Todos os homens são mortais

Meu tio Geraldinho. Ia fazer cem anos não demoraria muito. Quanto tempo? Ele saberia ao certo, mas não revelava,afirmando apenas ser coisa de um ano, talvez dois ou três. Mas a verdade é que ele já estava bem velhinho: velho pra burro, como ele dizia.

Nunca se casou, pelo menos pelo que se sabe. Há notícias de uma antiga namorada, a quem ele teria prometido casamento durante anos, décadas segundo alguns, mas que casamento mesmo não houve. Mas sempre afirmou – e continua afirmando – que gosta mesmo é de mulher. Um primo dele (e de meu avô), o Juca, confirmava isso até certo ponto, quando me disse, muito tempo atrás, porque este aí há muito se findou, que Geraldinho em seus bons tempos era o Rei da Zona na terra deles. Mas isso é coisa a ser confirmada. Ou melhor, a ser esquecida, quem é que se importaria com a veracidade de tal fato nos dias de hoje, quando já não estão vivos quaisquer dos conviventes dessa época, dos dois lados do balcão da tal zona?

Ele foi funcionário do Banco do Brasil a vida toda, levando a vida de funcionário correto e regular de cidade em cidade, ao sabor das pouco flexíveis diretrizes da empresa. Não era, entretanto, um daqueles indivíduos neurotizados pelas rotinas bancárias, ao contrário, levou a vida como bon vivant, como muitas viagens no país e fora dele, bons vinhos na prateleira, alguma prática de esportes nas AABB, além de consumo habitual de cinema, teatro e, sobretudo, livros, com especial apreço pela poesia. Seu apelo institucional era tal que continuou a frequentar as instalações do trabalho no BB por dois ou três anos depois da assinatura de sua liberação oficial.  

Geraldinho teve a sorte – ou o azar segundo ele – de ter recursos para pagar o que ele chama de asilo, melhor dizendo, uma boa casa de repouso aqui na cidade. E já se vão quase meia dúzia de anos que ele lá está, segundo sua peculiar interpretação: entregue às baratas, com o problema adicional de nem essas o desejaram mais. 

Eu me lembro dele na infância, quando ele nos visitava com alguma constância. Depois mudou de cidade e quase desapareceu de nossa vista. Sabíamos dele ocasionalmente, em suas passagens pelas diversas cidades para onde era transferido, cada vez maiores e mais centrais, até que se aposentou na sede do BB em Brasília. Um dia o descobri asilado nessa Casa Bom Pastor, aqui na Capital, onde passei a visitá-lo de tempos em tempos. Não o faço por caridade, apenas por simpatia, porque realmente gosto da prosa dele, que me ajuda a compensar certa nostalgia que me persegue, a de ser filho único, membro de uma família reduzida, com pai e mãe já falecidos.

Recentemente ele me pediu para pegar uma mala velha e ensebada guardada por cima do prosaico guarda-roupas do quarto que ele ocupa na tal casa de repouso. Dentro dela uma daquelas velhas caixas nas quais vinham embaladas as camisas sociais em priscas eras, a qual ele pegou com cuidado, pois estava prestes a desmanchar, se não pela idade, por conta conteúdo pesado que continha.

– O que é isso, meu tio?

– Meu filho, prestatenção: são coisas que registrei durante toda a minha vida e agora queria que alguém desse uma lida, antes de jogar fora ou tocar fogo.

A caixa estava cheia de papéis, pelo jeito, manuscritos ou datilografados.

– Não vou botar fogo, tio, não se preocupe.

– Se depender de mim, não faço questão, toca fogo logo. Desde que dê pelo menos uma olhada antes. E que venha conversar comigo sobre o que vai ler.

E foi assim que esbarrei com o que vai escrito aí em seguida. Acompanhem. A ordem não é a mesma que estava na tal caixa, até porque ali não havia ordem nenhuma. Da mesma forma, nem tudo o que estava lá está transcrito aqui, apenas peguei, por enquanto pelo menos, as anotações dentro de um determinado tema, que os leitores logo saberão qual é. 

