Miudezas ao Léu

Neste último domingo, 22 de fevereiro de 2026, fui agraciado por um convite para algo que vai se repetindo, quase que a cada ano: o lançamento de um novo livro de meu amigo Mauro Marcio de Oliveira, denominado O Livro das Miudezas. Nesses tempos que qualquer um que compartilhe em uma das tais redes sociais duas palavras com você, ou até menos do que isso, mesmo assim seja chamado de amigo, eu já nem sei se posso dedicar esta mesma palavra a Mauro. Somos bem mais do que isso: irmãos, admiradores recíprocos, membros de uma confraria de dois, unha e carne, Simon e Garfunkel, Tom Sawyer e Huckleberry Finn, algo assim. O que não impede que também tenhamos discordâncias ácidas. Mas isso aí só nos soma em termos de proximidade afetiva. E não é que desta vez, além do convite e da amizade, fui honrado com a escrita do prefácio da obra, além de, até mesmo, um posfácio, por assim dizer, escrito a quatro mãos com ele? No meio das miudezas de Mauro, tal convite representou para mim um verdadeiro Pão de Açúcar de cortesia e generosidade. É demais, né? Assim iniciei meu texto: Ao ler pela primeira vez os textos deste Livro das Miudezas que meu amigo Mauro Márcio de Oliveira me pediu para… Para o quê mesmo? Sei lá ao certo, para que eu avaliasse e tentasse encontrar alguma diretriz para que fossem publicados, com a honrosa incumbência que eu assumisse o papel de editor – seja lá o que isso pudesse significar.

O mais vocês saberão em seguida.

Continuar lendo “Miudezas ao Léu”

Altamiro e eu

Gosto de viajar. Lá isso eu gosto. Mas não sou como certas pessoas que colecionam viagens como fossem selos, ou rolhas dos vinhos que bebem. Gente que faz lembrar, mal comparando, aqueles cangaceiros que para cada morte cometida fazem uma marquinha no cabo da carabina. A Marilda, por exemplo, minha ex-mulher, era capaz de visitar variados países em única viagem e voltava sem conseguir dizer que língua se falava ali, qual a religião predominante, as comidas mais apreciadas, as manias do povo de lá. Tem gente que acha que isso não tem nada a ver, que o importante é conhecer os lugares, ver os monumentos, as montanhas, os lagos, andar de trem-bala, visitar lojas, rezar em uma dúzia de igrejas. Mas para mim tem tudo a ver, sim, conhecer as coisas mais entranhadas, profundas, que só podem ser apreciadas através do contato direto com as pessoas, seus modos de levar e ganhar a vida, seus botequins, seus mercados e suas barbearias. Às vezes até entrar dentro das casas, onde a vida de fato é vivida, o que dá trabalho, porque isso a gente só faz se conseguir se libertar dos terríveis personagens dos guias turísticos, mas vale a pena.

Continuar lendo “Altamiro e eu”

Não foi um amor exemplar, mas o resto não interessa

Eu a vi pela primeira vez na cantina da faculdade onde eu iria cursar uma disciplina indispensável ao meu doutorado. Morena, alta, de cabelos longos e olhos profundos, possuía uma beleza misteriosa, meio mediterrânea, sei lá, talvez misturando, traços árabes e italianos. Descobri logo após que seria minha colega de classe e eu, curioso em saber mais sobre ela, pois que me encantaram aqueles olhos profundos, com poucos minutos de conversa descobri que era formada na área de Humanas, trabalhava em serviço público e estava ali, de retorno à faculdade em que se formara, para se aperfeiçoar e alcançar uma promoção, nada mais. Nada de carreira acadêmica, como eu. Na sequência, fiquei sabendo de sua origem interiorana, denunciada pela maneira como pronunciava os “r”, sendo também um tanto tímida e de conversação restrita ao essencial.

Continuar lendo “Não foi um amor exemplar, mas o resto não interessa”

Apenas mais uma história de amor

Era o primeiro dia de uma primeira semana de aulas na Faculdade de Medicina. Cumpria obedecer ao ritual estabelecido de que os novatos doassem sangue. Ele foi lá, espichar o braço, em conformidade com os trâmites, e percebeu, na maca ao lado, a figura de uma moça de cabelos longos e escorridos, óculos de míope, meio no estilo gatinho, com um narizinho levantado, que de outra forma lhe teria passado como defeito, por dar à criatura um jeito presunçoso. Naquele caso específico, definitivamente não. Ela também recém aprovada no vestibular, tal como ele, se viam pela primeira vez.

Continuar lendo “Apenas mais uma história de amor”

Vida de cachorro

Finais de tarde em muitos domingos, em certo período de minha infância, viajando por aquela rua longa e sinuosa, que nos levava aos confins da cidade, em uma sucessão de bairros que iam variando de razoáveis a pobres, de classe média a gente apenas remediada e, depois disso, a miseráveis e favelados. Mais do que indicativos sociais ou topográficos, para mim e meus irmãos era o retrato vivo de uma dor.

