Angelo Barbosa Monteiro Machado: in memorian

Hoje, seis de abril de 2020, a internet me trouxe a notícia: morreu Angelim. Quem passou pela Faculdade de Medicina ou pelo Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, a partir dos anos 60, sabe muito bem de quem falo. Impossível esquecer do criador do Show Medicina; do professor de inesgotável conhecimento; do cientista cujo conhecimento ia da glândula pineal às libélulas, do cerebelo humano à ecologia do cerrado; do inventor de histórias; do impagável frasista; do destacado ambientalista; do escritor inspirado. Muitos personagens, muitos mesmo, em uma só pessoa. Tinha raízes mineiras tão profundas como a Mina de Morro Velho, mas parece nunca ter feito muita questão delas. Aníbal, Cristiano e Lucas (Machado) eram seus tios, Maria Clara sua prima, cada um com sua marca indelével: na literatura, na política, na medicina e no teatro. Ele tinha um pouco de tudo isso e mais alguma coisa. Fui seu aluno em 1967, depois o vi poucas vezes, mas notícias dele sempre me chegavam, pessoa querida, múltipla, generosa e iluminada que era. Deixou inúmeras histórias saborosas, que contava com gosto e a cada vez aumentando um ponto. Conto duas delas aqui. Mas a lenda que deixa é ainda maior…

I – Uma vez formado, ganhou bolsa para os EUA para estudar anatomia neural, esbarrando numa universidade famosa. Ali passou dois ou três longos anos totalmente voltado para um objeto profundo de pesquisa: a glândula pineal dos cingulatos, os populares e muito apreciados tatus. Deve ter sido no Sul dos States, pois ouvi dizer que tais animais estão presentes por lá também e animam festivas caçadas e concorridos jantares, sendo uma tradição da América profunda, como aqui. Ou talvez isso hoje esteja proibido formalmente, por lá também. E passou assim o jovem Angelo noites indormidas, em cima de microscópios e peças de necropsia, inalando formol. Ao final do estágio produziu massudo relatório de pesquisa, no qual a principal afirmativa era: os tatus carecem de glândula pineal. Sabe-se lá por quê…

II – Tempos mais tarde, voltando aos EUA, dado seu antigo interesse em libélulas, foi visitar um famoso museu de biologia, no qual a coleção entomológica era considerada a melhor do planeta. Correu logo à seção dos odonata, ou seja, das ditas cujas lavadeiras, ou libélulas. Um grande quadro taxonômico lhe prendeu a atenção. E logo comentou com o funcionário que o acompanhava: – mas isso aqui está tudo errado! E o funcionário: – meu senhor desculpe, esta classificação foi preparada pelo Professor Machado, do Brasil, que é quem mais entende do assunto! E ele: – meu filho, o professor Machado sou eu e faz tempo que já revi tudo isso

Pois é, partiu Angelim. Minha homenagem a tal figura ímpar, gente cuja fôrma se perdeu.

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