Se bem me lembro (VII): Família, família…

Numa expressão duplicada e irônica, para não dizer sarcástica, os Titãs falam de família, da família brasileira, talvez de todas as famílias, mais do que das famílias de si próprios. Tal ironia, no meu caso, até que se justifica, mas quero falar aqui é de um outro lado de tal entidade, aquele que remete a afeto, influências culturais, ancestralidade e boas lembranças, enfim. Devo dizer que minha família deve ser igual todas as outras, com altos e baixos, gente normal ou nem tanto, situações de conflito entremeadas de carinho e amorosidade. Mas não custa lembrar de situações mais peculiares, por exemplo, quando quase perdi minha mãe ainda na infância e a rede familiar, formadas por avó, tios, tias e outros parentes se fechou sobre meus irmãos e a mim com total desvelo, desprendimento e caloroso abrigo. Pouco tempo depois perdemos um tio e um primo num afogamento, quando um tentava salvar o outro – e foi a tal rede que nos salvou. Mais uma morte trágica, quando um primo foi assassinado por um policial ao tentar separar uma briga. Essa foi a parte ruim, todas as famílias certamente conhecem algo assim. Mas houve também memoráveis almoços campestres, na fazenda onde morava um tio, com saudável disputa entre as tias sobre quem fazia um prato mais saboroso. Aliás, acima de tudo, sabíamos, como ninguém fazer comemorações em torno de uma mesa, nisso incluído não só a degustação, mas também altos papos filosóficos e políticos. Vivemos assim, dentro de tal grupo, uma era de marcantes revoluções culturais e sexuais, porém sem maiores sobressaltos, diga-se de passagem. No meu caso específico, creio que posso me caracterizar como fruto não só de uma época espacial, o baby-boom pós Segunda Guerra, como também de ter sido testemunha e participante das tais revoluções e mais ainda, de passar a infância em ambiente de certa disparidade, por ter pai e mãe de extrações culturais desiguais, sem deixarem de ser significativas para minha formação: ela filha de pai intelectual e advogado, educada em colégio de freiras; ele, produto de outra banda do estado, de um patriarcado rural, nem sempre formado por gente totalmente alfabetizada, vivendo da dura lida com lavouras e gado, em propriedades pequenas, numa vida sem grandes perspectivas de consumo, onde não havia nem piano nem colégio de freiras. Assim fui feito e me fiz…  Vamos às lembranças.    

Em tempo: esta foto de família que está aí em cima tem tudo a ver comigo, sim. O moço mais à esquerda é meu avô Altivo, talvez com seus 18 anos, ou seja, cerca de 1915. O garoto a seu lado é seu irmãos Carlos (sim, ele mesmo, o CDA). Além deles, o patriarca Carlos de Paula Andrade, a mãe Julieta Drummond, seus irmãos Flaviano, Maria e Rosa. 

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Dodora

Em 1995 escrevi um texto poético sobre os 100 anos que teria completado meu avô Altivo Drummond de Andrade, falecido em 1961. Tal poema está publicado aqui no meu blog com o nome “Mesa dos cem anos”. Hoje, 25 de outubro é o aniversário de sua companheira de toda a vida, minha avó Maria Auxiliadora, Dodora, para os filhos, netos e demais parentes. Ela nasceu em 1902. … Continuar lendo Dodora

Dez anos sem Roberto Andrade

Anos 50. O homem louro e alto, para nós crianças mais alto ainda, grande como uma torre, nos trazia o cheiro de currais e as histórias de lugares de nomes sugestivos: Uberaba, Barretos, Areias. A cada ano éramos apresentados a um novo primo, quatro evangelistas, meninas com os nomes começados por “B” e mais. Anos 60. Os encontros nas Areias. Festas regadas a conversas, brincadeiras … Continuar lendo Dez anos sem Roberto Andrade