Encontros com pessoas notáveis

GURDJEFFNo início dos anos dois mil eu era professor na Universidade de Brasília e estava insatisfeito com as coisas lá. O sonho de Darci Ribeiro estava se derretendo, pelo menos em minha área. Já tinha tempo de aposentadoria e resolvi executá-la. Minha diretora na Faculdade de Medicina, na época, Tânia Rosa, ficou sabendo e me chamou: “professor, por que se aposentar logo agora, temos tantas coisas para fazer aqui”. Admito que lhe ofereci resposta evasiva e talvez descortês: “quero trabalhar em lugar onde tenha papel higiênico nos banheiros e menos greves”. Mas isso era um bom resumo para a ópera…

Preparei, então, minha saída da UnB. Por sorte eu já tinha uma nova proposta, que envolvia voltar para Uberlândia – mas isso é assunto para outro capítulo. Minha decisão foi pouco divulgada. Mas, para surpresa minha, em uma aula da disciplina Administração de Serviços de Saúde, que eu conduzia com ânimo desproporcional à acolhida dos estudantes e que seria a última de minha estadia na UnB, fui abordado por um aluno, frente a toda classe, no final da aula. Confesso que isso me deixou um pouco preocupado, porque este aluno tinha sido meu monitor e fora afastado por mim devido a sua inadimplência com as obrigações e tarefas que lhe eram atribuídas. Lá vem chumbo, pensei, porque isso era regra nas relações acadêmicas de então, principalmente na Medicina, com seus legítimos representantes da elite econômica, política e militar de Brasília. Mas qual, é preciso realmente ter a mente aberta! Getúlio Morato, o nome do moço, queria me fazer uma homenagem pelo meu esforço e dedicação e, principalmente, pedir desculpas pela incompreensão com que disciplinas da área de Medicina Social eram tratadas pelos alunos. E pediu para mim uma salva de palmas, a única que recebi nos 30 anos de carreira docente. Abracei-o, agradeci e segui em frente.

Conto essa história para me lembrar, nestas linhas finais, dos bons professores que tive e homenageá-los, como convém. À maneira do filme Alta Fidelidade, de Stephen Frears e para poupar, além de papel, a boa vontade dos leitores, falarei dos que considero “os cinco mais”. Mas devo admitir que a escolha foi difícil, ficaram muitos nomes sobrando.

Minha lista não tem só “gente simpática”, embora isso não deixe de ser um bom requisito. Mas certamente representa uma combinação de sabedoria, tanto de conhecimentos específicos, técnicos e políticos, como “lições de vida”. Nela estão pessoas que foram capazes de ensinar e influenciar, positivamente, minhas opções profissionais e humanas na vida, além de outras pessoas.

Vamos a eles.

Carlo Américo Fattini. Este merece encabeçar a lista. Fattini era professor de Anatomia. Devia ter, na época, trinta e poucos anos. Um grande carisma, mas não daquele tipo que faz força para conquistar os alunos, mas sim dos que apenas deixam fluir sua atenção e recebem com tranquilidade e paciência o gesto e a palavra do interlocutor. Tínhamos aula em pequeno grupo com ele e, ao lado daquelas conversas áridas sobre o nervo vago e a veia porta, nos falava coisas pouco habituais, tais como, das maneiras de evitar o mau hálito e dos modos corretos de tratar nossos afetos. Disto dava exemplos concretos, pois em algumas ocasiões era visitado por sua companheira, Natália, na sala de aula, que vinha lhe dar algum recado ou pegar um livro (ela era médica) e fazia questão de nos apresentar e falar dela sempre como “minha amada”, “mulher de minha vida” e coisas carinhosas assim. Grande Fattini! Parece que tinha grande simpatia por mim e Eliane. Quando nos via conversando nos intervalos, ou dissecando o “nosso” cadáver até mais tarde, já a sós no grande anfiteatro do andar térreo, tinha sempre uma brincadeira conosco, que acabou se revelando profética: “isso vai acabar em casamento”. Ele deve ter assistido em sua carreira na Faculdade inúmeros casos assim, inclusive o seu próprio, acredito. Foi convidado especial para as bodas que aconteceram quatro anos depois, em 1971. Fattini é hoje muito conhecido por ser autor, com José Geraldo Dangelo, outro de nossos notáveis professores da época, de um Tratado de Anatomia Humana muito recomendado nas escolas de medicina.

