Pelo Sertão, com Rosa

ROSA NO SERTÃONo remoto mês de maio de 1952, época de floradas e esplendor de vida no sertão, Guimarães Rosa, com 44 anos, então diplomata no exterior, mas já famoso como escritor pelo seu livro Sagarana, inicia uma viagem a cavalo, acompanhando uma boiada desde a região onde hoje se situa a represa de Três Marias, até Araçaí, nas proximidades de Cordisburgo, sua terra natal. Fazem companhia a ele um grupo de tropeiros da fazenda Sirga, de propriedade de um primo seu, num percurso de dez dias. Até um fotógrafo da Revista O Cruzeiro, muito prestigiada na época, acompanhou parte da exposição e documentou os acontecimentos.

Em carta a seu pai, na época, ele assim justificou seu périplo: “Creio que será uma excursão interessante e proveitosa, que irei fazer de cadernos abertos e lápis em punho, para anotar tudo o que possa valer, como fornecimento da cor local, pitoresco e exatidão documental, que são coisas muito importantes na literatura moderna”.

Constam os analistas que até hoje relembram o feito que a comitiva levava três centenas de reses, em um percurso de 240 quilômetros através de pastos, estradas de chão, cafuas, veredas de buritis e cursos d´água. Aqui já surge uma dúvida, pois se recorrermos aos mapas, a distância de Três Marias a Cordisburgo não ultrapassa os 150 km. Mas não é este o tema desta minha incursão.

Faz parte do folclore em torno da viagem, provavelmente verossímil, que JGR trazia sempre pendurada ao pescoço uma caderneta onde anotava tudo que via e ouvia. Estes preciosos registros fazem parte de acervo da USP e foram reunidos depois, pelo próprio autor, em dois diários, denominados de “Boiada 1” e Boiada 2”.

Sobre as cadernetas o próprio Guimarães Rosa afirmou a um jornalista: “você conhece os meus cadernos, não conhece? Quando eu saio montado num cavalo, por minha Minas Gerais, vou tomando nota de coisas. O caderno fica impregnado de sangue de boi, suor de cavalo, folha machucada. Cada pássaro que voa, cada espécie, tem voo diferente. Quero descobrir o que caracteriza o voo de cada pássaro, em cada momento. Não há nada igual neste mundo. Não quero palavra, mas coisa, movimento, voo”.

Seria o caso de perguntar o por quê de estes cadernos terem viajado para tão longe, residindo em terras paulistas e não em Cordisburgo, por exemplo, onde aliás existe um museu dedicado à obra de Rosa.

A questão que levanto aqui, sessenta e quatro anos depois de tal viagem, diz respeito à possível importância da mesma na composição dos livros que o consagraram definitivamente e capturaram, pelo mundo a fora, uma legião de leitores-adoradores, entre os quais me incluo. Entre tais obras estão Grande Sertão – Veredas; as variadas novelas de Corpo de Baile; Tutameia; Primeiras Estórias e muitos outros textos esparsos.

Sem dúvida, as obras de Rosa possuem uma infinidade de referências diretas e indiretas ao sertão mineiro, visto e revisto naqueles dez dias marcantes. Mas seriam tais referências oriundas, com tanta relevância, apenas daquela viagem de 1952? Há controvérsias…

A confusão vigente se mostra, por exemplo, quando alguns que escreveram sobre o assunto localizam na novela Uma Estória de Amor, de Corpo de Baile, uma inspiração na vida de Manuel Nardi, um dos integrantes da comitiva, que “aparece transfigurado no personagem de Manuel Jesus Rodrigues, o Manuelzão”. São semelhanças que não vão além do nome, pois existe um enorme problema cronológico no caso, como escrevi em post recente aqui neste blog (vejam: https://veredasaude.com/2016/07/01/o-verdadeiro-manuelzao/ ).

Minha impressão sobre a viagem é a seguinte.

Rosa viveu uma parte de sua vida em Cordisburgo, então uma estaçãozinha da EFCB, verdadeiro portal do Norte de Minas. Ali, as “Minas” se transmutavam em “Gerais”. Com o trem de ferro, certamente o Sertão batia à porta da cidade ou nela se instalava. Aliás, talvez fizesse parte de tudo que rodeava a vida que se levava ali, sendo eles próprios, os cordisburguenses, sertanejos legítimos, embora fazendo parte, geograficamente, da região central do estado, a pouco mais de 100 km de Belo Horizonte, onde tinham sede Governo, Justiça e Lei…

O menino Rosa passou sua infância junto ao balcão de pequeno armazém que Florduardo Pinto Rosa, seu pai, mantinha. É fácil imaginar o enorme aporte de informações que um balcão de armazém no interior oferece, em um tempo que não vigorava a impessoalidade dos supermercados. Ali se vendiam secos, molhados, botinas, chapéus e tanta coisa mais. O balcão era o sítio privilegiado de demoradas prosas, em que a política, as novidades de fora, os nascimentos, mortes e casamentos eram trazidos e comentados. Para o menino míope, que talvez não tivesse muita afinidade com o mundo desafiador de seus companheiros machinhos, o mundo era aquele balcão.

Isso para não falar das influências que lhe trouxe a família de classe média, mas na qual havia parentes letrados e viajados, particularmente Vicente Guimarães, o vovô Felício, seu tio apenas dois anos mais velho, um dos precursores da literatura infantil no Brasil,

Assim, penso que se deve dar mais crédito e relevo à imaginação criadora de Guimarães Rosa, além de suas fortes influências culturais e familiares. Isso certamente vale muito mais do que os efeitos de uma simples viagem de dez dias, por mais marcante que ela tenha sido. A literatura de JGR é muito especial. Nela, os registros de sua viagem pelo sertão certamente são importantes, mas sozinhos certamente não poderiam fornecer elementos para a construção de uma obra que reflete profundamente temas relativos ao bem e ao mal; às forças que regem o comportamento humano; ao modo de ser sertanejo; à humanidade, enfim.

Da Sirga a Araçai, em 1952, ocorreu uma grande aventura, sem dúvida. Mas os livros de JGR constituem aventura mais ampla, falam muito mais.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s