13 de março: a lição das ruas

AVENIDA PAULISTAO fatídico treze de março chegou e passou. Ninguém matou, ninguém morreu; ótimo! Ou melhor, há uma vítima inconteste: a verdade. Os dois lados em confronto se esmeram em espezinhá-la e abatê-la a bons golpes de palavreado. “Coxinhas” veem nesse dia a virada do país em direção a um futuro radioso, com a expulsão de Dilma e do PT do cenário nacional. Já os “Petralhas” divulgam que as tais passeatas só contaram mesmo com a presença de madames e cidadãos abonados e que nem foram tão concorridos assim, Uns e outros desqualificam os argumentos colocados em cena pelo campo oposto, com total desfaçatez.

Eu, que desconfio e rejeito as unanimidades (já escrevi até um livro sobre isso, com foco na saúde), tenho iguais razões para desprezar esta sua filha dileta – a polarização opinativa. Aliás, confesso que tenho certo birra dos chamados “militantes” (de qualquer causa), que tendem a enxergar o mundo através de pedacinhos e considerar o todo pela visão apenas de uma das partes escolhidas como alvo de sua simpatia. Estou exagerando?

Pois bem, as ruas realmente estiveram cheias de gente, não importa se mais ou menos do que em datas anteriores. Pessoalmente acho que dessa vez o número de pessoas nas ruas foi maior, mas não é bem o que pensa um dos lados da contenda. Deixa pra lá…

Assim, arrisco-me a divulgar aqui o que me parece ser algumas conclusões importantes, verdadeiras lições daquelas horas marcantes da história brasileira. “Marcante”: estejamos de um lado ou do outro penso que devemos assim considerar o dia 13. Aqui vão elas, por minha conta e risco, naturalmente.

  1. Existe sociedade civil no Brasil – e ela pulsa. Não venham me dizer que tanta gente nas ruas estava ali “de alegre”. Afinal, que poder seria esse da Rede Globo ou dos jornalões, capaz de tirar tanta gente de casa em pleno domingo, para horas e horas de caminhada e espera sob o sol de verão?
  2. Quem foi às ruas não é uma multidão amorfa de alienados. As tais “madames”, gente abonada e apelativos congêneres são termos que apenas desqualificam aqueles milhões de pessoas que foram às ruas em muitas cidades no Brasil. Elas merecem mais respeito, embora algumas de suas reivindicações possam não ser claras, na melhor das hipóteses, ou conservadores e retrógadas, na pior delas.
  3. Ser da classe média não é nenhum defeito. Madame Chauí detesta o segmento médio da sociedade e atribui a ela todas as desgraças do País, desde o estacionamento em fila dupla até a furada de fila nos bancos. Será que a professora pertence à classe alta? Operária, certamente, ela não é. Em todas as sociedades é este segmento que vai às ruas, que reclama dos impostos, tem medo de mudanças que não compreende e quer mais segurança, saúde, emprego. Há alguma novidade ou malefício nisso?
  4. Ser contra a corrupção é um valor que não deve ser relativizado. Sem essa de contemporizar os desvios com o suposto “lado bom” dos governos recentes, que tiraram milhões da miséria etc. Primeiro, isso é o resultado de um acúmulo histórico. Segundo, melhor teriam feito os governos petistas sem os correspondentes mensalões e petrolões, embora deva se admitir que não foi o PT que inventou estas patranhas…
  5. O governo Dilma de fato agoniza. Vamos que o impeachment não ocorra. Ou que a presidente não renuncie. Golpe certamente não haverá, pelo menos na vertente militar clássica. Renúncia? Quem sabe… O que teremos, de agora até 2018, na pior das hipóteses, é um zumbi isolado no Palácio do Planalto, agarrado com as unhas e dentes que lhe sobrarem a alguma “base de apoio” – nem “base”, nem “de apoio”, verdadeiramente.
  6. Redução de danos; nenhuma tentativa de “reinvenção”. Quando não há mais nada a fazer pela saúde do paciente, não é mais possível salvá-lo das drogas ou do câncer, por exemplo, a boa prática médica é oferecer suporte, seja com seringas esterilizadas, tratamentos paliativos, alimentação balanceada. Isso vale para governos terminais, também. Que não venham com “pactos” espetaculares, reengenharias e outros fogos de artifício (Lula ministro é um bom exemplo). Ninguém mais aguenta… Mais uma vez, a renúncia, como aceitável “auto-eutanásia” pode ser uma boa saída.
  7. Não há santos no cenário. Aécio e Alckmim provaram de seu próprio veneno na Paulista. Bolsonaro teria sido aplaudido em Brasília, mas isso apenas por enquanto… Lula já disse que está disposto a assumir sua porção botrópica. , Dilma tenta dizer e tropeça na sintaxe. Cunha, Temer e Renan nem precisam dizer nada…
  8. Partidos políticos não têm mais nenhuma importância. Alguém duvida disso? Desde junho de 2013 estão atordoados. Chegam atrasados e não têm o que dizer. Aliás, já não conseguem nem mesmo dizer alguma coisa – as vaias os fazem calar. Uma breve sobrevida está sendo dada a eles, por ainda se constituírem em agentes legais de um eventual impeachment. Não fosse por isso, seriam cartas totalmente estranhas ao baralho.
  9. O que está para vir pode ser pior do que o que se tem agora. Por enquanto, é tempo de missa de corpo presente. Depois virá o sétimo dia. Depois, ninguém sabe. O que está ruim pode ficar pior, sabedoria antiga muito próxima à realidade atual. É esperar pra ver…
  10. A porteira está aberta para salvadores da pátria. Moro, Moro, Moro… É o grito das ruas agora, como um dia foi Joaquim, Joaquim, Joaquim. Como dizia Brecht, infeliz do povo que precisa de heróis…
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5 comentários sobre “13 de março: a lição das ruas

