Pandemonia (2): O triunfo das nulidades

BOLSONAROEsta semana, a insólita figura pela qual temos a má sorte de sermos governados, sim, ele mesmo, o inominável Messias, em seu destempero habitual, foi à TV, em cadeia nacional, para deblaterar contra as medidas que o mundo todo vem tomando contra a atual pandemia. Contrariou geral, não só os governadores e prefeitos brasileiros que já haviam se antecipado, mas também seu vice Mourão e seu Ministro da Saúde (que logo lhe abriu as pernas docemente), como também os cientistas, a imprensa séria, os governantes do todo o mundo civilizado. Deixou os cidadãos deste país sem saber pra onde ir. Até daquele norte-americano, do qual ele lambe as botas sofregamente, ele se desviou. Como este sujeito não deve ter o hábito de ler jornais, pelo menos os mais sérios, provavelmente ainda não soubesse que seu ídolo havia voltado atrás em tal questão. Mas não lhe faltaram os aplausos de sua legião de aloprados. Parece que a sua reconhecida especialidade de atirar no próprio pé está se aprimorando, tanto que agora consegue alvejar a própria nuca. Mas o pior não seria nada disso, pois o curso de tais acontecimentos poderá dar à sua alcateia de seguidores fanatizados a sensação de que seu “mito” mais uma vez agiu corretamente.

A proposta do Messias é de que apenas os mais velhos ou portadores de problemas de saúde que comprometam a imunidade fiquem reclusos. A ele não interessa saber que tal foi a conduta assumidamente equivocada das autoridades italianas, por exemplo, e que mesmo os ingleses tentaram tal via e logo voltaram atrás. Ele é senhor da razão – ou do que ele acha que é razão, que ele confunde com as eructações de sua mente obtusa. O que se passa em sua cabeça é algo como “eu certo e o mundo todo errado – e o que há de mal nisso?”. E nós, os duzentos milhões de brasileiros, dos quais apenas uma pequena parte ainda acredita nele, que nos danemos todos. Da próxima vez, dirão eles, que aprendam a confiar no fuhrer do Eldorado Paulista…

Isso é grave, muito grave. Mas pior ainda é o que se seguirá. Morrerão muitos, talvez na casa das dezenas ou mesmo centenas de milhares. E ele dirá, aplaudido imediatamente pelo seu gado seguidor:  “morreriam de qualquer forma”. Para eles não interessa que poderia, talvez, terem morrido dez vezes menos. O importante é que a “clarividência” do boiadeiro-em-chefe seja reconhecida. O resto será considerado papo furado de cientistas da balbúrdia ou jornalistas da imprensa podre, sintonizados com o globalismo e o marxismo cultural.

E assim, dirão eles, o Brasil pôde “trabalhar em paz” e a economia voltar ao seu normal, sem que aqueles oportunistas e anti-patriotas atrapalhassem. Os mortos? Ora, isso é apenas um detalhe, iriam morrer de todo jeito, seja desta gripezinha ou de outro problema.

Não haverá argumento que convença do contrário o líder ou seu bando . Essa gente tem como único princípio rejeitar e desqualificar argumentos que pareçam estranhos à sua mente obscura e estreita, principalmente se originados daqueles que eles consideram inimigos. O que apreciam mesmo são as “sacadas”, as piadinhas e as opiniões que eles absorvem em doses cavalares por parte da insigne cavalgadura que os ilumina. E assim, sairão dessa história como vencedores, repetindo aos quatro ventos: “ele tinha razão!”.

Tudo isso me faz lembrar Ruy Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

Não haverão de triunfar; não cabe desanimar.  Virtude, honra, honestidade, vergonha são valores que ainda vale a pena cultivar.

De fato, nós brasileiros não merecíamos algo assim, essa dose equina de nulidades, essa montanha de detritos que não cansa de fazer escorrer um chorume de besteiras sem conta. Chega! Não adianta “cancelar” ou ignorar tal figura. Este cara tem que ser detido, expelido, impedido, brecado, desviado de seu trajeto de locomotiva louca, abortado de sua prenhez de anomalias. No mínimo, que seja ridicularizado em cada pensamento que for capaz de excretar.

Que se obedeçam os ritos, malgrado nosso, e venha o Mourão. Paciência. Pelo menos, tentando ser otimista, este poderá ter um pouco de medo diante do passado. E se não demonstrar algum temor, no devido tempo que se cuide dele também.

 

 

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