– O senhor parece que não se cuida. Olha só essas unhas, que coisa mais feia! Deixa que eu vou resolver, mas tem que vir aqui pelo menos uma vez por mês.
Assim me falou, um dia, Efigênia. Ela é podóloga, ou seja, aquela moça que cuida de unhas, especialmente dos pés. No estabelecimento aqui na vizinhança, o Pé de Anjo, que passei a frequentar depois de uma primeira experiência, ela é muito requisitada. Vou lá uma vez por mês, mas gostaria de ir mais vezes, porque ali me sinto cuidado de forma especial. Além disso, apesar de ser uma pessoa de instrução apenas média, ela tem um papo dos mais agradáveis e evoluído, inclusive em temas ligados a costumes, fugindo de um padrão evangélico de periferia que é comum encontrar em tal tipo de pessoa, preconceitos à parte.
Ela também tem mãos maravilhosas, que ao terminar aquele esforço especialmente veterinário de me aparar os tais apêndices de queratina, verdadeiros cascos, ainda me aplica uma massagem especial, que me percorre da sola dos pés até as panturrilhas, passando pelos calcanhares, coisa das mais relaxantes, que às vezes tenho que me conter para não pedir um prolongamento daquilo, por temer, quem sabe, que possa dar indícios traiçoeiros e vir a ser mal interpretado por Efigênia. Aquilo, ai meu Deus, confesso que me sobe pelas pernas e se eu não me cuidar chega perto da cintura – ou da virilha, admito. Falo apenas de uma sensação abstrata, não de uma presença física e real de tais mãos, é claro. Mas devo admitir que gostaria.
O fato é que saio daquelas sessões com Efigênia quase flutuando, num misto e relaxamento (inocente) e prazer (um pouco envergonhado).
Ela é não chega a ser uma mulher especialmente bonita. Tem um corpo de camponesa, bunda larga, pernas grossas, seios fartos. O rosto é largo e guarda um pouco de pequenas cicatrizes, de acne ou de uma pele que não bem cuidada. Mas aqueles olhos, ao mesmo tempo incisivos e sonhadores, me desconcertam. O mais não posso dizer porque está sempre de jaleco e aqueles trajes meio cirúrgicos de trabalho.
Efigênia…. Um dia descobri que as semanas em que não entregava meus pés às suas mãos milagrosas demoravam muito a passar.
Disse alguém, não sei se Lutero ou o Padre Cícero, que uma cabeça vazia é oficina do demônio. Deve ser verdade mesmo, mas acrescentaria, por minha conta, que para corações vazios – e vadios – idem; ou pior, podem atrair uma legião daqueles. Digo isso porque encontro-me num detestável estado de eu-comigo, abandonado que fui por pela vil Antonieta, já se vão dez meses. E assim, pedicurismo que vai, massagem que vem, comecei a ver Efigênia com outros olhos, localizados na fronte, no coração e sei lá aonde mais, sem saber se para o bem ou para o mal, valendo isso para a minha pessoa ou para a dela.
Um dia descobri realmente que minha vontade de estar com ela estava não se fazia presente apenas por causa das minhas unhas. Mas será que eu teria a coragem de revelar uma coisa assim a ela? Como ela reagiria: com surpresa, susto, temor, desprezo? Outros coroas como eu já deviam ter tido a mesma ideia. Mas eu mesmo não sabia bem o que desejava naquela fada podóloga: o coração, a conversa, o corpo, aqueles olhos? Ou mais alguma coisa por ora insuspeitada? E se eu lhe perguntasse diretamente: Efigênia, posso lhe cortejar? Ela parece ser uma moça livre, de certa forma acostumada com cantadas vulgares, até piores do que essa. Mas o fato é não sei se ela entenderia, de cara, ou se acharia normal o significado de cortejar. Só tem uma maneira de saber: perguntando.
Mas, cadê coragem? Porque eu mesmo não sei o que seria melhor, tanto para mim como para ela. Sim, talvez o mais adequado seja apenas cultivar tais sensações podais mensais, sonhar e lembrar delas nas minhas noites vazias. Mas meu erotismo epicurista pedia outra coisa, mesmo que fosse para obter compensações mais abstratas e modestas.
