De novo no Mato Dentro

RUGENDASEm 2008 publiquei no TREM ITABIRANO um relato de viagem pela região de Itabira, ao qual intitulei “As Meninas do Mato Dentro”. Nele, louvei a dedicação e a simpatia com que fui atendido em locais turísticos da região, por exemplo, na Casa de Drummond, no Museu do Tropeiro, na Matriz de Santa Bárbara, além de outros.

De volta ao Mato Dentro, seis anos depois, tenho a felicidade de rever a simpatia das “Meninas” – talvez nem sejam as mesmas – no expressivo museu de Ipoema, na Fazenda do Pontal, na confeitaria da Tia Eliana, no belo restaurante “Histórias” de Catas Altas e em outros lugares. Quando o que se vê em toda parte são mudanças permanentes (e para pior) nos costumes, é um consolo sentir que certas coisas marcham em bom rumo neste Brasil de meu Deus…

Desta vez, fui recebido com festa em Ipoema. É bem verdade que não era exatamente para mim, mas para comemorar, com honra e estilo, o Dia do Tropeiro, uma daquelas efemérides que, se não existe de fato e de direito, pode-se dar como muito bem criada. Cavalos e cavaleiros: havia milhares deles por todas as estradas, fazendo – quem diria – até os veículos a motor estacarem e darem passagem. Assim era em Bom Jesus do Amparo, em Ipoema, em Senhora do Carmo e talvez em muitos lugares mais. Vi mesmo sinais da tal andança (ou cavalança?) na cidade de Itabira e, no dia seguinte, em Brumal e Barão de Cocais. O certo é que era festa de arromba.

Em Ipoema não se podia nem mesmo estacionar o carro, com todas as vagas nas ruas tomadas por muares e eqüinos de cores e variedades incontáveis, a maioria ricamente apetrechada para a festa. Mas o que importa se faltam vagas para bólidos motorizados em ocasiões como esta? E salve a poluição profusa, volumosa e olorosa produzida pelos quadrúpedes, visível em toda parte, mas que, quando nada, se transforma em matéria prima para muita planta florejar por aí, ao contrário do monóxido, que como se sabe, só produz flores do mal.

Nada é perfeito… A festa também me fez lembrar o comentário de Bolivar Lamounier em recente edição deste TREM, a respeito da boa lembrança que tem do silêncio vigente na Dores do Indaiá de sua infância. Eu também padeço do mal de que o mestre reclama. E o ambiente em Ipoema era de fazer tremer a terra, com a louca cavalgada de decibéis emanados de mil e um aparelhos de som! Havia até mulas equipadas com tais geringonças barulhentas, trotando resignadamente pelas estradas e ruas do trajeto, acreditam? Coisa de fazer um antigo tropeiro revirar no túmulo, nem que fosse por curiosidade… São os costumes, fazer o quê? Talvez o grande prejuízo produzido pela barulheira eletrônica seja o abafamento radical daquele pocotó que em outras eras se ouviria muito bem, fazendo o fundo musical ideal para uma festa como aquela.

Cena impagável em Ipoema foi um palanque ornado por duas dezenas de excelências municipais, de várias partes do Mato Dentro, clamando pela atenção dos eleitores em trânsito no local, em pleno sol de duas da tarde. Legislação eleitoral? Nem pensar… Mas creio que não tiveram sucesso em tal missão, pois boa parte dos ouvintes não possuía título de eleitor, por pertencer à superior condição de equinos. A outra parte, para dizer pouco, não estava nem aí… Aliás, sem exagero, tinha mais personagens (de duas patas) em cima do tal palanque do que em roda dele. Coisa nunca vista, pelo menos por mim…

Em Itabira era sábado à tarde, dia de descanso, como se sabe. Deve ser por isso que Maria, minha companheira, ficou privada de conhecer o Memorial e a Casa de Drummond. Se os funcionários públicos descansam, cabe aos turistas, nos sábados, fazer turismo… Seria possível conciliar o sábado burocrático com o ímpeto dos viajantes? Com a palavra as autoridades da área, em Itabira. Por sorte, a Casa do Pontal estava aberta (embora quase fechando…) e ali formos recebidos com graça e carinho por Rosangela, mais uma das abnegadas Meninas do Mato Dentro, que fazem a gente esquecer, sem sentir saudades, dos burocratas e dos políticos.

Muito bem, histórias do Mato Dentro não acabam, ao contrário do espaço bissexto que o TREM ITABIRANO me concede. Para encurtar e finalizar, não posso deixar de lado o percurso de volta a BH, feito com grande proveito e emoção: os 40 km de estradinha de terra que vence o Espinhaço entre Barão de Cocais e Caeté, todo ele debaixo da Mata Atlântica quase intacta. Não precisa nem ter quatro por quatro, o Classic um ponto zero alugado transitou por ali galhardamente. E meus sentidos agradeceram e agradecem ainda o passeio. Não só recomendo o trajeto, como recomendo também os pães de queijo da Tia Eliana, em Itabira e os pastéis de angu do “Histórias”, em Catas Altas. O Mato Dentro também é gastronomia!

 

 

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