Anos 50

Em texto que postei aqui recentemente, em homenagem a Mário Magalhães da Silveira, fiz uma espécie de apologia aos anos 50, dizendo o seguinte: << Movimentados anos 50. No Brasil, pelo menos, as coisas nunca mais foram as mesmas. Perdemos uma Copa do Mundo, ganhamos outra. Tivemos que lidar com o golpismo explícito ou implícito de militares e civis mancomunados. Entramos na guerra fria como se fosse coisa nossa. Nossos compatriotas migraram em massa das roças para as cidades. Jorge Amado e Guimarães Rosa projetaram a literatura brasileira para o mundo. Construímos Brasília. Apesar de alguns pesares, foi lícito pensar que chegara a nossa vez de tocar algum instrumento no concerto das nações. Não foi pouca coisa, realmente.>> Pois é, eu estive presente nesses “anos 50” e posso contar.  É provável que alguma coisa tenha acontecido nem no local, nem no tempo ou com as pessoas a que me refiro. Não importa. Vamos combinar: falo do que me lembro e como me lembro, tendo como ponto forte as coisas boas ocorridas. Permitam-me organizá-las e contá-las do meu jeito. Convido vocês para um giro na BH daquela época.

Nada é mentira; ou pode ser que seja… O que não é mentira pode ser também invenção, como dizia Manoel de Barros. Reconstituir a infância é tarefa doce, mas complexa, para a qual é preciso liberdade não só de narrativa como de criação.

Aqui, assim, eu narro e crio. Para me redimir, apelo a vocês como minhas testemunhas, que não seja para atestar veracidade, mas para se alegrar e curtir comigo os tempos de infância comigo. Recordo Camões “Do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem (se algum houve) as saudades”. Mas nessa minha história o bem predomina, se impõe, deixa saudades. É nisso que estou interessado.

É tempo, ainda, de lembrar que o que escrevo vai em memória dos personagens dos anos cinquenta que já se foram, mas me esperam em algum lugar: avós Terezinha, Ermelinda, Altivo, Dodora, Zezé e Marina; tios José Marcos, Duílio, Clarinha, Virgílio, Lauro, Waldir, Agnelo, Ricardo, Roberto, Aucélia, Edgard; primos Mateus, Marcos e Débora.

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Acho que minhas primeiras lembranças na vida são do bairro do Prado, em Belo Horizonte, onde moramos, entre 1949, quando viemos de Itabira para a Capital, até 1953 ou 54. Foram várias casas habitadas pela família e a lembrança que tenho talvez inclua partes de uma delas misturada com partes de outras, formando uma espécie de quimera residencial.

Antes disso morei em Itabira, não por “alguns anos”, mas apenas um, do qual, naturalmente não tenho a mínima lembrança. Só sei que minha primeira moradia foi a casa dos meus avôs, na Rua dos Padres, logo que nasci; depois, a Fazenda do Pontal – endereço histórico! – e em seguida a Chácara da Conceição, da Cia. Vale do Rio Doce, onde meu pai dava expediente. Em 1949 a família veio para Belo Horizonte e então perdi para sempre meu estatuto de filho único, com o nascimento de Eugênio.

Chegamos ao Prado pela rua Pedra Bonita, depois na rua Hipódromo (hoje Cura D’ars) e a seguir Turfa. Tenho poucas lembranças dessa época, pois vivi ali ainda na primeira infância, de um a cinco anos. Mas por exemplo, retive a imagem de aviões despejando panfletos de propaganda política – isso mesmo – naquele tempo a panfletagem era aérea. Desses panfletos tenho uma lembrança vaga: a presença do ícone da foice e do martelo. Não sei se eram contra ou a favor dos comunistas, mas só sei a que a marca estava lá. De toda forma, eram anos em que o antigo PCB já estava proscrito do cenário da política brasileira.

No Prado talvez meus pais tenham encontrado uma realidade urbana muito próxima de suas origens interioranas, em Itabira e Pains. Ruas quase desertas de carros, cobertas no intervalo dos paralelepípedos por uma grama rala. Muitos lotes vagos, casas modestas. O Prado era abrigo de uma classe média que já não cabia nos setores destinados aos “Funcionários”, mas afortunados o bastante para não precisarem morar no Mato da Lenha ou no Barreiro… Eu disse paralelepípedos, mas talvez fossem “pés de moleque”; o fato é que ainda não havia asfalto naquele tempo. Nem assaltos.

No Prado morava também um importante personagem de minha infância: o Juca, de quem falarei mais adiante. Por ora basta dizer que ele era primo em segundo grau de meu pai e era farmacêutico, mas daquele tipo antigo, prático de farmácia que revalidou sua situação para se ajustar às normas do novo mundo regulado e urbano que nos anos 50 começava a se impor no Brasil. Juca era dono de uma farmacinha na rua então chamada Hipódromo, hoje Cura D’ars, bem em frente à grande igreja que lá está, construída lentamente justo naqueles anos que morávamos ali perto. Na verdade, ele era uma espécie de Dr. Jekill e Mr. Hyde para eu e meus irmãos, temido, por um lado, pelas dolorosas injeções que nos aplicava; estimado, por outro, por nos trazer da farmácia as famosas “caixinhas”, embalagens de remédios, já vazias, com as quais fazíamos carros, casas, edifícios – devem ter sido os primeiros brinquedos que conhecemos de verdade, numa época em que o plástico era raro e caro – e o consumo da classe média bastante limitado.

No Prado, ainda, tive a minha primeira experiência como motorista, muito mal-sucedida, por sinal. Foi assim: morávamos na rua Turquesa esquina com Turfa e meu pai tinha um caminhão Chevrolet Gigante, com o qual ganhava a vida na ocasião. A rua Turquesa tinha uma pequena inclinação e por uma daquelas manias infantis (eu devia ter no máximo quatro ou cinco anos), devidamente assessorado por meu tio Willer, mexe daqui, mexe dali, quando me dei conta o caminhãozinho tinha ganhado movimento, e descia a rua de ré. Por sorte, a direção virou, o veículo fez uma trajetória de meia lua e foi de encontro ao muro do vizinho, posto ao chão de imediato. Felizmente as maiores conseqüências foram essas, certamente corrigidas pela cobertura do prejuízo por meu pai. Eu, tão garoto, fui absolvido – mas não sei se meu tio também. Um dia ainda pergunto isso para ele.

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Depois de morar no Prado, fomos para o Calafate, logo ao lado; depois no Carlos Prates, mais adiante e ainda depois, para horror de minha mãe, na Lagoinha, que ela ainda prefere chamar de São Cristóvão, na verdade um nome que não pegou, por ser apenas uma artimanha para afugentar o fantasma que assombrava aquela família de classe média ainda saudosa de tempos mais risonhos. A Lagoinha era o fim da picada, então, lugar de boêmios, de prostituição, de comércio de segunda categoria, de oficinas mecânicas. Era preciso fazer exorcismos para espantar o mal que o nome “Lagoinha” trazia. Isso, entretanto, acabou muitos anos depois, quando ninguém mais usava o nome do santo para, em troca, dizer com orgulho algo como: “eu nasci, cresci e vivi na Lagoinha”. Que este bairro já deu até livro!

