Eu não estou feliz, quero morrer…

Esta declaração é do cientista inglês David Goodall de 104 anos, que optou por um suicídio assistido para ir embora dessa vida, há poucos dias atrás. Para mim, esta foi uma decisão não só muito corajosa como muito lúcida. Um dia a vida perde a graça mesmo, e as pessoas têm o direito de se indagar: o que ainda estou fazendo aqui, fraco, inútil, cheio de dores, dando trabalho para os outros, esgotando as reservas de paciência e de dinheiro de minha família? E aí vem a medicina, quando não o Estado e dizem: não pode! Tem que aguentar aqui, até o fim, sofra o que sofrer. Queira ou não queira.

De minha parte, tenho tentado me precaver quanto a algo assim.

Como disse Woody Allen, tenho pensado muito “nela” ultimamente, mas espero que a recíproca não seja verdadeira. Enquanto isso procuro tomar minhas previdências, sempre esperando pela não-recíproca… Assim é que fiz uma consulta na web e decidi preparar minhas “diretivas antecipadas de vontade”, que estou registrando em Cartório, nas quais manifesto por livre e espontânea vontade, consciente, livre e esclarecida, o que desejo receber, ou que não desejo receber se, por qualquer razão, me encontrar incapaz de expressar a minha vontade pessoal e autonomamente. Elas se aplicariam diretamente a eventuais situações derivadas de enfermidade manifestadamente incurável e que impliquem em me causar sofrimentos ou me tornem incapaz de ter uma vida racional e autônoma. Isso significa ainda que, baseado nos princípios da dignidade da pessoa e também na autonomia individual, aceito a terminalidade da vida, ao tempo que recuso qualquer intervenção médica extraordinária inútil ou fútil, ou seja, na qual os possíveis benefícios sejam nulos ou demasiadamente reduzidos. 

Nestes termos, são as seguintes minhas determinações antecipadas de vontade, manifestadas de forma que pretendo clara e inequívoca:

1.       Não ser submetido a quaisquer meios invasivos de suporte artificial de funções vitais.

2.       Não ser submetido a medidas de alimentação e hidratação e outros procedimentos artificiais de sustentação da vida e que apenas visem retardar o processo natural de morte.

3.       Não ser submetido a tratamentos que se encontrem em fase experimental, investigação científica ou ensaios clínicos.

4.       Não ser submetido a reanimação cardíaca, ao uso de respiradores, bem como a hemodiálise, por qualquer período de tempo.

5.       Não comprometer a vida financeira de minha família, recebendo durante minha internação e realização de procedimentos, apenas a assistência garantida por meu Plano de Saúde, ficando minha família autorizada e garantir o meu direito à cobertura contratada, por via jurídica, se isso se fizer necessário.

6.       Receber apenas fármacos ou procedimentos necessários para controlar, com efetividade, dores e outros sintomas que possam me causar padecimento, angústia ou mal-estar.

A jornalista Mariliz Pereira Jorge, da Folha de São Paulo, sempre provocativa e brilhante, assim comentou o assunto: “A decisão de Goodall é corajosa. E que bom que ele tenha encontrado os meios de se despedir do mundo quando acha que chegou a hora. No caso do cientista, foi por causa das restrições de mobilidade que enfrenta devido à idade avançada. Mas poderia ser porque está doente, triste ou apenas farto da vida. E, numa hora dessas, o que alguém precisa não é julgamento, é apenas compreensão”.

Descanse em paz, Goodall – exemplo de ser humano coerente e corajoso!

 

Quem quiser saber mais sobre o tema, veja…

(http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2016/07/1794603-todo-paciente-tem-um-preco-afirma-especialista-em-farmacoeconomia.shtml)

E também o Portal www.testamentovital.com.br.

O artigo de Mariliz: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2018/05/todos-deveriam-ter-o-direito-de-morrer-em-paz-e-quando-bem-entenderem.shtml

 

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2 comentários sobre “Eu não estou feliz, quero morrer…

  1. Sou assíduo leitor do seu Blog, e de seus artigos… na verdade, embora não saiba, sou seu fã. Há vintes atrás, quando adentrei no mundo da saúde pública, e pouco tempo depois fui pego a laço para secretário de saúde – digo pego a laço porque não reunia as condições mínimas, nem de conhecimento técnico, nem tampouco de maturidade para tão importante missão.
    Mas tive sorte. E a população de São João d’Aliança também; pois graças a um convênio com a UnB, de cooperação técnica, tínhamos uma equipe de docente e acadêmicos, sob o comando do Mestre – Flávio Goulart, dando suporte técnico a gestão.
    Foi neste momento que engatinhei nos primeiros conhecimentos de saúde pública – neste universo tão complexo e desafiador que é compreender a organização e funcionamento do SUS – o SUS universal, integral e equânime – o SUS promotor de igualdade social. E foi com o Mestre, com seus ensinamentos as vezes sutis, noutras nem tanto, mas com o intuito de chamar-me para a responsabilidade, é que fiz minha iniciação.
    Voltando a sorte. Tenho convicção que a tive. Porque foi graças a esta convivência que aprendi desde o primeiro momento que ser gestor municipal não é ser apenas administrador de serviços municipais, como ainda perdura no imaginário de grande parte dos secretários municipais de saúde – ser gestor municipal de saúde é assumir a responsabilidade sanitária por uma população residente; é mover montanhas com todas ferramentas de articulação intermunicipal, na região e fora dela, para garantir aos munícipes atenção à saúde em todos os níveis de complexidade – a atenção e assistência que ele necessita, do mais simples procedimento ao mais complexo.
    Isso parece simples e obvio, porém, 30 anos depois de criação do SUS, e de todos os seus movimentos – do municipalismo ao regionalismo; das NOBs às NOAS, do Pacto pela Saúde, com seu Pacto pela Gestão e da RENASES com seu COAPS, e nos dias atuais, sabe-se lá de que – é necessário admitir que a gestão em saúde padece de bons gestores, ou pelo menos de gestores que tenham internalizados suas reais responsabilidades sanitárias.
    E o que isso tudo tem a ver com o contexto do seu artigo? Nada! Senão o meu desejo de que saiba que é responsável pelo meu interesse e permanência na militância (perdoe-me, sei que não gosta deste termo) na saúde pública a vinte anos; e para mim, o Mestre continua sendo; salvo algumas controvérsias, uma das cabeças pensantes de maior lucidez quanto ao cenário atual do sistema público de saúde brasileiro. E viva o SUS nosso de cada dia, desgastado, ineficiente, porém, até que tenhamos alguma solução nova, necessário.
    Que Deus conserve sua lucidez e benevolência de socializar o conhecimento por muito tempo ainda.

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