 ***

Fala Geraldo Matos…

<<Caramba, 90 anos! Noventa, que conta nojenta… Nunca achei que ia viver tanto tempo assim. Eu me daria satisfeito de chegar aos 70, com a vida que tive, mudando de trabalho e de cidade a cada ano, pegando bois pelos chifres, trabalhando com gente de toda espécie, varando madrugadas na gandaia e às vezes também no batente. Mas quisesse eu ou não, cheguei até aqui. Eu que achava que os 80 eram limite mais do que razoável, já que tinha passado dos 70, hoje me vejo com 90 e o meu medo é o de prosseguir, além disso.

Mas antes disso, que Nossa Senhora da Boa Morte, não se esqueça de mim!

Minha situação fica ainda pior quando às vezes dou uma passada no Bar do Zé, em minha cidade, que frequentei desde a juventude e ainda existe. Melhor dizendo, lá não está mais nem o Zé nem o filho do Zé, porque os dois já se foram substituídos por um Afrânio, vulgo Bunda Seca, que nem parente deles é, apenas arrendou o ponto. Ali, nas minhas idas bissextas, eu sempre encontrava uns conhecidos, gente da minha idade, adeptos de uma cervejinha e uma prosa nos finais de tarde. Mas agora, qual! Não tem mais ninguém, nem para dar notícia de quem morreu ou está para morrer, como acontecia até há algum tempo atrás. Quem chega pode até pensar que estão todos bem, mas essa não é a verdade, todos morreram, não sobrou ninguém daquele tempo.

Mas não me queixo, quem chega aos 90 anos, aliás, só pode se queixar é de ter vivido muito, não de ter vivido pouco, como meu pai, que com 88 ainda desejava ter muito mais pela frente.

Mas eu não. Para que viver tanto? É o que eu sempre me pergunto. Tens uns que chegam e quando ficam sabendo da minha idade atual fazem o comentário: – mas que legal, que bacana! Me dá vontade de lhes dizer caralho, eu sei bem o que é isso, de bacana ou interessante não tem nada.

E a tal de prova de vida? Antes era a gente mesmo que ia ao banco ou a uma repartição, falava com uma pessoa e demonstrava isso, provando que estar ali era o mesmo que estar vivo. Agora, é uma máquina que atesta isso, como se um aparelho eletrônico pudesse provar ou negar isso. Isso aí é meu sobrinho Gabriel é que me explica como faz, eu não mexo com essas coisas. Acho que prova de vida deveria se chamar diferente: confissão de vida. Sim, isso mesmo, você chega no guichê ou na máquina e declara, solenemente, sem conseguir disfarçar a vergonha que lhe tomou: – desculpe, mas estou vivo, por enquanto, mas na próxima oportunidade vou tentar dar um jeito de resolver este problema.

Sim, chega um momento em que viver se transforma num problema – e eu sei bem o que é isso. A prova sou eu.

As pessoas celebram o aumento da esperança de vida; aqui no Brasil., dizem, logo chegaremos aos 80 anos. Isso significa que eu já ultrapassei em 10 anos tal faixa. Se fosse no trânsito eu seria multado… Pra falar a verdade, prefiro o modo de antigamente, quando a gente nascia, crescia, fazia sua vida, depois murchava, se despedia e pronto. Era bem mais simples. Ninguém ficava neste negócio de ficar fazendo hora extra por anos, décadas. Isso cansa, né?

Além disso tudo, estar velho tem outros senões. Por exemplo, essas pessoas, geralmente mulheres, que hoje em dia gostam de repetir: – não acredito! Você nem parece tão idoso! Que gracinha!