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Uma palavra sobre o Carlos Prates, bairro mais tradicional do que a embalagem de Maizena. Tivemos ali pelo menos dois endereços, rua Manga e rua Sabinópolis, fora a casa da rua Três Pontas em que meus avós paternos moraram por alguns anos e onde eu e meus irmãos éramos, naturalmente, muito bem recebidos. O Carlos Prates, naquela época, já era um bairro densamente povoado. Sua origem fora como colônia agrícola, com foco certamente nas terras baixas e úmidas da grande baixada que hoje é a avenida Pedro II. Mas guardava algumas relíquias de sua condição de periferia no passado, por exemplo, o Cemitério do Bonfim, do outro lado da baixada, mas dominando a paisagem ao Norte, além da clínica da família Bizotto, destinada ao tratamento da tuberculose. Não esquecer que a Belo Horizonte do início do século era a meca da cura da tal moléstia, pelos seus famosos “ares”. Noel Rosa e muitos outros que o digam. Que falta faziam a hidrazida e a estreptomicina.

O Cemitério do Bonfim, longe de assustar, nos divertia, pois nas noites da Três Pontas sua visão, como mancha escura, fatalmente puxava, por parte dos adultos, as famosas histórias de assombração, que se por um lado metiam medo, por outro eram esperadas com alegre ansiedade. Era possível ver de longe também, se é que não fui enganado ou sugestionado pelos adultos, as emanações do “fogo fátuo”, que era traduzido cientificamente para nós como “o pum dos defuntos”. Já a clínica de tuberculose assustava mais, evitávamos mesmo de passar por suas calçadas nos passeios com as tias, por medo de contágio. Além do mais, o folclore que nos transmitiam era terrível, uma doença que fazia as pessoas perderem partes do corpo e sentir calor em vez de frio e frio em vez de calor, numa evidente confusão semiológica, além de estigmatizante, com a lepra – ambas as condições sendo terríveis flagelos à época.

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Na Lagoinha tivemos dois endereços: Avenida Antônio Carlos – artéria principal do bairro – e rua Juazeiro. A Antônio Carlos, hoje, se for comparada a um vaso sanguíneo virou aorta, ou, quem sabe, um enorme aneurisma sacular, levando carros, caminhões e enormes ônibus articulados – os BRT – desde o centro da cidade até os confins da Pampulha e Venda Nova, e mesmo além. Nosso antigo endereço hoje é um ponto abstrato ou extinto, inteiramente ocupado pelo concreto da pista ou por algum dos muitos viadutos que sobrepassam o aneurisma. Para horror de minha mãe, certamente revoltada com a perda de status que a Lagoinha democraticamente conferia a todos os que nela habitavam, fomos morar em uma casa construída sobre um barranco, com uma longa escada de acesso e vizinhos realmente classe baixa, embora fossem excelentes pessoas, solidárias e atenciosas, pelo que me lembro, particularmente Dona Mercedes, que tinha um batalhão de filhos e aderentes em sua casa, no mesmo barranco que a nossa.

Da escadaria da dita casa no barranco desceu, certa vez, um pneu desgovernado. Mas antes tenho que explicar que o barracão dos fundos servia de almoxarifado auxiliar da empresa de ônibus da família de meu pai, cuja garagem ficava no mesmo quarteirão. O tal pneu estava sendo removido para assumir seu posto quando escapou das mãos do auxiliar de mecânico que o levava e desceu aquela escadaria desabaladamente. O problema é que meu irmão Eugênio, que na época não passava dos seis anos de idade, começava a subir a tal escada. E foi atropelado! Ficou ali, entre dois ou três degraus, desmaiado, com um fio de sangue saindo das narinas, uma cena patética. Para mim, ele tinha morrido. Mas tal não foi o caso: foi logo socorrido e levado para cima, onde foi estirado na mesa da sala. Alguém pediu água para jogar-lhe no rosto e assim, supostamente, “acordar” o desacordado. Minha mãe, na afobação natural de mãe que vê seu filho em tal apuro, passou a mão na primeira vasilha que lhe estava ao alcance. Era uma chaleira realmente cheia d’água, mas quase fervente, deixada assim para completar o preparo do arroz que já estava no fogão. Uma daquelas coisas das quais depois se ri, mas na hora é puro horror. Mas o fato é que o desacordado acordou e no final deu tudo certo, até porque o verdadeiro predestinado a acidentes na família não era bem ele, mas sim o irmão seguinte, João Mauricio, de quem se falará mais tarde e em momento adequado.

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Em frente ao barranco, do outro lado da avenida Antonio Carlos, morava Dona Francelina Pires. Era uma casa imensa, um sobrado que algum dia deve ter abrigado algum tipo de comércio, pois tinha várias portas altas no nível da rua. Dona Francelina tinha alguma ligação com minha família, em Itabira, não sei bem qual. De toda forma, naquele purgatório de gente pobre ela era uma espécie de refúgio, alguns degraus acima da rua e do patamar das classes sociais. Ela era artista plástica, ou artesã especializada em esculturas e máscaras mortuárias. Tinha amigos ilustres, entre eles JK, que um dia a visitou, criando um engarrafamento inédito naquela Antônio Carlos tão pacata. Meu pai foi convidado a estar com ele, mas às crianças não foi oferecido tal privilégio. Mas não posso me queixar: anos mais tarde foi a minha vez de estar com Juscelino, pessoalmente – mas isso é história que fica para depois.

Dona Francelina, parece, havia “ganhado” uma indiazinha vinda de Goiás, como presente de seus amigos influentes, para lhe servir como doméstica ou dama de companhia. Coisas daquele tempo, em que a libertação dos escravos tinha pouco mais de meio século de vigência. Da indiazinha me lembro do modo engraçado com que falava a língua dos brancos, não pronunciando devidamente o “ão”, como em “pom” e “macarrom”, por exemplo. Parece que gostava de comer “pom” com estrato de tomate (que em Belzonte, como se sabe, é tratado como “mas’tomate”). É tudo que me lembro dela, mas bem que gostaria de saber mais: teria voltado para Goiás? Ficou na civilização branca? Prosseguiu na carreira de neo escrava? Quem o sabe…

Dona Francelina tinha uma neta, Sandra, que mais tarde foi minha colega na Faculdade de Medicina da UFMG, com quem eu devo ter trocado uma ou duas palavras durante os anos que passamos quase lado a lado, na idade adulta. Na infância, brincamos bastante. O mundo é realmente pequeno, mas ganha foros de galáxia quando nele se instala da incomunicabilidade humana. Como demonstrou Antonioni.

