– Edgar… Edgar! Você me ouve? Eu tenho que lhe dizer mais algumas coisas e quero que você me ouça. EDGAR!!!
Era a voz de Antonieta, sem dúvida, e ela parecia estar por perto, o que era, entretanto, impossível, pois ela não morava com ele e, aliás, fazia bom tempo que nem se viam.
Não era a primeira vez que algo assim acontecia. Edgar finalmente se deu conta de que tinha adormecido e estava tomado por uma modorra, cinzenta e sombria. A voz de Antonieta não estava mais ali e ele aos poucos percebeu que estava em sua cama de sempre, com os mesmos lençóis, em seu quarto escurecido, salvo pela luz do despertador elétrico. Aquilo fora apenas um sonho – ou um pesadelo – e que agora o que lhe cabia era enfrentar aquele resto de noite ou de madrugada, desperto, com o corpo a reclamar alguma posição confortável, impossível de ser alcançada, imerso nos pensamentos amargos de sempre, aos quais se juntara a voz de Antonieta, que ele tão bem conhecia.
Levantou-se, foi ao banheiro, sem saber exatamente por que o fazia, pois nenhuma reclamação da fisiologia corporal se lhe anunciava. Antes de voltar à cama, por um breve momento se deteve defronte ao espelho do banheiro e se viu ali, com renovado espanto, mais velho, mais cheio de rugas, portador de uma fisionomia amarga que ele julgava não lhe ser apropriada, como lhe acontecia com frequência nos últimos tempos.
Quando fora, afinal, que tudo se subvertera na vida dele?
Sim, Antonieta estava na origem de tudo, ou quase tudo. Já fazia meses, quase um ano, que ela o despedira de sua vida, de maneira inesperada e até, para ele, indigna. Edgar viu seu espanto se transformar em raiva, depois em ódio, depois desconforto, esperando na sequência ser envolvido por algum alívio, merecido, entretanto sem nunca lhe alcançar por completo. Em algumas noites, depois de horas se debatendo na cama, aceitava que estava na hora de aceitar os fatos e vivenciar sentimentos mais suaves, quem sabe alguma coisa como o desejado alívio. O consolo que experimentava, entretanto, costumava ser fugaz, durando apenas até o amanhecer, quando tudo voltava ao estatuto de antes, fazendo com que Edgar mais ainda se exasperasse.
Desconsolo era pouco. Havia também frustração, raiva, sentimentos de ter sido desprezado e até humilhado por Antonieta. Poderia até ser razoável que seus problemas se resumissem apenas àquela sensação de abandono e frustração amorosa. Não, não era assim, a sua vida, no real, lhe trazia tantas coisas mais, ainda piores. Nas longas noites em que se afundava na amargura, sua sensação era a de carregar um peso, a atravessar um calendário de anos, não de algumas horas noturnas apenas.
Sua saúde, por exemplo. Edgar tinha uma caixa de comprimidos onde cabiam cinco ou seis variedades diferentes de medicamentos. Tinha pressão alta, deficiência na tireoide, gorduras altas no sangue, além de outras mazelas próprias da idade. Na caixinha, pelo menos a metade dos compartimentos já se esvaziara, embora não fosse possível, para ele, identificar com exatidão as pílulas realmente faltantes ali. Ele guardara, é claro, as receitas, mas não se lembrava aonde o fizera. O doutor Ivan, que lhe atendia há anos, havia se aposentado e mudara para uma praia distante, deixando-lhe indicado o nome de um colega mais jovem, que Edgar nem chegou a procurar, pois perdera também o papel de receituário, onde tal nome estava anotado.
Nenhuma vontade de procurar um novo médico agora, que apenas lhe faria perguntas burocráticas, para manter, com certeza, todo aquele arsenal de pílulas, talvez até acrescentando mais alguma coisa. Para quê, pensava Edgar, ao constatar que já se iam semanas ou meses desde que estavam ocupados apenas dois ou três dos compartimentos da caixinha, justamente aqueles em que tinha adquirido medicamentos em maior quantidade. Em total ostracismo estavam os nomes perdidos de medicamentos, quem sabe para sempre. E ele continuava vivo, sem experimentar qualquer progresso ou retrocesso em seus vastos sintomas. Teria aquilo potencial para durar quanto tempo?
Pobre Edgar. Tantas coisas a lhe fustigar…
Aquele concurso de contos, por exemplo, organizado por uma instituição cultural de que ele nunca ouvira falar e que depois, pesquisando na internet, descobriu ser ligada a uma liga de senhoras maçônicas, do Lions Clube, ou algo assim. De cara ele viu que não teria nenhuma chance ali dentro, diante de um conto no qual havia algum erotismo sacana. Não que alguma negativa ao seu talento literário lhe fosse novidade. Estava cansando de mandar colaborações para revistas literárias e se submeter a concursos como aquele, nos quais nunca era aprovado, sem ao menos lhe darem resposta ou alguma justificativa.