– Olha aqui minha filha: gracinha é quem você quiser, ou quem te queira, mas me poupe, tá bem? Ficam achando que velho e bebê é a mesma coisa. E podem me chamar de velho mesmo, este nome idoso é um tanto cafona. Agora, se me colocarem na tal terceira idade ou idade de ouro periga eu matar. Comigo não.

Há um problema muito sério nas mulheres, em algumas delas pelo menos, com os velhos. Tem aquelas que acham que somos bebês, como as que falei acima. Outras que você não pode fazer uma gentileza, por exemplo, ceder o lugar numa fila (às vezes não custa nada fazer isso), que acham que você está passando uma cantada nelas. Outras – e há muitas delas por aí – que acham que um velhote está sempre em petição de miséria sexual e se insinuam, mas de olho em algum numerário. E tem uns otários que caem nisso. Como dizia meu pai: a penúria é má conselheira. Mas eu graças a Deus tenho resistido.

Deve ter umas mulheres legais também, difícil é saber onde elas se escondem.

Ai meu Deus, como o tempo passa… Lembro-me muito bem da primeira vez que alguém se referiu a de mim como aquele senhor grisalho. Quando vi que era comigo, levei o maior susto. Parece que foi outro dia mesmo, mas já se vão pelo menos 40 anos. Curioso é que no começo da velhice a gente estranha e até rejeita os guichês especiais, as preferências nas filas e coisas assim, pensando que afinal ainda não estaríamos na idade para tais benefícios. O mesmo acontece com as dentaduras. Pouco tempo depois a gente se acostuma. Mais um tempinho e a gente muda de opinião, não sei se evolui, mas fica puto da vida quando alguém nos nega um lugar no ônibus ou passa na nossa frente na fila do banco. Que coisa!

Mas tem coisa que eu continuo resistindo: viajar de graça nos ônibus, por exemplo. Ora, deixem isso só para os que não podem pagar os trocados da passagem! Não é o meu caso! Eu faço sempre questão de pagar, mas às vezes isso me traz maiores contrariedades, pois alguém que não tem nada a ver com a história sai lá do último banco da condução para me convencer a não pagar, porque afinal é um direito meu etc e tal. E eu não sei disso? Não posso ter o direito de recusar este benefício que eu não pedi a ninguém e penso que não tem cabimento no meu caso?

Impressionante como não se cansam de nos elogiar pela idade a que chegamos, como se isso fosse uma grande vantagem, o resultado de uma virtude pessoal, não de uma determinação da natureza sobre a qual não temos muito controle. Mas dá para reparar: só elogia a velhice (dos outros) quem não a experimentou em si mesmo. É isso aí, ninguém jamais verá um velho dizendo para o outro: – Poxa, você é demais, que maravilha ter chegado a esta idade. Parabéns!

Ah, o que é ser velho? É olhar cada banheiro como se fosse o derradeiro antes do juízo final, segurar uma mijada até a último momento e quando se julga finalmente vencedor da porfia e só então se perceber de cueca molhada – para não falar de coisas ainda piores. Cruz credo!

Agora falando sério: sinceramente, acho muito chato ter vivido tanto assim. Isso é um desperdício! Quem paga INSS ou mesmo um plano de saúde privado deveria saber que a longevidade de uns somente serve para comprometer a sobrevivência e o conforto de outros. Deveria haver uma cláusula relativa à desistência, tanto de pagar o plano como de continuar a viver. A gente pode desistir de tanta coisa… De um casamento, de uma opção política, de uma amizade, de um plano de saúde ou seguro de vida. Por que não podemos desistir de viver? Não seria este o verdadeiro problema filosófico da humanidade? Será que é somente eu que penso assim?

Direito à vida? Por que não se fala do direito à morte?

