Calendário florístico de Brasília: Ipê Roxo

IPÊ ROXO 02Ipê roxo, que beleza, não? Para dizer alguma coisa sobre ele, é preciso muita pesquisa – além de paciência – pois as fontes habituais são bastante prolixas e mesmo confusas.

Vamos a Harri Lorenzi, que é reputado como muito confiável, quando o assunto são as árvores brasileiras. Do ponto de vista botânico ele pode ter o gênero Tecoma, ou Tabebuia, ou ainda Handroantus, pertencendo ao grupo das Angiospermas, família das Bignoniáceas. Os nomes populares são também variados: ipê roxo, ipê-cavatã, pau d’arco, lapacho, piúva… Em alguns lugares ele nem é chamado de roxo, mas de preto. Parece ter havido uma reclassificação recente do gênero Tabebuia, colocando como pertencentes à mesma espécie tanto a T.impetiginosa como a T. avellanedae, mas, pra variar, há discordância entre os botânicos (mas o que importa isso se sua florada dispensa classificações…). Para complicar, existe ainda uma espécie conhecida como ipê-rosa, ipê-roxo-de-sete-folhas e mesmo ipê-roxo, mas com flores de cor semelhante, só que compostas por cinco a sete porções (foliolos). Este seria o Handroanthus heptaphyllus (hepta = sete)

O mestre Lorenzi indica ainda que trata-se de árvore alta, com 25 a 30 metros de altura, copa arredondada, tronco ereto, casca marcante e fissurada, crescimento rápido. Mas o que ele tem de realmente marcante são as floradas, formadas por “inflorescências em panículas congestas, de forma globosa, com as flores geralmente em grupos de três. Ele é generoso em sua distribuição, ocorrendo do Maranhão até o Rio Grande do Sul, sendo típico da “floresta latifoliada semidecídua”, seja lá o que isso quer dizer… Consta que está presente na floresta amazônica também. Pode ser encontrado ainda, de forma nativa, na Argentina, Bolívia, Colômbia, Guiana Francesa, Paraguai, Peru, Suriname e Venezuela, na América do Sul; em El Salvador, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá, ma América Central, e no México (América do Norte). É cosmopolita a tabebuia!

Em tempo, “Ipê”, é palavra de origem tupi, que significa ‘árvore cascuda’. É da sua utilização indígena que sobreveio o nome “pau d’arco”, pelo seu uso na fabricação deste tipo de arma, o arco e flecha.

Tem madeira dura, já se sabe, o que é uma boa coisa para os extrativistas, mas um grande problema para a nossa tabebuia. Pisos, madeiramento de telhados, portas e janelas em Ipê são o supra sumo do consumo em termos de madeira – é só ir a uma madeireira e perguntar pelo preço, superior ao das demais espécies de madeiras.

Outras informações registradas: suas flores dão lugar a vagens com sementes leves e abundantes, dispersadas pelo vento; é uma planta de forte apelo ornamental, com floração na estação seca (maio-agosto), perdendo em tal ocasião todas as suas folhas; as flores vão, na verdade, do rosa ao lilás e duram bem poucos dias; a florada é fonte de alimento para insetos diversos, mormente abelhas polinizadoras e também para aves, entre as quais os colibris, e mesmo macacos. O Ipê Roxo muito usado em arborização urbana, principalmente no sudeste e centro-oeste do Brasil, mas também na Argentina.

Fala-se muito em seu uso medicinal, sendo mesmo incorporada a farmacopeia tradicional indígena. Sabe-se que em sua casca são encontrados e podem ser extraídos os ácidos tânicos e lapáchico, além de sais alcalinos e corantes usados para tingir algodão e seda. No Brasil, sua utilização popular se dá pelos banhos com chás das folhas e com o cozimento (decocto) da entrecasca, com indicações as mais diversas, tais como gripes, bronquite, sinusite, impetigo, úlceras sifilíticas e blenorrágicas, cervicite e cervico-vaginite, controle da anemia (anti anêmica), cistite (diurético), “sangue grosso”, calmante, alivio das inflamações de ouvido, dor no corpo (anti-reumática), picada de cobra, afta, gastrite, verminoses, diarréias, diabetes e câncer (leucemia, tumores). Parece a verdadeira panaceia universal… Pena que a farmacologia científica, alguns diriam “careta”, não lhe reconheça tantas vantagens… Houve época que a febre popular de extrair a casca do Ipê Roxo para tratar o câncer era tão “viral”, que muitas praças e alamedas no Brasil ficaram desguarnecidas desta bela árvore, com poucos efeitos prováveis sobre a saúde dos pacientes que recorreram a tal expediente.

Do ponto de vista lingüistico, cabe recorrer ao Houaiss. Ipê, substantivo masculino, representa a designação comum a várias árvores da família das Bignoniáceas, espécie do gênero Tabebuia, de folhas com cinco a sete folíolos, flores amarelas, róseas ou brancas e madeira geralmente nobre, algumas entre as mais resistentes das Américas. E agora algo que para mim é novidade: o Ipê é considerado um símbolo do Brasil, sua árvore nacional! E tem mais: Tabebuia é nome dado em 1803 por Griseb, proveniente do tupi tambe’mbuya, significando ‘madeira leve, que flutua’, à qual se associa a palavra náutica bubuia (flutuação), mas isso não parece ter nada a ver com a dura e densa madeira do Ipê… Já ipê (ou epê) significaria, também em tupi, ‘casca’,

E para complicar, segundo o grande dicionarista, a designação”Ipê” abrangeria ainda: (a) algumas árvores e arbustos da família das leguminosas, subfamília cesalpinioídea, espécies do gênero Macrolobium; (b) Macrolobium brevense, alta árvore nativa da Amazônia, de cerne e córtice vermelhos, folhas com raque canaliculada, folíolos coriáceos, inflorescências em racemos e vagens lenhosas, também chamado de ipê-paraense; (c) outra árvore não tão portentosa (Macrolobium vuapa), nativa das Guianas e do Brasil (PA a BA), de folhas com um par de folíolos, flores em racemos e vagens sublenhosas e oblíquas, conhecida popularmente como araparirana ou jatobarana; (d) árvore pequena (Macrolobium pendulum), nativa do Brasil (PA), de flores pêndulas e vagens glabras – aipê; (e) Eperua bijuga, pequena árvore também nativa do Brasil (PA), com inflorescências em racemos curtos e madeira de cerne vermelho, de boa qualidade; espadeira

Um breve comentário sobre a expressão Pau Darco. Para Houaiss ela representa a designação comum a várias árvores e arbustos da família das bignoniáceas, espécies do gênero Tabebuia, muito cultivados como ornamentais e pelas madeiras de qualidade. Sua relação com a cultura indígena já foi vista, mas uma interpretação no mínimo curiosa me foi fornecida por um caboclo na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Para ele, “darco” diz respeito à capacidade de sua madeira em pegar fogo rapidamente, como se tivesse “arco” (álcool) em seu cerne…

Estes belos exemplares de Ipê Roxo que se vêem nas fotos foram fotografados por mim em junho de 2016 na quadra 410 Norte, em Brasília.

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