Continuar lendo “Vida de cachorro”

Alumbramento

Saí de casa para aquela viagem com a sensação de que alguma coisa diferente ia me acontecer. Eu vivia em plena crise de um casamento que, fazia tempo, começara a dar sinais de cansaço. Melhor dizendo, a crise era, já há alguns anos, a expressão viva do que eu vivia ao lado de Maria Alice. Meus sonhos, havia tempo, apontavam para uma vida totalmente diferente e também para uma mulher diferente daquela que dormia ao meu lado e da qual eu mal sabia com o que sonhava. O que sei é que sonhávamos diferente, eu cheio de planos com foco coletivo, tanto quanto possível; ela aderida ao panorama do lar e da família, tratando meus devaneios sociais como se fossem coisa equivocada, ou pelo menos, incondizente com a vida familiar restrita com a qual ela se identificava.

Continuar lendo “Alumbramento”

Nós que amávamos a Revolução

Eram dois na noite escura. Esta era a primeira frase do livro que eu ia escrever. Na realidade, éramos dois que perambulávamos pelas ruas estreitas de nosso bairro de ruas calçadas em pedra, onde acordávamos todo dia com o apito da fábrica de tecidos, na nossa casa que pouco se distinguia da moradia dos operários, naquela cidade oprimida entre montanhas, em muitas noites escuras, que a singeleza das luminárias amareladas era incapaz de clarear. Passamos a ser três quando um primo de meu amigo se juntou a nós. Saíamos todas as noites, pela hora da novela, que então já “entorpecia as massas”, como rezava nossa cartilha militante, filosofando, tramando obras literárias, tentando equacionar o futuro da humanidade e, quem sabe um dia, participar da revolução no país.

Continuar lendo “Nós que amávamos a Revolução”

Histórias nasais

Um dia desses, confesso, por me faltar alguma coisa mais significativa, ou útil, para fazer, passeando pela internet, como acontece em ocasiões assim, me dei com um vídeo antigo, em preto e branco e cheio de chuvisco (do tempo que isso se chamava vídeo-tape, com hífen e tudo) no qual Juca Chaves cantava um antigo sucesso dele, nos anos 60. Chamava-se, tal peça, autorreferente, Meu Nariz ou Meu Nasal (ou algo assim) e eu mais uma vez – e tantos anos depois – achei graça na verve deste antigo menestrel, que anda sumido ou, quem sabe, já morreu. Aliás, fico às vezes espantado com a quantidade de gente da minha geração que anda morrendo por aí. Faz parte, pelo menos ainda tenho mortes a lamentar. Pode ser que algum dia, nem isso me servirá de consolo. Mas para quem não conhece, vejam só a graça que o Juca tem (ou tinha…): nasal, ah meu nasal / como falam mal deste nasal, que é tão normal / diz o mundo imundo e essa gente infeliz / que o meu nariz, é maior que a miséria do país / maior que o busto da Lolô / maior ainda, que o sorriso do Nonô…

Continuar lendo “Histórias nasais”

Aquele homem

Que personagem! Por alguma razão, talvez por não desejar repetir sobre a terra o que a terra engolirá, não se casou, sem que isso significasse castidade ou celibato definitivos – aspectos, todavia, não declarados ao público em geral. Viveu uma vida de funcionário público modesto, depois de uma carreira como bancário, da qual se afastou muito antes de se aposentar, não tolerando, ao que parece, aquele ambiente de guichês, horários, gerentes e regras fiscais, além de motivos de saúde. Morou sempre em quartos de hotéis, variando na qualidade, sempre reduzindo-a, à medida em que ia ficando mais velho e com o salário encurtando cada vez mais.

Continuar lendo “Aquele homem”

Visita ao Velho

Sim, era preciso visitá-lo. Ele, o Velho Tio, fazia parte de nossa vida, desde a mais remota infância. Da minha vida, mais do que da dele, meu irmão mais novo, que teve menos convivência com tal figura, para mim tão marcante. Ele morava longe, cumpria fazermos aquela viagem longa, que deveria ser premeditada, porém sem termos tempo para tanto.

Fizeram uma cachorrada comigo, era como ele explicava a origem dos acontecimentos que o derrubaram, sem apelação, na cama que poucas semanas depois o acolheu na morte. Falava da passagem atabalhoada do velho cão de fila da fazenda pela porta da cozinha, onde ele justamente tomava um café e acendia o cigarro de palha habitual nas manhãs. E sem mais se viu jogado ao chão, gerando um doloroso calombo na coxa, que ele mesmo, no ato, diagnosticou como uma fratura de cabeça do fêmur.

Continuar lendo “Visita ao Velho”