Sim, Direito à Morte! Algo que deveria depender apenas de apertar um botão, mais um dispositivo ao serviço do cidadão, como o Na Hora e a expedição da carteira de identidade. Aliás, isso poderia vir acrescido da instituição das férias conjugais, a cada um ano ou um pouco mais, para que as pessoas talvez se cansem um pouco menos das rotinas de um casamento.  Nessas ocasiões seria de bom tamanho também a criação de Erópolis, cidades do prazer sem culpa, onde os cidadãos poderiam aproveitar seu tempo quando estivessem no gozo (!) de seus períodos de tais férias.

Alguns países quase estão chegando lá, pelo que sei, como a Suíça. Se os suíços já chegaram lá isso é sinal que demorará chegar por aqui, mas tudo bem, a esperança é a última a nos abandonar. Mas mesmo nesse mundo evoluído, ainda assim eu me pergunto em estado incontido de rebeldia: por que Promotores e Juízes podem decidir tais coisas, mas não as pessoas a quem mais interessa tal assunto. Não dá para aceitar.

Mas taí… Muitos mantêm poupança para o final da vida, para pagar tratamentos caros, recurso aos melhores médicos e hospitais, coisas assim. Se depender de mim, transformaria tudo isso em uma viagem à Suíça, com a vantagem de que seria só de ida. Para voltar, posso usar o correio.

Entretanto, ao contrário do que alguns poderiam pensar ao ouvir meus argumentos, eu não amo a Morte. Não! Eu amo é a Vida! E é por estimar tanto esta valiosa propriedade do carbono, do hidrogênio e do oxigênio, cedida a mim apenas por empréstimo, que tenho o desejo de transformar a Morte, que a esta se sucederá, sem apelação, em algo natural e até saudável. Acima de tudo, que a minha vida tenha um desfecho digno, aliás, não só para mim, como para todos que estiverem ao meu redor. E mais importante ainda: que o tema da Morte não cause repulsa e afastamento a ninguém, ao contrário, é preciso pensar nela nem que seja para escapar do verdadeiro infortúnio que é uma má morte. Sim, porque a meu ver existem boas e más mortes.

Suicídio? Podemos nomear assim, mas será uma coisa voluntária e assistida, para que não haja sofrimento desnecessário ao paciente, digamos assim. Mas além de algo voluntário e assistido, vamos combinar: isso será também um gesto profundamente altruísta, já que derivado da consciência de alguém que não deseja sofrer e muito menos que quem está a seu lado sofra. Ah, sim, e que evite que as famílias ou mesmo o SUS gastem uma fortuna para promover aquela tosca imitação de vida encenada nas UTI dos hospitais.  

Os desejos dos indivíduos não podem se sobrepor às necessidades da sociedade como um todo. Muitas pessoas não cedem suas vidas em prol da sociedade, como no serviço militar, sendo isso bem aceito em toda parte? O que defendo não se trata de egoísmo nem de covardia, portanto. Então, é o seguinte: a longevidade não é uma graça, mas sim um baita castigo, não só para quem a experimenta no corpo, mas para a sociedade como um todo.

A questão real não estaria, jamais, entre viver e morrer, mas sim na escolha entre uma boa e uma má morte

Você que me lê, especialmente você, meu querido sobrinho, tem medo disso? Sinto dizer, não lhe faço companhia, pois eu não tenho este tipo de medo. Se alguém tiver que chorar que seja pelos que não podem ou não conseguem reunir coragem para tomar esse tipo de iniciativa.

Tenho certeza que em futuro não muito remoto a sociedade humana vai evoluir, deixando as pessoas que querem ir-se embora fazerem isso sem culpa e sem burocracia. Se exonerar da vida do jeito que a gente deseja deveria ser apenas um direito, nada mais…

“Todos os homens são mortais”, este é o título de um livro lido por mim há muitos anos atrás, que me marcou, aliás. Quem escreveu foi Simone de Beauvoir, a companheira de Sartre. Acho que foi através dele que comecei a perceber que a imortalidade não só é impossível, mais do que isso, é uma sorte da humanidade que ela não exista, pois seria um castigo, o maior de todos os males que afligem os homens. Por extensão, a longevidade está a maio caminho de tal terrível situação. Quando as pessoas viviam 30 anos no total, longevidade, claro, não era problema, mas agora como a expectativa é de décadas a fio, estamos conhecendo um lado aziago da vida, aqueles anos que sobram depois que a gente já fez o que tinha que fazer. Não houve um Prometeu que resolvesse tal questão até hoje, cabe assim a cada pessoa resolvê-la, à sua própria maneira.

