Se bem me lembro (I): Infância

Amarcord é um filme de Federico Fellini, realizado em 1973 cujo título se refere à expressão m’ arcord (eu me lembro), no dialeto romagnolo, ou seja, da região italiana da Emilia-Romagna, de onde o cineasta é originário. Segundo o próprio Fellini, a obra não seria necessariamente autobiográfica, embora tenha reconhecido semelhanças com a sua própria infância na cidade de Rimini. Na bela língua italiana, “amarcord” significa ‘io mi recordo’ ed è usato per indicare una rievocazione nostalgica del passato, ou ainda um ricordo, ma trasmette anche la nostalgia e la malinconia legate alla rievocazione di momenti passati. Mas o que isso tem a ver comigo? Muita coisa! Eu venho de tentar compor um autêntico Amarcord íntimo, ao dar à luz, quatro anos atrás, às minhas memorias, intituladas Vaga, Lembrança (disponíveis em Vaga, lembrança (Memórias) – Vereda Saúde). Hoje tal publicação está fisicamente esgotada, não por excesso de leitores, mas porque foi produzida em pequena escala e distribuída diretamente a parentes e amigos. Sua edição em meio virtual não abriu portas para seu desempenho como best-seller. Assim é que inicio aqui uma série que revê as tais memórias mediante uma outra escala, em parte cronológica, em parte formada por marcos simbólicos existenciais, numerada sequencialmente e iniciada com o presente texto. Minha intenção inicial era de nomear esta série como Amarcord: 1, 2, 3 etc. mas achei melhor me expressar em português mesmo, no qual a expressão ‘Se bem me lembro’ me parece perfeita, almejando que este “se” afaste algum caráter taxativo ou categórico no que escrevo. Sem esquecer também de que nostalgia ed malinconia não são sentimentos apenas de um Fellini, mas meus também. Me acompanhem, por favor, leitores! 

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Anos 50

Em texto que postei aqui recentemente, em homenagem a Mário Magalhães da Silveira, fiz uma espécie de apologia aos anos 50, dizendo o seguinte: << Movimentados anos 50. No Brasil, pelo menos, as coisas nunca mais foram as mesmas. Perdemos uma Copa do Mundo, ganhamos outra. Tivemos que lidar com o golpismo explícito ou implícito de militares e civis mancomunados. Entramos na guerra fria como se fosse coisa nossa. Nossos compatriotas migraram em massa das roças para as cidades. Jorge Amado e Guimarães Rosa projetaram a literatura brasileira para o mundo. Construímos Brasília. Apesar de alguns pesares, foi lícito pensar que chegara a nossa vez de tocar algum instrumento no concerto das nações. Não foi pouca coisa, realmente.>> Pois é, eu estive presente nesses “anos 50” e posso contar.  É provável que alguma coisa tenha acontecido nem no local, nem no tempo ou com as pessoas a que me refiro. Não importa. Vamos combinar: falo do que me lembro e como me lembro, tendo como ponto forte as coisas boas ocorridas. Permitam-me organizá-las e contá-las do meu jeito. Convido vocês para um giro na BH daquela época.

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