Há alguns dias, voltando de avião de uma viagem a Belo Horizonte, percebi que havia uma pasta aparentemente esquecida no bolsão da poltrona de frente. O voo já ia alto e certamente não teria como devolvê-la ao seu dono. Indaguei dos meus vizinhos e eles também não tinham informações sobre tal objeto. Pensando que talvez contivesse algo relevante, o que me levaria a pelo menos levá-la a alguma seção de perdidos e achados, verifiquei que lá dentro havia apenas 4 ou 5 páginas, aparentemente cópias xerox, de alguma coisa, de cartas, ou algo assim. Para completar minha investigação dei uma lida naquilo. Eram apenas segundas vias, nada mais, pelo que percebi, e certamente poderiam ser recuperadas pelo seu distraído (ou distraída) portador(a) de outra forma, ou seja, sua perda não causaria prejuízos a ninguém. Eu tinha lido aquilo em busca de uma solução e isso me deixava meio culpado, mas o que fazer? Não era nada comprometedor, todavia. Cartas de amor? Nem tanto. Eram cartas trocadas por um casal que se separava… Se toda carta de amor é ridícula, como disse Fernando Pessoa, o que seria, então, das cartas de desamor? No caso, à falta de outro adjetivo, eu as daria como trágicas. Pensei: isso daria um conto. Mais um detalhe, era uma pasta de plástico rosa, com um lacinho de fita a fechá-la e dela evolava um perfume discreto o que me fez deduzir que deveria ser uma coisa feminina. Nas páginas lá dentro havia anotações meio ilegíveis e marcações em cor. Devo dizer que aquilo me impactou e assim vou compartilhar meu achado com vocês. Por via das dúvidas e para garantia da privacidade das pessoas envolvidas, troquei os nomes dos missivistas, que passam a se chamar Antonieta e Edgar. Ok assim? Vamos lá.
Carta I
Antonieta, hoje faz um ano que você me descartou de sua vida. Experimentei sentimentos de dor, revolta, decepção, mas já me conformei, embora com a convicção de ter sido alvo de um ato premeditado, sem aviso ou alternativas de reparação, em total descompasso com suas peculiares teorias sobre a mente humana, sua ética pessoal, sua abordagem profissional, além de seu modo de agir com as pessoas em geral.
Que desastre a nossa última troca de mensagens… Aquilo me trouxe, ou melhor, me confirmou, a sensação de que nos restou realmente muito pouco a dizer um ao outro, dado o tom de julgamento e mérito que você insiste em manter a meu respeito. Só me cabe aceitar que nossa história estava de fato encerrada, de forma inglória, aliás, há um ano, com a ruptura unilateral desencadeada por você. Em todo caso, quero deixar claras algumas últimas e penosas considerações, as quais, anteriormente, diante de suas certezas inabaláveis, julguei prudente não externar, para não adicionar conflitos a um cenário que a cada vez se tornava mais sensível, instável, para não dizer bastante sufocante.
Ah, minha pretérita Nieta, é grande a minha dor em admitir, agora, que nós não tínhamos mesmo como dar certo, pelas nossas inúmeras discordâncias (para você, desavenças) particularmente em relação às suas crenças, prolíficas e distantes de maior apego a evidências, que esbarravam no meu ceticismo, tomado por você como agravo e desrespeito a sua pessoa. Entre pessoas normais isso poderia ser considerado como algo saudável, mas você sem dúvida pertence a outra categoria de ser humano. A verdade é que eu me enganei, pois acreditava haver, por trás de nossas diferenças, muito amor de um pelo outro.
Tantas certezas dissipadas…
Mas veja bem, aqui não vai um pedido de trégua, mas sim a confirmação de uma rendição incondicional, embora isso soe melodramático. Volto ao assunto sem mágoas, mas apenas em função de tal aniversário de um ano, não esquecido por mim, embora já expurgado, felizmente, do horror inicial em que me vi mergulhado.
Afinal, queria entender suas razões. Abandonar um companheiro de viagem no meio de uma jornada sonhada juntos, por nada mais do que uma rusga humana, demasiadamente humana, sem perdão, sem diálogo, sem contemplação – seria algo justo, digno, normal, moral? Insisto nesta última expressão, pois me parece que você procura fazer dela um molde para sua vida, tão moralizante e moralizada. O fato é que nem o mais consumado dos crápulas mereceria um tratamento como aquele. Sem dúvida, você executou, talvez por vingança não claramente objetivada, uma sentença de morte prenunciada, coisa que só me pegou de surpresa por ingenuidade ou burrice minhas. Não é que eu acalentasse aspirações de longa duração para nossa história, até pelos seus repetidos cavalos-de-pau anteriores, mas de fato esperava que quando chegasse a hora, que isso acontecesse de maneira mais digna, ou no mínimo dialogada, só isso.