Sabem daquele princípio lógico que avisa: todos os homens são mortais e que se Geraldo é um homem, logo Geraldo é mortal? Pois é: seria o caso de obedecê-lo com mais rigor. Geraldo está contente com a vida que teve até agora; Geraldo não deseja mais nada; deixem Geraldo ir descansar em paz.

No limite, a imortalidade implicaria a travessia de séculos a fio, o testemunho da passagem monótona do tempo, a ascensão e a queda das civilizações, dos babilônicos aos americanos do Norte, para não falar da morte dos entes queridos. Castigo maior não poderia existir, isso seria uma verdadeira maldição. Por muitos menos do que isso, ou seja, por ter vivido quase um século, penso que a finitude, na verdade, é o que realmente dá sentido à vida humana.

 ***

Agora é comigo, Gabriel, o sobrinho…

Neste ponto se encerra a arenga de Geraldinho sobre a morte. A sua própria morte, pelo menos.

Havia, entretanto, mas um detalhe: um envelope que tinha meu nome na frente. É claro que eu o abri quase que de imediato, mas deixarei para revelar o conteúdo, um tanto previsível mais adiante.

Antes preciso dizer que aquelas palavras me tocaram no fundo da alma, por várias razões. Eu tinha perdido minha mãe ainda na adolescência e a morte dela me afetou muito, naturalmente. Meu pai, Fulgêncio, irmão mais novo de Geraldo, morrera havia poucos anos, depois de enfrentar um câncer que foi lhe destruindo, célula por célula e fibra por fibra, durante dois terríveis anos, em que nossa casa se transformou num quarto de hospital, de forma a deixar marcas e odores que lá persistem até os dias de hoje.

Isso tudo para dizer que a morte, para mim, sempre fora um assunto sério e marcante. E pelo visto, preparava-se para voltar ao cenário de minha vida.

Tio Geraldinho tinha razão… Em um primeiro momento, suas decisões foram para mim uma interrogação, mas logo se transformaram em afirmativas taxativas, das quais quem era eu para discordar.

Para mim estava claro: direito à vida é algo inquestionável, as pessoas devem dispor dele e acho normal que seja assim. Penso, todavia, que há uma diferença profunda entre direitodever quanto a isso. A consequência é que cada um seja um protagonista essencial nas decisões sobre a maneira que deseja conduzir a etapa final de sua vida, ou seja, o direito de viver jamais deveria se transformar em dever de continuar vivo, contra a própria vontade. A vida, afinal, tem que ter sentido, cabendo a cada um definir e vivenciar tal qualidade, à sua própria maneira. Ou rejeitar isso, quando sentir que os acontecimentos escapam de sua concepção de bem viver.

Não. Não creio que trate de amar a morte ou desejá-la. Mas bem que as pessoas, dentro dessa sociedade que idolatra certas coisas, entre elas a total falta de sentido na vida, não refugue o debate sobre os fatos que rodeiam o fenômeno de estar vivo, que pode ser uma graça ou uma desgraça.

A gente tem que dialogar sobre isso com a família, os filhos, sobrinhos, os iguais enfim, sem preconceitos e ideias pré-concebidas, sem medo, como etapa natural da existência. É isso aí: a morte deveria ser “vivida” de acordo com as aspirações e crenças de cada um, como uma questão que se atem, acima de tudo, à liberdade e à autonomia das pessoas.

