A Esplanada dos Faraós

TSENossa capital federal, Brasília, não chega a ser um roteiro muito procurado por turistas. Falta aqui um Pão de Açúcar e também praias ou montanhas de qualquer espécie; além disso, a selva disponível não passa de um cerradinho sem maiores atrativos ou que requer olhar especial e até especializado para apreciar suas belezas. É bem verdade que detemos o título de Patrimônio da Humanidade, conferido pela UNESCO; temos o Memorial JK, os Palácios da Alvorada e do Planalto e outras obras magistrais. Mas diante do que está para vir, isso não é nada! São novidades que prometem nos conduzir diretamente ao tempo dos Faraós, fazendo concorrência ao próprio Egito como destino turístico! Mas, como? Ninguém sabe disso!

Pois é, deixa que eu explico: uma nova esplanada monumental existe em Brasília e poucos ainda a conhecem, mesmo os que aqui residem. Situa-se fora do famoso corpo do avião, ocupando o espaço que fica do lado direito do que seria a cabine de comando. Entre o Setor de Embaixadas Sul e aquela praça do tempo em que os poderes não passavam de três…

Ali, obras suntuosas já aparecem por toda parte e ainda há muitas nas pranchetas dos arquitetos. Dinheiro é o que não falta: estamos falando de projetos emanados do Judiciário e de suas adjacências, poderes que, como todos sabem, têm eficácia inversamente proporcional ao volume de recursos que extraem do contribuinte.

Assim, os tribunais supremos e superiores, sejam federais ou mesmo meramente regionais e, além deles, a Procuradoria da República, a Advocacia da União e mais um vasto cortejo de quejandos, todos ali se rivalizam nas espetaculares construções. Este prédio mostra paredes de vidro importado; aquele outro, palmeiras de Madagascar nos jardins; mais adiante um que lembra uma, não, duas naves espaciais, refletindo em seus vidros espelhados a aridez do Cerrado. Este agora tem um lago, modestamente chamado de “espelho dágua” capaz de elevar a baixa umidade relativa do ar no Planalto Central em alguns pontos percentuais, num raio de dez quilômetros! Vê-se um prédio menor anexo a outro enorme, curvo tal qual um mata-borrão dos antigos, só que em posição vertical, plantado ali para mostrar que um auditório não é apenas um lugar onde a massa ignara se acomoda para ouvir os mais sabidos. Nada a ver! A função é o que menos importa, a forma tem que falar mais alto!

E enquanto a forma faz alarde, o escritório do centenário arquiteto produz projetos novos e cada vez mais arrojados, embora não necessariamente arejados. E não se discute preço nem viabilidade. A moeda da vaidade – dos que mandam construir e dos que projetam – é que manda! Alguns dizem que o macróbio arquiteto, recostado na fama granjeada, já nem sabia, nos últimos tempos, o que lhe passa sob os olhos cansados, mas isso são outros quinhentos. Quinhentos? Deixemos de mesquinharia: as coisas aqui se contam aos milhões ou mesmo aos bilhões, seja de metros cúbicos de concreto ou de terra removida, seja do nosso bom e precioso dinheirinho, que não para de irrigar aquele novo Vale dos Reis…

Nada é obstáculo. Não há Maomé e nem fé que tão bem mova ou remova montanhas. Aliás, tampouco há montanhas. Mas isso é o que menos importa: se elas não existem, que sejam criadas! Fiat montis! Quem circula por lá hoje, no meio da poeira e do frenético tráfego de máquinas de escavação e de caminhões carregados de terra vermelha por certo se impressionará com as gigantescas colinas formadas por material removido do subsolo, verdadeiras cordilheiras nuas e empoeiradas, algo que talvez evoque a mesma paisagem local, só que há alguns milhões de anos atrás. Mas agora as eras geológicas correm ao revés: é preciso escavar para que os prédios se atenham aos padrões estabelecidos para a Capital Federal e também para abrigar a legião dos automóveis. E assim tome andares inferiores, quatro, seis, oito – quantos forem necessários! Levar até as profundezas o ar puro, os carros, as próprias pessoas e retirar de lá o lixo, os gases tóxicos e as imundícies em geral: tudo já foi pensado. São prédios inteligentes, meu senhor! Centrais de geração de eletricidade, centrais de ar condicionado, elevadores de última geração (embora o Judiciário não abra mão dos ascensoristas), estações de bombeamento de esgoto e outras maravilhas tecnológicas movidas a eletricidade ou óleo combustível resolverão todos os problemas. Com a vantagem de que nem precisam ser desligadas: funcionarão 24 horas por dias, 365 dias por ano, enquanto duraram as reservas do Pré-Sal…

Mas vamos parar de procurar defeitos e apreciar o que há de maravilhoso neste inigualável conjunto de obras que por certo trará grande orgulho à brava gente brasileira por muitas e muitas gerações!

Brasília receberá mais turistas que o Rio e Salvador, finalmente. Os brasileiros de todos os rincões nacionais não devem perder tal oportunidade: conhecer algo que se rivalizará com as maravilhas do velho Egito sem atravessar o Atlântico, sem cruzar a linha do Equador, sem se arriscar com o radicalismo islâmico. Que venham todos se maravilhar com a novíssima Esplanada dos Faraós, em pleno coração da Capital da República!

Improbidade administrativa? Ora, deixemos de bobagens e pruridos, isso vale para os mortais comuns, nós outros; aos meritíssimos faraós não se aplica, não sejamos vulgares… Data venia, sursis, ora pro nobis e amem…

(TEXTO DE 2006)

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