Um homem notável: Cid Veloso

cid-velosoEu o conheci desde muito jovem. Frequentei a casa de seus pais, na rua Monsenhor Horta, bairro do Prado, Belo Horizonte, nos anos 60. Seu irmão, Tiago, era meu colega de Colégio Estadual e Cid, na época, já havia se formado em medicina e era tratado por nós com o devido respeito. Mas acima de tudo era um cara bonachão e muito atencioso com os adolescentes que frequentavam a casa de seus pais, onde ele, já casado e pai de família, não raro aparecia.

Falar de Cid Veloso me remete a Geraldo Veloso, seu pai. Éramos mais ou menos conterrâneos, ou melhor, a família de meu pai o era. Os Veloso eram de Piumhy e meu pai de Pains, poucas léguas perto. Geraldo era irmão de meu Tio torto Lécio, casado com Aurea Goulart, irmã de meu avô Zezé Goulart Neto. Assim tínhamos também essa aproximação pelo lado da família.

Mas não foi o sangue que me aproximou dos Veloso. Foi muito mais do que isso. Geraldo era uma autodidata perfeito, dominava o inglês e talvez outras línguas e tinha uma cultura vastíssima. Era contabilista, mas deixara um bom emprego na iniciativa privada para lidar com o comércio de nada menos do que … livros. Estar na casa da Monsenhor Horta era um prazer, sempre, cheio de surpresas. Ali conheci livros de arte, discos de jazz e muito mais. Pela primeira vez ouvi falar de Marx & Engels, que eram cultuados naquela casa. Mas sem proselitismo e radicalismo, pois aquilo ali era um território de livre pensamento, acima de tudo.

Mas eu falava de Cid Veloso, que nos deixou faz poucos dias…

Fui aluno dele na velha Faculdade de Medicina da UFMG. Ele era cardiologista e lecionava na disciplina de Semiologia. Ele havia criado uma tradição de ministrar, dentro dos conteúdos da “cadeira”, um curso de eletrocardiografia, que era famoso. Muito bem montado do ponto de vista pedagógico, em uma era em que não havia PowerPoint, mas sim projetores de slides, ele intercalava, em meios aos traçados que logo aprendíamos a interpretar, figuras retiradas da arte clássica. Quando surgia uma Pietà, uma Monalisa, uma Banhista ele parava a parte formal para nos inquirir sobre a autoria, o nome do artista, o período em que foi pintada – coisas assim.

E no final, além do complexo QRS e do segmento ST saíamos de lá repletos de cultura.

Devo dizer que naquele tempo, anos 60, a juventude curtia essas coisas. E Cid era um ídolo entre nós.

Neste tempo ele era apenas um cardiologista e professor de Semiologia. Era famoso apenas naquele último quarteirão da Avenida Alfredo Balena, onde ficava o Hospital de Clínicas da UFMG. Mas grandes acontecimentos ainda estavam para acontecer na vida dele…

Cid Veloso foi o primeiro reitor eleito por voto direto na UFMG. Sua gestão se caracterizou pela inovação, pela amplitude cultural e interdisciplinar da ação da reitoria e pela democratização da gestão. Eu já não morava mais em BH, mas acompanhei algumas de suas peripécias na gestão universitária, por exemplo, a negociação pacienciosa com os invasores do antigo Hospital Borges da Costa. O desfecho foi a transformação do velho prédio abandonado em residência universitária. Sem tiros, nem bombas, nem prisões.

Ele trouxe à UFMG, para uma homenagem, ninguém menos do que o Bispo Desmond Tutu, paladino, junto com Mandela, da luta contra o apartheid na África do Sul. Cid enxergava longe, muito longe… E muitas outras coisas ele fez. Na foto acima ele aparece logo ao lado do líder sul-africano.

Cid ficou viúvo e casou de novo, com a enfermeira Roseni Chompré, uma companheira de sua exata estatura moral e humana. Certa vez, Roseni me contou como foi a aproximação dele com ela, apenas colegas de trabalho até então: “você permitira que eu lhe cortejasse?” – assim era Cid.

Sobre este cara maiúsculo só posso dizer, para não me perder em redundâncias: ele viveu além de seu tempo e fez da vida um exemplo de militância, de tolerância, de responsabilidade civil. Eu tenho muito orgulho de ter sido seu amigo e de ter freqüentado sua família.

Deixo que João Amilcar Salgado, também meu professor na Faculdade de Medicina da UFMG e colega de turma de Cid Veloso conte mais algumas histórias dele (ver em seguida)

 

