O analista de Cordisburgo

GuimaraesRosa13Meu amigo não está entre nós há muito tempo. Só para contextualizar, quando ele se exilou, a trinca Dilma, Renan e Cunha ainda não havia deixado seus clubes de esquina; Sérgio Moro nem havia nascido e Gilmar Mendes ainda não havia resolvido se prestava vestibular para o curso de Direito ou para Publicidade…

Mas o que mais me impressiona é o modo como ele é capaz de acompanhar e emitir opiniões pertinentes sobre a realidade brasileira, especialmente na política.

Às vezes suas frases são meio misteriosas, mas logo se esclarecem, a cada fornada de notícias de jornal. Sobre esta crise brasílica que parece ser inesgotável, ele diz que ”atrás de morro tem morro” e que tudo “não muda nunca, só de hora em hora piora”. E para aqueles que fingem não ver, adverte: “o vento no ermo a todos concerne”. Mas para não passar por pessimista, completa “o mal está apenas guardando lugar para o bem”, lembrando também que “vivendo se aprende, o que se aprende mais é só fazer outras maiores perguntas”. Afinal, arremata,  “a espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de lógica, mas algo ou alguém de tudo faz frincha para rir-se da gente”, o que lhe induz ao cálculo de que “ninguém é doido, ou então, todos”.

Será que ele acredita na tal “voz das ruas”? Filosofa: “a gente cresce sempre, sem saber para onde”, mas alerta para os que: “não possuem nenhum poder nenhum, dinheiro nenhum, [deles] o senhor tenha todo medo!”. Com o pezinho atrás, todavia: “povo, quando fala, fantaseia”, sem esquecer o óbvio: “tem coisa e cousa, e o ó da raposa”.

Ah, a curriola dos políticos. Sabe dos atos de todos – e é impiedoso… Começa com ironia: “gado manso, quando dá pra bravo, é pior que o bravo, porque conhece todo o movimento”. Com efeito, não existe uma manada de bois cordatos que, de repente, se transmigram em hienas debaixo daquelas cúpulas da Esplanada? Estas, por exemplo, parecem ter endereço certo: “no sistema de jagunços, amigo era o braço, e o aço”; “para bezerro mal desmamado, cauda de vaca é maminha”; “a colheita é comum, mas o capinar é sozinho”; “quem muito se evita, se convive”.

O que a pobre presidente poderia fazer, se para ela parece se aplicar à perfeição o singelo adágio “o caipora até na pedra atola”? “Um bom amigo vale mais do que uma boa carabina”, lembra ele, mas para tanto tem que ter coragem de puxar o gatilho, acrescento eu.

Com Renan, Cunha e Temer ele parece certeiro, ao dizer: “o demônio esbarra manso, mansinho, se fazendo de apeado, e, o senhor pára próximo – então ele desanda em pulos e prezares de dança, falando grosso, querendo abraçar e grossas  caretas – boca alargada. Porque ele é – é doido sem cura”.

Esta parece sob medida para aquele candidato derrotado nas últimas eleições para presidente: “inveja é erro de galho, jogar jogo sem baralho. Invejar é querer o peso de bagagens alheias, vazio”.

Parece achar muita graça de certos políticos, sempre afoitos, tal qual tanajuras depois da chuva. “boi andando no pasto, prá lá e pra cá: capim que acabou ou está para acabar”; “muito junto do braseiro, gente há que às vezes não se aquece direito, mas corre o risco de sapecar a roupa”; “é andando que o cachorro acha o osso”; “cipó não trepa em pau morto”.

Não lhe escapou nem mesmo o tal do mensalão: “comprar ou vender, às vezes, são as ações que são as quase iguais”.

Para esses que fazem de Jesus e Deus seus parceiros na política, dispara: “Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato”. Ou então: “o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos”.

Sérgio Moro e Gilmar Mendes também ganham seu quinhão: “… o erro, elemento nosso, da vida, ele está nas velas e está no vento”. E ainda: “julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado”.

Sobre o diário de um ex-presidente, com sabor de coisa guardada em bolor: “redigir honesto um diário seria como deixar de chupar no quente cigarro, a fim de pode recolher-lhe inteira a cinza”.

Impeachment: “pão ou pães é questão de opiniães”..

Papa Francisco: “vá alguém somar o que está doendo na cabeça de todos”.

E até para esta Zika, que ninguém entende o que seja, de verdade, ele adianta: “dá é na cabeça a dor das coisas”. “Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive os fatos. Ou a ausência deles”. “Para não nascer, já é tarde; para morrer, inda é cedo”.

