Dos perigos de inovar…

casal-picassoUma das manias que tenho, e que agora confesso, é a de fazer as coisas de forma diferente a cada momento. Quando se trata de ir e vir, por exemplo, quase sempre me recuso a usar o mesmo caminho duas vezes para alcançar o mesmo objetivo. A não ser que não existam outras possibilidades, embora às vezes tenha que testar isso de forma exaustiva.

Como professor, sempre gostei de meter em inovar. Peço licença para usar aqui este verbo tão querido nos dias atuais: inovar. Podem chamar de criar novidades, também. Não que eu ache que isso seja uma qualidade minha. Pode ser um defeito, coisa de quem se sente entediado quando faz as coisas sempre do mesmo jeito, mesmo que tal jeito demonstre ser correto. Devo dizer, também, que talvez muito do que eu chame inovação seja apenas maneira de fazer algo diferente do que os outros costumam fazer, já que em muitos campos, nas universidades inclusive, provocar ou aceitar as mudanças não chega a ser um comportamento habitual.

Entre as minhas inovações pedagógicas tenho que admitir que colecionei alguns fracassos, embora alguns frutos positivos, também.

Assim, por exemplo, nos meus últimos tempos de professor da Universidade de Brasília, coincidindo com a recente expansão das comunicações pela internet, ainda sob a égide do velho e bom e-mail, resolvi organizar uma lista de discussão com os alunos, tendo como temas alguns dos conteúdos da disciplina que ministrava. Fiz isso de maneira mais pontual, na chamada Introdução às Práticas de Saúde (IPS), no primeiro período e de forma mais abrangente na de Administração de Serviços de Saúde (ADM), no oitavo. A receptividade até que foi boa, no início, mas logo tive que ouvir coisas do tipo “este professor ao invés de dar aula fica nos enrolando na internet”. Mas olha que eram apenas discussões em paralelo às aulas formais, ou seja, dava um trabalho dos diabos, em dobro, inclusive! Um dia começaram a postar as graçolas comuns na web, chegando mesmo a fazer circular no grupo a foto de uma privada devidamente “carregada”. Chamei a atenção dos responsáveis e resolvi reduzir a iniciativa, reservando-a para alunos mais maduros e responsáveis, coisa de que a UnB e, particularmente, o curso de medicina, era carente.

Programei, também, algumas visitas a instituições de saúde, a serem feitas por grupos de alunos, que depois apresentariam em classe um relatório de suas impressões. Funcionou relativamente bem, mas do ponto de vista dos hospedeiros as furadas foram constantes, sendo os alunos vistos como verdadeiro estorvo. Fato curioso foi o relatório de um grupo que visitou a OPAS, escritório regional para as Américas da Organização Mundial de Saúde, situado no Setor Embaixadas Norte, em Brasília. Ali eles foram bem recebidos, mas se revelaram muito críticos com o que viram, ao considerarem que em instalações daquela magnitude e luxo era inconcebível que ali também não se atendessem pacientes, relegados às péssimas estruturas da rede hospitalar do DF. Aff…

Uma vez resolvi incluir em um debate com a turma de Enfermagem um tópico sobre a influência da religiosidade ou da espiritualidade na saúde. Quase desencadeei na Faculdade de Saúde uma reedição de Belfast ou Sarajevo, com as militantes evangélicas, que parecem ser especialmente numerosas e ativas no curso de enfermagem, a se digladiarem com as papistas… Melhor não insistir nisso, foi a conclusão a que cheguei..

De outra feita, resolvi criar uma disciplina opcional com matrícula aberta para todos os cursos da UnB, mesmo fora da área da saúde. O horário de aulas era inovador, este sim, entre dezoito e vinte horas, para que a participação fosse ampla. Saúde no Brasil era o nome da matéria e ali eu discutia a história e os rumos da construção do SUS, utilizando como material de aulas, muitas vezes, notícias de jornal. Eu mesmo me surpreendi com o número de matrículas, mais de cem, tendo sido obrigado mesmo a mudar da sala convencional prevista, passando as aulas para o grande auditório da Faculdade de Saúde. Havia alunos de Geografia, Jornalismo, Agronomia, Sociologia e por aí vai, além de alguns da própria área de saúde. Do curso de medicina, literalmente ninguém… A platéia muito numerosa, embora bem interessada, não facilitava o desenvolvimento de discussões, mas mesmo assim acho que foi um acontecimento marcante para muitos alunos. E com certeza para a minha vida de professor entediado…

