Mais uma crônica da cidade em trabalho de parto: “Não vou pra Brasília”

Quem já estava no mundo nos anos 60, como eu, então criança e depois adolescente, certamente deve ter tido sua vida marcada pela criação de Brasília. Não se falava de outra coisa em todo o Brasil: JK prá lá e prá cá, ensejando desde marchinhas de carnaval a toada de Juca Chaves; estradas sendo rasgadas no Cerrado; a morte de Bernardo Sayão por suposto ataque de índios; o êxtase de visitantes estrangeiros diante das imensas obras em meio ao Cerrado; a descoberta da palavra Candango; as suspeitas de que o lago do Paranoá jamais se encheria; as denúncias de corrupção; a oposição ressentida da UDN e o entusiasmo sem peia de outros tantos. Acima de tudo era um país em desabalada carreira, seja para se encontrar seu futuro, ou pelo menos trazer esperança à multidão de analfabetos e marginalizados que aqui habitava. Um dos fatores que fomentava o clima de desconfiança que se instalara em alguns dos críticos da novacap era a questão do funcionalismo público, supostamente acostumado às “delícias” do Rio de Janeiro e totalmente infenso ou indiferente ao que o governo prometia na transferência para Brasília. E não eram poucas as promessas então, sendo a mais vistosa delas a tal “dobradinha” (não confundir com “rachadinha”), que permitia aos barnabés ousados que a ela aderissem simplesmente a multiplicação de seus salários pelo fator “2”. Mas mesmo assim havia os que resistiam. Foi o caso de Billy Blanco, compositor e cantor que já fazia sucesso nos tempos do rádio, mas antes de tudo funcionário público federal, lotado no antigo DNER, se não me engano.

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