Mas ele, do alto de sua experiência e diante da clarividência que lhe confere sua moradia dos últimos anos, não teria alguns conselhos para Dona Dilma? Meu amigo não se faz de rogado. Para ele, ser mulher não é problema; elas sabem ouvir “tão mal, tão bem” e “tiram suas ideias é do corpo”. Para os seres do passado que vivem querendo se colar nela – ou dela se afastar, ao ritmo das circunstâncias: “o passado é ossos ao redor de ninho de coruja”. O que fazer? “não se imagina o perigo que ainda seria, algum dia, em alguma parte, aparecer uma coisa deveras adequada e perfeita”; “o poder, no tombo dos dados, emana do inesperado”; “o mais difícil não é ser bom e proceder honesto; dificultoso, mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra”; “tropeçar também ajuda a caminhar”; “quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente”. E, mais, dedicando aos desafetos dela: “perdoar uma cascavel é exercício de santidade”; “o roto só pode mesmo rir é do esfarrapado”.

Mas melancolicamente lembra à presidente uma máxima da política: “quando pior mais baixo se caiu, maismente um carece próprio de se respeitar”.

“O trágico não vem a conta gotas”, avisa, e súbito se despede de mim com palavras misteriosas: “Nonada. Travessia. Existe é o homem humano”.

(Devo esta crônica a Rubem Braga, que há mais de cinquenta anos fez algo semelhante tendo como personagem Machado de Assis.)

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5 comentários sobre “O analista de Cordisburgo

  1. Timbaúba, 12 de fevereiro de 2016.

    Caro Flávio,

    Seu livro VAGA, LEMBRANÇA (ANOS 60) é muito interessante, trata-se de mais uma obra literária feita com larga experiência e com muito zelo a uma causa: Sua ADOLESCÊNCIA, como amadurecimento do ser-humano. Fiquei tão envolvido na sua leitura que meu pensamento, também, viajou pelo passado, porque boa parte do que você relata eu passei na minha juventude, onde a aventura e os desafios foram constantes. Você contou histórias interessantes de seus familiares, recordando suas lembranças da infância e adolescência, até chegar a uma vida adulta cheia de triunfos e realizações. Gostei imensamente dos registros dos tempos escolares e das amizades com os colegas, das brincadeiras, das algazarras e das incertezas do futuro.

    O motivo dessa carta é para dizer o quanto gostei de sua autobiografia, porque você soube dosar a experiência, o saber e o lúdico de sua vida, e principalmente pelos destaques de pessoas que fizeram parte de sua admiração que de uma maneira ou outra influenciaram sua formação pessoal e profissional. Você citou os momentos “bons” e “ruins” sem obscurecer seus “pontos fortes” e “pontos fracos” de sua passagem na vida. Admirei a importância que você deu a formação de grupos de colegas numa interação onde a busca pela amizade era o desafio esse tão conquistado que, até hoje, é conservado o bom relacionamento com alguns. Que histórias belíssimas de suas ligações cotidianas de sua BH e a demonstração do orgulho de ser mineiro.

    Você, Flavio, teve excelentes oportunidades de viver num mundo intelectualizado e bem aproveitou disso para realizar o seu maior sonho: A Medicina. Você, hoje, é um cidadão do mundo e um profissional qualificado pelos seus esforços e insistência nos seus objetivos de vida. Ouros aspectos importantes fora a sua trajetória amorosa, tão vigorosa naquela fase dos primeiros lampejos entre o homem e a mulher onde dou destaque para sua colega de faculdade Eliane, que tornou-se sua esposa e mãe dos seus três primeiros filhos que tive a felicidade de conhecê-los.

    Senti nas suas palavras e nas suas histórias que você como médico e escritor transmite as seus leitores que a vida é para ser vivida plenamente, mesmo que se corra os riscos que a mesma oferece e que jamais devemos parar de lutar pela nossa felicidade. Valeu Mestre Flávio, é isso aí! Você Graça a Deus aprendeu com o mundo a ser romântico, inteligente, matreiro e feliz. Sua filosofia de vida é o resultado de toda a sua vivencia. Parabéns!!!!

    Flávio, felicito-o pelas suas histórias de vida onde com certeza se divertiu em escrevê-las e eu mais ainda em lê-las. Aproveito para parabenizar o ilustre professor, médico, escritor e amigo, e que Deus o ilumine sempre para outras investidas literárias e externo a satisfação de nossa amizade e poder também desfrutar do seu convívio familiar e social, não esquecendo e dando grande importância o elo maravilhoso que nos une, o nosso querido neto; Francisco Goulart Monteiro.

