De quintais e pomares

 

POMARESTem lembranças que a gente traz da infância e carrega consigo pela vida a fora. Amigos, moradas, brinquedos, comidas, quintais. Comigo não é diferente, mas de uma dessas tantas coisas tenho especial lembrança – e acho mesmo que ao longo de
minha vida adulta não fiz mais do que tentar resgatá-la e reconstruí-la…

Falo dos quintais, ou melhor, dos pomares da meninice.

Em primeiro lugar, eles se faziam presentes por todo lado. Em um tempo em que os prédios de apartamentos não eram tão predominantes na paisagem, não era difícil dar de cara com um bom quintal, fosse no próprio fundo da casa da gente, na de parentes ou mesmo ali, do lado, na esquina, em toda parte, enfim.

E os havia de todo jeito e para todos os gostos. Alguns, enormes, iam de uma rua a outra e chegavam até a dispor de um segundo portão, nos fundos, por onde entravam os moradores, quando tal acesso lhes servia de conveniente atalho. Ou, quem sabe, para saírem por eles subrepticiamente, face a uma visita indesejada, por exemplo.

Outros, mais modestos, dispunham, mal e mal, de uma espécie de tríade sagrada da categoria: laranja, manga e jabuticaba. Ou ainda: limão, pitanga e ameixa, podendo ser também fruta do conde, carambola e goiaba. As variações podiam ser infinitas, nem vale a pena enumerá-las todas. Mas um cítrico qualquer, um pé de manga e uma goiabeira, com certeza, estariam lá.

Mais humildes ainda que os referidos “modestos” eram os pomares em miniatura, às vezes representados por nada mais do que uma jabuticabeira e uma goiabeira, espremidas na beira de um muro qualquer, mas sempre produtivas, já que criadas “na mão”.

O pomar emblemático de minha infância era o da casa de meus avós maternos, na rua do Ouro 750, bairro da Serra, em Belo Horizonte. Este merece algumas linhas.

Era dos tais que ia de uma rua a outra, da citada via do nobre metal até uma outra, à época apenas um trilho no mato, com um córrego não canalizado ao meio, que hoje homenageia uma ignota “dona Cecília”. Para começo de conversa, como se vê, era grande, muito grande o meu pomar. Grande também era a casa (que por si só mereceria melhor descrição, mas não nos esqueçamos de que o tema, hoje, é quintal – e não casa…). Talvez não tivesse tantas espécies, sua riqueza pertence muito mais ao mundo de minha fantasia do que, propriamente, à sua variedade botânica ou à sua pujança frutífera. E o rei de tal quintal era um pé de fruta do conde, de alta estirpe, que projetava imensa sombra e oferecia suas dádivas pelo ano a fora. Frutas do conde assim (que meu avô chamava de “condessas”) eu jamais experimentei iguais. Eram acima de tudo saborosas, melosas mesmo, de tanto doce levado a bordo, mas tinham seus momentos de malícia, quando uma daquelas, de meio quilo ou mais, despencava das alturas e nos caía, de cheio, na cabeça. Acidente sem maior consequência, mas capaz de provocar lambança sem par e deixar marcas grudentas nos cabelos e na roupa dos atingidos.

Havia no quintal da Serra várias outras espécies, muitas delas de cítricos, literais frutos dos “casamentos genéticos” citados por Drummond em seu poema “A Mesa”, como uma das habilidades peculiares de meu avô Altivo, o dono da casa. O verso completo: “Este outro aqui é doutor, o bacharel da família, mas suas letras mais doutas, são as escritas no sangue, ou sobre a casca das árvores. Sabe o nome da florzinha e não esquece o da fruta mais rara que se prepara num casamento genético. Mora nele a nostalgia, citadino, do ar agreste, e, camponês, do letrado. Então vira patriarca”.

Não me lembro, especialmente, se eram doces ou azedos aqueles limões, mexericas, laranjas e assemelhados. Sua graça era de outra natureza: o fato de um mesmo pé oferecer, ao mesmo tempo, duas variedades de cítricos, coisa que tinha explicação simples, por terem sido produzidos a partir de enxertos duplos, num mesmo “cavalo” receptor. E daí vinha todo um justificado orgulho de meu avô, geneticista amador, em apresentar às visitas tais preciosidades (as quais, diga-se de passagem, também nunca vi em outro lugar).

E tome pitangueiras, jabuticabeiras, mangueiras, e mais fruteiras naquele quintal. Ah, sim, sem esquecer a vastíssima videira que anualmente se enchia de cachos rosados, bem à época do Natal, o que me traz à memória os versos de Machado de Assis: “mudou o Natal ou mudei eu?”. Com efeito, sem aquelas uvas sobre a mesa natalina, vindas de um quintal emblemático como aquele, eu diria que tudo se alterou – e muito! – e que essas grandes mudanças atingiram, pelo menos, a mim e àquele quintal…

Não preciso dizer que a rua do Ouro 750 é sede, há muitos anos, de um vastíssimo edifício com dezenas de apartamentos, com garagens dando tanto para a rua principal como para dona Cecília. Menos mal que o prédio em questão traz o nome de meu avô na fachada (se é que a tabuleta ainda estaria lá). Mas o que eu queria de volta, realmente, era um quintal como aquele…

