Um garoto fora da Província

garoto-foraEm meados da década dos 60, tive oportunidade de fazer duas viagens que, por assim dizer, ampliaram tremendamente o horizonte aberto pela ida a Brasília, para a monumental inauguração em 1960.

A primeira delas foi a São Paulo, em 1965. Alguma coisa aconteceu, de fato, para mim – e não foi só andar pela esquina da Ipiranga com a São João (a canção de Caetano ainda não tinha sido escrita ou, pelo menos, não era conhecida). Peguei um Cometa em Belo Horizonte, sozinho e – detalhe importante! – cheguei a Sampa nas regulamentares nove horas depois. Na velha rodoviária da cidade, na região da Praça Tiradentes, lugar onde hoje ninguém, muito menos um menor, anda sem estar prevenido contra “fel, moléstia ou crime”, desci do Cometa e entrei no ônibus para Mogi das Cruzes. A casa de meus tios Cicida e Alfredo Froes era meu destino, em São Miguel Paulista. Cheguei de noite e fui muito bem recebido, como não poderia deixar de ser. Meu tio Alfredo era um sujeito especial, mesmo com a idade que eu tinha já me tratava com honras de adulto – era tudo o que eu queria. Com poucos dias na casa deles, já familiarizado com o ambiente um tanto tosco de São Miguel, resolvi ampliar meus limites. Além disso, o casal já tinha três de seus cinco filhos, uma escadinha, todos pequenos e eu começava a querer respirar uma atmosfera mais descomprometida com querelas infantis e aquelas demandas reiteradas ao primo que veio de longe. Assim, depois de estudar com profundidade um mapa da cidade, devidamente amparado por Alfredo, um belo dia tomei um trem da Central do Brasil e parti da periferia para o Anhagabaú.

Comecei pelo reconhecimento do terreno. Da Estação Dom Pedro, explorei o grande parque e rumei ao Vale, registrando cuidadosamente o trajeto daquelas ruas estreitas que acabaram por me conduzir a Santa Ifigênia e ao Viaduto do Chá. Atravessei o soterrado riacho para conhecer o Teatro Municipal, o Largo do Arouche e a famosa esquina depois cantada por Caetano. Segui São João, subi Consolação e São Luiz, virei a Paulista. Achei que valia a pena voltar e o fiz também em outros dias, mudando meu objeto, da geografia urbana paulistana para a exploração cinematográfica. Juntei meus parcos trocados e assisti a uma maratona de filmes. Aquilo era encher a alma de cultura e informação.

Um dos filmes que assisti em Sampa, Hatari, de Howard Hawks, grande sucesso nos anos 60, de repente me provocou a fúria de ser do contra, pois era elogiadíssimo como comédia e como transposição do ambiente western para a África. John Wayne em um de seus papéis magistrais. Ao voltar a BH, dias depois, expus minha crítica ao cinéfilo Mario Alves Coutinho, que fazia trinca comigo e Tiago Veloso. O céu, simplesmente, ruiu sobre minha cabeça! Para meus amigos, HatarI era obra prima; para mim, porcaria. Não teve acordo possível, por pouco rompemos nossa forte amizade. Tenho vontade de ver a tal fita de novo. Quem sabe mudei de ideia?

Mas devo ter voltado a BH mais culto e mais sabido, com certeza.

Um ano depois, já com 17 anos (impressionante como um ano faz diferença nessa época de nossas vidas) fui conhecer o Rio de Janeiro. Obrigação de mineiro que se prezasse, claro. Ai, da primeira vez no Rio ninguém esquece! Achei a cidade pouco convidativa em matéria de odores e temperatura, mas o resto me encantou profundamente. Fiquei hospedado no apartamento, em Laranjeiras, de meus tios Aucélia e Roberto. Ali eu dispunha de mordomias e tenho especial lembrança da coleção de long-plays de clássicos que meu tio possuía e que foram logo colocados à minha disposição. De quebra, ainda tinha o proprietário dos discos, na volta para casa, como interlocutor qualificado a comentar comigo as obras que eu escutara antes dele chegar. Como todo bom iniciante, me amarrei em Vivaldi, não só nas Quatro Estações mas também nos Concerti Grossi, que eu logo trauteava com gosto e ardor de um velho conhecido. Inesquecível!

Eu já não estava tão ligado em cinema como no ano anterior. É bem verdade que agora tinha cinema à minha disposição – e sem sair de casa! Televisão? Não – algo muito melhor! É que meus tios moravam em uma rua estreita do bairro das Laranjeiras, General Glicério se não me falha a memória, e seu apartamento, em andar elevado, se situava numa muralha de edifícios que por sua vez ficava de frente (e de costas) para outras muralhas. Se você chegasse a uma janela qualquer, tinha visão imediata de algumas centenas de outras janelas, a partir de todos os ângulos do imóvel. E meu tio Roberto, militar reformado da FAB, era proprietário de um extraordinário binóculo. Assim…

Resumo da ópera, ou melhor, do filme: eu que nunca havia visto sequer uma dama de roupa íntima ao vivo, tinha agora à minha disposição dezenas delas, inclusive sem roupa, em total intimidade…

Se o Rio me marcou como um todo nessa primeira visita, as cenas paradisíacas que eu assisti marcaram mais ainda. Realmente não dá para esquecer.

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