  1. Muito bom Flávio, a sua leitura das manifestações das ruas do último dia 13. Agora é esperar para ver como o Governo e os partidos políticos irão reagir a elas. Espero que as reações sejam mais corajosas do que a pífia nota oficial emitida pelo Palácio do Planalto na noite de domingo.

  2. Meu ponto de vista talvez não difira muito do ponto de vista do
    artigo publicado, mas vou tentar expô-lo aqui. Pelo menos espero que
    se houver apedrejamento que seja com um bom e quente carinho
    familiar. 😉

    São tantos os pontos a serem abordados que nem sei por onde
    começar. Não sei nem se tocarei em todos. Mas, para não dizer que não
    falei das flores, vamos começar pela mídia.

    Que me perdoem os puristas da comunicação, mas o negócio da mídia é
    no final das contas propaganda. O negócio é faturar. Huumm?… O
    que tem de errado nisso? Nada. Afinal o que tem de errado em um
    martelo bater na cabeça de um prego se é para isso que ele serve. Uma
    empresa tem que faturar mesmo, senão não sobrevive. Estou falando nos
    casos normais, não envolvendo lavagem de dinheiro.

    Voltando ao ponto principal, o negócio da mídia é propaganda.
    Propaganda, ao fim e ao cabo, é uma técnica(?) de mudar opinião e
    tornar o produto, explícito ou implícito, mais consumido, aceito e, se
    possível, único do tipo a ser consumido.

    O que a grande mídia tem feito nos últimos meses(anos?), toda vez que
    fala a palavra “corrupção” fala “PT” junto. Por exemplo:

    “O delator Zé das Couves relatou que 30% era para o Aécio, e que o
    restante ia para a corrupção do PT para a campanha da presidente
    Dilma Roussef”.

    A grande mídia pode estar dizendo a verdade, 30% para o Aécio e o
    restante para o PT, mas apenas o “restante” é ressaltado como
    corrupção. Quando se massacra a população com corrupção==PT, e toda
    vez que mostra uma manifestação diz “fora PT”, o que se está fazendo
    não é tentar terminar com a corrupção, o objetivo é erradicar o PT do
    cenário, pois o que incomoda não é a corrupção. A corrupção faz parte
    do dia-a-dia de TODAS as legendas, então não é isso que incomoda. O
    que incomoda é o PT estar ganhando eleições e, sem importar com as
    manobras dos adversários, ele (PT) segue impedindo a eleição dos
    corruptos anteriores.

    E você acha que isso vai fazer a classe média sair às ruas no
    domingo, debaixo de sol, fazer caminhada cansativa e etc por causa
    desta propaganda? Bem se a propaganda associar a corrupção==PT com o
    impedimento deles viajarem e fazerem compras em dólares no exterior, ou
    mesmo que não viagem, que é por isso que os produtos importados que
    eles consomem ficaram mais caros e inalcançáveis, sim eles irão. Na
    verdade ficar torrando no sol e fazer longas caminhadas é algo que
    fazem com frequência, não difere muito do usual. O não usual é
    fazerem isso no centro da cidade. Além disso eles estarão orgulhosos
    se sentindo cidadão por estarem participando de uma manifestação
    política! Yay!