Foi no cômodo comercial no andar de baixo da casa de Dona Francelina, onde funcionava um escritório da empresa de meu pai, que tomei conhecimento da morte de Getúlio, naquele fatídico agosto de 1954. Até então, o que eu sabia do presidente era uma brincadeira escolar que dizia: você se lembra daquele embrulho? Aos incautos que queriam saber a natureza de tal pacote era respondido: das cuecas do Getúlio. Mas naquele dia 24 não se estava para brincadeiras. Lembro-me, especialmente, de um homem negro, corpulento, que caminhava pela Antônio Carlos a fora, chorando e dando a todo mundo a infausta notícia: morreu nosso pai! Mas para mim foi uma morte sem velório e sem mais choro, a única imagem que guardei foi daquele homem em prantos pela rua. Em tempos sem televisão a memória da gente acaba sendo menos ativada. Ainda naquele tempo, às vezes, escutava no Repórter Esso, ouvido religiosamente em minha casa, o locutor falar de um tal de “Café Filho” e achava muito engraçado alguém ter este nome e também a revelação de que o café tinha um filho.

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Naquela época, meu irmão Eugênio começou a revelar certa tendência que levou meu avô materno, Altivo, a proferir o vaticínio de que o neto iria ser médico. Isto porque era ele um emérito estripador de passarinhos, que ele caçava ou de alguma forma conseguia capturar. Gostava de dizer que tinha curiosidade em saber o que eles tinham por debaixo das penas. Suas inclinações anatômicas e mórbidas iam um pouco além: quando havia acidentes na Antônio Carlos (menos frequentes, certamente, do que hoje, mas ainda assim presentes) ele corria para ver a extensão dos danos e nos fornecia relatos pormenorizados, provavelmente exagerados do que vira no asfalto. Coisas como sangue, membros decepados, miolos e ossos expostos – para meu horror, que desmaiava algumas vezes diante de cenas mais impressionantes, mesmo uma simples narina a sangrar. Curioso é que acabamos virando médicos, eu e Eugênio.

Ainda na Lagoinha, na garagem dos ônibus da Viação Iapam, (sigla que englobava os diversos itinerários percorridos: Iapi, Aeroporto, Pampulha…), propriedade de meu pai, tios e avô Zezé, trabalhavam diversos mecânicos e auxiliares, abrigando também o movimento dos motoristas e cobradores. Naquele tempo, em que as roletas ainda não existiam, os cobradores faziam seus acertos diários de contas mediante a contagem das fichas de plástico entregues aos passageiros no ato do pagamento da passagem e apuradas em um “cofre” de recolhimento ao lado do banco de motorista. Era uma turma meio barra pesada, principalmente para os padrões de um garoto de família certinha de classe média como eu. Mas a verdade é que eu me divertia com essa gente, que me trazia uma amostra daquele mundo em que vivia, tão diferente e mais interessante do que o meu. Alguns deles provavelmente residiam na Favela Prado Lopes, logo ali ao lado da Antônio Carlos. Do primeiro palavrão a gente nunca se esquece e foi com eles que aprendi (e registrei em papel) uma rajada de impropérios, pelo que fui devidamente castigado por minha mãe.

Um desses trabalhadores, creio que mecânico, mais velho que os demais companheiros de trabalho, muito engraçado na fala, falava certa vez de um animal que conhecera no Zoológico de BH, ao qual ele denominava “cocota”. Um bicho muito grande, quase um elefante, só que mais baixo, de pele lisa e brilhante e olhos esbugalhados “assim”. Fiquei curioso com um animal tão impressionante e gostaria de conhecê-lo também. Um dos meus tios me esclareceu: o nome verdadeiro do bicho era hipopótamo, que o nosso mecânico entendera como “cocota” – ou talvez dissesse isso para fazer graça mesmo.

Só quem conviveu de perto com uma garagem é que sabe as maravilhas que se escondem ali. Primeiro porque podíamos brincar ao vivo dentro dos ônibus, porque havia sempre veículos encostados, de tipos e marcas diferentes, nos quais encontrávamos diversões a que nossos amigos não tinham acesso. Tinha também os trabalhadores com seus casos e vidas diferentes da nossa. O monturo de peças usadas e descartadas era outra diversão, ali encontrávamos os cobiçados rolimãs, para montar aqueles carrinhos que fizeram história em uma era de brinquedos não industrializados. Aliás, lembro-me até mesmo de utilizar na confecção de um desses bólidos, rolimãs novinhos, ainda em suas caixas originais, da marca SKF – não sei como vinham parar em nossas mãos. Meu irmão João era um experiente garimpeiro nesses montes de preciosidades, dali retirando objetos diversos, que na criatividade infantil própria de nossa época se transformavam em brinquedos os mais diversos. Até armas havia… Lembro-me de um dia que um dos mecânicos, para me chatear, me ameaçava de cortar aquela parte do corpo que é tão cara aos machos em geral. Era uma brincadeira sem graça, mas repetida, até que um dia achei no chão um objeto circular, provavelmente um disco de embreagem, e o atirei no engraçadinho, à moda de um discóbolo olímpico. A pontaria foi boa e lembro que provoquei um belo risco no pescoço do sujeito, vejam só. Acho que ele foi reclamar com meu pai, mas não obteve nenhum sucesso em conseguir uma punição para mim – pelo menos dessa vez.

A avenida Antônio Carlos ainda tinha em sua volta muitas áreas baldias. Em um terreirão, resultado de um corte irregular num barranco mais adiante, no local onde hoje se ergue o Hospital Belo Horizonte, antes chamado Santa Mônica, havia um campo de futebol. Sem grama, com traves meio tortas, sem demarcações. As arquibancadas eram formadas pelo próprio barranco, deixado de propósito como um plano inclinado pelos tratores que um dia fizeram a terraplanagem, quem sabe para outra finalidade.  Mas ali se disputavam renhidas partidas nos domingos – o futebol de várzea, tão tradicional em BH, nos seus dias de glória. E para ali íamos, geralmente em companhia de um de nossos tios mais jovens para assistir as pelejas. O estoque de palavrões nos ia aumentando a cada dia, mas agora certamente mais contidos já não os registrávamos explicitamente, evitando a repressão familiar. Em um desses jogos, Eugênio, ainda em má fase de sorte, com certeza, recebeu uma bolada na cara que o fez desmaiar – de novo. Mas na verdade não me lembro bem do que veio primeiro, se o pneu ou aquela bola bem chutada. Por via das dúvidas fomos proibidos de frequentar aquela arena tão perigosa.

