Nova fábula, sabor antigo

PONTE SOBRE DESFILADEIROA Dilus cabia levar seu povo à Terra das Promessas. E tal líder passara anos de sua vida preparando-se para tanto. Até que começou a grande caminhada.

Um grande obstáculo logo surgiu: um profundo desfiladeiro sobre o qual se perfilava uma ponte muito frágil.

Dilus não era de fazer consultas, mas resolveu ouvir dois de seus principais companheiros de jornada, Rationibus e Practicus.

O primeiro, apelando para o que era seu atributo principal, a Razão, ponderou que o melhor era não se arriscar e procurar um caminho alternativo, pois certamente o haveria.

O segundo, com seu tradicional senso prático, recomendou, de pronto: vamos por aqui.

E ir “por aqui” significava encarar aquela pequena ponte, cheia de perigos, sempre prestes a lançar os ousados caminhantes ao abismo.

E Practicus arrematou: certamente teremos o apoio dos povos dos penhascos, logo designando alguns deles, em quem tinha confiança. E feito isso, procurou, aos gritos, clamar pelos velhos amigos e novos sócios na empreitada de ir à Terra das Promessas. E foi assim que Cunheus, Calheus, Sarneus e Temereus logo mostraram suas hostes de entremeio aos penhascos e fizeram sinais amistosos de “venham, estamos com vocês”.

E Dilus então chamou seu povo e foram pela terrível ponte, que acabou por não resistir ao peso de tanta gente e se partiu, lançando todos ao abismo.

No fragor da queda houve quem visse alguns penhascosos acenar-lhes com palavras soezes, do tipo “adeus, queridos” e houve mesmo quem percebesse que um dos Temereus ostentava nas mãos uma enorme tesoura de cortar arame, certamente o motivo principal da queda da pinguela.

Qual seria a moral da história?

Esperem aí, a história pode ter outros finais, por exemplo, se Dilus tivesse ouvido o sensato Rationibus.

E teria sido assim: foram procurar outro caminho para vencer o desfiladeiro. Estava difícil encontrar, ladearam o abismo por vários lados – e nada.

Rationibus não se deu por vencido e falou: vamos procurar o apoio de um povo que já foi nosso amigo e que mora nas planícies mais aquém de onde estamos, os Psoeus, além de outros, chegados a eles.

E mandaram emissários às planícies, que foram tão bem sucedidos em sua missão que até conseguiram arregimentar apoio de outros povos, os Neutralius, por exemplo, que até então não haviam entrado na fábula, ocupados que estavam com seus afazeres cotidianos, sem tempo para grandes aventuras como aquela. Mas vieram assim mesmo.

Para encurtar esta fábula, que fábula é melhor quando curtinha, os liderados de Dilus, ajudados pelos Psoeus, Neutralius e Sinistrius (outra gente que se ajuntou aos novos aliados no caminho), acabaram por transpor o desfiladeiro em um vale, mais abaixo. É certo que foram hostilizados pela gente dos penhascos, mas a esta altura já eram tantos que botaram pra correr os Temereus, Calheus, Cunheus, Sarneus, além de seus asseclas.

Final feliz? Nem tanto. Nem bem conquistaram a Terra das Promessas, os liderados de Dilus descobriram que mais adiante havia outro desfiladeiro, com outra ponte perigosa, outros inimigos cavilosos.

Mas foram mais felizes assim. Esta é (ou deveria ser) a Moral da história.

 

 

 

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