Antonieta e Edgar eram pessoas normais e um dia se apaixonaram um pelo outro. Numa encruzilhada normal da vida, no caso, em uma sala de espera de um cinema, se olharam, se aproximaram, conversaram, se entenderam, viram um filme juntos e começaram a se relacionar. Mais do que isso, se fizeram amantes. Tudo nos limites da normalidade para a idade deles, já maduros, para os tempos em que viviam, em que as pessoas já usufruíam de liberdade para escolhas de seus relacionamentos, de forma bem diferente de sua geração anterior.
Partícipes e cúmplices dessa mesma liberdade, um dia se separaram. Tornaram-se a se encontrar, revogaram as disposições em contrário e seguiram em frente. Entretanto, a realidade da vida de cada um deles um dia falou mais alto. Ele cético, ela crente; um materialista, a outra espiritualizada; um arraigado a seus hábitos e lugares, a outra ousada em suas buscas pelo mundo. Se separaram se se juntaram por uma, duas, três vezes, até que um dia perceberam que aquilo era muito desgastante, fazendo muito sofrido aquele permanente recomeço.
Na verdade, Edgar queria mais duração, achava que os sucessivos xeque-mate que Antonieta lhe aplicava não podiam ser definitivos, ao contrário dela, que aspirava por outras coisas, mudanças em sua vida que, entre outros aspectos, não envolviam uma ter alguém a seu lado como companhia permanente. Entretanto, o real desejo de Edgar tinha outra natureza.
Um dia, de repente, luz para ela e treva para ele, as coisas se ultimaram para o casal. Antonieta se aproveitou do que ela considerou uma descortesia de Edgar, que não lhe deu grande atenção em um momento de dor e ansiedade e rompeu com ele, em definitivo. Edgar, mais uma vez, tentou contornar a situação, pediu mil desculpas, tudo em vão. Percebeu, entretanto, que um ato como aquele, já repetido por vezes sucessivas, não poderia mais ser tomado em vão e assim acabou por aceitar os termos de Antonieta, com ruptura irreversível da relação dos dois.
Que história mais banal… Isso poderia ser tema de uma novela, bem corriqueira, até vulgar, destinada ao esquecimento. Um tema, aliás, tão antigo como a própria humanidade, quem sabe já presente na era dos símios e dos hominídeos.
Sempre a mesma história, mas sempre diferente. Os hominídeos, assim como Antonieta e Edgar, por certo são parte de uma humanidade (ou quase humanidade) geral, mas mesmo eles, em si, são seres únicos, o que faz de seus dramas, mesmo pequenos, irrelevantes, quase ridículos, histórias a cada vez diferentes e de variado peso em cada um – pelo menos para quem as vive, é claro.
A verdade é que os séculos passam e personagens como Antonieta e Edgar continuam a experimentar esse tipo de dor, de uma modalidade que fere, mesmo sem ser totalmente sentida. Ao mesmo tempo, pelo contrário, pode ter até a sua dor desejada, como se fizesse parte inseparável de um todo.
Edgar e Antonieta, tão ligados, mas também tão contrários a si mesmos, se viram soçobrados depois de tentarem, em vão, formarem o Uno, indistinguíveis um do outro. Que fogo é este que lhes abrasou sem que sequer fosse percebido, ao mesmo tempo produzindo dor associada ao júbilo do alívio?
Nunca ignoraram que aquilo tinha potencial para ser apenas uma espécie de desatino, um descaminho, um abismo, uma pedra a rolar, uma catarata indomável, além de todas as possiblidades de ser detida e se transformando rápida e irreversivelmente em tremenda avalanche.
Certamente Edgar e Antonieta experimentaram coisas que em um momento desejaram e em outro, subsequente, rejeitaram. Quiseram, quem sabe, marcar presença em alguma multidão e ainda assim estarem a sós, um e outro, nada mais. Satisfeitos plenamente a um tempo, em outro presas de total insegurança e aflição. Vencedores de um jogo obscuro, que a cada rodada seguinte passam a perder. E o pior, sem nunca terem ganhado nada.
Nenhuma prisão lhes pesaria, pois não foi em uma dessas que se trancaram, um dia, por total e livre vontade própria? Dominados? Como? Se a própria dominação se transformou em prêmio e consolo.
A eles não importaria que fossem feridos ou até mortos pela avalanche que desastradamente provocaram, continuando leais a quem pudesse ter agido para que as encostas e os subterrâneos se movessem e os engolfassem, ou seja, eles mesmos. Entretanto, não se interessariam em conhecer o agente disso tudo – se houvesse tal personagem – nem desejar sua neutralização.
O que nem sempre tiveram consciência, entretanto, foi dos sentimentos amáveis que experimentaram, contraditoriamente dirigidos mesmo a quem até ontem os atacasse sem qualquer piedade. No caso – e mais uma vez – eles mesmos.
Quem poderia estar por trás de tudo isso, afinal? Uma extraordinária força, a si mesmo antagônica, que se ajustava e se organizava mesmo na barafunda de seus escolhos e de suas cinzas, no mais profundo dos labirintos, ainda capaz de triunfar, apesar de tudo.
Ah, Antonieta e Edgar: suas culpas, seus martírios, suas justificativas não são nada, não podem ter qualquer valor, perto da imensidão da força amorosa que um dia os moveu e continuará movendo outros seres, retendo energias como o magma no fundo dos vulcões, ou algum rochedo radioativo a mil quilômetros de profundidade.
Vocês são apenas a poeira que se sucedeu à queda de um meteoro, a lama do escorrimento de uma Iguaçu. Acima e além de vocês, pobres criaturas, a vida – e o Amor – seguirão.
***
Esta é mais uma daquelas Histórias de Segunda Mão. Não. Não me acusem de plágio, portanto. Aqui o vai a inspiração original, by Luis Vaz de Camões.
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
