O Colégio da Elite Mineira (e meu também)

colegio-estadualLogo nos dois ou três primeiros anos da década de 60, ainda adolescente – vai ser precoce assim lá longe! – eu deixara de ser udenista e virara comunista, dos mais convictos, aliás. O contrário, aliás, de Carlos Lacerda, liderança intensamente admirada em minha família materna. Influências não faltavam: eu tinha entrado, em 1960, para o Colégio Estadual – sim, aquele, o famoso e queridíssimo estabelecimento de ensino de BH. Ali, a política corria solta nas rampas, nos corredores e nas veias de todos.

Tal colégio tem sido cantado em prosa e versos, por muitos por que ali passaram. Eu, que também por lá passei, preciso falar dele.

Colégio Estadual de Minas Gerais, dito Central, nos altos do bairro de Lourdes – ou seria no Baixo Santo Antônio? Ali estudava a elite mineira. E também pobres mortais, pequenos burgueses ou quase proletários, como eu e muitos outros. Além dos que vieram a ser governadores e figurões no futuro, nos seus bancos se sentou também a filha do governador da época, Ana Lucia (de Magalhães Pinto). E é claro, que não se esqueça da infeliz moçoila que veio a ser eleita, por duas vezes, Presidente da República. E mais um bando de gente, uns maiores, outros menores, como diz o samba de Vanzolini.

O fato é que pelo Colégio Estadual “Central”, hoje Milton Campos, passaram gerações e gerações de pessoas importantes na política, nas artes e em outras atividades. A gente sentava lado a lado não só com a filha do governador, como de outras autoridades da época, naqueles bons tempos que o ensino público era sinônimo de qualidade. Até hoje quem estudou lá se sente honrado e menciona isso nas rodas de amigos com o maior orgulho, alguns até mesmo com certa empáfia.

Todos os que passamos pelo Estadual temos grandes lembranças de tudo o que nos rodeava, mas não exatamente, talvez, daquele prédio modernista, obra de Oscar Niemeyer feita por encomenda de JK.  Falar em tal personagem, o arquiteto símbolo de Brasília, é correr sério risco, dada a unanimidade que ainda desfruta em toda parte.. “Quem palreia em demasia estende saudações matinais a eqüinos”, já diziam os antigos. Mas dessa vez não resisto à vontade de “palrear” sobre alguém que é detentor de verdadeira consagração nacional e internacional. Corro o risco, certeiro, de colocar minha colher de pau em mingau alheio, pois sou totalmente estranho aos quadros da profissão do homem.Ter irmão e filho arquitetos não vale, certamente…

Penso, sinceramente, que a unanimidade que sempre cercou o grande Oscar não lhe fez justiça. Um pouco de contestação e debate não faria mal à sua obra, eis a verdade. Diante de casos assim, torna-se irresistível, lembrar da frase definitiva e já clássica de Nelson Rodrigues: ‘toda unanimidade é burra’. Além de burra, não ajuda em nada o progresso das ideias.

O Colégio Estadual era e ainda é realmente lindo por fora, com seus blocos imitando objetos escolares. Estudávamos, por exemplo, na régua. O auditório, uma verdadeira obra de arte, com seu formato de mata-borrão, dos antigos, que já não se usava à época que o projeto foi concebido. Tudo isso de fora e de longe; de perto e por dentro a coisa mudava.

Assim, reivindico para mim pelo menos uma razão importante para não apreciar a unanimidade em torno do mestre: eu estudei em prédio projetado por ele.

Alguns exemplos? As salas de aula eram quentes ao extremo, o sol nos batia de chapa durante as aulas do período da tarde, os banheiros tiveram que ser fechados porque empesteavam o ambiente com apenas meio dia de uso, dada sua localização junto ao corredor das salas de aula, além de problemas na exaustão de gases. Tais cômodos, além de excessivamente ensolarados e quentes, eram pequenos para o número de alunos nelas alocado, que, aliás, naquele tempo, talvez não passasse de trinta ou trinta e cinco. O belo auditório era insuportavelmente abafado nos dias de calor, além de possuir uma acústica de qualidade duvidosa. Os professores, coitados, nos intervalos das aulas tinham que se acotovelar em acomodações precárias, uma sala de aula, com todos seus defeitos, em desvio de função.

No vasto pátio era um sacrifício encontrar abrigo para o sol, não havendo uma única árvore, com exceção de um notável abacateiro, que não se sabe como escapou incólume ao concretismo árido e exacerbado do Mestre. Basta olhar, aliás, para o atual Museu da República em Brasília, uma das derradeiras obras do finado arquiteto, para ver que neste quesito, o “paisagismo” de Niemeyer continua o mesmo…

Admito, portanto, que faço parte do coro dos descontentes com a obra niemeyeriana há tempos, embora, como os meus pares nesse campo, não encontrasse muita coragem de abrir a boca. Mas reivindico para mim duas razões importantes para não apreciar a unanimidade em torno do mestre: além de ter estudado em colégio projetado por ele, igualmente trabalhei – muitos e muitos anos depois – em um prédio idem, o do Ministério da Saúde, em Brasília.

Para concluir esta intrusão devo dizer que é melhor desconfiar das unanimidades, sejam elas quais forem. Afinal, Niemeyer notabilizou-se em defender causas inglórias, como o finado comunismo do modelo soviético. Olha que ele resistiu incólume à glasnost e à perestroika, fazendo ainda muitos e muitos projetos e defendendo suas ideias políticas anacrônicas. Mas Oscar já tem seu lugar na história, deixemo-lo de lado.