Edgar não esmorecia diante disso, ao contrário, passara a escrever com frequência cada vez maior, coisa facilitada pela abundância de tempo de que, como recém aposentado, usufruía agora. E em seu repertório de histórias passou a incluir coisas inspiradas ou adaptadas de clássicos da literatura universal, textos bíblicos, cordéis, filmes famosos e até mesmo de reescrita de coisas que já havia produzido e até publicado eventualmente. Só no seu blog na internet chegou a contar, em certo momento, mais de cem textos disponíveis, ali ociosos, à espera de um editor que nunca lhe aparecia.
Passou até mesmo a sair da cama nas crises de insônia, cada vez mais frequentes, para ir ao computador escrever, escrever e escrever. Com um arrepio que lhe veio do fundo dos ossos, lembrou-se daquele Iluminado personagem de Jack Nicholson no filme baseado na obra de Stephen King, que passava as noites diante de uma máquina de escrever, datilografando vezes sem conta uma mesma frase, totalmente sem sentido.
Nessas horas, suas frustrações intelectuais se expandiam, de forma a incluir membros de sua família, seus irmãos, por exemplo e até alguns amigos, aos quais em algum momento ele havia confiado seus escritos para que lessem e de alguma forma comentassem. Mesmo esses, entretanto, não se dignavam a respondê-lo, brindando-o com um silêncio que ele não sabia ser respeitoso ou apenas caridoso.
Quem mandou ser metido a literato?
Para dar sequência àqueles dias de preocupações sombrias, lhe sobrevinham noites insones, nas quais Antonieta as vezes lhe aparecia, cobrando atenção ou recriminando-o, por motivos que ele era incapaz de se lembrar quando acordava.
Mas não paravam por aí as angústias de Edgar.
Desde que Antonieta o abandonara ele considerou que a melhor maneira de superar tal lacuna seria a de correr atrás de uma nova companhia feminina. Passou a se vestir melhor, se perfumar, frequentar ambientes onde houvesse público, como restaurantes, cinema, exposições, academia de ginástica. Chegou a tentar marcar um ou dois encontros com duas ou três mulheres recém conhecidas, mas nada daquilo prosperou. Temeu que elas talvez o achassem muito velho para coisas assim, um velho assanhado, que horror! Acostumado como estava, havia anos, a andar acompanhado de Antonieta, sentia-se agora só e deslocado em seu novo estatuto de homem solteiro, chegando a julgar tal fato quase indecente, ainda mais para uma pessoa como ele, que conhecera tempos melhores em sua vida.
– O que vão pensar de mim? – ensimesmava. As buscas intensivas e infrutíferas por companhias femininas acabavam por frustrá-lo ainda mais e tornavam ainda mais insuportáveis aquelas noites de frio e solidão, cada vez mais frequentes e mais, muito mais, intensas.
Com a família, duvidava que pudesse contar. A mãe e os irmãos dele só se lembrava quando alguma coisa corria fora do normal. Agora era a velha, internada em um lar para idosos, a apresentar sinais de demência. Era preciso transferi-la para uma clínica especializada e para tanto uma chamada de capital se fazia necessária. É claro que era dele, em primeiro lugar, que se lembravam para isso. Pelo menos bastaria enviar uma ordem de pagamento, não precisaria ir até lá, uma viagem longa e desgastante, na qual duas alegrias lhe eram certas, a de chegar e a de partir de volta. Desta vez, entretanto, queriam sua presença, para uma série de decisões relativas à mãe, que afirmavam depender da presença dele, filho mais velho.
Nas noites que teriam antecedido a viagem, que afinal de contas não aconteceu, somou-se à insônia de Edgar mais este percalço, numa sensação de irritação e culpa, que lhe fazia chegar a desejar a morte da mãe. E Antonieta, que andava desaparecida de sua penumbra noturna, voltou a marcar presença, numa noite em que sonhou com Dona Otávia, a mãe, morta num caixão, mas que ao chegar perto dela viu que quem ali estava, na verdade, era Antonieta, que agora lhe piscava um olho opaco. Edgar acordou estremecido de horror. Era um início de madrugada, no máximo duas ou três horas da manhã e ele se viu de tal maneira assombrado que não conseguiu pegar mais no sono, saindo da cama em estado de total avaria, nos sentidos e no humor.
Nesse dia, Edgar chegou a pensar em recorrer ao abrigo e ao carinho de alguém, dos filhos, por exemplo. Contudo, o mais velho estava viajando e demoraria a voltar; a mais nova sempre ocupada, como se fosse uma executiva internacional, lhe pediu que aguardasse o final de semana, quando ela teria uma folga na empresa em que dirigia o setor de recursos humanos. – Quer “recurso” mais “humano” do que eu? pensou Edgar, apenas de passagem, logo tentando se conter em sua ira e mal estar. Afinal era ainda apenas uma terça-feira e ele compreendeu que não poderia contar com eles, os filhos, ainda mais aquela que só lhe poderia oferecer apoio no final de semana. Melhor assim, pensou, pelo menos não ficaria devendo nada a ninguém.
Lembrou-se do Zé Maria, um psicanalista, seu companheiro na peteca semanal no Iate, mas logo se deu conta que aquele era um cara pernóstico e que lhe faria correr o risco até mesmo de lhe fazer pagar uma consulta, suspeita que era, aliás, voz corrente entre os conhecidos no clube.