A favela da Pedreira Prado Lopes ficava a poucos metros de onde morávamos, Poucos metros, literalmente. O muro de trás de nossa casa já era limite da favela. Mas lá nunca fomos, terreno absolutamente proibido e perigoso que era. A Pedreira, eu soube depois, era um sítio remanescente do período de construção da cidade, meio século antes. Depois foi abandonada, não sei se por ter se inviabilizado a extração da matéria prima ou porque a pressão populacional dos recém-chegados pobres e desempregados, vindos dos quatro cantos das Minas Gerais, começara a aumentar radicalmente. E a favela se fez, crescendo como uma infecção pelos paredões de pedra, ao ponto de praticamente escondê-los. De fato devia ser perigosa a Prado Lopes, com seus botequins, suas mesas de sinuca, suas rodinhas de jogo de palitos. Lá a polícia talvez nem entrasse, porque a marginalidade era totalmente circunscrita a seus limites pedregosos. Mas o certo é que nada, mas nada mesmo, se compararia ao que ela deve ser hoje, com o tráfico, a polícia corrupta, as gangs. Ali talvez se aplicasse o dito do sambista: ali se abraça o inimigo – coisas passadas, de um tempo em que Ubaldo era o goleiro do Atlético Mineiro e o Vila Nova campeão estadual…

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Rua Juazeiro, 153, ainda na velha Lagoinha. Essa uma despencava a pique dos altos que dividiam o nosso território da Concórdia e da Renascença e jogava suas enxurradas na artéria da Antônio Carlos. A casa agora era melhorzinha, um sobrado na verdade, no qual moravam duas famílias; nós no segundo andar. Esta moradia, ao contrário daquela outra da “artéria”, está lá até hoje. Já levei meus filhos pequenos para conhecê-la externamente e a impressão que tive do olhar que me concederam foi: puxa, mas você já foi pobre, hein papai? Morávamos no segundo andar, mas havia uma escada nos fundos, que nos dava acesso a um pequeno quintal. Acho que ali só o capim crescia, nós pouco o frequentávamos. O que me parece ter sido a lavoura mais produtiva ali foi uma planta em rama, formando bela touceira dentro de uma bacia, que ficou abandonada por várias semanas em um canto, durante uma fase que minha mãe ficou doente e fomos morar na casa de minha avó. Ao voltar, descobrimos aquela moita de folhas largas e avermelhadas, como um vaso ornamental. Era batata doce e descobrimos que a semeadura tinha sido obra de nossa babá, Maria da Consolação, talvez nostálgica de suas origens rurais, em Santa Maria de Itabira.

Na rua Juazeiro, mais familiar do que a avenida mais abaixo, descobrimos o que é ter amigos, pois havia crianças de nossa idade por todo lado. Lembro-me especialmente de dois: Wander, que apanhava da mãe como um desesperado, sem gritar e Lívia, uma baianinha faceira que morava no andar de baixo.

Na Lagoinha, iniciei minha vida escolar, mais precisamente em um finado Instituto Rex de Educação, que ocupava humildemente um ou dois apartamentos térreos do famoso “Conjunto do IAPI”, sobre o qual pretendo divagar um pouco, mais adiante. Dona Maria Alves Ribeiro foi minha primeira professora. Ela não era propriamente um daqueles anjos de beleza que costumam marcar as crianças recém ingressadas na escola. Mas, ao que me lembro, era simpática, sorridente e muito carinhosa com seus pequenos discípulos. Mas, malgrado meu, Dona Maria Primeira, a Queridíssima, teve um problema de saúde e teve que se afastar, deixando em seu lugar uma coitada que logo recebeu, gratuitamente, meu desprezo. Afinal, a entrada na escola é um rito de passagem dos mais significativos na vida de uma pessoa, como o casamento e a entrada no mercado de trabalho, talvez, e qualquer perturbação pode ser fatal. Foi o meu caso. Fiquei completamente desinteressado em aprender alguma coisa, além de revoltado, e dei para fugir da escola e circular a esmo pelas vias do IAPI. Fui levado a algum psicólogo, terapeuta ou orientador? Claro que não! Estávamos nos anos 50 e no inconsciente coletivo talvez reinasse a impressão de que tudo, mas tudo mesmo, era melhor do que um campo de concentração ou uma guerra. De maneira que tive que voltar ao Rex e, a duras penas, ser alfabetizado, além de domesticado.

A nova professora atendia por Dona Diva, moça nova e muito empetecada. Dela me lembro de apenas detalhes: que nos ensinou gloriosamente a fórmula da pasta de dente (que na época se chamava dentifrício…) e do terrorismo que fazia a respeito dos segredos de Fátima e da guerra civil que se ameaçava na vizinha Argentina (um golpe militar contra Peron), que poderia também chegar ao Brasil. Cruzes! Dona Maria Alves Ribeiro fez falta, realmente.

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Ah, o popular Conjunto do IAPI. Era um projeto habitacional, verticalizado, destinado aos trabalhadores segurados do antigo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários. Vi certa vez em Porto Alegre um conjunto habitacional também conhecido como IAPI – igualzinho ao sobredito belorizontino. Certamente uma tendência da era do Estado Novo, com uma arquitetura que, pelo jeito, tinha inspiração fascista. Naquele tempo a classe média melhor situada não fazia diferença entre “favela” e “IAPI”, resultado de uma atitude de bastante má vontade e preconceito. Piadinha da época: se peito buzinasse ninguém conseguiria dormir no conjunto do IAPI, afirmativa também eivada de preconceito contra as pobres moças operárias da indústria que ali residiam. O IAPI não deixava de ser um projeto original e até mesmo revolucionário. Os prédios eram rigorosamente iguais na altura e nas fachadas, embora tivessem apartamentos de diferentes dimensões, proporcionais ao tamanho das famílias. Não havia elevadores, mas os prédios eram unidos por passarelas entre eles, em diferentes andares, algumas delas dando direto para a rua, aproveitando o forte desnível do terreno no entorno. Isso possibilitava que alguém poderia entrar diretamente no quarto ou no quinto andar, sem subir escadas, e se locomover pelo alto até chegar a seu bloco e aí, então, como um movimento de pernas bem menor, chegar até seu apartamento.

O IAPI, para quem o conhece hoje, já não é mais a selva de concreto detonada e sem paisagismo dos anos 50; foi todo reformado, os prédios mostram fachadas pintadas em cores diferentes e equilibradas, as esquadrias foram trocadas por alumínio e a classe média que ali habita provavelmente não trocaria por nada o conforto de morar perto do centro da cidade e a facilidade de acesso produzida pelos BRT da Antônio Carlos. Quem conhece a área sabe do que estou falando. 

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Na mesma época, minha formação católica se impôs e eu me tornei coroinha na Igreja de São Cristóvão, ainda em construção dentro da área do IAPI. O pároco era o Padre Carlos Vaz de Mello, de tradicional família não só da própria Lagoinha como de Belo Horizonte. Vaz de Mello era durão e meio grosseiro também. Fuzilava com os olhos e depois com doloridos “coques” os pobres coadjuvantes que não respondiam adequadamente àqueles sursum corda e dominus vobiscum. Porque era em latim que a missa era rezada – e ajudada! Certa vez, em uma sessão de cinema promovida pela Paróquia, o terrível Padre sentou-se do meu lado no escuro e começou a perguntar coisas que eu não entendia bem, como se me cobrasse confissão. Por sorte a fita cortou-se ou o filme acabou e eu penso que acabei escapando de algum tipo de assédio, embora não possa afirmar que tenha sido daquele que se denuncia com frequência hoje, em toda parte, envolvendo representantes da Santa Madre.