    Atenciosamente
    Édipo Monteiro

  2. Timbaúba, 12 de fevereiro de 2016.

    Caro Flávio,

    Seu livro VAGA, LEMBRANÇA (ANOS 60) é muito interessante, trata-se de mais uma obra literária feita com larga experiência e com muito zelo a uma causa: Sua ADOLESCÊNCIA, como amadurecimento do ser-humano. Fiquei tão envolvido na sua leitura que meu pensamento, também, viajou pelo passado, porque boa parte do que você relata eu passei na minha juventude, onde a aventura e os desafios foram constantes. Você contou histórias interessantes de seus familiares, recordando suas lembranças da infância e adolescência, até chegar a uma vida adulta cheia de triunfos e realizações. Gostei imensamente dos registros dos tempos escolares e das amizades com os colegas, das brincadeiras, das algazarras e das incertezas do futuro.

    O motivo dessa carta é para dizer o quanto gostei de sua autobiografia, porque você soube dosar a experiência, o saber e o lúdico de sua vida, e principalmente pelos destaques de pessoas que fizeram parte de sua admiração que de uma maneira ou outra influenciaram sua formação pessoal e profissional. Você citou os momentos “bons” e “ruins” sem obscurecer seus “pontos fortes” e “pontos fracos” de sua passagem na vida. Admirei a importância que você deu a formação de grupos de colegas numa interação onde a busca pela amizade era o desafio esse tão conquistado que, até hoje, é conservado o bom relacionamento com alguns. Que histórias belíssimas de suas ligações cotidianas de sua BH e a demonstração do orgulho de ser mineiro.

    Você, Flavio, teve excelentes oportunidades de viver num mundo intelectualizado e bem aproveitou disso para realizar o seu maior sonho: A Medicina. Você, hoje, é um cidadão do mundo e um profissional qualificado pelos seus esforços e insistência nos seus objetivos de vida. Ouros aspectos importantes fora a sua trajetória amorosa, tão vigorosa naquela fase dos primeiros lampejos entre o homem e a mulher onde dou destaque para sua colega de faculdade Eliane, que tornou-se sua esposa e mãe dos seus três primeiros filhos que tive a felicidade de conhecê-los.

    Senti nas suas palavras e nas suas histórias que você como médico e escritor transmite as seus leitores que a vida é para ser vivida plenamente, mesmo que se corra os riscos que a mesma oferece e que jamais devemos parar de lutar pela nossa felicidade. Valeu Mestre Flávio, é isso aí! Você Graça a Deus aprendeu com o mundo a ser romântico, inteligente, matreiro e feliz. Sua filosofia de vida é o resultado de toda a sua vivencia. Parabéns!!!!

    Flávio, felicito-o pelas suas histórias de vida onde com certeza se divertiu em escrevê-las e eu mais ainda em lê-las. Aproveito para parabenizar o ilustre professor, médico, escritor e amigo, e que Deus o ilumine sempre para outras investidas literárias e externo a satisfação de nossa amizade e poder também desfrutar do seu convívio familiar e social, não esquecendo e dando grande importância o elo maravilhoso que nos une, o nosso querido neto; Francisco Goulart Monteiro.

    Atenciosamente
    Édipo Monteiro

  3. Flávio,

    Não sei se as coisas aparecem para você como aparecem para mim. O que sei é que o mundo é cada vez mais parecido com o Brasil: desigual, injusto, vivendo de crise em crise. Cada vez mais, o Brasil se coloca como o fato antecipado. É só ler o Brasil para saber como será o mundo. Foi Zweig o profeta. Quase acertou quando disse que o Brasil é o país do futuro. Mas foi a partir de sua expressão consagrada que estamos chegando à conclusão de que o Brasil (do presente) é o mundo (no futuro).

    Posto isso, quero defender a tese de quem fala do Brasil está na verdade perscrutando o futuro do mundo. Por isso, o regionalismo pode ser um campo para tratar do universalismo e não de localismo. Nesse sentido, JGR com matéria regional, fala do mundo, universalmente e cria um mistério (saboroso) em torno de seus ditos.

    Assim, ao dizer que:

    – ”atrás de morro tem morro”;

    – “não muda nunca, só de hora em hora piora”;

    – “o vento no ermo a todos concerne”; está sendo universalíssimo.

    Seu universalismo chega a ser teocrático quando diz que “o mal está apenas guardando lugar para o bem”. Nesse caso, sua palavra é bíblica, por falar da briga entre o mal e o bem; e por dizer que o bem vencerá no final. Não está escrito na Bíblia?

    Outro sinal do universalismo é falar da ‘espécie humana’ e não do ‘brasileiro’: “A espécie humana peleja para impor ao latejante mundo um pouco de lógica, mas algo ou alguém de tudo faz frincha para rir-se da gente”.

    E teria mais outras coisas do gênero.

    Utilizei suas referências para defender a tese de que o GR fala é mais universal do que parece. E nisso é brasileiríssimo. Porque é universal.

    UM ABRAÇO

    MAURO MÁRCIO

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