De saúde e cultura

JecaTatuzinho4Belmonte

Há dias, o Ministro da Saúde, Ricardo Barros, portador de um interessante estilo “deixa que eu chuto”, nas palavras inesquecíveis de Flavio Rangel, sobre o ditador Figueiredo, andou dizendo que um grande problema dos serviços de saúde é ter de atender as pessoas que, segundo ele, “fingem estar doentes”. Não sou de salvar a pele de autoridades, mas, dessa vez, acho que ele tinha até um pouco de razão, mas não soube como expressá-la corretamente. Aqui vai, assim, minha contribuição ao tema. Ministro, você me deve essa, ok? Que tal se para quitar a dívida me consulte a respeito deste “Plano Popular de Saúde” que o senhor está lançando?

Quando fui Secretário Municipal de Saúde, por duas vezes, aliás, em Uberlândia, recorri várias vezes ao argumento de que muitos dos problemas dos sistemas de saúde – no caso da cidade onde eu era gestor, de forma evidente – derivavam de uma cultura do usuário, que poderia se traduzir simplesmente por: “a saúde tem obrigação de me dar tudo que eu preciso!” E não importaria a dimensão e a natureza de tal necessidade – neste “tudo” estariam incluídos desde o desemprego até as desavenças conjugais.

Fui mal interpretado algumas vezes. Alguns acharam que eu retirava a responsabilidade do poder público para por a culpa na verdadeira vítima – o usuário. No limite, meus críticos até que poderiam ter razão, mas o que eu dizia na ocasião me parece, hoje, cada vez mais adequado para descrever a realidade de nosso País. Não é atoa que os gestores de saúde, em toda parte e nos três níveis de governo, estão sempre em apuros para atender tantas demandas na saúde, algo que parecia tão simples nas propagandas das campanhas eleitorais.

Não que faltem problemas intrínsecos, extra culturais, em nossos sistemas de saúde. Pelo contrário! Há poucos recursos, menos decisão política, muita pirotecnia, pouco conhecimento técnico, muita burocracia, privatização de interesses, politicagem permanente e muito mais. Porém, quando se adicionam esses ingredientes ao caldo da cultura, o resultado não poderia ser pior.

Vejamos algumas expressões do senso comum que traduzem o que denomino uma cultura nefasta na saúde.

“Não é preciso colocar mais dinheiro da saúde, basta melhorar a gestão”. Aqui, parte-se de dois pressupostos: primeiro, que dinheiro é um material elástico, ou seja, pode-se acrescentar qualquer tipo de demanda que ele tem que dar para o gasto. Segundo que a gestão da saúde é invariavelmente ruim. Juízes e Promotores, particularmente, fazem disso mais que uma manifestação cultural, uma crença arraigada, um dogma quase religioso!

“Só o médico pode resolver meu problema! Só um especialista para dar conta do que eu tenho”. Corolário: “devo dispor de todos os serviços de saúde possíveis, inclusive emergências e especialidades, a poucas quadras de minha casa”. Mas não próximos demais para que o demandante não seja perturbado pelo alarido das sirenas das ambulâncias, é claro.

A lista de queixas é longa: “onde já se viu uma consulta sem remédio!” “Este doutor especula demais sobre a vida da gente”. “Banho de assento e repouso – para que serve isso?” “Vou sair daqui e vou dar queixa na TV, na Delegacia e na Promotoria!” “Eu venho aqui consultar e eles só falam em vacina”. “Eu gosto é do pronto atendimento: tudo bem que a gente fica umas horas na fila, mas sempre sai daqui com receita e pedido de exame na mão”.

A cultura do usuário faz tampa e balaio com a cultura dos políticos. O encontro das duas não resulta em nada que preste. Assisti na propaganda eleitoral recente promessas do tipo “entregar remédios em casa”. É um exemplo típico desse encontro nefasto. Medicamento é coisa séria, o contato direto, olhos nos olhos, com profissionais de saúde, é fundamental para que o paciente os utilize adequadamente, esteja alerta para seus efeitos, aproveite a oportunidade para realizar os outros controles que sua situação de saúde exige. O problema é que alguns políticos captaram aquele “tudo” referido acima ao pé da letra.

Há tempos li na imprensa comum um artigo do cientista britânico, Frank Furedi, da Universidade de Kent, que só veio a fortalecer meus argumentos relativos à questão cultural na saúde. Eis o que ele diz: “as sociedades ocidentais não vão superar a crise dos sistemas de saúde. Por mais que os governos joguem dinheiro no setor, um número cada vez maior de pessoas se identificará como doente. A solução para o problema não está no âmbito das decisões políticas, mas sim no âmbito da cultura. São coisas que estão além das possibilidades dos sistemas de saúde isoladamente”. Confesso que me senti mais aliviado, com aquele velho e confortável sentimento do “mas eu não dizia isso mesmo?”

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Um comentário sobre “De saúde e cultura

  1. Republicou isso em Vereda Saúdee comentado:

    Há dias, o Ministro da Saúde, Ricardo Barros, portador de um interessante estilo “deixa que eu chuto”, nas palavras inesquecíveis de Flavio Rangel, sobre o ditador Figueiredo, andou dizendo que um grande problema dos serviços de saúde é ter de atender as pessoas que, segundo ele, “fingem estar doentes”. Não sou de salvar a pele de autoridades, mas, dessa vez, acho que ele tinha até um pouco de razão, mas não soube como expressá-la corretamente. Aqui vai, assim, minha contribuição ao tema. Ministro, você me deve essa, ok? Que tal se para quitar a dívida me consulte a respeito deste “Plano Popular de Saúde” que o senhor está lançando?

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