Mas nem tudo são flores…

Quando era professor de medicina na Universidade Federal de Uberlândia, nos anos 70 e 80, resolvi implantar uma novidade em minha disciplina de Medicina Preventiva I. Naquele tempo, eu era apenas um iniciante na arte de inovar. Determinei então, como trabalho a ser apresentado mais tarde em classe, que grupos de alunos realizassem entrevistas com médicos locais que tivessem mais de 40 anos de formados. Hoje eu tenho 45 anos de formatura, mas na época essas quatro décadas me pareciam uma eternidade, digna de matusaléns. Com a ajuda de alguns amigos e professores da faculdade localizei logo um punhado destes anciãos e assim os alunos foram a campo. O objetivo era indagar desses personagens como eles percebiam as mudanças na vida social e nas tecnologias médicas, bem como os modos de reconhecimento social da prática médica, ao longo de seus anos de profissão. Melhores intenções, impossível.

Os jovens foram bem recebidos, de maneira geral, e muitas informações interessantes foram colhidas, embora houvesse aqueles entrevistados que se revelaram incapazes de se lembrar de muita coisa. Mas mesmo assim, como momento de interação entre gerações, considerei a atividade perfeitamente válida. Até aí tudo bem.

O problema começou com uma determinada entrevista, com um médico de oitenta anos ou mais, sessenta anos de prática médica, um dos fundadores da faculdade e persona sumamente grata na cidade. Não citarei seu nome pelos motivos que se verá adiante. O entrevistado era, aparentemente, um homem ainda muito lúcido e recebeu os alunos com fidalguia, capturando de saída a atenção e a simpatia destes. A entrevista parece que durou a tarde inteira, pois o homem tinha muito o que dizer e não queria parar de falar. Não foram necessárias mais do que uma ou duas perguntas e o resto ocorreu espontaneamente.  Alunos extasiados ao final, de tal forma que o relato deste grupo não só foi o mais abrangente como o mais bem avaliado pelos colegas, que logo entraram no clima de simpatia ao entrevistado.

Mas o conteúdo daquilo… Pelo amor de Deus! O homem era um conservador e passadista feito e acabado. Para ele os bons tempos foram apenas os que já tinham passado. No mundo atual nada mais prestava. Os médicos agiam agora como “cães selvagens”, ou algo assim, nas palavras dele. A busca de lucro na medicina tinha transformado a profissão em verdadeira “pocilga” (na própria expressão dele). E por aí se caminhou.

O pior é que a turma gostou… E ao invés de fazer qualquer análise crítica ou comparativa de conteúdo, embora eu tentasse o tempo todo conduzir a discussão para tanto, o que ouvi da maioria dos alunos foram palavras de louvor e total sintonia com as idéias extravagantes do octogenário. E parecia, ao fim e ao cabo, que apenas confirmavam impressões que traziam da vida em família e em sociedade.

Talvez tenham me faltado, reconheço, mais sensibilidade e senso de humor para conduzir os trabalhos, pode ser. Mas aprendi, desde então, que às vezes nada é mais conservador do que a juventude…

Lavei minha alma anos depois, já em Brasília, quando convidei outro médico octogenário para uma palestra e debate com a turma de medicina, já na UnB. Deste vale a pena citar o nome: Pedro Sampaio Guerra, pai de meu amigo de infância Eduardo Guerra, também médico em Brasília. Dr. Pedro clinicou e operou por décadas em Timóteo/Acesita e Coronel Fabriciano, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais.

Dr. Pedro abafou! Foi totalmente modesto em narrar suas peripécias como médico de interior, que incluíam desde atendimentos em lombo de burro até cirurgias de improviso, sem anestesistas e recursos essenciais por perto. Reconheceu que sua geração havia penado muito, mas que via a profissão com otimismo e muita expectativa em relação às novas tecnologias, que estavam mudando, para melhor, a vida dos médicos e dos pacientes. Respondeu a todas as perguntas, dando sempre voz à réplica e elogiando os estudantes por serem tão perspicazes. No final agradeceu muito a oportunidade que lhe demos, arrematando que havia aprendido muito ali comigo e meus alunos.  Foi aplaudido de pé pela moçada.

Disse Guimarães Rosa que a natureza da gente “é muito segundas e sábados”. Eu diria que já os seres humanos podem ser anjos ou demônios, às vezes ao mesmo tempo, mas muitas vezes separadamente – e com força total.

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