Devo dizer a verdade: sonhei com Efigênia uma noite dessas. Ela me aparava as unhas e me massageava os calcanhares e as panturrilhas, depois suas mãos delicadas iam me subindo pelas coxas. E pior (ou melhor): estávamos os dois dentro de uma piscina ou uma grande banheira de água morna, aparentemente nus – e era tudo muito espontâneo e sem culpa, como se fizesse parte habitual de uma sessão podológica normal. O seu corpo de camponesa tinha se transformado; agora era uma sereia.
Cruzes, a que ponto chegou minha solidão. Mas ao mesmo tempo não conseguia desprezar tal sentimento. O certo é que não sabia bem o que fazer.
– Efigênia, você permitiria que eu lhe cortejasse? Que pergunta mais esquisita. Soaria meio fora de moda e até um tanto cafona. Mesmo assim reivindico para ela um significado mais nobre, como o que me foi revelado, há anos atrás, por uma amiga que recebera uma cantada, melhor dizendo, uma proposta com tal teor, feita com graça e respeito, partindo de um professor dela, e também meu. Deu certo, porque eles namoraram e acabaram se casando, ficando juntos até que a morte os separasse, com a diferença de menos de um mês entre um e outro serem alcançadas pela visita da indesejada das gentes.
– Pois bem, Efigênia, agora vou dirigir tal pergunta a você – eu pensava, nas minhas noites em claro. E prosseguia: não; não se assuste, darei tempo para que você pense em tal assunto. Sabe como é, estou sozinho há algum tempo e não está me agradando tal estatuto, tanto físico como espiritual. Acho que bem me faria – e talvez fosse recíproco – uma companhia feminina, algo entre amiga e namorada, ou as duas coisas, não necessariamente nesta ordem, ou algo parecido.
Meu dia de visita a ela ainda demoraria a chegar, até porque Efigênia me comunicou que sairia de férias e visitaria a família no Norte, de que resultaria que eu teria que tratar minhas unhas com Natália, sua colega do box ao lado, por quem eu não tinha nem simpatia nem, digamos, atração. Mas confesso que a ausência de Efigênia me afetava, trazendo nostalgia e até um pouco de ciúme. Quem sabe ela teria alguém especial por lá, no Norte?
Enquanto isso, apenas mentalmente, eu insistia, indagando, ao léu: – quer saber o que eu tenho a oferecer, afinal você ainda me conhece pouco? Resposta pronta: em primeiro lugar, gentileza e boa companhia, para ouvir, conversar, caminhar, ir a lugares, ver um filme, comentar uma leitura, exercer alguma militância política, fazer confidências, bebericar um vinhozinho ou uma cerveja, cuidar e ajudar ao outro no que for preciso, interagir com terceiras pessoas e, quem sabe, até fazer alguma viagenzinha.
Mas logo revia para mim mesmo aquela lista de benesses, percebendo que nem tudo, talvez, interessasse a ela, ou soasse ridículo, coisa de velho assanhado. A questão da militância política, por exemplo, ou mesmo ir ao cinema, que bobagem! Dificilmente gostaríamos de ver o mesmo tipo de filme. Por sorte eram perguntas vazias, dirigidas a mim por mim mesmo, indicativas de que eu estava a sonhar demais, de olhos abertos.
Mesmo me reprimindo, não conseguia deter aquelas fantasias, imaginado agora lhe revelar coisas sobre a minha pessoa, afinal uma presença digna, de apreciador de boa conversa, com posição política progressista, que não era nenhum padre ou filósofo, mas portador de razoável cultura geral, que se cuidava bem fisicamente e tomava banho todos os dias; que não era ciumento nem machista; que respeitava e admirava o poder e a intuição das mulheres; uma pessoa moderada, acima de tudo. Eu nem falaria diretamente em sexo, detalhe pouco significativo, ainda mais na minha idade. Mas tudo se negociaria nesta vida.
Se ela por acaso me perguntasse por meus defeitos eu traria a resposta na ponta da língua: eu os tenho também, mas prefiro me calar, pelo risco de fatalmente acabar ocultando alguns pecados para me proteger e assim vir a ser desmascarado mais adiante. Mas por favor não pense, Efigênia, que isso possa valer mais do que as minhas qualidades, mesmo autoatribuídas. Havia, é claro, estudada ironia em tal resposta, mas será que Efigênia seria capaz de captá-la?