O IAPI continha em si o mundo da espiritualidade, com a igreja de São Cristóvão e o da carnalidade, para levar a sério aquela história do buzinaço noturno. Mas do lado de lá da via principal, a emblemática Antônio Carlos, morava a cultura. Ou o que mais nos aproximava dela, o Cine São Cristóvão. Era enorme o cinema, parte da maior rede de cinemas da cidade, propriedade de um notório Antônio Luciano, que talvez possa ser redimido de seus pecados financeiros e carnais por ter oferecido à cidade, em doses maciças, por sinal, a magia do cinematógrafo. E fazer parte da maior rede de cines da capital dava ao São Cristóvão o status de sempre trazer bons filmes. Notas de redação: uma, cinema, naquela época não ficava nos shoppings; duas, muita igreja universal que se vê por aí já foi cinema, inclusive aquela que fica (ou ficava?) defronte ao Conjunto do IAPI, que já teve outro padroeiro – o meu querido São Cristóvão. Naquele ambiente distante do conforto acondicionado e aveludado dos cinemas de hoje, naquelas cadeiras toscas de madeira curva, eu vi filmes que me marcaram. Desde Fantasia de Disney até os incontáveis seriados de bang-bang e ação (com muitíssimo menos sangue e ação igualmente proporcionada em relação aos filmes de hoje). E assim, num natal dos anos 50, ganhamos de presente, eu e meus irmãos homens, um verdadeiro kit faroeste, constituído de revolver, coldre, cinturão, estrela de xerife e outros apetrechos, o que nos credenciou a frequentar as matinês de domingo no cinema assim pilchados, como dizem os gaúchos. E a saída das tais sessões dominicais se dava como um tropel desatinado ou o estouro de uma boiada, de uma tropa de hunos, com caubóis e peles vermelhas encarnados na molecada, aos gritos, silvados de balas e palavras em inglês recém aprendidas, embora de significado ignorado. Camonibói era uma delas…

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Ainda nos tempos da Juazeiro uma cena memorável. Certo dia eu e meus irmãos homens capturamos um cigarro Luiz XV de meu pai, sem que ele visse. Feito isso, esperamos que os adultos saíssem ou se concentrassem em suas atividades normais e fomos desfrutar da maravilha no saguão, no andar de baixo do sobrado, onde haveria mais privacidade. O que não esperávamos é que nossa irmã Myriam, então caçula, e das mais típicas, insistisse em nos acompanhar. Como fazia parte de nossas tarefas tomar conta dela, principalmente por causa das escadas, logo percebemos que era impossível nos livramos da criatura. A solução foi pedir-lhe sigilo a respeito do que iria presenciar – ou já estava presenciando. Certo assim, Myrinha? Certo… O compromisso durou até que minha mãe veio dar uma olhada, como de hábito, naquele conciliábulo silencioso e suspeitoso. Dona Favita nem teve tempo de sentir o cheiro da fumaça do Luiz XV, já devidamente sovertido. A caçulinha prontamente avisou: eles fumou. Palmadas e outros castigos sobrevieram, com a caçula promovida, agora, de vigiada a vigia.

No novo universo da Juazeiro meu raio de ação ampliou. É que eu já havia feito oito ou nove anos e ganhara permissão para sair sozinho, para comprar pão, por exemplo, mas também para dar uma circulada por conta própria. De alguma forma meus roteiros passavam sempre pela rua Manoel Macedo, que fazia esquina com a Juazeiro logo abaixo de onde morávamos. Esta já era uma rua, digamos, bem formada, com poucos lotes vagos e casarões até apresentáveis. Em uma esquina mais adiante, em direção à rua Formiga, havia o Restaurante Lanterna Azul, que me impressionava muito, com suas mesas que me pareciam muito elegantes, cobertas por toalhas azuis, com imitações de lampiões pelas paredes e cortinas nas janelas com evidente propósito de dar privacidade a seus frequentadores. Muito romance clandestino deve ter rolado ali. Era certamente um recanto da velha Lagoinha boêmia, mas talvez um pouco mais refinado do que o restante dos estabelecimentos da área. Falar nisso, não é a toa que aquele copo comum, com frisos verticais, é chamado de “copo Lagoinha” em BH – e nele se bebe tanto cerveja como cachaça, pelo menos naquelas paragens.

O Lanterna Azul me impressionava, também, por me lembrar o ambiente de um livro, talvez uma adaptação, que eu lera recentemente, o Moby Dick. Aquilo ali me parecia uma daquelas tavernas onde se reuniam marinheiros, com o Capitão Ahab pontificando numa mesa ao fundo, arregimentando a tripulação para a caça à terrível baleia branca. Anos mais tarde fui aos Estados Unidos e visitei a região da cidade personagem do romance de Melville, Nantuckett. Em New Bedford, que fica nas proximidades e é também uma cidade portuária e baleeira, realmente pude ver alguns estabelecimentos parecidos com aquele que me marcou a infância.

Se o tasl passeio avulso me levava um pouco mais longe eu chegava até o Mercado Popular da Lagoinha, situado do outro lado da Antônio Carlos, em direção ao Centro, mas ainda dentro do território que me era permitido circunvagar. Às vezes também ia pela obrigação de fazer compras para o almoço da família. Confesso que nunca vi um lugar tão sujo e descuidado como aquele, ganhando, em tal quesito, até mesmo do velho Mercado Central, sempre lembrado com romantismo (inclusive por mim), mas que não era nenhum paradigma de asseio e organização à época. Havia ali um tipo de verdura da qual nunca mais ouvi falar e nem tampouco esqueci: maria gomes. Será que ainda existe; alguém conhece?

Voltei ao tal Mercado Popular faz poucos anos, guiado por meu filho Mauricio, especialista em Lagoinha e em Patrimônio Histórico e mal o reconheci. Aliás, com a recuperação da fachada e do pátio interno descobri nele um belo exemplar arquitetônico, não sei de que tendência ou modismo. O google, sempre ele, me informa que o Mercado Popular foi inaugurado em 1949, que é verdadeira referência na história da economia e da cultura local, tendo adquirido, nos anos 2000, nova vocação. Ali funcionam hoje uma padaria escola e uma cozinha pedagógica, iniciativas voltadas para a qualificação e a formação de mão-de-obra.

