Morrer com dignidade

Depois dos 80 (que já estão chegando para mim…) fica tudo muito cheio de riscos e problemas. Não. Não estou falando de estradas, mas sim da vida como um todo. Nesta quadra da existência, o direito à vida é algo inquestionável, mas há uma diferença profunda entre direito e dever quanto a isso, o que implica em que cada uma seja um protagonista essencial nas decisões sobre os cuidados que esteja disposto a receber na etapa final de sua vida. Cada um deve ter acima de tudo, o direito de viver, mas jamais o dever de se continuar vivo contra a própria vontade. Cabe, assim, a cada pessoa desenvolver e exercer a percepção de sentido que a vida deve ter e rejeitá-la quando isso escapar de sua concepção de bem vivê-la. Não é que seja preciso amar a morte ou desejá-la, mas sim ampliar o debate sobre os fatos que rodeiam, sem preconceitos e ideias pré-concebidas, sem medo, como etapa natural da existência. A morte, afinal, deveria ser “vivida” de acordo com as aspirações e crenças, além da liberdade e autonomia das pessoas. Mais do que simples destino deve ser considerada direito humano fundamental, a ser experimentado com dignidade, de forma que ninguém seja constrangido a continuar vivo sendo portador do que considera um grau insuportável de sofrimento. Uma boa morte deveria ter como cortejo a autonomia, a autodeterminação, a dignidade e, no limite, a morte voluntária e assistida, incluindo-se nisso: a recusa terapêutica; o direito aos cuidados paliativos, ao invés das “heroicas” experimentações terapêuticas; as funestas iniciativas que porventura venham apenas a prolongar o processo de morrer; e, finalmente, a morte assistida. É dentro e tais conceitos que registrei em cartório as seguintes Diretivas Antecipadas de Vontade.

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A Morte e o Morrer no Grande Sertão

Grande Sertão: Veredas não é, nem de longe, apenas um livro de aventuras e tropelias de cangaceiros no vasto sertão são-franciscano. Muito mais do que isso representa uma profunda e sutil viagem a temas tão variados como o amor; o livre arbítrio; Deus e o Diabo; o bem e o mal; o poder; o sagrado; o transcendental; a vida; a morte. Sim, a Morte, que se faz presente de maneira intensa nas quatrocentas e tantas páginas do livro. Utilizando recursos da internet resolvi fazer uma pesquisa quantitativa sobre isso: o substantivo morte está presente 112 vezes e o verbo morrer, no infinitivo, mais de sessenta, fora sua aplicação em variados tempos verbais. Deixando estas elocubrações aritméticas de lado, resolvi ir além. Considerando a minha atual preocupação com o tema da morte, melhor dizendo, do direito a uma morte digna, voluntária e assistida, resolvi compreender melhor os conteúdos trazidos por tais palavras no GSV e assim demarquei cerca de sessenta expressões do autor, que trago aqui numa tentativa de análise do significado das mesmas. Mas, atenção: aqui fala um simples leitor, uma pessoa que não tem formação em teoria literária, um fã incondicional da obra de JGR, que talvez peque por excesso de autoconfiança ao se meter num desafio de tal monta. Entretanto, penso que serei perdoado, já que o amor pela obra de João Guimarães Rosa me permitiria uma ousadia e um exagero como este e já me vejo redimido de antemão. Para começar, tentei uma catalogação de tais expressões em algumas categorias temáticas, de efeito apenas didático, pois certamente seus significados com muita constância ultrapassam as barreiras entre os diversos temas. São elas: (a) uma Filosofia da Morte; (b) Vida, Morte e Destino; (c) sobre o Ato de Morrer; (d) a Morte e o Amor; (e) Matar e Morrer; (f) encarando a própria Morte.

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Eu não estou feliz, quero morrer…

Esta declaração é do cientista inglês David Goodall de 104 anos, que optou por um suicídio assistido para ir embora dessa vida, há poucos dias atrás. Para mim, esta foi uma decisão não só muito corajosa como muito lúcida. Um dia a vida perde a graça mesmo, e as pessoas têm o direito de se indagar: o que ainda estou fazendo aqui, fraco, inútil, cheio de dores, dando trabalho para os outros, esgotando as reservas de paciência e de dinheiro de minha família? E aí vem a medicina, quando não o Estado e dizem: não pode! Tem que aguentar aqui, até o fim, sofra o que sofrer. Queira ou não queira.

De minha parte, tenho tentado me precaver quanto a algo assim. Continuar lendo “Eu não estou feliz, quero morrer…”