Não se trata de uma questão de simples destino, ao contrário deve ser considerada direito humano fundamental, a ser experimentado com dignidade, de forma que ninguém seja constrangido a continuar vivo sendo portador do que considera um grau insuportável de sofrimento. Tio Geraldo está totalmente certo.

Por que não falar de uma real boa morte, em cujo cortejo estariam a manutenção da autonomia, a autodeterminação, a dignidade e, no limite, alguma forma de morte voluntária, incluindo-se nisso a recusa às intervenções médicas, ou seja, aquelas “heroicas” experimentações terapêuticas, funestas e invasivas iniciativas que apenas prolongam o processo de morrer.

É como disse alguém, não me lembro quem agora: não tenho medo da morte, tenho medo é de morrer. Sim o terrível ato de morrer que foi roubado dos homens pelo direito, pela religião, pela medicina.

Em seu bilhete, em poucas linhas Geraldo Matos diz o essencial:

Gabriel, pelo muito que lhe estimo e que tenho certeza ser recíproco de sua parte, lhe peço que não me deixe ir para um hospital, caso adoeça. E se por acaso chegar lá, peço sua atenção: não me submetam a quaisquer meios invasivos de suporte artificial de funções vitais, bem como a medidas de alimentação e hidratação e outros procedimentos artificiais de sustentação da vida e que apenas visem retardar o processo natural de morte. Deixem longe de mim aqueles tratamentos que se encontrem em fase experimental, investigação científica ou ensaios clínicos. Se meu velho coração parar, por favor não tentem qualquer tipo de reanimação, bem como uso de respiradores, hemodiálise, alimentação por sondas e mangueiras etc. E não deixe comprometer a reserva financeira que eu penosamente amealhei em vida, permitindo durante minha eventual internação, apenas a assistência garantida por meu Plano de Saúde. Finalmente, correndo o risco de estar chantageando você, acrescento: essa reserva pode ser importante para você, Gabriel, a quem faço meu único herdeiro. Você é um cara responsável, lutador, honesto, tem cuidado de mim como o filho que não tive. Você bem o merece.

Mas pode se esquecer tudo isso se realizar meu último desejo: eu tenho um contato de uma pessoa que disponibiliza uma pílula milagrosa, que interrompe o mal estar da vida com uma única dosagem, sem efeitos colaterais de nenhuma espécie. É a mesma que é aplicada nas clínicas da Suíça. Não usemos a palavra suicídio: é muito feia. Você não precisa saber que subterfúgios eu utilizei para chegar a este contato, mas ele é efetivo e muito confiável, posso garantir. Basta ligar neste número e uma pessoa lhe orientará. Eu já testei e deu certo, só não completei o procedimento porque a entrega do produto exige uma viagem que minhas condições atuais não permitem fazer.

Fique bem.

 ***

E agora? O que me caberia fazer diante de tal pedido? Nem me questionei, teria que atender, mas não seria tarefa tão simples, era preciso me preparar. Eu precisava de tempo.

Acabei ganhando este tempo devido a percalços ligados à minha saúde. Eu estava com uma série de consultas e exames marcados e só gostaria de voltar a visitar o tio Geraldinho depois que pudesse lhe adiantar alguma coisa sobre os procedimentos.

O número de telefone que ele me passara não atendeu na primeira chamada, mas uma gravação que me pareceu formal e profissional avisou que eu deveria tentar de novo dentro de dois dias. Achei curioso que fugiu daquela forma habitual: nós entraremos em conato novamente.

Na verdade, deixei passar mais uns 10 dias. Será que eu tinha medo de executar tal tarefa? Pode ser que sim.

Na nova chamada, consegui conversar com uma máquina, que me pediu meu endereço de e-mail e que aguardasse a resposta. Desta vez agi conforme o que me foi solicitado.