Gladstone Rodrigues da Cunha Filho era pouco mais velho do que nós. Assistente da Cadeira de Histologia, na qual o titular era Nello Rangel, filho do escritor Godofredo Rangel e pai do famoso artista plástico mineiro, Nello Nuno. Gladstone era a sapiência em pessoa, sabia tudo (e mais alguma coisa) de sua matéria. Alguns diziam que ele até havia superado o Mestre, que o tratava com grande (e mútuo) respeito. Gladstone tinha um modo teatral de dar suas aulas, sem perder a fleuma. Sua descrição do câncer era um primor: “mitoses loucas, atípicas, arquitetura tecidual subvertida…”. Por conta de seu carisma e dedicação, alguns de nós chegamos até a antecipar nossa opção de carreira, atraídos pelo que então se chamava “ciência básica” – vocações nem sempre confirmadas, entretanto. Anos depois Gladstone se transferiu para Uberlândia, sua terra natal, sendo um dos fundadores da escola médica onde eu e Eliane viemos a trabalhar, por convite dele e por ele recebidos diretamente. Ele foi Reitor por duas vezes da Universidade Federal de Uberlândia e exerceu vários cargos no MEC e na OPAS, em Washington. Tive a honra de tê-lo como meu sucessor na Secretaria Municipal de Saúde, algumas décadas depois. Gladstone, filho tinha naturalmente um Gladstone, pai. Este foi uma das pessoas mais perspicazes e inteligentes que conheci, dono de uma simpatia fora do comum, que fazia a todos ansiarem por se tornarem íntimos dele. Acho que consegui… Recebi dele um dos conselhos mais preciosos de minha vida. Eu querendo comprar uma terra, levei-o para ver uma propriedade que estava à venda. Olhou tudo, conferiu cada detalhe, chegou até a cutucar com a ponta da botina a terra do pomar, para ver sua substância. Mas sem dar uma palavra. Eu ansioso… No final, olhou-me frente a frente e proferiu sua sentença: “vende as cuecas, doutor, mas compra a terra”. Assim o fiz. E não me arrependi.

João Amílcar Salgado, professor de Semiologia, sempre esteve longe de ser uma unanimidade, mas eu fui com a cara dele desde que o conheci. Alguns o criticavam pelo fato de se recusar a tocar nos pacientes, o que não creio ser a inteira verdade. Ele, simplesmente, era partidário radical do raciocínio clínico e das deduções baseadas em evidências. Tinha um conhecimento médico fora do comum, uma memória prodigiosa e enorme capacidade de contar e ilustrar com exemplos curiosos e inusitados suas histórias, fossem elas clínicas ou de vida. Formou-se mais tarde também em filosofia, o que era de fato “sua cara”. Minhas reflexões sobre os descaminhos da formação médica, já expostos antes aqui nestas memórias, são diretamente inspiradas neste sujeito iluminado. Vai aí uma pequena amostra do pensamento dele, exposto em um texto denominado Grandezas e Misérias do Pensamento Médico Ocidental: “A vassalagem maior à indústria da saúde faz da grandeza do cânone científico excelente ficção para programas dominicais de televisão. Pois, mesmo no chamado Primeiro Mundo, há séculos virtuais separando o que diz e propõe a ciência efetiva, de um lado, e, de outro, a miséria do marketing criminoso, a embasbacar multidões com inesgotáveis inutilidades”. Demais, não é? Entre muitos escritos, João Amílcar tem um livro inspirador, que talvez tenha sido o maior estímulo para eu estar escrevendo as coisas que ora leem. Chama-se O riso dourado da Vila e nele fala, de maneira filosófica e muito bem-humorada, de sua infância em Nepomuceno, no Sul de Minas, bem como de sua trajetória com estudante de medicina e professor na UFMG. Não bastasse tantas coisas que fez, esse um chamado João ainda foi o idealizador e primeiro coordenador do Museu da História da Medicina Mineira, instalado no prédio da faculdade que é o principal objeto da presente memória. Ele foi seguido de perto por outro cara notável, o meu colega Ajax Ferreira, o “Homem de Lagoa Santa”, que dá sua vida e seu sangue pelo referido Museu. Nota dez para estes sujeitos!

O próximo de minha lista é José de Oliveira Campos, nosso professor de Clínica Médica, no quarto ano. Eu na verdade já havia prestado atenção nele bem antes, quando ia almoçar na casa de minha avó e o tinha como co-passageiro no ônibus Serra. Um sujeito com o dobro da minha idade, muito sério e mesmo sisudo, sempre de paletó e gravata. Mas viajando de ônibus… Dele, o que se dizia é que era um dos caras mais brilhantes de sua área, egresso de uma formação pós-graduada em universidade do Estados Unidos e talvez pouco à vontade com o ambiente meio frouxo que imperava em seu entorno no HC. Quando fui seu aluno não só confirmei como ampliei meu conceito sobre ele, como um dos professores mais brilhantes que tive e, ao mesmo tempo, mais dedicados e responsáveis. Sob sua tutela, na residência médica, só expandi esta visão. Tinha uma particularidade: era capaz de discutir a última descoberta de medicina molecular divulgada pelo New England Journal of Medicine e o Livro dos Espíritos, de Alan Kardek – com igual ênfase e propriedade. Anos depois, docentes da UFU, eu e alguns companheiros, como Hélio Teixeira e Renato Sologuren, que também haviam sido alunos dele na UFMG, soubemos que havia se transferido para a Universidade de Brasília e que não estaria satisfeito com as coisas por lá. Bateu-nos a esperança de que, quem sabe, conseguiríamos cooptá-lo para vir trabalhar na UFU. E não é que conseguimos trazê-lo, junto com a família? Sua esposa Shilene é uma grande médium e líder espírita em Uberlândia e o casal criou e fez prosperar uma obra social de amparo a crianças e gestantes, de primeira grandeza na cidade. Conheci um pouco mais e confirmei tudo que pensava deste grande médico e colega quando solicitei que ele acompanhasse, ainda nos anos 70, o tratamento de minha avó Dodora, que estava com um linfoma de natureza muito grave. Ali, na beira do leito dela, eu conheci uma das melhores figuras médicas e humanas com quem já privei.

