Pela Estrada Real

ESTRADA REALDepois de numerosas idas e vindas pelas estradas que hoje fazem parte da “Estrada Real” (elas são muitas, considerando a necessidade de fugir do fisco desde os primórdios de tal caminho…), passei a ser considerado um especialista no assunto. Assim, quando amigos me pedem orientações, já lhes entrego quentinho o texto seguinte.

Pra começar: saindo de Confins, tomem a estrada pra BH, mas só por poucos km, pois logo ali na frente verão o trevo de Lagoa Santa, no qual entrarão para a esquerda. Feita a curva no trevo, olhem em frente e lá no horizonte verão uma barreira de montanhas azuis – é a Serra do Cipó e em menos de uma hora vocês estarão lá, em plena Estrada Real!

No rumo de Lagoa Santa, passarão pelo trevo que dá acesso à Gruta da Lapinha, poucos km à esquerda. Visitar ou não visitar a gruta? Para quem já conhece Maquiné, um pouco mais ao norte, a Lapinha não oferece grandes novidades, embora também seja muito bonita. Para quem não conhece a Gruta-Mãe – e nem grutas em geral – poderia ser uma parada recomendável. Mas, atenção, o programa é para no mínimo uma hora. Para quem quer chegar ao Serro ainda com dia claro – e é aconselhável que assim seja – pode ser uma perda de tempo, algo para deixar para outra vez.

Lagoa Santa, há décadas passadas, foi a praia dos belorizontinos ricos, que ali mantinham casas de campo bacanas. Mas há muitos anos o assoreamento e a esquistossomose destruíram-lhe todas as ilusões Trata-se de uma cidade meio grande e meio pequena; meio feia e meio bonita; meio rica e meio pobre…. Tem um problema a mais, fica bem aquém do “meio” do caminho. Portanto, o negócio é seguir em frente.

Em Lagoa Santa, uma breve parada pode ser recomendada. Na avenida que é o prosseguimento da rodovia dentro da cidade, há uma enorme padaria, um bom ambiente, onde se vende, além do habitual, belos sanduíches, pão fresco, frios e queijos de boa qualidade. Parada para abastecimento da barriga! Dentro da cidade, tomem o Rumo da Serra do Cipó – é só perguntar, coisa que as mulheres a-d-o-r-a-m fazer!

Até o Cipó são 40 km, aproximados. Não há muito a ver, salvo quando se aproxima o pé da Serra. Mesmo o famoso rio das Velhas, que corta a estrada a cerca de 20 km, é aqui bastante minguado, barrento e ainda poluído pelo esgoto da região metropolitana de BH. E atenção para uma das lindas marcas registradas da bacia do Chico (ao qual o rio das Velhas pertence): a enorme quantidade da palmeira Macaúba, que aliás dá nome a um lugar espetacular – um mosteiro – um  pouco mais ao Sul (à direita de vocês), mas cujo acesso seria apouco recomendável nesta viagem, pois gastarão no mínimo duas horas a mais para ir e voltar. Fica pra próxima…

De repente, vocês já estão no sopé do Cipó. Notaram as árvores maiores e até mesmo matas fechadas? O rio Cipó, de águas escuras e limpas, oferece belos banhos. Vão topar? O lugarejo de Cardeal Mota (também conhecido como Serra do Cipó) tem restaurantes razoáveis, pousadinhas simpáticas, lanchonetes etc, tudo num ambiente “podes-crer” que lembra muito os lugares turísticos da nossa Chapada dos Veadeiros.

Logo a seguir, a subida da Serra do Cipó, que faz parte da famosa Serra do Espinhaço, que percorre, qual uma coluna vertebral central, o estado de Minas e parte da Bahia. A Chapada Diamantina nada mais é do que um prolongamento da cadeia de montanhas que vocês começam a subir agora. A cadeia divide as águas de dois importantes rios  nacionais: São Francisco, do lado de cá da serra e Doce, do lado de lá.

