas de Sophia, sem dúvida, que ofereço agora aos meus leitores em tradução amadorística, mas sem dúvida, melhor do que nada. Nada indica que aqui em nossa cidade as coisas sigam de maneira diferente disso… Continuar lendo “Pandemonia (5): Escolhas forçosas…”

Pandemonia (4): Frágeis, demasiadamente frágeis…

BRUEGELTempos difíceis estes de coronavirus, sem dúvida. Mas no meio de tanta incerteza, de tantos temores, vamos nos consolar com a oportunidade que estamos tendo, nós todos, de podermos refletir um pouco sobre nossas vidas, sobre nossa condição, sobre o que será de nós depois que tudo passar (porque vai passar!). No deserto da quarentena, sem dúvida, é possível encontrar algum oásis. Eu, por exemplo, tento fazer isso. Quando nada, ocupo meu tempo e até mesmo, em termos práticos, chego a encontrar algumas possíveis iluminações sobre o modo de vida com o qual chegamos até aqui. Que desconfio talvez se perpetue. Ou, pelo menos, que a vida de agora em diante não será exatamente a mesma do que foi até agora. Mas uma coisa é certa: somos (ou estamos) demasiadamente frágeis… Continuar lendo “Pandemonia (4): Frágeis, demasiadamente frágeis…”