Dona Cecília e a boa gestão em saúde

BALANÇANa minha infância em Belo Horizonte, nos anos 1950, tive a chance de estudar em uma daquelas escolas-modelo. Pública, como convinha e ainda convém. Ali, cantávamos o Hino Nacional uma vez por semana, nossos uniformes eram fiscalizados até quanto à cor das meias (obrigatoriamente brancas!) e o polimento dos sapatos Vulcabrás. Qualquer deslize com os professores e colegas fazia com que fôssemos remetidos, de imediato, para a temida antessala de dona Cecília, a diretora. Chamava-se o estabelecimento Grupo Escolar Francisco Salles e creio que ele ainda exista, na rua Guajajaras, no Barro Preto. Alguns hoje a desdenhariam como meramente uma escola autoritária. Mas se ali tudo funcionava com ordem e progresso, ao lado, morava o pecado… Com efeito, do outro lado de nossos muros, havia outra escola estadual, a Caetano Azeredo, na qual as coisas pareciam correr no sentido inverso, fosse na disciplina dos alunos, no estado de seus uniformes, na frouxidão das normas vigentes. Só para comparar: os alunos do Chico Salles saíam da aula ordeiramente pela rua Guajajaras afora; os do Caetano pareciam uma horda de hunos em disparada.

Desde então me pergunto: o que faz as coisas serem assim tão diferentes em duas instituições públicas, situadas no mesmo bairro, destinadas à mesma classe média, com professores percebendo os mesmos salários? No nosso caso, o segredo pareia estar na figura enérgica da diretora, mas certamente haveria mais ingredientes na receita.

Observando, hoje, a realidade dos serviços de saúde – e certamente da educação e de outras áreas que são ou deveriam ser de responsabilidade pública – creio que posso acrescentar alguns elementos para dar uma resposta à indagação acima, pelo menos no sentido de indicar alguns dos componentes da boa gestão.

Para começar, a boa condução, traduzida pela presença marcante de dona Cecília, certamente é muito importante e, entre seus atributos, podem ser arrolados capacidade de tomada de decisões, liderança, carisma. Poderíamos acrescentar também espírito empreendedor, embasamento ideológico, além de qualificação técnica e continuidade. Mas isso teria sido pouco se a nossa diretora não contasse com uma boa equipe técnica, qualificada não só em termos de conhecimentos, mas também de postura. Poderia não haver militância, nos termos que a concebemos hoje, mas certamente havia sintonia com o projeto político da escola e aceitação da liderança.

Focalizando os tempos atuais e a saúde, em especial, as boas práticas sociais também devem ter um lugar de destaque, ou seja, sintonia entre as propostas de participação oficiais e as da sociedade, com associação sinérgica entre as noções de responsabilidade pública e de direitos das pessoas, bem como compromisso com os resultados concretos da ação institucional. Como decorrência, surge a noção de bom governo, que se traduz por práticas políticas e administrativas transparentes, efetivas e socialmente aceitáveis, que se estendem bem além do campo da saúde, tendo como substrato ideológico as noções de cidadania, direitos coletivos e responsabilidade pública.

Tudo isso se associaria a uma boa implementação programática, o que significa investimento em padrões efetivamente inovadores de atenção e de gestão, buscando a neutralização da competição e do antagonismo com os elementos estruturais e ideológicos dos velhos regimes de práticas, bem como a superação dos preconceitos que enxergam em toda inovação a renúncia ao estatuto dos direitos sociais ou ao papel do Estado.

Poderíamos falar, ainda, em boa articulação para fora da moldura institucional ou práticas de um cosmopolitismo político e sanitário, direcionada a interlocutores individuais ou institucionais que sejam capazes de oferecer respaldo técnico e cobertura política ao desenvolvimento dos projetos e programas que estiverem em jogo.

Há outras características de uma gestão em saúde que podem fazer com que seja chamada, sem maiores ressalvas, de boa, ou eficiente. Ela seria aberta ao desenvolvimento de inovações, seja do ponto de vista gerencial ou assistencial, diferenciando-as das meras novidades, mas tendo como diretriz norteadora a ousadia e o destemor frente às possibilidades de erro e reversão. A busca da sustentabilidade, não só em termos financeiros, de estrutura e de processos de gestão, mas também nos planos cultural, simbólico e político, resultando no necessário enraizamento das experiências no imaginário da comunidade e dos tomadores e executores de decisão, como também dos usuários.

E nunca é demais lembrar de certo efeito espelho, ou seja, a articulação e a difusão da experiência entre interlocutores externos, configurando o exercício de uma pedagogia do exemplo fundamental no processo de construção de políticas públicas.

Parece fácil? Não, não é… Isso tudo depende de muita luta, cujos ingredientes são a decisão política e o desenvolvimento da consciência de vida social, política e sanitária dos atores envolvidos. Ainda chegaremos lá… Dona Cecília, onde estiver, que nos ilumine o caminho!

 

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