A subida da Serra já é feita pela Estrada Real! Notem as proteções laterais, coisa rara nas estradas em geral. Muito caminhão, muita carroça, muita mula já despencou nessas ribanceiras… Cuidado!

Das amuradas da subida, apreciem as belas paisagens do Vale do rio das Velhas, a legião das macaúbas e as pedreiras de mármore, hoje embargadas em nome da defesa ambiental . Depois de poucos km de subida, vocês estarão no planalto. É hora de apreciar paisagens magníficas, composta por montanhas de pedra, além dos campos de altitude, com suas canelas de ema, sempre-vivas e o capim barba de bode.

No planalto há várias pontes e outras benfeitorias remanescentes da Estrada Real antiga. Vocês as verão a todo momento, algumas até sinalizadas. Atenção para a Fazenda Palácio e para a estátua do Juquinha. O planalto terminará 20 ou 30 km adiante na descida do rio Santo Antônio, que corre para o rio Doce – bela paisagem, aproveitem! Aqui, um pouco do que sobrou da antiga Mata Atlântica. Prestem atenção na mata, nas montanhas em volta, na velha ponte sobre o rio. Mas cuidado, muito cuidado, com as curvas!

Mais adiante, a velha Conceição do Mato Dentro. Cidade graciosa, sem dúvida, mas não percam tempo nela, pois o que virá à frente é muito melhor. A sua simples travessia, caminho compulsório, é o bastante para conhecê-la. Sigam em frente, o rumo é (perguntem…) Serro.

Agora acabou de vez o asfalto, ou pelo menos se encontra em obras eternas…São 60 km de estrada empoeirada, cheia de curvas e de costeletas, mas vocês não se arrependerão! Estão vendo as altas montanhas lá na frente? È para lá que vocês vão. Comecem aprestar atenção nos desvios, pois aqui e ali aparecem surpresas, velas vilas da era do ouro, hoje quase abandonadas, só denunciadas pelas torres de suas pitorescas igrejas. Dois destaques que vale a pena entrar e conhecer: Itapanhoacanga e Mato Grosso, que hoje atende pelo gracioso nome de “Deputado fulano de Tal”. Três a quatro km de desvio, para conhecer cada uma delas. Vale a pena!

Em Mato Grosso, perguntem pelo local das romarias, no alto da montanha e não deixem de enfrentar o caminho, um tanto íngreme, mas sempre surpreendente. O que verão lá em cima, nem conto… Deixo a surpresa e o encanto por conta das viajantes!

A esta altura, já deve estar tarde. Sigam para o Serro sem outras paradas…

Sobre o Serro, melhor deixar vocês descobrirem, não vou dizer nada. Sobre a cidade, falou um viajante do Século XVIII: lugar penhascoso, batido de frigidíssimos ventos…Espero que tenham mais sorte!

No Serro não há muitas opções de hotel. Um desses, muito agradável, de nome Serro Frio ou Vila do Príncipe, ficava rua principal, logo acima e do lado contrário da agência do Banco do Brasil. Virou loja de móveis… Mas vale a pena ainda o trajeto por onde ele não está mais, pois estarão atravessando alguns dos quarteirões coloniais mais formosos e preservados de todo o Brasil! Para comer, me lembro de um restaurante que fica ao pé da escadaria que dá acesso a uma das principais igrejas, local de romaria anual. Indaguem. E não deixe de comer um lombo com tutu ou frango com ora-pro-nobis.

Serro é terra de ótimos queijos e boa cachaça. Se quiserem presentear este modesto escriba, não façam cerimônia…

Pernoitar no Serro é a melhor opção, pois o trecho seguinte de Estrada Real é mais penoso e também mais bonito. Melhor percorrê-lo durante o dia. A direção a tomar agora é a de Milho Verde e de São Gonçalo do Rio das Pedras e, só depois, Diamantina. Mas, atenção: não perguntem pelo caminho para Diamantina, pois fatalmente indicarão para vocês a estrada asfaltada. Aliás, você a percorrerão por apenas uns dois ou três km, quando tomarão um desvio à direita, que vai dar em Milho Verde. O trecho total de Serro até Diamantina, por tal caminho – a verdadeira Estrada Real – não é maior do que 50 km mas o tempo necessário para bem percorrê-lo é de no mínimo três ou quatro dias…. Brincadeira! Mas é melhor ir devagar para apreciar tudo o que têm direito!

