Times are changing…

mickeyQuem um dia votou no PT – como eu – corre sério risco de fazer como o bêbado da anedota: esperar sua casa passar, já que o mundo todo está rodando, para então introduzir a chave na fechadura e abri-la de vez…

Disso, pelo menos, acho que desisti, há muito tempo. Prefiro correr atrás do prejuízo, digo, dos fatos.

Da mesma forma, quando vejo esta turma toda nas ruas vociferando seus “fora Temer” (seria o mesmo que “volta Dilma”?), fico abismado com a falta de foco e a insistência no equívoco, qual seja o de não perceber que uma e outro são fruto do mesmo estatuto. Os fatos? De que valem os fatos? Eles que se danem…

Leio nos jornais recentes pelo menos três opiniões que mostram que a lucidez, embora seja artigo mal distribuído na humanidade, não nos abandonou de vez…

De Frei Betto, petista de carteirinha e quase de nascença, leio que o PT foi apenas um inquilino no governo, até que tomou um pé na bunda do verdadeiro dono da casa. Para ele, independente das qualidades dos governos da sigla, há que se reconhecer que cometeram equívocos fatais, particularmente em relação a princípios primordiais da esquerda, quais sejam, o de ser um modo de organização da classe trabalhadora, bem como da promoção da ética e da construção do socialismo, por meio de reformas, não de violência e luta armada. E prossegue: “O partido é vítima, agora, da reforma política que não fez […] porque chegou ao governo e se convenceu de que tinha chegado ao poder.”

Sinto-me tentado a avançar na metáfora, comparando tal partido àquele aprendiz de feiticeiro que um dia abriu a porta que lhe era vedada, tomando uma surra de vassouras. Já vimos isso com Mickey no papel principal.

Luiz Roberto Barroso, Juiz no STF, considerado um intelectual do direito e um magistrado realmente progressista, além de grande defensor dos direitos das minorias, surpreendeu a opinião pública ao afirmar que se tem aqui uma “esquerda extremamente conservadora, defensora de dogmas já ultrapassados pela realidade”, acrescentando ainda algo que me parece ser um boa súmula (ou epitáfio) dos governos petistas, ao denunciar um modelo que “não é preponderantemente capitalista, mas de um socialismo para os mais ricos”.

De Juan Arias, jornalista de El País, mas portador de idéias independentes e progressistas, ouvi: “O mal de certos intelectuais de esquerda é que eles preferem discutir sobre o mundo tal como gostariam que ele fosse e não como ele realmente é.”

E disse mais, por exemplo, que lhe é assustador o número de milionários no Brasil e o fato de que os bancos ganharam muito dinheiro nos últimos anos, enquanto o país se encontra em profunda recessão econômica. E prossegue: “Por que a esquerda brasileira está muda neste momento em que o Congresso prepara uma anistia para políticos corruptos?”. Antes que secasse a tinta de seu artigo, já vejo gente dita “de esquerda” lamentar as prisões de Garotinho e Cabral, por suposto abuso de poder… Claro, a vez de Lula aproxima-se celeremente.

Concordo, ainda, com Arias, quando ele deplora o fato de que a virada conservadora que ora se vê no Brasil (e mesmo fora dele) é fruto de aburguesamento da esquerda, que se tornou conservadora e corrupta, perdendo assim o trem da evolução, “deixando um rio de órfãos pelo caminho”. Retrato perfeito do quadro que ora assistimos aqui e em toda parte.

A Esquerda, agora com Maiúscula tem cura – ou futuro? Já teria cumprido seu papel histórico?

Acho que é possível pensar, sim, em uma nova Força Política – o nome não importa. Um lugar onde as pessoas aprendessem a pensar, não a repetir chavões de lideranças. Uma estrutura na qual a autocrítica fosse bem vinda e não interpretada como sinal de fraqueza e entrega de pontos ao inimigo. Onde os dogmas fossem rejeitados em troca das evidências – “dogmas são as pedras com que se constrói a sepultura da liberdade”, com,o disse o jornalista em pauta. Onde a sensibilidade ao sofrimento dos mais pobres e às vítimas dos totalitarismos não fosse abandonada ao sabor das circunstâncias eleitoreiras ou de composições escusas, em nome da vaca sagrada da “governabilidade”. Onde dilapidar o patrimônio público não pudesse ser justificado por razões utilitárias, do tipo “foi feito, sim, mas pela causa”. Que “não seja uma igreja em que somente os seus fiéis são dignos da salvação”, ainda segundo Arias.

E Arias fecha com chave de outro suas reflexões: “Que peso podem ter no mundo de hoje, por exemplo, esses milhares de sindicatos de esquerda, defensores dos direitos dos trabalhadores, num momento em que os novos pobres são justamente os que não têm emprego, as minorias perseguidas e aqueles que nunca tiveram acesso à cultura? Quem se preocupa com eles?” É mole?

E para finalizar, palavras do Prêmio Nobel de literatura, Robert Allen Zimmerman, o popular Bob Dylan, escritas ainda na década de 60: “Come mothers and fathers / Throughout the land / And don’t criticize / What you can’t understand / Your sons and your daughters / Are beyond your command  / Your old road is rapidly aging / Please get out of the new one / If you can’t lend your hand / For the times they are a-changing”.

 

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