Boi voador, pode?

BOI VOADORNa internet, pode.

Aliás, pode muito mais…

Nesta esfera bois voam, galinhas fazem cálculos, vacas são cruzadas com tomates, a zika adquire novas e insólitas formas de propagação, o chá de barata seca é santo remédio para Alzheimer e por aí vai…

O pior é que tem gente que acredita. Pior ainda são aqueles que propagam.

Há tempos, por ocasião da tragédia pluviosa de Nova Friburgo, circulou na rede a opinião de um emérito especialista em catástrofes naturais que acabara de chegar da Rodésia para dar assistência à defesa civil no Rio de Janeiro. E o tal especialista não deixou por menos: o número de mortos deveria ser pelo menos dez vezes maior do que o anunciado pelas autoridades. E tome alarme nas redes sociais! E tome pancadaria nos governos, que nunca sabem de nada e só atuam para nos sacanear! O que ninguém notou é que a tal “Rodésia” era um país que deixou de existir desde os anos 90… Mais falso que o país só o tal especialista. Mas ninguém viu. Aliás, nem o meu corretor ortográfico aceita a palavra Rodésia…

Há poucos dias, vimos na uebe a espantosa notícia de que em algum lugar do Brasil a Câmara de Vereadores iria votar uma lei que proibia a amamentação em público! Não que vereadores, no Brasil, não cometam besteiras semelhantes, ou até piores. Mas era mentira. E foi tomada como verdade semanas a fio, mobilizando um sem número de militantes feministas e outros pelo Brasil a fora.

Militantes, como todo mundo sabe, são aqueles seres que tomam a parte pelo todo e a partir dela constroem um universo. O militante típico, diante de uma notícia estapafúrdia, toma a seguinte decisão: “se for a favor de meu credo e minha corrente, propago; se não for, denuncio.” Não entro no mérito da questão, para não adentrar ao pantanoso território da batalha entre petralhas e coxinhas, onde tais exemplos pululam.

Sobre o desastre de Mariana o “pode tudo” assumiu proporções catastróficas, maiores mesmo que o mar de lama. Na época, modestamente percebi que era preciso que passassem três ondas, pelo menos, antes de saber a verdade verdadeira: a de lama em si, a de sensacionalismo e achismo e a de politicagem. Mas ainda hoje, pelo visto, está difícil garimpar a verdade neste aluvião.

Leonardo Sakamoto, o jovem e culto jornalista da Folha de S. Paulo nos revelou outra faceta perversa desta tal onda, que também é de irresponsabilidade. Disse ele: <<A maioria das pessoas nunca checou a informação que consome. Mas, antes, a procedência era de veículos, grandes ou pequenos, tradicionais ou alternativos, que davam a cara para bater, garantindo transparência ao informar quem fazia parte de suas equipes e sua visão de mundo. Esses veículos são bons, honestos e ilibados? Não necessariamente. Mas, ao menos, podem ser questionados judicialmente em caso de propagação de mentiras. … Para muitos leitores de contas em redes sociais e sites anônimos, não faz diferença se uma informação é verdadeira ou falsa, não faz diferença um esforço hercúleo de reportagem para descobrir se um fato procede ou não. Quando o conteúdo vai ao encontro do que essa pessoa acredita, ela não se importa se é mentira ou não e vai abraçar o argumento e difundi-lo.>>

E cita seu caso pessoal, vítima de uma manchete mentirosa dizendo que havia chamado os aposentados de “inúteis”, baseado em uma entrevista falsa, que os próprios responsáveis reconheceram ser falsa. E aí, ele foi vítima de agressões de velhinhos até na padaria de seu bairro, para não falar na uebe, onde ele foi até ameaçado de morte.

Mais uma vez, abriu-se o travesseiro de plumas na torre da igreja e agora o problema de catá-las não é mais de quem subiu as escadas para fazê-lo.

O pior é que não vejo solução para coisas desse tipo. São sintomas de uma modernidade decadente nas relações humanas. O empuxo para a barbárie é evidente. O que chamamos de civilização parece soçobrar, quando para muitos parecia que o pior já tinha acontecido com o nazismo, Hiroshima, Pol Pot…

Eu fico com São Tomás de Aquino, que disse aos noviços que zombavam dele por ter sido crédulo o bastante para sair ao terraço do Mosteiro para observar tal espécíe alada, de acordo com notícia que lhe traziam os jovens, por troça: “mas eu prefiro acreditar que bois sejam capazes de voar mais do que pensar que vocês seja capazes de divulgar uma lorota dessas”.

Quem nos salvará?

(E para quem se interessar pelo debate de Sakamoto vai o link: http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2016/02/13/cinco-passos-para-criar-um-meme-e-difundir-uma-mentira-pela-rede/)

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