    Fica fácil distinguir a tal classe média levada ao movimento pela
    mídia e os que têm alguma noção do que estão fazendo. Os levados pela
    mídia repetem o bordão “Fora PT!”, os que têm alguma noção do que fazem
    gritam “Fora corrupção!” e apupam os “líderes” do movimento
    expulsando-os da avenida.

    Esta pseudo luta contra a corrupção que a mídia aprontou tenta fazer
    com que todos acreditem que corrupção==PT (para quem não sabe, “==”
    não é um erro, é um símbolo de identidade, significa A é idêntico a B)
    estão fazendo uma generalização perversa para todos. Eu tenho amigos
    PTistas que são honestos. Eu conheço PSDBistas desonestos. Meu
    ponto? Partidos políticos são agremiações de pessoas, algumas boas e
    algumas ruins. Dizer que a culpa é do PT é bem similar ao apontar
    Judeus na Alemanha da década de 20. Eu até acredito que haviam Judeus
    perniciosos por lá, não por serem Judeus, mas por serem pessoas más. A
    grande maioria nem fazia ideia de porque estava sendo apontada ou
    executada. Os executores, sempre que podiam, pilhavam os executados.
    Adivinhem o que acontecerá com o espólio do PT se o projeto der certo?

    Por um acaso estou tentando defender o Lula e o PT? De modo algum!
    Eu não pertenço e nem torço por nenhum partido. Que me perdoem os
    PTistas Roxos(da Motta) da família, por mais que queiram tapar o sol
    com a peneira está bastante claro para mim que os desvios milionários
    aconteceram, e por isso acho que TODOS os implicados têm que ser
    condenados e devem cumprir penas em presídios, os mesmos presídios que
    eles têm construído e mantido nos últimos anos. Tentar apresentar a
    condenação dos bandidos como ato político é cegueira ou má-fé.

    O que é ato político, e aí sim deve-se ficar irritado e protestar é
    não condenar os bandidos das outras facções, digo partidos políticos.

    Quando digo todos estou me referindo também aos corruptos dos outros
    partidos, do PSDB, do PMDB, do DEM (lembram, era PFL e mudou de nome
    por causa do número de casos de corrupção) e etc.

    Não fui para a rua no dia 13 porque lá estava havendo a campanha para
    erradicar o PT, que é o que incomoda os mentores do movimento, não a
    corrupção. Afinal toda a bandalha da corrupção na Petrobras começou no
    governo FHC, que foi o governo que nomeou o Delúbio e outros para a
    diretoria da Petrobras.

    É curioso que o Aécio seja citado 5 vezes e nada aconteça. Na
    verdade é simples, ele é citado uma vez e é engavetado porque não
    existe nada além desta delação para incriminá-lo. É citado a segunda
    vez e é engavetado porque não existe nada além desta delação para
    incriminá-lo, sim afinal a anterior foi engavetada, logo não existe. E
    assim vão-se todas as 5 vezes, como a anterior não existe então não há
    porque investigar.

    O FHC, ainda presidente, reúne em um jantar as mesmas empresas da
    lava jato e passa o chapéu e recolhe 7milhões(em torno de 20 se
    corrigido pela inflação) de reais para fundar o iFHC, mas isso não tem
    porque investigar. A compra de votos para aprovação da emenda da
    reeleição então nem é lembrada, quer pela mídia, quer pelos tucanos.

    O mensalão de Minas está quase prescrevendo, só um foi condenado a 20
    anos e está em liberdade. O mensalão do PT, que foi uma cópia daquele
    do PSDB, já foi julgado, os envolvidos condenados e em final de pena.

    O governador do Paraná, Beto Richa do PSDB, está começando a ser
    processado por corrupção na secretaria da Fazenda. Tem o temzalão em
    Sampa, tem também a merenda escolar e por aí vai, mas nada disso é visto
    pela justiça, e quando é visto leva tanto tempo sem julgar que
    prescreve.

    O PMDB está envolvido em TODAS as bandalhas, afinal ele está
    envolvido em TODOS os governos. Tem o Cunha, o Renam Calheiros e mais
    uma penca mamando nas tetas do governo.

    O Paulinho da Força, do Solidariedade, está envolvido e suportando o
    Cunha e foi para a Av. Paulista com Aécio e Alkmin, e foi expulso junto
    com o resto da turma.

