Todos os homens são mortais

Meu tio Geraldinho. Ia fazer cem anos não demoraria muito. Quanto tempo? Ele saberia ao certo, mas não revelava,afirmando apenas ser coisa de um ano, talvez dois ou três. Mas a verdade é que ele já estava bem velhinho: velho pra burro, como ele dizia.

Nunca se casou, pelo menos pelo que se sabe. Há notícias de uma antiga namorada, a quem ele teria prometido casamento durante anos, décadas segundo alguns, mas que casamento mesmo não houve. Mas sempre afirmou – e continua afirmando – que gosta mesmo é de mulher. Um primo dele (e de meu avô), o Juca, confirmava isso até certo ponto, quando me disse, muito tempo atrás, porque este aí há muito se findou, que Geraldinho em seus bons tempos era o Rei da Zona na terra deles. Mas isso é coisa a ser confirmada. Ou melhor, a ser esquecida, quem é que se importaria com a veracidade de tal fato nos dias de hoje, quando já não estão vivos quaisquer dos conviventes dessa época, dos dois lados do balcão da tal zona?

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Eu não estou feliz, quero morrer…

Esta declaração é do cientista inglês David Goodall de 104 anos, que optou por um suicídio assistido para ir embora dessa vida, há poucos dias atrás. Para mim, esta foi uma decisão não só muito corajosa como muito lúcida. Um dia a vida perde a graça mesmo, e as pessoas têm o direito de se indagar: o que ainda estou fazendo aqui, fraco, inútil, cheio de dores, dando trabalho para os outros, esgotando as reservas de paciência e de dinheiro de minha família? E aí vem a medicina, quando não o Estado e dizem: não pode! Tem que aguentar aqui, até o fim, sofra o que sofrer. Queira ou não queira.

De minha parte, tenho tentado me precaver quanto a algo assim. Continuar lendo “Eu não estou feliz, quero morrer…”