Oswaldo Costa merece uma categoria especial. À primeira vista ele era carismático, mas se fazia de pândego, sem pudor de parecer descuidado, com a aparência e os gestos. Suas aulas de Dermatologia, imperdíveis e impagáveis, só encontraram um correspondente, para mim, nas famosas “aulas-espetáculo” de Ariano Suassuna. Contava histórias incríveis sobre a medicina e tudo mais, em uma verve inesgotável. Não há adjetivos que sobrem para ele… Havia sido goleiro do Atlético Mineiro, nos anos 30, quando recebeu o apelido de Perigoso. E explicava o motivo: era reserva e teve que assumir o posto, de forma inesperada, contra o Flamengo, em um jogo no Rio. Neste momento, fechou o gol. No segundo jogo, no qual se decidiria o título, simplesmente aconteceu-lhe algo estranho e inexplicável: ele simplesmente deixou passar dez bolas. Como goleiro, ele era de fato um grande perigo, a ser evitado. E assim abandonou a carreira futebolística, para sempre, dedicando-se á Dermatologia. Contava também que seu pai, que tinha muitos filhos e era pobre, quando algum deles despencava de alguma árvore ou sofria uma queda de cavalo, sua primeira pergunta era: “rasgou a roupa”? Fui protagonista de cenas sensacionais, no que ele chamava de “show dermatológico”, evento anual em que ele, andando acompanhado de alunos fascinados, nos dois ou três quarteirões que separavam o prédio da Faculdade de Medicina, da Santa Casa, se propunha e alcançava o desafio de diagnosticar algumas dezenas de condições dermatológicas entre os transeuntes no percurso. Nele a pândega era apenas um jeito de ser, que o divertia também. Foi um médico notável e fez descobertas importantes em sua área de conhecimento, emprestando mesmo seu nome a uma síndrome, o que, no meio acadêmico médico, é a maior glória que alguém pode alcançar.

Revendo agora meu texto, percebo que no meu quinteto só há homens. Será que não havia também mulheres notáveis na Faculdade de Medicina da UFMG? A primeira conclusão que se pode ter é que a faculdade talvez fosse ainda mais machista que a medicina, naquela época. De fato, eram poucas mulheres médicas e menos ainda docentes universitárias na área. Mas para não ser injusto, quero registrar a presença de pelo menos uma delas: Lucia Foscarini. Ela se tornou nossa amiga, vindo a ser madrinha de minha filha Daniela, algum tempo depois. Lucia era uma pessoa tímida e discreta. Estudiosa como quê! Os amigos brincávamos com ela que a única coisa em que ela não se destacara foi no exame de motorista, tendo tentado o mesmo diversas vezes, sem sucesso. Seu conhecimento clínico era fabuloso. Nossos contatos ocorreram na residência médica, mais precisamente na UTI do quarto andar do HC, onde ela sempre nos surpreendia e encantava com seu conhecimento. Tudo sem alarde, dando sempre ao residente a impressão de que era ele – e não ela – que havia dado a resposta certa ao dilema clínico do momento.

PS; a imagem que encabeça este texto representa Gurdjeff, de quem meio que roubei o título de um livro seu,  “Encontro com Homens Notáveis”,

Na wikipedia: Georgiǐ Ivanovič Gǐurdžiev (em arménio: Գեորգի Իվանովիչ Գյուրջիև, em georgiano: გიორგი გურჯიევი; em grego: Γεώργιος Γεωργιάδης; em russo: Гео́ргий Ива́нович Гюрджи́ев; Império Russo, 1866 ou 1877 — Neuilly-sur-Seine, 29 de outubro de 1949), foi um místico e mestre espiritual armênio. Ensinou a filosofia do autoconhecimento profundo, através da lembrança de si, transmitindo a seus alunos, primeiro em São Petersburgo, depois em Paris, o que aprendera em suas viagens pela Rússia, Afeganistão e outros países.

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