Ter saúde é ter projetos

BETINHOA frase que serve de título a este post foi proferida por René Dubos, um médico e cientista francês que ganhou o Prêmio Nobel de Medicina na década de 60. Confesso que conheço poucas máximas mais acertadas do que essa. A este respeito, tenho uma bela história para contar sobre o assunto, referente a um grande amigo de Uberlândia, falecido há mais de 30 anos: José Virgílio Mineiro. Antes de contá-la, porém, creio que seria melhor apresentar o personagem, já que as novas gerações, mesmo em Uberlândia, além de meus queridos leitores, pouco ou nada sabem dele.

Virgílio Mineiro era médico, natural de Ouro Preto, mas trabalhou em Uberlândia desde sua formatura em medicina, na antiga Universidade de |Minas Gerais, na década de 30. Ali exerceu a especialidade de radiologista, destacando-se na investigação das doenças do esôfago, principalmente do chamado mal do engasgo (megaesôfago), um componente da doença de Chagas que matou ou inutilizou muitas pessoas em nossa região. Depois de mais de duas décadas na radiologia, Virgílio foi trabalhar no controle da hanseníase (lepra), uma vez que os aparelhos de RX da época traziam grande perigo aos que os manuseavam e já o estavam molestando com queimaduras por radiação. Ele foi também militante político do antigo PCB e como tal foi eleito para uma cadeira na Câmara de Vereadores de Uberlândia nos anos 40, quando foi um precursor da legislação sanitária municipal. Recebeu justa homenagem dessa Casa de Leis, sendo dado seu nome a um viaduto e a uma unidade de saúde, no bairro da Lagoinha, onde residia, à época, grande parte de seus pacientes hansenianos.

Em um memorável congresso médico, nos anos 40, resolveu apresentar à seleta plateia de esculápios de alto coturno, seus achados relativos à doença de Chagas. Naquela época, a doença era mais conhecida pelas lesões que produzia no coração, mas não no esôfago dos pacientes. O megaesôfago era então atribuído a alguma deficiência de vitaminas, da mesma forma que o bócio endêmico era considerado como resultado da referida parasitose e não da deficiência de iodo. Nosso pesquisador, quase amador, na verdade, defendeu em um tema livre a hipótese de que o megaesôfago talvez fosse chagásico, pois havia notado que boa parte dos pacientes que atendia para fazer as dilatações de esôfago tinha sorologia positiva. Um notável professor paulista, cirurgião, quatrocentão, arrogante, considerado o “bisturi de ouro” de sua geração, de pronto o contestou, reduzindo os argumentos de Virgílio a mera especulação sem fundamento. Virgílio, ao que parece insistiu na tese, mas quem o apoiaria em tais circunstâncias?

Pois bem, passados poucos anos, o patologista Fritz Koberle, da USP de Ribeirão Preto desvendou a chave da querela: o megaesôfago era manifestação típica, morfoiogicamente demonstrada e comprovada, da doença de Chagas. Ponto para a modéstia mineira…

Vamos então à nossa história. Nos anos 70, Virgílio foi visitar um filho médico que morava  nos Estados Unidos e aproveitou para fazer um check-up. Na ocasião foi-lhe diagnosticado um câncer no intestino. Utilizando-se do proverbial pragmatismo norte-americano, o filho recomendou-lhe cirurgia radical, executada sem maiores delongas.

De volta a Uberlândia, portador de uma colostomia temporária e sem maiores garantias de cura do tumor maligno, resolveu tomar iniciativas em relação à vida, já suficientemente movimentada. Reformou sua casa, construiu um enorme viveiro para colibris, adquiriu equipamento fotográfico de última geração e começou a fotografar aves, paisagens, árvores e pessoas, ganhando inclusive sucessivos concursos de fotos artísticas.

O homem estava com câncer e tinha muitas incertezas sobre sua saúde. Mas uma coisa lhe era certa: seus projetos mais estimados precisavam ser iniciados ou continuados. Poderia ser chamado de “doente” alguém assim?

A história nos oferece muitos outros exemplos. De passagem, poderíamos nos lembrar de Betinho,Teotônio Vilela, João Paulo II, Darci Ribeiro, Mario Covas, José de Alencar, Cazuza e tantos outros. Gente de quem a doença não retirou a vontade de fazer coisas acontecerem…

Isso me traz pelo menos uma reflexão, que compartilho com meus leitores. Os médicos precisam valorizar os projetos dos seus pacientes! Que tal se passassem a incluir em seus “interrogatórios” uma simples pergunta: que projetos você tem para sua vida? A partir daí se poderia, quem sabe, levantar e programar como parte do tratamento dessas pessoas – com a ajuda de outros profissionais – o desenvolvimento de seus projetos pessoais, fossem artísticos, afetivos, intelectuais, militantes ou outros. Um enorme bem resultaria para os pacientes, com certeza. O pressuposto é claro: quem tem projetos em vista possui, pelo menos potencialmente, muito mais saúde do que quem não os tem e disporá, por isso mesmo, de mais razões para continuar vivo e se cuidando, ajudando assim os médicos e suas terapêuticas a serem mais efetivos.

Coisas das quais deveria dar conta uma nova formação médica que, infelizmente, ainda parece remota em nosso país.

 

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