Não que ele não tivesse outros amigos, como o Jacques e o Vanvan, mas aqueles dois pareciam ter nascido para viver acasalados, não largavam das esposas por nada nessa vida. Tinham total dificuldade em ser solidários com um amigo, o que importava para eles eram os deveres matrimoniais. Ou melhor, tinham mulheres que não lhes conferiam permissão para qualquer agenda em que não as incluíssem, chegando mesmo ao abuso de uma delas ter pedido ao Edgar em certa ocasião que não convidasse o marido para eventos em que ela não pudesse estar presente, fosse alguma “coisa de homem” ou mesmo por ela já ter assumido algum outro compromisso.
Edgar se deu por satisfeito pelo fato de que tal ideia não chegara a prosperar, além dos limites não verbais de sua mente, não sendo comunicada aos dois amigos ou às suas esposas. Melhor assim, concluiu, ao se dar conta que também parecia conspirar contra si o fato de ele ter se transformado em perigoso homem solteiro no meio de gente acasalada. Será que os amigos também desconfiavam de sua solteirice? A Raquel, mulher do Vanvan, por exemplo, bem que lhe dava uma tremenda colher de chá, chegando mesmo, nos cumprimentos formais, a lhe pespegar beijos ousados, a milímetros de sua boca, além de insistir em compartilhar, amiúde, com forçada intimidade, alguma bebida que ele tomasse.
A lembrança dos amigos em uma daquelas madrugadas insones lhe trouxe de volta a infância. Jacques fora seu vizinho de rua desde sempre e também colega de colégio. Amigo, sim, ele não duvidava. Mas que ao mesmo tempo não perdia oportunidade em lhe fazer troça, desde a meninice, sendo ele um craque nas peladas de rua e Edgar um incurável perna de pau. Em tempos mais recentes passara a criticar Edgar por seu desajeitamento nas mesas de bar, onde ele sempre entornava o copo de cerveja ou até mesmo pelo seu fracasso com Antonieta, que ele, Jacques, sem maiores subterfúgios atribuiu um dia à proverbial falta de jeito do amigo. Como poderia contar com gente assim? Tinha também o Saliba, mas este aí havia se convertido a uma seita espiritualista e sua conversa se desviava de qualquer foco, para falar de coisas como reencarnação, gurus, carma, cirurgias espirituais, meditações no deserto.
Como as desgraças nunca andam sozinhas, recebeu, neste mesmo dia, uma mensagem de Antonieta cobrando-lhe uma multa de trânsito sobre o carro dela, de meses atrás, veículo que, aliás, ele só utilizava para resolver problemas dela própria. À noite, sonhou com ela a lhe perseguir numa estrada sem fim, a lhe lembrar com insistência de tal pagamento. De fato, tinha que admitir, não era coisa do feitio dela, fora apenas um sonho, mas contribuiu para deixá-lo ainda mais abatido.
Ora bolas, que se danassem! Todo eles, todos, sem exceção. Foi o que pensou ao se levantar da cama na manhã seguinte, mais uma vez mal dormido.
Restava-lhe, entretanto, a Aurora, cachorra caramelo que ela adotara na rua e agora lhe arranhava a porta do quarto. Aquilo de certa forma fez o Edgar se alegrar. E assim diante de mais uma manhã vadia, mesmo após aquela noite mal passada, se juntou à companheira fiel e alegre com a qual ele podia contar em seus passeios matinais, dos quais não raro voltava tão cansado que tornava a cair na cama, para acordar apenas quando Sebastiana lhe convocava para o almoço.
Não era só companhia que lhe oferecia a doce Aurora: uma solidariedade total e inquestionável como somente os cães era capazes de praticar.
Convocou a caramelinha com o assobio habitual e ela prontamente apareceu, carregando sua guia na boca. Um suspiro de gratidão brotou no peito de Edgar, ao que Aurora respondeu com uma vigorosa sacudidela, com o rabo a se agitar ao modo de um metrônomo. O tempo estava propício para uma boa caminhada, pois havia chovido durante a noite, havia uma brisa fresca e no chão se ainda restavam inúmeras poças d’água, que ele e a cachorra evitavam pisar.
Alguma coisa, naquela manhã de caminhada, surgiu para Edgar, como se fosse uma verdadeira uma descoberta de mundo, uma epifania, à qual Aurora também se entregava com a energia de seu corpo e de sua alma canina. O sol brilhava como nunca, as poças d’água mostravam limpidez e brilho extravagantes. Logo ali adiante um pardal que se espojava numa delas, levantando uma guirlanda de gotas que faiscaram no sol da manhã, vislumbradas por Edgar como se fosse uma pintura japonesa, daquele tipo em que o movimento é capturado pelo artista como algo parado no ar.
Edgar se viu com uma vaga impressão de que alguma coisa de fato o incomodara pela noite adentro, mas já não era capaz de dizer o que tinha acontecido. O que havia agora para ele era um mundo começando a nascer, sem passado, a partir do nada.
Edgar, de fato, não precisava de outra coisa, para ele a luz, naquele momento, se fazia.
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