Mesmo assim eu, sedutor no último grau, me sentindo à beira do ridículo, seguia adiante, já meio tonto pelo embalo a que me entreguei. E se você, Efigênia, como eu (e tanta gente mais), andou experimentando frustrações em tal campo, mesmo assim quero saber se poderíamos no dar uma chance? Você não precisa responder agora, e quando o fizer pode ser de modo não-verbal, com aquiescência silenciosa ou outra modalidade não-verbal, quem sabe uma massagem especial na sola de meus pés, que andam tão carentes disso? Mas se de forma direta e verbal me disser que topa, tenha certeza que vou me alegrar muito!
Eu nem consideraria o silêncio dela como uma negativa, pois acho que ninguém negaria um pedido assim tão simples e sincero, que se refere apenas à permissão para uma corte, em velho e bom estilo, com todo respeito e sinceridade e com desfecho em aberto.
Tudo bem: devagar, devagarinho, em passos bem miudinhos, como no samba de Martinho da Vila…
Pois bem, Efigênia voltou de sua viagem e tive um novo encontro com ela, bem profissional, no qual mais uma vez me deliciei com aquela prosa fluida e sem compromisso, a massagem podal, a fragrância de um novo creme com que ela me tratou os pés, fazendo-me sentir quase um personagem de Omar Khayam. Mas tudo ficou dentro do costume: eu agi com cautela, paguei os honorários da clínica e fui embora.
A questão é que o destino me armava uma peça.
Foi assim: num fim de semana fui ao shopping comprar umas meias e cuecas, que as minhas estavam pela hora da morte. De repente, quem eu vejo andando poucos passos à minha frente? Sim ela mesmo, a musa podóloga. De início até não a reconheci, pois estava completamente livre daquelas roupas cirúrgicas e do crocs que habitualmente usava no trabalho. Não! Ali parecia estar outra pessoa. Saia acima do joelho, sapato de saltinho, meia arrastão, blusinha leve, deixando o pescoço e uma boa área em seu entorno a descoberto. Na cabeça, uma tiara colorida. Uau! As pernas grossas e os seios fartos compunham bem a figura que eu ali contemplava.
Não me aproximei, contudo, pois queria observar sua marcha, na qual vi leveza e sensualidade. Efigênia, a podóloga, bem ali na minha frente, a poucos metros. Céus, eu nunca teria adivinhado uma transformação como aquela. Ainda embasbacado, confesso, vi que ela entrou em um banheiro. Eu devia ter seguido adiante, mas deixei-me ficar à espreita, disfarçadamente. Passados poucos minutos ela saiu de lá, ainda retocando os cabelos e com a tiara nas mãos. Pude ver, então, com surpresa ainda maior que completando toda aquela produção, ela tinha os lábios coloridos com um batom vermelho, bem chamativo.
Fiquei fascinado! Mas tudo isso durou até o momento em que vi que alguém a esperava do outro lado do corredor, uma mulher mais ou menos da idade dela, vistosa também, vestida com a farda da Polícia Militar, bem justa ao corpo, com todos aqueles adereços costumeiros: colete a prova de balas, cinturão, penduricalhos profissionais, entre eles, na cintura, uma pistola, presa à coxa por uma cinta.
As duas seguiram pelo corredor de saída e eu resolvi segui-las, por curiosidade. O que significaria aquela companhia inesperada? Na escada rolante, aumentei meu espaço e acabei por perdê-las de vista. Completei minha visita ao shopping e fui pegar meu carro na garagem. Foi aí que meu mundo desabou… Em um veículo estacionado, bem no meu caminho, lá estavam Efigênia e a soldada. Até aí, tudo bem. Mas o que vi foi totalmente inesperado, tendo flagrado um beijo frontal, intenso, apaixonado, em que as cabeças e pescoços das duas se moviam com gula e gana. Como se dali nascesse um novo universo amoroso e erótico.
Aquilo me veio como um balde de água fria, ou de ácido sulfúrico, sei lá. Como eu poderia lutar contra uma coisa daquelas, literalmente, com que armas?
Serei sincero, admito que perdi. E sei perder. A verdadeira prova que mesmo assim agradeço à musa podóloga que alimentou meus sonhos por algum tempo é que desejo que ela e a sargenta ou capitã de seu coração sejam felizes. E não faltarei à próxima sessão no Pé de Anjo, pois minhas unhas já insistem em desfiar cada meia que tento calçar.
Podem acreditar que há sinceridade nisso.
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