Sinfonia em ré…

ribeiraovermelho0021Sinceramente, quando constato, horrorizado, estas cenas que o cotidiano nacional nos oferece, por exemplo, de gente amarrada em postes, de mulheres sendo apedrejadas por suspeita de bruxaria ou, para “pensar grande”, na rendição incondicional do país aos ditames do lucrobol na versão FIFA, tenho um desânimo danado com este país. Mais do que nunca, vejo a ironia de Nelson Rodrigues, a respeito de nosso “complexo de vira lata”, se mostrar com tal força no presente ao ponto de tornar-se profecia, dita e realizada.

Fico procurando a antítese de tudo isso, mas a realidade se impõe de maneira nada sutil, verdadeira locomotiva em marcha a ré, entrando na curva da história, sem apitar…

E por falar em locomotiva, me vêm à memória cenas que vi há pouco tempo em Ribeirão Vermelho, no Sul de Minas, que poderiam ser apenas pitorescas, se não fossem trágicas… Ali, às margens do rio Grande, a poucos quilômetros da rodovia Fernão Dias, jazem, ao Deus dará prédios e equipamentos ferroviários que em outros países anda estariam prestando enorme serviço à economia. Mas no Brasil, não – nem tiveram o consolo de se verem transformados em museu.

Uma enorme rotunda, ou oficina para locomotivas, totalmente em área coberta (ou quase, não fosse o destelhamento imposto pelas intempéries e pela simples pilhagem humana), apodrece abandonada. Seus esteios de ferro fundidos em Glasgow, suas telhas e lajotas importadas de Marseille, estão simplesmente à espera de que vândalos ou colecionadores de melhor estirpe acabem de completar o serviço, para serem varridos para sempre do lugar.

Em eras não tão antigas, até os anos 50 do século XX, ali figurava coisa de respeito, de causar inveja ao país que temos hoje. Mercadorias trazidas do Rio de Janeiro por trem de ferro passavam por trasbordo a batelões fluviais que desciam por duzentos ou mais quilômetros o rio Grande para somente então serem distribuídas por caminhões, por todo o oeste de Minas e Triângulo.

Em outras palavras, jogamos na lata de lixo toda uma estrutura de transporte que conjugava vias férreas, fluviais e rodoviárias, deixando para estas últimas apenas a finalização do percurso, já na fase de consumo –vejam só!

Ainda com estas imagens na retina, ganhei de presente um livro que retrata a fantasia de Henry Ford, a Fordlândia, no Pará, realizada aos trancos e barrancos entre os anos 20 e 40, depois sepultada como indigente. O autor é Greg Grandin, um pesquisador da história latinoamericana, da Universidade de Nova Iorque. Era de fato um projeto maluco aquele, saído da mente controversa de um empreendedor messiânico e neurastênico (para dizer pouco, pois entre suas simpatias estava até o nazismo…).

Mas o que importa aqui é outra coisa: o relato surpreendente revelado pela entrevista com dona América (vejam que ironia o nome de tal cidadã), de 80 anos ou mais, uma das raríssimas sobreviventes do apogeu do empreendimento, antiga babá na casa de um funcionário da Ford Motor Corporation, atualmente residente em Salvaterra, nas proximidades da antiga cidade de Mr. Ford. América narra de forma simples e direta seu dilema: operada de apendicite nos anos trinta por um médico da empresa, apenas poucas horas após ter adoecido, teve sua vida salva e recuperou-se sem seqüelas. Hoje, pra conseguir uma simples consulta para suas varizes, tem que viajar boas oito horas de barco até Santarém e ali passar vários dias, até conseguir tal benefício do SUS – e já teve vez em que acabou voltando para Salvaterra de mãos abanando e com as varizes destituídas de qualquer cuidado.

Moral da história: deu para trás o empreendimento fordista, tão inviável que era, mas pelo menos uma coisa pode ser considerada como herança positiva do mesmo. Ficou marcada, certamente, na mente daquela anciã e talvez de outras pessoas, uma era em que pelo menos havia assistência médica, escola e comunicação com o mundo. Faliu Mr. Ford, sem dúvida, mas faliu também (se é que já não nasceu falido…) o Estado brasileiro, incapaz de oferecer um mínimo de proteção social a muitos de seus cidadãos.

Um terceiro caso, rapidinho este… Tive a honra de estudar em escola pública por toda a minha vida. No Colégio Estadual de Minas Gerais, nos anos 50, apesar de tanto eu como a maioria de meus colegas sermos membros de uma “média classe media”, tivemos como colegas a filha do governador de Estado, o filho do assessor mais próximo de JK (que depois se deu mal como autor e promotor do chamado mensalão mineiro…). Até a Dilma passou por lá, mas naquela ocasião creio que ela sonhasse apenas com as baladas, ditas “horas dançantes”, nos finais de semana… Vestibular era coisa que quem passava por ali tirava de letra, como foi o meu caso e de tantos outros. Era uma escola sem portões, entrava e saia quem quisesse. Mas mesmo assim ali formos apresentados à melhor literatura (li mais antes dos meus dezoito anos do que em todo o resto de minha vida), à discussão social, à cultura, às ciências, às matemáticas, à filosofia, à política. Aprendíamos a escrever com gente que também escrevia. Bons tempos! Não preciso dizer mais nada a respeito da escola pública de hoje em dia, preciso?

Pois é meus amigos… Quem é que me ajuda a superar a triste impressão que somos um país de marcha a ré? Ou na contra mão da história? Não é consolo saber que andando para trás, talvez, não se caia em nenhum abismo, pois se caminha apenas por onde já se passou, sem surpresas. Mas para o futuro, o que nos aguarda? Eita pergunta faladeira…

 

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2 comentários sobre “Sinfonia em ré…

  1. Visitamos esta rotunda (eu, Dani, Mau e Dilli) quando voltávamos de Tiradentes para BH, td detonada. Uma lástima pois é lindo este espaço.

    • Obrigado Teo! Você precisava ver (ou seria melhor nem ver…) as ruínas ferroviárias de Pirapora: uma vila inteira de casas vitorianas abandonadas às traças e aos vândalos e uma ponte sobre o Rio do Chico, totalmente importada da Inglaterra (ou da Bélgica), imensa, sobre a qual nunca passou um trem… FLAVIO

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