    Dia 18, e acho que também 31, vai ter a manifestação do governo nas
    ruas. Eu vou? Não, claro que não. Atualmente das duas forças estão
    disputando qual o grupo corrupto que vai prevalecer, e eu quero os dois
    fora. Ah, mas eles estão lutando contra o golpe, você apoia o golpe?
    Não, não apoio golpe algum, mas como vi recentemente no FaceBook
    escolher defender qualquer dos dois grupos é como responder à
    enfermeira de que lado da bunda eu prefiro a injeção. Portanto, da
    mesma forma que não fui na manifestação a favor da corrupção do PSDB e
    comparsas, eu não vou na manifestação a favor da corrupção do PT e
    comparsas.

    Para piorar a situação tem o grupo que acha que os militares devem
    dar um novo golpe, como se não houvesse bandalheira na época. E aí de
    carona vem a direita ultra-radical assumida do Bolsonaro se
    apresentando como a atual vestal do templo. Até aí tudo bem, ele tem
    direito de dizer a bobagem que quiser, faz parte do jogo. O que é
    pior é ter muita gente dando ouvidos e apoiando esse cara!

    Alguns vêm com ideias esquisitas como exigir curso superior para
    poder se candidatar ou ocupar cargo público. Basta usar o separador de
    orelhas, meia ameba de esforço mental, para perceber que todos os
    implicados na lava jato e outras bandalheiras têm curso superior. E
    mais, aqueles eleitos devem ser representantes do povo brasileiro,
    desde quando toda a nossa população tem curso superior? Ou estes
    acham que população é só a parcela com curso superior?

    Aliás, nos últimos anos um dos melhores parlamentares desse país,
    segundo todos os órgãos de avaliação de parlamentares, tem sido o
    Tiririca que não tem curso superior. Na verdade a cada dia eu estou
    mais e mais admirando um cara que se apresenta como palhaço, em lugar
    de nos tratar como tal. Estou bastante tentado a sugerir seu nome para
    a próxima eleição para presidente.

    Se eu tivesse voz e vez, e a capacidade de mobilização que muitos
    têm, eu tentaria organizar uma manifestação para o dia primeiro de
    abril. Seria uma manifestação sem partidos políticos, sem bandeiras de
    partidos ou agremiações, sem camisas de partidos ou agremiações, sem
    faixas citando partidos ou políticos, sem direito de manifestação para
    políticos em carros de som, apenas uma manifestação contra a corrupção
    generalizada e a parcialidade dos tribunais do país que só conseguem
    enxergar e ouvir parte das delações de corruptos.

    Eu sou um otimista, ou seja um pessimista mal informado, o fato do
    Aécio e outros “lideres” terem sido escorraçados das manifestações traz
    a esperança de que uma parcela esteja cansado de toda a configuração
    atual da nossa política e que tenha sinalizado isso nestas
    manifestações.

    O pior é que até agora não vi surgir uma liderança que me convencesse
    de que realmente quer uma mudança boa para todos.

    Abraços e beijos.

    Fernando Roxo – de CURITIBA

  3. Prezado Flávio,

    continuo sendo daqueles que lêem o que me enviam e procuro responder aos amigos.

    Li o texto “13 de março, a lição das ruas” e quero te cumprimentar pela qualidade e pelos corretos enfoques adotados.

    Já estava por escrever algo a respeito do movimento de 13/3, mas nunca seria mais apropriado que o texto do “Veredas”.

    Assim, peço autorização para publicá-lo na íntegra no site “www.mundoseculoxxi.com.br” e pergunto se a devida referência deve ser feita em teu nome ou em nome do blog “Veredas”.

    Apreciei, em particular, a rejeição à “militância” (algo que tem cada vez mais me arrepiado).
    VITOR GOMES PINTO, de Brasília

  4. Pingback: Mundo Século XXI
  5. Flávio, meu amigo,
    Quando li o primeiro texto, o que fazia referência à morte do estudante Edson Luís (a minha memória ainda se lembra das coisas remotas), fiquei meio apreensivo ao tentar imaginar aonde você estava querendo chegar.
    Agora, ao ler o seu último texto (pós 13 de março) relaxei. Concordo com você em todos os dez pontos elencados. Penso exatamente do mesmo jeito.
    Já há alguns anos, deixei de assinar revistas e outras mídias e busco livremente informações para montar as minhas opiniões. Em um consultório odontológico, me deparei com a edição nº 2463 da revista VEJA e comecei a ler as páginas amarelas e não terminei porque o chamado para a consulta impediu. Depois pude ler na calma e considerei uma análise muito isenta e oportuna.Gostaria que comentasse. Para acessar, entre na página da Veja, vá em cima, nas três barrinhas, clique em acervo digital e escolha a revista.
    Grande abraço.
    Careca.

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