Um pouco mais tarde meus domínios se expandiram mais ainda. É que foi exonerado o Instituto Rex e eu passei a estudar no Grupo Escolar Silviano Brandão, na rua Itapecerica, uma via paralela à na Antônio Carlos, alguns quarteirões adiante do Mercado Popular, que até então era meu limite de andança solo. Era 1957 e o mundo começava a mudar, com Elvis Presley, Nikita Kruschev, JK, Buddy Holly, Jacques Brel, Fernando Sabino e outros. Em Liverpool novos acordes de guitarras a fender os ares. Na verdade, eu pouco ou nada sabia disso, mas a mudança que eu vivia já era o bastante. No início meu pai me levava, junto com Eugênio, à aula no Silviano Brandão a bordo de seu valente Chevrolet Fleetmaster. Mas tal mordomia logo acabou e a partir de então íamos os dois, eu na condição de guia, por ser mais velho. De quebra levava às vezes João Maurício a seu Jardim de Infância, na Antônio Carlos, que funcionava em um sobrado de esquina, próximo ao SENAC, local mais tarde transformado em hotel fuleiro, suspeitíssimo.

Neste mesmo ano nasceu Claudia, minha irmã mais nova e minha mãe teve complicações graves decorrentes de sua primeira e única cesariana. Por alguns meses o endereço da rua Juazeiro foi abandonado e passamos a viver, eu e meus irmãos, na casa de meus avós maternos, na Serra. Minhas funções de guia escolar não só se mantiveram como se ampliaram, em termos geográficos. Agora eu juntava a citada tropa e os levava e trazia diariamente no trajeto Lagoinha – Serra. Nada menos do que três conduções se faziam necessárias: ônibus até o Centro, descida na Feira de Amostras (onde fica a atual rodoviária de BH); novo ônibus, o Avenida, até a altura da Prefeitura Municipal, na Afonso Pena e daí o ônibus Serra, que nos deixava na altura do número 750 da rua do Ouro. Às vezes o trajeto do Avenida era trocado pelo bonde, aventura completa! Deu tudo certo, não tanto pelos meus méritos de guia, mas pela tranquilidade e pela bonomia da Belzonte daqueles tempos. Que nunca mais voltaram.

Mas a rua Itapecerica merece mais. Ela era o centro de uma Lagoinha mais profunda e tradicional, diferente daquela periférica e “industriária” da Juazeiro e adjacências. Bonita não era, com seus muitos prédios desajeitados e as portas de ferro de um comércio meio marginal, de móveis usados, roupas baratas, ferro velhos, peças de automóveis. Segundo soube depois, alguns prostíbulos também. Um casarão me marcou na ocasião e me pergunto se estaria de pé até hoje. Quem sabe? Ele tinha sobre seu frontão uma escultura representando uma loba e duas crianças, referência clara a Roma e à Itália. Aliás, esta era uma característica daquela rua e seus arredores, ser local de residência de família italianas, judias e talvez de outras nacionalidades e etnias. Os italianos nos seus ofícios de artesãos, com suas oficinas anexas às próprias residências. Meus colegas Scarpelli e Vanucci, no Silviano Brandão, tinham tal extração, com certeza. Os judeus, soube depois, dominavam os brechós e comércio de móveis usados da Itapecerica, principalmente em seus quarteirões iniciais. Uma dessas portas de comércio me deixava curioso, uma oficina ou marcenaria cujo proprietário colocara seu próprio nome como designativo do estabelecimento: “C. Aníbal Branco”, que eu para sempre entendi como canibal branco.

A rua Itapecerica tinha outro atrativo: era o caminho do bonde, de longo itinerário, pois perpassava toda a Lagoinha e ia se perder nos longes dos bairros Bonfim e Santo André, talvez mais além. Assim como os times do Vila Nova de Nova Lima, do Siderúrgica de Sabará e do Valério de Itabira, os bondes acabaram, não passam mais. Muitas vezes fui para a escola neles, pagando uma mixaria de tostões, apreciando de verdade aquele transporte barato e divertido, depois substituído pelos fumacentos ônibus movidos a diesel. A Iapam fazia o mesmo trajeto deles e certamente levava a melhor, pois apesar de serem baratos eram inconstantes e provavelmente muito mal administrados. Figura notável no bonde era o cobrador (que em BH era chamado de trocador), sempre se equilibrando nos estribos laterais, eternos pingentes, espertos como ninguém diante da proximidade de um poste. O cobrador tinha uma função adicional: recolocar a alça de contato elétrico no fio, quando ela escapava – acontecimento frequente, diga-se de passagem. Passageiros também eram transportados nos estribos; para quem não conheceu tais geringonças vai a informação: boa parte dos bondes eram abertos nas laterais e os estribos eram considerados lugares apropriados de se viajar. Quem já esteve em Santa Tereza, no Rio, sabe do que estou falando. Diversão meio besta, mas sempre apreciada pela molecada, era colocar filas de pedrinhas na canaleta dos trilhos e vê-las transformadas em pó com a passagem do bólido elétrico.

***

A década de 50 chegou ao final e com isso fomos embora da Lagoinha. Para felicidade de minha mãe, o novo bairro agora tinha mais “classe”. Mas isso, é claro, dependia do ponto de vista… E assim fomos morar no Prado, de novo, mais exatamente na rua Chapecó, no quarteirão entre Cuiabá e Turquesa, agora em apartamento próprio, térreo e com um enorme (para a visão infantil das dimensões) quintal cimentado. 

Mas não devo ainda falar dessa nova etapa no Prado sem deixar a memória flutuar pela geografia que se impregnou em mim. E entre a Lagoinha e o Prado (meio de ladinho, é verdade) havia a Floresta, lugar em que, na verdade, também tenho algumas raízes. Minha mãe morou no bairro, quando adolescente, na década de 30 e narrou suas peripécias de então, de modo muito bacaninha, aliás, no seu “Conversando com a Saudade”.  Meu avô Altivo veio de Itabira para tratar de “um problema do pulmão” (os arquivos familiares se calam quanto a detalhes) e a enorme família de uma dezena de filhos ficou morando em uma casa da rua Silva Jardim, ao lado da Igreja, casa construída pelo meu bisavô, Carlos de Paula Andrade. Minha mãe estudou na escola que fica atrás desta rua, de frente para uma pracinha, junto à Av. Assis Chateaubriand, melhor dizendo Tocantins, prefiro não me acostumar com estes nomes novos de ruas em BH. Anos depois, voltou para Itabira, namorou, casou e me teve, o que me faz sentir um pouco da Floresta também.

Mas como tudo tem a ver com tudo e assunto puxa assunto, me lembro de uma piadinha politicamente incorreta dos anos 50, contada na TV Itacolomi por um cidadão chamado Rômulo Paes, uma personalidade da BH daqueles tempos, uma espécie local de Stanislaw Ponte Preta e autor de frase famosa: “a vida é boa, a vida é esta: descer Bahia, subir Floresta”, numa alusão ao contraditório da juventude belzontina, sempre em trânsito entre o que era society (a rua da Bahia) e o que era bas fond (as ruas vizinhas da Floresta). Sem mais prolixidade vamos à tal estorinha: certo candidato a vereador pelo simpático bairro pichava nos muros o slogan: “nasceu na Floresta, viveu na Floresta, fará tudo pela Floresta…”. Até que um gaiato adversário começou a completar “…pode matar que é bicho“. Ecologicamente incorreta, não? E politicamente incorretíssima, sem dúvida. Mas isto são apenas histórias de uma BH que já acabou. Saudosismo a parte, porque nasceu outra BH muito interessante também, talvez até mais sedutora, em alguns aspectos – na moda e no futebol por exemplo. Violência urbana não entra na equação, pois passou a existir em toda parte deste país.