Convenhamos, o que houve naquele fatídico dia, de fato, foi a minha dificuldade em compreender e agir, seja do ponto de vista clínico ou afetivo, diante daquele quadro extraordinário de somatização, além disso estranho, extemporâneo e exacerbado, rejeitando ou dificultando a minha ajuda. Apesar disso, lhe pedi desculpas, que embora reiteradas e sinceras não foram consideradas por você. Mas perdoar, enfim, parece não fazer parte de seu repertório.
Ou por outra, há uma coisa estranha e insuspeitada que só tardiamente pude perceber em você: essa capacidade de guardar rancor, como em um freezer, para não perder a validade. Ou por outra, só mesmo uma pessoa que se considera perfeita – e por conta disso, intocável – seria capaz de agir assim.
Observe que não estou falando em pedir (ou receber) perdão: isso não se aplica aos meus sentimentos atuais, que são de aceitação e também de alívio. Mas registre: para mim ficou manchada, definitivamente, aquela sua imagem, longamente auto cultivada, de pessoa magnânima, inclinada ao diálogo e ao perdão, repleta de espiritualidade, de humanidade, de generosidade, de carisma; agente edificante, liderança profissional, terapeuta experiente, paladina de uma abordagem ‘humanista’ em saúde mental, persona notável onde quer que circulasse, praticante compulsiva da correção política, sucessora da garotinha que carregava nos ombros as injustiças do mundo, virtuosa dama capaz de atravessar o oceano para cuidar de pobrezinhos em outras terras. Por que não no Brasil? Já sei: aqui talvez você não brilharia nem chamaria tanta atenção como na África.
Belas virtudes sem dúvida, mas pena que não se coadunem com a maneira como você reage ao contraditório normal na vida das pessoas ditas normais.
Não deixa de ser no mínimo curioso, também, você querer atuar profissionalmente frente a desajustes existenciais e emocionais de outras pessoas, mesmo sendo portadora de prontuário pessoal tão contraditório. Mas isso já não seria da minha conta…
Se eu fosse menos ingênuo, ou mais atento, creio que teria percebido suas distorções de caráter muito antes do desfecho de nossa história. Por exemplo, quando caiu em seu colo, por acaso, um texto pessoal e íntimo meu e você pressurosamente o leu e assim, sem considerar isso reprovável, ainda me recriminou pelo conteúdo, ao invés de guardar, como teria sido mais justo e honesto, um silêncio obsequioso; quando deixou de frequentar minha casa, mostrando preconceito e intolerância, porque lá havia um simples cãozinho; quando exigiu aquela “terapia de casal”, cuja real intenção era apenas me conformar à sua imagem e semelhança; suas críticas desabonadoras a escritos ficcionais meus, mostrando suas limitações preconceituosas, ao não separar o autor do personagem.
Não posso também me esquecer daquele momento em que você, com seus ciúmes primitivos e infundados, me constrangeu a terminar uma amizade de mais de 40 anos, em relação à qual você se arvorou no direito de julgar, duvidar e maldar – ao mesmo tempo que convidava um desconhecido a pernoitar em sua casa. Pois é, o amor falou mais alto em tais ocasiões – e eu aceitei sem reclamar. Por óbvio, liguei para aquela amiga e confessei o real motivo da ruptura com ela, constrangido e envergonhado. Foi a primeira coisa que fiz quando você detonou nossa relação.
Da mesma forma, foi com muita vergonha que eu me vi obrigado a revelar à minha família que o casal feliz que eles conheceram, como num passe de mágica se desfez, por motivos difíceis de explicar. Enfim, foram erros meus, cometidos por amor a uma pessoa que se revelou voluntariosa e fútil, que tarde demais vim a compreender não ser merecedora disso.
Voluntariosa e fútil: eis uma boa qualificação para você.
Para mim, você cometeu uma traição, enorme, imperdoável, como eu nunca havia experimentado em toda minha vida. Não no sentido vulgar de tal palavra, de ter me trocado por outra pessoa. Não, não foi assim. Isso eu perdoaria facilmente, pois seria apenas um fato da vida, mas o que você foi capaz de fazer foi pior, muito pior, ainda mais com toda a premeditação de seu gesto, no qual posso hoje perceber isso claramente, dadas as suas tentativas reiteradas de interromper nossa relação. Fui de fato tolo e distraído, e disso não me perdoo.
Não desejo maior aproximação com você. Ainda me lembro muito bem da melancólica figura do seu ex marido, também demitido de sua vida, mas acolhido de volta de forma apenas caridosa, como personagem secundário em sua mesa.