CID VELOSO EM TRÊS CENÁRIOS
MÓDULO ECGRÁFICO
Em 1962, os poucos clínicos que sabiam interpretar o eletrocardiograma e a radiografia cardíaca causavam inveja e, ao mesmo tempo, sonegavam os respectivos segredos aos aprendizes. Liderados pelo Razuk, providenciamos a vinda do Tranchesi e do Fujioka para nos assenhorearmos destes dois mistérios. Descobrimos que tudo o que o Tranchesi e o Fujioka sabiam o Elian e o Javert já sabiam, e a grande virtude desses paulistas eram os massetes interpretativos que divulgavam. O Tranchesi, da escola do Cabrera, enfatizava o lado vetorial do eletro, o que complicava a coisa. Aí é que entrou a criatividade do Cid Veloso. Ele criou um módulo de treinamento da maior simplicidade e rapidez – tornando obsoleto o excelente livro do Tranchesi. Qualquer um que manuseasse sua coleção didática – democraticamente aberta a todos – em seis meses já era um razoável intérprete. E coincidiu que foi lançada a primeira linha de aparelhos portáteis. Vários foram encomendados. Um mandão da cardiologia recebeu a visita do revendedor, entusiasmado com o boom de venda. Quis saber onde era o ninho dos que ameaçavam sua reserva de mercado. Chegou à sala do Cid acompanhado do Galizzi e do Elian que o viram espinafrar o imperturbável recém-formado. Gritou ao Cid: você é um fedelho e dependendo de mim nem título de cardiologista terá. O Elian e o Galizzi retiraram o vociferante dali e lhe explicaram que aquele lugar era uma universidade e nela nenhuma censura teria cabimento.
LESÃO DA PONTA
Em 1963, houve entusiasmo com a descoberta do padrão eletrocardiográfico da chamada lesão de ponta, própria do coração chagásico. Todos a elogiavam, mas Cid Veloso fez reparo ao método da pesquisa, pois o autor se limitara a examinar unilateralmente os registros dos pacientes falecidos com a lesão. Dois cardiologistas ex-professores do Cid, o recriminaram fortemente. Galizzi pediu ao jovem que respondesse àquelas duras palavras, e este, com a serenidade que lhe é peculiar, surpreendeu a todos. Disse que a resposta não poderia ser expressa ali, mas estava guardada nos arquivos do Bogliolo. E foi então que o Cid Veloso, apoiado pelo Arnaldo Elian e por mim, fez a investigação recíproca: procurar o tal padrão na coleção de registros e separar aqueles de pacientes falecidos. Daí partiu para o arquivo anatômico e não encontrou a completa correspondência entre o padrão e a lesão. A pesquisa saiu nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia (1964, 17, 505-18). Em reunião geral de todas as cadeiras de Clínica Médica, o temido e avaro professor Osvaldo de Melo Campos, que nunca fora ouvido elogiar alguém e nunca dera nota máxima em qualquer concurso, apareceu com a separata desta investigação nas mãos e, antes de qualquer coisa, a exibiu dizendo: esta é a tese de doutorado para a qual eu daria nota dez. E foi assim que Melo Campos concedeu pessoalmente ao jovem Cid o título de cientista.
BISPO TUTU
Em 21-5-1987, o bispo Tutu recebeu o título de professor honoris causa da UFMG. Em reunião na reitoria, discutimos a programação da visita dele à Universidade e quando levantamos a possibilidade de, na oportunidade, dar-lhe o título honoris causa, houve nítida reação de desagrado de boa parte dos presentes, que inclusive deram a desculpa de que havia uma burocracia a ser cumprida e que não daria tempo. Alguém disse: será que esse preto merece tão alto título? Pois bem, foi uma das coisas mais emotivas que aconteceu nesta instituição. No gabinete da reitoria, saboreávamos o coquetel de recepção, quando todos fomos para as janelas, pois iniciava-se vibrante batuque, executado uníssono, ali no pátio em frente, por quase todos os grupos de congado de Minas. A seguir descemos para diante de um palanque. Nele o bispo Tutu, acompanhado de padres negros e mulatos, e também de oficiantes de várias religiões, concelebrou arrepiante Missa Conga. Só mesmo Cid Veloso, o primeiro reitor federal eleito pelo voto direto, poderia ter-nos brindado com tão inesquecível cena.

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2 comentários sobre “Um homem notável: Cid Veloso

  1. Flavio – Reli agora o seu texto sobre o Cid (muito bem escrito!) – mais um detalhe lembrei sobre a eleição direta para reitor da UFMG, que só aconteceu uma vez, quando o Cid foi o vencedor: o Conselho Universitário descobriu que os grandes cursos (medicina e engenharia) por terem mais professores, funcionários e alunos, ganhariam sempre por esta regra eleitoral. E modificaram para eleição proporcional nas vezes seguintes e nunca mais teve um reitor da medicina na UFMG (nem sei se isto foi ruim, não existem tantos Cids, com a habilidade que ele tinha de ouvir, negociar e decidir democraticamente).
    Eugenio

  2. Também tive um bom convívio com o saudoso Cid Veloso, quando diretor da Fac. Medicina. Mas recentemente ele me chamou para fazer uma palestra num centro de estudos que presidia na UFMG no campus da Pampulha, e muito interessado em detalhes do meu livro sobre o Saint Hilaire. No distrito de Pimenta, que chama Santo Hilário (tem uma foto no livro) e que antes chamava Capitinga e era um porto no Rio Grande, nasceu sua mãe. O nome mudou para Santo Hilário já que Saint Hilaire ficou retido, devido a chuvas constantes no local. Tio Lécio trabalhou lá, com comércio, buscando mercadorias que vinham de navio pelo Rio Grande.
    Abraços a todos
    Eugenio

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