Em Itabira, como não poderia deixar de ser, também pude incorporar algo ao meu amarcord de pomares. Lembro-me deles, enormes, subindo ou descendo morros, tendo à frente os sobradões da rua principal. Um deles, contudo, também entrou na minha memória para não sair mais. Refiro-me ao quintal de dona Josefina Sampaio – a Tia Fina de tantos sobrinhos – no bairro do Pará. Pra falar a verdade, indo ali sempre nas férias de julho, talvez não tenha provado seus frutos, por ainda estarem em gestação em tal mês. Mas das sombras benfazejas daquelas árvores, talvez centenárias já nos anos 60, me lembro muito bem. Como também não pude deixar pra trás a lembrança da mesa sempre posta de café com broinhas e biscoitos de polvilho, que aquela simpática casa, que a minha ignorância arquitetônica classificaria como “neoclássica romântica”, oferecia a todos e a toda hora do dia.

Mudando de cidade, mas não de assunto… Onde estariam os quintais em uma cidade como essa em que moro, com a presença tão marcante dos apartamentos? Por incrível que pareça, a ideia de quintais e pomares não é estranha a Brasília. Eles podem ser vistos, de maneira mais óbvia, nos grandes espaços em que Burle Marx – deve ter sido ele – povoou de mangueiras. Quem sabe, foi ele também um nostálgico de pomares de infância? Um desses imensos e notáveis mangueirais, em formação perfeita, de que me lembro assim de rompante, é o do quadrilátero no Eixo Monumental, entre a Praça do Buriti e o Museu do Índio. O final da Asa Norte, entre a L2 e o Eixinho L tem outro espaço assim preenchido. Viva as mangueiras, viva Burle Marx, mas são outros os pomares que me atraem aqui na capital do País.

Estes não se exibem de imediato, tem que saber olhar para eles… Diria que são meio tímidos e até envergonhados de sua modestíssima condição plebéia. Organização, composição paisagística, planejamento, são espécies que neles não floreiam e nem frutificam. Para vê-los, é preciso ir a pé pelo interior das superquadras. Se a quadras são “super”, atenção redobrada, pois os pomares de que falo são mínimos… Mas eles estão ali bem presentes, exibindo abacateiros, mangueiras, pitangueiras, cítricos diversos e até bananeiras…

De onde vêm? Será que alguém os planejou? Quem os plantou e cuida deles? Ora, não é preciso perguntar nem pesquisar no Google; é só prestar atenção. Eles geralmente se situam na parte de trás dos blocos, pelo menos naqueles onde não há estacionamentos, embora às vezes até disputem vagas com os carros.  Olhando melhor, você verá que esses pomares modestos se situam nas proximidades da entrada do pequeno apartamento onde mora o porteiro. Sua desordem, sua variedade e a presença de árvores de diferentes portes e gerações, mostram que elas estão ali plantadas ao sabor apenas da disponibilidade momentânea de mudas ou sementes… Sabe aquela manga docíssima que Severino conheceu no Ceará? Pois é, ele felizmente teve o cuidado de guardar o caroço e quando retornou a seu posto de trabalho no bloco “X” da SQ “Y”, fez questão de plantá-lo junto à sua porta, além de passar a cuidar bem da planta que dele brotou. Agora já produz a manga que traz a Severino e a seus amigos Cícero e Ribamar, o melhor sabor do Nordeste, que está tão longe. E com história semelhante entram no cenário as pinhas, as goiabas, os abacates, as jabuticabas, os limões vermelhos, tão azedos quanto sem vergonhas… E você pode encontrar até mesmo umbu, pitomba, cajá. É só procurar.

Os mais práticos diriam: “que bom, nossos porteiros estão completando sua dieta com vitaminas, fibras e sei lá o quê mais!”. Eu, sinceramente, acho tais fatos nutricionais irrelevantes. O que esses quintais cultivados com pertinácia sertaneja, essas fruteiras cuidadas à boa mão, acrescentam, de verdade, à vida desses tantos que emigraram do sertão brasileiro para a grande metrópole, tem significado simbólico, muito mais do que material.

Com efeito, ali, junto àquela porta única de entrada e saída, na modesta habitação que ao mesmo tempo os aproxima e repele da classe dominante da Capital Federal, esses cidadãos podem ter o gosto cotidiano de sorver um pouco do que ainda lhes resta de vínculo e raiz com os quintais de sua infância e de sua aldeia natal. Com eles, o conceito de pomar foi buleversado e abusado em sua bula burlemarxista. Mas o que importa? Só espero que não lhes venha algum síndico ou administrador burocrata, falando em nome do respeito ao grande projeto engendrado pelos criadores de Brasília, de motosserra em punho, a derrubar símbolos e sonhos tão justos e necessários.

Felizes foram e são aqueles em cuja vida floriram e frutificaram pomares, na quintessência de quintais. Severino, Cícero, Ribamar e eu não abriremos mão de nossas lindas lembranças e nem largaremos essa nossa bagagem de desejos e dádivas ao Deus dará…

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