Nem tudo é mágoa, para mim a data de hoje virou efeméride: é o meu 13 de maio! E assim, uma vez liberto, vejo finalmente ser possível não só admitir, mas também comemorar, a morte (simbólica) da pessoa em quem um dia eu acreditei e admirei, com quem idealizei e construí projetos, com muita alegria e entusiasmo.
Ao fim e ao cabo vejo que você não queria somente meu coração, que lhe entreguei por inteiro, mas sim minha alma, a qual, infelizmente, não estava disponível.
Sobre sua militância supostamente em favor da paz na terra ou algo assim, recuso o convite para me alistar a ela, pois minha afinidade com a entidade que você frequenta é escassa. Ali, para além das boas intenções, proliferam equívocos epistêmicos, ingenuidade, devaneios woke ou de fundo identitário. No meu entendimento há um pressuposto (falso) entre tal grupo de que a carência de tal ingrediente na humanidade seria uma questão individual, volitiva ou cultural, passível de abordagens comportamentais e educativas e não fruto da desigualdade material, seja entre grupos humanos, sociedades ou nações, algo de fundo sociológico e político, bem mais do que pedagógico ou moral, como os filiados (você, especialmente…) insistem em acreditar. Tais reflexões podem até ensejar um sono tranquilo e acomodado a quem as movimenta, mas pouco acrescentam a um debate realmente sério e consistente sobre tal tema.
Aproveito para lhe pedir que em caso de reedição de certo texto seu, faça a gentileza de retirar meu nome dos créditos, bem como o prefácio que escrevi, coisas que fiz mais por amor do que por convicção, valendo o mesmo para aquelas “memórias” que em tempos melhores eu lhe ajudei a elaborar. Penso que isso faria justiça tanto a mim como a você. Pena que não seja viável apagar isso de vez, por alguma outra maneira, mais urgente e radical. O fato é que já não me vejo naqueles textos.
Para concluir, Antonieta: neste jogo você foi, de fato, vitoriosa. E assim eu, perdedor, não tenho – e nem poderia ter – nada a acrescentar ou reivindicar. Quem sabe a você não caberia o papel de Pirro? Creio que atais fatos se aplica uma lei natural, por assim dizer, também conhecida como Abba Law: the winner takes it all! Seja feliz e faça bom uso do prêmio que você, a única vencedora, auferiu.
***
Carta II
Ferido Edgard
Você não leu errado, não é “querido” que eu queria dizer, mas sim uma alusão realista, sem perder o respeito, ao seu estado de espírito. Estado de perdedor, melhor dizendo. Você acha, afinal, que as relações humanas, entre elas a amorosa, foram feitas pra durar para sempre? Quantas vezes, nesses anos que estivemos juntos, não conversamos sobre isso? Eu imaginava que você fosse coerente com algo em que, aparentemente, você concordava comigo, ou seja, que valeria a pena ficarmos juntos apenas enquanto tivéssemos consenso quanto a isso. Você parece que se esqueceu, Edgar, ou até mais do que isso, você repetia isso aí com certa frequência, de uma maneira que, confesso, às vezes até me assustava, por julgá-lo prestes a romper comigo.
Pois é, Edgar, o que houve com você? De minha parte, a roda da vida girou, o consenso se foi, mas você parece incapaz de perceber os motivos. Os MEUS motivos. Está disposto a me ouvir?
Em primeiro lugar eu não lhe “descartei” de minha vida, como você afirmou. Apenas percebi que o tal “consenso” deixou de me ter como partícipe. É claro que você deseja que eu me explique. Pois bem, não tem explicação, acabou, e pronto! A sintonia entre duas pessoas em uma relação amorosa, entre outras modalidades, é fruto de um equilíbrio delicado e seu término se equipara à queda de um avião: sempre tem uma multitude de causas.
Há uma questão fundamental, que permeou nossa relação e que você, querendo ou não, explicitou em sua mensagem. Em suas palavras, ora duras, ora apenas irônicas, você mostrou desprezar o meu modo de pensar, principalmente do ponto de vista de minhas crenças, mas também de minha competência profissional. A expressão “peculiares teorias”, que você utilizou para ironizar minha atividade como profissional de saúde mental é bem uma prova disso. Não vou discutir aqui tal “peculiaridade”, tomada por você como coisa pouco fundamentada. Apenas cansei de fazer isso tantas vezes ao longo de nossa convivência, sem obter maior entendimento de sua parte.