Passados mais alguns dias me veio um formulário, que respondi, com questões relacionadas à minha idade e ao meu estado de saúde. Tive que esclarecer que falava em nome de Geraldo, mas logo fiquei sabendo, sempre por mensagem, que o contato deveria ser direto com ele. Providenciei isso na visita seguinte ao tio, que ocorreu uma semana após este evento. Não acompanhei de perto a interação dele, mas parece ter sido com alguém de carne e osso, o que ele me confirmou depois. Foi uma entrevista longa, de pelo menos 40 minutos, que não consegui acompanhar e ele também não me deu detalhes. No encerramento, pediram que ele indicasse alguém de confiança e foi nesse momento que meu nome entrou formalmente em cena.

Passados poucos dias uma mensagem escrita, por e-mail, me avisou que a partir de certo dia o “material” estaria à minha disposição em local a ser comunicado posteriormente, na cidade de São Paulo. E eu teria que estar lá para recebê-lo. Detalhes me seriam fornecidos apenas no dia da entrega do “material”.

Eu me preparei e fui.

Quando lá cheguei já havia outra mensagem em meu celular: a partir de tal hora, na praça tal, debaixo do banco assinalado no mapa anexo, estaria um envelope amarelo em nome de Geraldo Matos, que eu deveria pegar dentro de no máximo 20 minutos a partir da hora aprazada. Algum tempo depois uma foto do envelope e do banco. Como meu tio já havia me avisado, o pagamento já tinha sido feito previamente por ele.

Deu tudo certo, mas curiosamente ao pegar aquele envelope senti um leve disparo no coração.

No dia seguinte da volta para casa, já aguardando uma nova série de exames e uma atualização no consultório do médico que me acompanhava, pude finalmente encarar de frente a situação – a minha situação. Eu tive um desmaio, ou algo assim, com suores frios e um mal estar devastador. Até então o que eu sentia eram coisas mais vagas, mas que dirigiam minha atenção para as vias urinárias. Tendo um pai vitimado por câncer de próstata, é claro que tal diagnóstico estava no horizonte e me aterrorizava.

Não deu outra. A série de exames, inclusive de imagens, que eu havia feito antes de viajar confirmara: era um câncer prostático, inclusive com prováveis metástases ósseas.

Uma coisa de cada vez, pensei, preciso primeiro cuidar de Geraldinho. Fiquei no maior aperto, postergando o contato com meu tio, porque o Dr. Castanho resolveu me internar para completar uns exames e começar o tratamento. E assim se passaram mais 10 dias. Pelo menos consegui deixar recado por telefone na portaria do Bom Pastor, para que Geraldinho, que se recusava a usar celular, soubesse dos novos acontecimentos. Pelo menos isso pude transmitir a ele.

No dia seguinte à minha alta, corri para vê-lo. Corri é modo de dizer, pois na verdade eu sentia dores atrozes na coluna e o fôlego me escapava. Já na portaria percebi que alguma coisa grave tinha acontecido. A enfermeira chefe me chamou num canto e me deu a notícia: Geraldo Matos vinha definhando progressivamente e durante a última noite entregara os pontos, em silêncio, como era de seu feitio. Em um guardanapo amassado deixara um bilhete, destinado a mim, mais direto e objetivo, impossível: – valeu, Gabriel, você me oferece a maior prova de amizade que alguém pode dar a um amigo!

 ***

Missão cumprida? Ainda não. Resta agora resolver o meu problema e assim pude perceber que meu estimado tio, sem o querer formalmente, colocara ao meu alcance não alguma faca e queijo, mas meia dúzia de benfazejos comprimidos rosados. Ele me deixa uma herança razoável, daria até para comprar um apartamento pequeno ou um carrão esportivo. Nada disso faz sentido agora, eu não preciso de nada assim tão material. A verdadeira prova de amor que se cumpre através da herança de tio Geraldinho, embora não exatamente intencional, é este pequeno e inocente envelope, dentro do qual posso sentir a existência de algumas pílulas, não aquele monte de dinheiro em uma conta bancária.

Deixe um comentário