A morte de um anarquista

DARIO FO.jpegOntem, 12 de outubro de 2016, morreu na Itália o Escritor Dario Fo, aos 90 anos. Ele era conhecido pela sátira política e pela crítica ao clero e às instituições oficiais em geral. Uma de suas obras mais célebres foi “Morte Acidental de um Anarquista”, atualmente em cartaz em São Paulo. Eu vi a peça nos anos 80, ainda na ditadura, com um Antonio Fagundes impagável no papel principal, o de um maluco que entra numa delegacia e começa a desvendar crimes que ninguém ali tinha interesse em investigar, inclusive a da morte, dita “acidental” de um militante político de esquerda. A sátira à Polícia e ao Judiciário é impiedosa, apontando o jogo de interesses e vaidades que marca a atuação de tais autoridades. O cenário era o da Itália nos anos 60, mas se aplica perfeitamente à situação de hoje no Brasil, com tantos juízes, promotores, delegados, além de políticos, procurando notoriedade “a jato”. Já denunciei o fenômeno aqui neste bloguinho, conferindo ao mesmo até um troféu, o “Hávidos por Olofotes”, numa alusão ao atropelo à lógica e muitas vezes à língua que tais “lavadores” cometem. Para mais informações sobre Fo, segue a matéria da FSP de hoje, 13 de outubro.

 

Morre aos 90 o dramaturgo italiano e Nobel de Literatura Dario Fo

Segundo o jornal italiano “Corriere della Sera”, o dramaturgo estava internado havia 12 dias em um hospital em Milão após sofrer uma série de problemas pulmonares.

Matteo Renzi, premiê italiano, enviou suas condolências durante a manhã de quinta-feira, ainda madrugada no Brasil. “A Itália perdeu um dos grandes protagonistas do teatro, da cultura e da vida cívica de nosso país”, disse.

Dario Fo apoiava o partido de oposição Movimento 5 Estrelas, do comediante Beppe Grillo, uma popular sigla antissistema que hoje governa a cidade de Roma. O dramaturgo era visto como uma de suas referências intelectuais.

“Um gigante de cultura italiana nos deixou. Ele era o guia moral do 5 Estrelas”, afirmou Carla Ruocco, parlamentar do movimento.

A morte de Dario Fo coincidiu com o anúncio do vencedor do Nobel de Literatura deste ano. O prêmio foi entregue durante a manhã, no horário de Brasília, ao músico Bob Dylan.

CRÍTICA

Dario Fo nasceu em 1926 em Sangiano, um vilarejo no norte da Itália, e passou a infância com seu pai, um ator de teatro amador que trabalhava em estações de trem. Dario Fo foi influenciado também pelo avô, um fazendeiro que contava anedotas enquanto viajava pelo interior vendendo seus produtos.

Ele foi obrigado a servir no Exército do ditador Benito Mussolini durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Mais tarde, desertou. Na década seguinte, escreveu uma peça satirizando a visão de história construída pelo fascismo na Itália.

Dario Fo estudou em Milão e trabalhou para a Rai, a televisão pública italiana, tanto escrevendo quanto atuando. Franca Rame, sua mulher, colaborou com diversos de seus trabalhos. Rame, a quem ele dedicou o Nobel, morreu em 2013. Em entrevista recente ele afirmou ainda sonhar com ela.

Sua obra foi ao mesmo tempo celebrada e duramente criticada na Itália. Um de seus textos, narrando histórias da Bíblia a partir da perspectiva dos oprimidos, foi condenado pelo Vaticano como uma blasfêmia.

“Morte Acidental de um Anarquista”, peça pela qual ganhou o público internacional, é baseada na história real de um funcionário ferroviário que caiu do quarto andar de uma estação de polícia enquanto era interrogado. Suicídio, segundo as autoridades —e homicídio, na interpretação do dramaturgo.

VERSÁTIL

No início do ano, com a proximidade do aniversário de 90 anos do dramaturgo, o jornal britânico “Guardian” havia publicado uma análise do pesquisador Joseph Farrell, autor do estudo “Dario Fo: Stage, Text and Tradition” (Dario Fo: Palco, Texto e Tradição).

Segundo Farrell, o italiano era um dos dramaturgos vivos mais encenados do mundo, com uma produção que não se limitava apenas ao teatro – ele era, por exemplo, autor de cinco romances.

Sua casa em Milão, descreve o pesquisador, era “como um estúdio do Renascimento: telas inacabadas empilhadas contra uma parede e um monte de secretários, artistas em ascensão e diversos assistentes executando seu trabalho”.

Com a visão debilitada, Dario Fo ditava seus textos. Pintores finalizavam as obras que ele havia rascunhado algumas, em seguida expostas em uma nova galeria na Itália dedicada inteiramente ao seu trabalho.

 

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