Você fala em minhas “certezas inabaláveis”. Não, Edgar, não tenho culpa de ter algumas certezas. Não são muitas, mas são certezas. Acho que você critica especialmente aquelas coisas que me servem de roteiro no plano espiritual. Se for isso eu diria que você até tem razão. O que posso fazer? Minhas crenças no plano transcendental desta vida, por exemplo, acho que já nasci com elas, mesmo antes de minha tia Cecília ter me introduzido ao mundo dos espíritos. Não posso acreditar que, diferente de você, essa vida rala que temos aqui poderia ser a única coisa que nos é destinada. Há mais, bem mais à nossa frente, além da fronteira do cognoscível e você rejeita isso. Sua insistência com o que você chama de “saudável ceticismo” de sua parte sempre me incomodou bastante, por beirar a arrogância.
Sinceramente, talvez eu tenha alguma dificuldade em separar o que eram discordâncias entre a gente e sua respectiva transposição em desavenças. Se um dia pudéssemos conversar novamente, de igual para igual, com calma e tolerância de parte a parte, você talvez pudesse me entender ou talvez me esclarecer melhor sobre tal coisa. Ou talvez eu tenha que explicar melhor a você que para mim a ultrapassagem de certas barreiras, no que se refere a crenças, talvez implique em reações mais emocionadas, como eu devo ter reagido junto a você em certas ocasiões. Não sei se estive certa ou errada quanto a isso, mas devo admitir que talvez tenha me sentido ferida em certas “cláusulas pétreas”, para mim, pelo menos, que para você não passavam de bobagens.
Sua referência a “pessoas normais” me deu a impressão que talvez você esteja me excluindo de tal categoria. Não vou aprofundar, mas da minha normalidade eu entendo muito bem, e ela me deixa satisfeita com a vida e com as pessoas que me cercam. Não posso fazer nada quanto a isso. Pois bem, você não poderia ter aceitado e convivido com a minha suposta anormalidade, como em várias passagens de sua carta você menciona, que fez isso ou aquilo “por amor”? E eu pergunto, mais: o que seria mesmo que você designa dessa maneira? Tal atributo de anormalidade que você me dirige deveria até me ofender, mas vou relevar.
Moral, moralismo, moralização. Tal acusação a mim mostra muito bem o foco de algumas de nossas divergências – ou, se você quiser, “desavenças”. Acho que você tem razão, tais sentimentos sempre moveram minhas ações, penso que desde criança. Pode ser que você tenha razão, mas fala apenas como parte ofendida, porque no fundo penso que você também é uma pessoa que tem fundamentos morais.
Você pegou pesado demais com aquela história de que eu tive um quadro de “somatização” qualificada como “extraordinária” e mais um monte de adjetivos. Você, de fato, é um mestre nas ironias, e das mais pesadas. Mas eu sei muito bem das dores que me assaltaram naquele dia. E de você eu só poderia ter esperado uma atitude mais solidária ou compassiva. Mais nada…
Sobre minha suposta incapacidade de perdoar, pelo amor de Deus, isso faz parte do meu DNA, já o fiz e vivo fazendo pela vida a fora. Em todo caso, lhe digo: em que, exatamente, você deseja algum tipo de perdão? Eu talvez lhe tivesse oferecido isso, se pelo menos soubesse de seus desígnios.
Sobre minha imagem que você tem, como pessoa “intocável”, quem sabe você não poderia se mirar no espelho, para ver que ali há alguém que não tem consciência de seus próprios erros, ou, por outra, cujo narcisismo lhe impede de conhecer sua verdadeira imagem?
Voluntariosa e fútil. Esta é boa… Acho que nem vale a pena responder.
Traição? Eu também me senti traída, pelas suas amizades meio secretas, pela maneira indelicada como me tratava muitas vezes. Você dizia que “era seu jeito de ser”, mas nunca procurou entender como, do meu lado, era o meu jeito de ser querida e admirada, coisas que me fizeram falta na relação com você.
Com essa história de “morte simbólica” no fundo penso que isso era, de fato, uma espécie de aspiração sua, já que a minha morte real não lhe passava pela cabeça.
Sua lista de queixas sobre a minha pessoa me faz retornar às primeiras linhas de sua carta, quando entre outras coisas você afirma que nós não tínhamos mesmo como dar certo, particularmente em relação às minhas crenças que você considerou “prolíficas e distantes de maior apego a evidências”, seja lá o que isso quer dizer. Mas está tudo dito nessa passagem, ou seja, o que aconteceu entre nós dois não tinha futuro.
Um reparo final: adoro o Abba, mas lamento que você tenha utilizado uma das minhas canções prediletas deles para mais uma vez me depreciar. Vencedora, eu? Você se engana. Eu perdi muito com isso, mas não me arrependo, pois pelo menos posso agora viver minha vida sem ter que conviver com a sua “racionalidade”, com as suas “evidências”, com as suas – essas sim – “certezas inabaláveis”.
Fique bem, meu senhor, homem ferido não por mim, mas por sua enorme incompreensão e rigidez mental.