Este agora é um trajeto mágico… Olhem as montanhas, as pedras, as casas, as matas. Notem como a estrada muda de tonalidade a todo momento, passando do branco ao vermelho, do preto ao amarelo. E tome pedras, pedras e mais pedras! Logo vai surgir uma vilazinha simpática, mas não se entusiasmem, vocês ainda não viram o principal!

Milho Verde… Que palavras usarei para descrevê-la? Enquanto vocês mesmas procuram as tais palavras (ou é melhor nem tentar?) parem um pouco na Dona Anete (Pousada Morais), para uma cervejinha e um almoço, se a fome já tiver batido. Lembranças à Dona Anete. Digam para ela que é de parte do mais velho dos dois irmãos que pararam lá numa noite de terrível chuva, em um remoto março. Ela não deve se lembrar, mas não custa nada dizer isso.

São Gonçalo do Rio das Pedras… Não confundi-la com sua quase xará, do Rio Preto, que fica além de Diamantina e também é formosa, mas não tanto como aqui. O mínimo que posso dizer deste lugar é: ele é perfeito, é o mais gracioso de Minas e, portanto, do Mundo!

Aqui também se come bem, comida mineira, coisa e tal. Se forem dormir, sugiro a Pousada dos Amigos, bem fácil de localizar. Aliás, toda a vila tem uma única rua.

A breve menção a SGRP é totalmente desproporcional ao tanto que vocês vão adorá-la e ao tempo que ficarão nela. Tenho certeza! Se gostaram tanto podem deixar Diamantina para amanhã…

Pé na estrada? O rumo agora é Diamantina e este é o pior trecho de estrada, mas certamente trafegável no auge da seca, como agora. O único problema é a poeira, mas parece que vocês ainda nem a notaram, não é? Então, continuem desligadas!

No caminho de Diamantina, apreciar o Rio Jequitinhonha, próximo às suas nascentes, mas já perigoso e matador. Mas aqui ele é mais vítima do qualquer outra coisa. Vocês verão as cicatrizes do garimpo predatório por toda parte. Quantas pedras, hein? E que tal acharam do Vale do Ribeirão do Inferno?

Chegando em Diamantina tem um local chamado Salitre, num desvio à direita, de poucos km. Belas formações rochosas que podem ser apreciadas sem sair do carro… Fica a critério das viajantes entrar ou não.

E, finalmente, Diamantina! A entrada é feia, como em quase todas as cidades deste Brasil. Mas prossigam, as belezas maiores já estão próximas. Não preciso dizer mais nada. Agora é com vocês!

Em Diamantina, não deixem de visitar Biribiri, um verdadeiro presépio, antiga vila residencial de uma fábrica de tecidos.

O retorno a BH se dará pelo asfalto, talvez com buracos… São trezentos e poucos km e a previsão é de 4 a 5 horas de viagem até BH. O único atrativo é o planalto, na saída de Diamantina, por uns 30 km, mas é paisagem que vocês já conhecerem em outros trechos da estrada. Gouveia, no caminho, é um centro de artesanato (rendas). Curvelo, mais adiante, não possui maiores atrativos, salvo pela fabricação da Cachaça “Parol” e do licor de pequi “Cristal”.

Adiante de Curvelo, o trevo da BR-040 (estrada BH – Brasília) inicia um trecho de muito trânsito, em exagero de caminhões. Mas felizmente já está duplicado.

Em Sete Lagoas, atravessem a cidade, no rumo de Pedro Leopoldo, de onde chegarão facilmente a Confins, encerrando a viagem.

 

BOM PROVEITO! É o que lhes deseja o

 

FLAVIO GOULART

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