Belo Horizonte é cidade personagem em minha vida, sem dúvida. Lagoinha, Carlos Prates, Floresta, Prado formam partes de um caleidoscópio que ainda me ativa as emoções. Hoje percebo, um pouco assustado, que vivi na cidade apenas a terça parte de minha vida, o resto fora dali, em Uberlândia, Rio de Janeiro e, principalmente, Brasília. Mas há muitas lembranças vivas, registradas nessa minha crônica dos anos 90.

***

Mas voltando ao bairro do Prado, nesta nova etapa vivi grandes acontecimentos, antecedidos por verdadeiro rito de passagem. Em uma das minhas primeiras incursões pelo quarteirão, na rua Chapecó, me vi rodeado pela garotada local, que era numerosa, boa parte regulando comigo na idade. Não deu outra, me olharam de banda, foram retribuídos com a mesma mirada e aí, nem sei como começou, a pancadaria comeu solta. A mim foi dado encarar o líder, de nome Paulo Ernesto, um garoto boa pinta, de olhos verdes e cabelos pretos como as asas da graúna. O cara era mais escolado do que eu (que, aliás, nunca tinha brigado na rua…) e aí, devo confessar, apanhei feio… Bons tempos que isso não era chamado de bullying, mas considerado apenas como um ritual necessário para ser aceito e compartilhar o status de membro do grupo ao qual se chegava.

E foi assim: Paulo Ernesto se transformou, dias depois, em um dos meus melhores amigos e, na sequência, todos os demais membros do bando, os Barroca Marinho, os Alves do Valle, os Dilly, os Froes, os Tonucci e mais uns outros de cujo sobrenome não me lembro, como o Zé Reinaldo e o Curuca. Do primeiro (e definitivo) Clube da Esquina a gente não se esquece. E nosso clube tinha por sede um lote vago defronte ao prédio emque morávamos na Chapecó, de modo que era só atravessar a rua para se chegar ao “escritório”, abrigado debaixo de um frondoso pé de mamona, que nos fornecia também munição espinhenta para os combates (alegóricos ou nem tanto) que travávamos amiúde. Doutra forma não seria possível aliviar o extravasamento de tanto hormônio adolescente. Ali, na sombra de tal arbusto, rolaram as primeiras conversas que fizeram a mim e a meus irmãos deixar para trás, definitivamente, a inocência que a pecaminosa e plebeia Lagoinha não tinha conseguido retirar. Eu já havia aceitado o final do Papai Noel alguns anos antes, mas confesso que deixei de acreditar na Cegonha somente a partir deste momento.

Mas o fato é que eu era agora membro da matilha e estava muito feliz por isso. As porradas que recebi ficaram inteiramente esquecidas, não deixaram mágoas nem cicatrizes.

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O grande acontecimento da década foi a Copa de 58, a primeira em que eu me liguei e torci, de fato. Jogos ouvidos pelo rádio, claro, com a porção masculina da família, meu pai inclusive, ali coladinhos ao aparelho, como se este fosse uma espécie de altar. E que ninguém falasse ou de alguma forma alterasse o estado de unção necessário à boa torcida. Podia ser punido com a expulsão do cenário. Além disso, já bastava aquele rádio velho que saia da sintonia a todo momento. Só pude ver os gols espetaculares de Pelé, os passes de Didi, as corridas espantosas de Zagalo e as “dibras” miraculosas de Garrincha alguns dias depois. À noite, na TV, só as famigeradas “radiofotos UPI”, que mais pareciam retratos de tempestades, cheios de riscos e sombras cinzentas, onde mal e mal se via o que era gente, o que era bola, o que era torcida. Depois de cada jogo, cabia comemorar no quintal ou na rua. E desde então me tornei um pirotécnico apaixonado, pois o instrumento de delírio eram as famosas bombinhas “cabeça de negro”, riscadas às dezenas, sem preocupação com qualquer risco ambiental ou pessoal, sendo que algumas até mesmo explodiam antes de serem jogadas no chão, sapecando nossas mãos. E tome bombas servindo como propelentes de latinhas de massa de tomate, que subiam aos céus gloriosamente, lembrando os Sputniks russos, surgidos na mesma era, voltando ao solo viradas pelo avesso. Era tudo festa!

A Copa de 58 se desdobrou em Maria Esther Bueno e Eder Jofre e assim todos os brasileiros passamos a acreditar que éramos mesmo os tais. E de quebra ainda tivemos o carisma de JK, os fuscas e as vemaguetes, seguidos da inauguração de Brasília e do bicampeonato no Chile, em 1962. Éramos todos felizes, sem saber.  A década de 60 ainda não havia mostrado suas garras, abril de 64 ainda estava longe, Kennedy era uma promessa radiante e eu praticamente nunca estivera diante de perdas familiares, salvo a de minha avó Ermelinda.

A eleição de Jânio, em 1960, foi outro dos acontecimentos marcantes daquela temporada. Deu início, aliás, a importantes mudanças na política brasileira, que de certa forma deixaram sua marca no mundo infantil da Chapecó e do todo o país. Em 60 se inaugura Brasília e Jânio é eleito; em 61 o mesmo pega sua vassoura e vai embora; em seguida a reação conservadora, o parlamentarismo, a volta de Jango, o clima confuso cheio de marchas e comícios, contra e a favor. Em 1964 vem o que todo mundo já esperava.

A campanha Lott x Jânio empolgou a molecada da Chapecó. Catávamos panfletos e cartazes pelas ruas e montávamos nossos comitês eleitorais, rigorosamente divididos entre UDN e PSD. Eu era Jânio, tendendo pelo lado assumido por meus avós e tios maternos, que acreditavam realmente que o preço da liberdade era a eterna vigilância. Meu pai, juscelinista de carteirinha e homônimo do então candidato a vice-presidente, era Lott e creio que Eugênio e os demais o seguiram. Ainda me ecoam na mente os jingles eleitorais da época: eleitor não vote, na urucubaca do Lott, ou então varre, varre, varre vassourinha. Tinha também um desta vez vamos com Adhemar, mas quase não contava, sendo tal candidato solenemente ignorado nos comitês da Chapecó. Gente rolou pelo chão em disputas para ver quem tinha o melhor candidato. Veio a eleição de três de outubro, Jânio levou a melhor, com aqueles famosos seis milhões de votos e voltamos todos a ser os amigos de sempre, até que outra disputa nos separasse.