Mas se a obra física não me agradou, pelo menos em termos de seu conforto e funcionalidade, o que se abrigava dentro dela marcou minha vida para sempre. No Estadual não só aprendi a pensar gauche, como também encontrei um ambiente de discussão, polêmica e abertura para ideias novas e mesmo na contra mão. Ali me fiz como gente, como cidadão, embora fosse um estudante relapso, sujeito a escoriações em cada passagem de um ano para o outro.

E tive como professores figuras marcantes, não só para mim pessoalmente, como na vida intelectual mineira. Sem pretender ser exaustivo, devo me lembrar de pelo menos estes que nomeio em seguida. Clara Grimaldi, professora de português, que pela primeira vez me disse que eu levava jeito e me incentivou para a escrita; João Etienne Filho, história, quinto participante do “quarteto” de personagens de O Encontro Marcado, de Fernando Sabino – figura ilustrada e de pensamento avançado, embora meio histérico, do alto de seu metro e meio de altura e seu homossexualismo mal assumido (donde o apelido cruel de “Bichenne” dado pelos alunos); Rubens Romanelli, do latim (disciplina que me acompanhou por quatro anos!), ilustre figura de pensamento espiritual e humanista, falecido poucos anos depois. Fui aluno de pessoas sobre quem nada sei, mas que me marcaram pela seriedade, pela vocação de ensinar: Marcel Debrot, Letícia Mallard, Anna Mazur Spira João Moreira da Rocha (“Joãozinho da Pré História”), Juscelino Bethanio, Fernando Pieruccetti Mangabeira (o criador das figuras de bichos para os times do futebol mineiro), Tabajara Pedroso, Eder Simões, Durval (de Literatura) são alguns desses nomes.

Affonso Romano de Sant’anna também estava por ali, queridíssimo pelas alunas, por sinal. Se eu falasse que tive aulas com ele. todos acreditariam – mas infelizmente não seria verdade… Da mesma forma que não seria verdade dizer que fui amiguinho de Dilma Rouseff, que cruzou na mesma época do que eu – e com a mesma idade – os corredores do Estadual.

Havia muitos outros figurões, nem todos do bem, mas membros de uma elite intelectual da época. Curiosidade: o Colégio Estadual de Minas Gerais não tinha Diretor, tinha “Reitor” e muitos de seus professores eram também do quadro da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UFMG.

Mais no caminho do mal do que do bem, mas certamente um tipo pitoresco e inesquecível, estava Francisco Floriano de Paula, professor de geografia, fundador de coordenador do grupo escoteiro do qual eu fazia parte e que me levou à inauguração de Brasília. Professor Floriano, cearense de Uruburetama, era idoso, quase cego, histérico com tudo o que se passava em sua volta. Tinha inclinações militares e autoritárias evidentes, talvez frustradas pelo seu problema de visão, mas falava muito de um filho militar, cadete em Agulhas Negras, que ninguém sabia ao certo se existia de verdade. Gabava-se de ter conhecido o Marechal Rondon. Ele tinha especial aversão ao cigarro e certa vez, sentindo cheiro de fumaça na sala de aula, vindo do lado esquerdo do cômodo, não teve dúvida: sem poder enxergar direito o autor ou os autores da infração, expulsou da classe toda a fileira, eu incluído.

Hilária foi a reação de Floriano, certa vez, quando um garoto da sala vizinha, bateu à porta da sala onde o mesmo dava aula para dizer que o professor Sardinha (de latim) pedia um apagador emprestado. Furibundo, como de costume, com a interrupção, o bravo sertanejo fuzilou: “pois diga a ele que lugar de sardinha é na lata!”. Na lata! Floriano, com todos seus defeitos era cumpridor de seus deveres de professor e não era, talvez, pessoa de todo ruim. Depois do episódio do cigarro, mesmo sem explicitar seu erro ou pedir desculpas, passou a me tratar muito bem, tanto que fui ser escoteiro em sua tropa, nunca tendo sido discriminado. Para entendê-lo melhor é preciso ir até seus antecedentes profissionais: antes de ser professor do Estadual tinha sido diretor na Penitenciária de Neves…

Nesta época tive inúmeros colegas que me acompanharam pelo restante da trajetória escolar, inclusive na Faculdade de Medicina da UFMG: Antonio Celso Chiari; Dalton Luiz Ferreira Alves; Silvia Helena, Fernando Rezende Pompeu; Ramon Cosenza (“Marrom Cor Cinza”); Anna Rosa Bogliolo; Martius Adelio Gomes (“Oxidrila”), Athos Magno Costa e Silva (de Goiás, colega apenas no “Científico”, que mais tarde se notabilizou por seqüestrar um Caravelle da Cruzeiro do Sul, ruma a Cuba!). Com Ramon fui criador e redator de um efêmero jornalzinho colegial, o Flagelo, impresso em mimeógrafo a álcool, que teve duas edições. Eduardo Azeredo, depois governador de Minas e criativo co-inventor do Mensalão, também fez parte dessa patota, mas com ele não privei de grande intimidade – que fique bem claro! Saulo da Matta Vianna Barbosa, o Saleba, não fez medicina, mas se tornou meu amigo pelo resto da vida.

Aquele quarteirão entre as ruas Rio de Janeiro e São Paulo, no alto da colina de Lourdes ainda me fascina. É rara a vez que vou a BH e deixo de dar uma passadinha por lá, quem sabe para tentar ainda encontrar o saudoso “pão molhado” do boteco do Seu Álvaro, ou gazetear na Praça Marília de Dirceu, mas abaixo, já no rumo da Cidade Jardim.

 

 

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