Disputas, aliás, não faltavam, principalmente de caráter esportivo. Ainda não estávamos em idade de desafios que envolviam o sexo oposto. O futebol de rua era uma dessas disputas, ds mais ardorosas, por sinal. Mas as peladas nem sempre ocorriam na rua, com aquele calçamento horroroso de “pé de moleque”, que mais nos fazia tropeçar e desviar a bola. O palco das contendas frequentemente se deslocava para o quintal cimentado de nosso apartamento, um tanto em declive, mas mesmo assim adequado para a prática futebolística, pelo menos com tais atletas. O perigo era uma caixa dágua na linha de fundo, com seu meio metro de altura, tampada por uma chapa metálica que deixava arestas cortantes por fora. Logo aprendemos a driblá-la, também. Coisa que jamais me conformei foi o fato de que joguei as mesmas peladas do que Eugênio; a diferença é que ele virou craque, eu nunca passei de irremediável perna de pau.

Disputávamos com afinco, também, corridas de tobogã, na rua Cuiabá, na qual existia um marcante declive entre a Chapecó e a Francisco Sá. Curiosamente, voltei a tal cenário em idade adulta e não achei a descida tão acentuada assim, mas o que vale, aqui, são as lembranças da infância. Pois bem, em tal declive, devidamente forrado pelos indefectíveis pés de moleque, por incrível que pareça, conseguíamos deslizar velozmente em chapas de compensado ou papelão grosso, á moda do que se chama hoje snowboard. E desse modo competíamos em diversas modalidades, tais como velocidade, manobras e capacidade de se manter em cima da exígua superfície. Não havia disputa a respeito de quem se machucasse mais – ou menos – isso era totalmente irrelevante, ou melhor, fazia parte do esporte.

Esporte alternativo era o dos carrinhos de rolimã, modalidade em que nós, os Goulart, éramos uma espécie de Enzos Ferraris, pois dispúnhamos de um manancial tecnológico à nossa disposição, na garagem da Viação Ermelinda. Aqui me curvo à boa vontade e à cumplicidade incondicional de nosso tio Lauro Goulart, que sempre arranjava um jeito de nos suprir dos valorizados SKF, às vezes até retirados diretamente de suas embalagens originais.

***

Estávamos no final dos 50 e não poderíamos passar distantes de uma onda de globalização da época. One two three four five: rock around the clock, Bill Halley e seus cometas endiabrados. Tinha Elvis também, claro, além de muitos outros. No Brasil, Cely Campelo (Estúpido Cupido) e Ronnie Cord, com sua história do biquíni de bolinha amarelinha. Roberto Carlos dava seus primeiros vagidos e dele escorreu uma coisa grudenta que nos pegou a todos: quero me casar contigo, não me abandone tenha compaixão. Romântico, desde o começo e como sempre. Na época, meus primos Castilho Santos (Chico Marcos, Mani, Elisa e Cristina) assistiram no ginásio do Minas Tênis Clube a ninguém menos que uma outra grudenta da época, a americana Brenda Lee, com seu hit, não sei se único, Jambalaya on the bayou, cuja letra sempre foi sujeita a paródias meio escatológicas. Os supracitados primos tinham um pai abonado e liberal, meu grande padrinho Duílio, de modo que podiam surfar em todas as ondas, coisas a que nós do apê térreo da Chapecó não tínhamos acesso. Lembro-me que só Rock around the clock, no cinema, eles assistiram meia dúzia de vezes. Se inveja matasse… Mas tudo bem, éramos todos felizes por igual, mesmo apesar dessas diferenças no poder de consumo.

E por falar em consumo a era da Chapecó foi também de entrada da família neste mundo maravilhoso, pois passamos a dispor de TV e geladeira. Eletrola, não: só veio bem mais tarde. Não posso me esquecer do Natal em que a Frigidaire chegou em nosso lar, seu vulto quase solene na copa, o ar fresquinho que nos escorria pelas pernas quando parávamos extasiados diante dela aberta, como um oratório (fecha a porta, menino, pra não gastar muita energia e perder o gelo!) e, principalmente, o cheiro luxuoso de uvas Niágara que foram compradas especialmente para estrear o fabuloso eletrodoméstico – e também, certamente, porque era época de festas. Enfim, foi um Natal inesquecível.

Quanto à TV não posso afirmar com certeza se ela chegou quando morávamos no Prado ou ainda na Lagoinha. Só sei que foi em torno de 1957, quando ganhamos outro “objeto” na família, a nova caçulinha Claudia, conhecida intimamente como Cuíca. Objetozinho muito querido por sinal, embora aumentasse o trabalho de babás que os irmãos mais velhos faziam, sob minha coordenação, obviamente, por ser o primogênito. Claudia padecia de certas intolerâncias gastrointestinais que obrigavam minha mãe a produzir hectolitros mensais de água de arroz, remédio muito popular na ocasião, mesmo por recomendação médica. O resultado pior de tudo isso nem eram as dúzias de fraldas permanentemente dependuradas nos varais e nas janelas, mas a produção exuberante de arroz doce, subproduto da fabricação da tal fórmula mágica, o que me fez enjoar para sempre desta iguaria. Em suma, em casa onde raramente tínhamos sobremesa, esta passou a ser compulsória, mas sempre arroz doce. Cruzes! Cuíca nos deve esta…

Mas eu falava de televisão e de sua chegada em nossa casa. A principal lembrança é a de um indiozinho com cocar em formato de antena, o ícone da Itacolomi, canal quatro, emissora da rede Associada, que antecedeu a Globo no monopólio das comunicações no Brasil. O curumim ficava horas sendo exibido, sem movimento e sem música, em preto e branco. Isso queria dizer que havia problemas técnicos sendo resolvidos nos altos do Edifício Acaiaca, onde ficava a sede dessa única emissora de BH. Mas havia uns programas legais, todos produzido localmente e de forma meio amadora, mas digna. O Circo Bom Bril, nos sábados à tarde, tinha o palhaço Moleza e seu ajudante, o anão Meio Quilo, como atrações principais. Moleza era italiano, falava com certo sotaque e veio a ser pai de Toninho Cerezzo (e avô de Lea T., vejam só). Aliás, o futuro craque da seleção iniciou sua carreira, por assim dizer, pública, no Circo Bom Bril, como partner do pai. Outras atrações da Itacolomi eram um dramalhão semanal chamado Esta é a sua vida; um teleteatro de suspense, A Garrafa do Diabo; um quadro humorístico até bem sucedido em fazer rir, Seu Encrenquinha, além de outro, também de humor, no qual o futuro Zacarias, dos Trapalhões, fazia um advogado de defesa, meio abichalhado, num júri bem no estilo Zorra Total – em televisão nada se cria… Uma vez por semana Juca Chaves fazia um programa de música e piadas na TV; este era de agrado geral: Brasil já vai à guerra, comprou um porta aviões ou ainda Por quem sonha Ana Maria nesta noite de luar – eram os hits do momento.

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