Viagem a Portugal (V): uma Ponte no fim do Mundo…

Vimos Amarante / seguimos adiante. A ocasião pede muito mais do que um esboço de trova, mas, vá lá…

A próxima parada é Guimarães, mais ao norte. Aqui nasceu Portugal, dizem os guias turísticos. Mas este país parece ter nascido em tantos lugares… Talvez nem tenha nascido em nenhum deles; pode ter vindo de muitos lugares ao mesmo tempo, ou mesmo de muito antes, ou até muito além das histórias registradas e contadas.

Estamos em pleno Minho, ou melhor, no que foi, um dia, a vasta província minhota, agora subdividida. O rio Minho está mais ao norte, fazendo fronteira com a Espanha e de outra vez espero conhecê-lo.

A cidade de Guimarães não é grande, pelo menos em suas dimensões físicas, pouco passando dos cinquenta  mil habitantes. Sua grandeza vem da história, Patrimônio Cultural da Humanidade e Capital Europeia da Cultura que é. Era ela a Vimaranes asturiana e galega do século IX, ainda no tempo do antigo Condado Portucalense.

A cidade antecede e prepara a fundação de Portugal. Já em 1118 aqui transcorreram alguns dos principais acontecimentos que levariam à independência e ao nascimento da nova Nação, donde o orgulho local, registrado em pedra: Aqui nasceu Portugal. O varejo da história também é contado e recontado com minúcias. Após a reconquista do território das mãos galegas, ainda no remoto século nove, pelo fidalgo Vimana Peres (que está na origem do nome da cidade), vem a excelentíssima senhora Condessa Mumadona Dias, cem anos depois, mandar erigir um mosteiro (tinha que ter um mosteiro, claro, afinal estamos em Portugal) e também uma fortificação (idem). Assim se criou a atual Guimarães.

Assim, a dita “Cidade Berço Lusitana” foi transformada em centro administrativo do velho Condado Portucalense, pontificando aqui as figuras de D. Henrique e seu filho D. Afonso Henriques, os verdadeiros Pais da Pátria portugueses. Um pouco mais tarde a cidade perde sua posição para Coimbra, muito antes de Lisboa subir ao cenário.

Guimarães é, acima de tudo, uma cidade agradável. Não é preciso falar de seu cinturão moderno, semelhante a outros que vimos por aqui, mas o centro histórico é digno de uma estada prolongada. Ruas curvas e confluentes, prédios de diversas eras, igrejas para todos os santos – aparentemente tudo igual a outras paragens deste país. Mas é tudo muito lindo e limpo. O que se vê nas ruas chama atenção, se não pelas livrarias, museus e igrejas, também pelos simpáticos restaurantes e cafés que abundam nas vielas estreitas.

Na Tasca Nicolino, cujo envolvente proprietário (ou gerente…) fica à porta com seu sorriso acolhedor, um versinho nos diz bem do clima da cidade: Quem deita tacão em bota / vende vinho ou bacalhau / meter o nariz não pode / na função de Nicolau. Ou, na nossa versão tropical: cada macaco no seu galho; ou na hispânica: pastelero a sus pasteles… O verso remete a uma festa estudantil tradicional na cidade, na qual o tal de Nicolau parece ter sido um sujeito respeitado. Pena que já havíamos almoçado e não pudemos provar o vinho o e bacalhau do Nicolino.

Guimarães nos ofereceu uma aventura (à falta de outro nome) curiosa. Tomamos hotel, de nome D. João de Avis, bem no centro histórico da cidade, mas não deixamos o carro à porta. Voltamos mais tarde para buscá-lo, pois a rua que não dava mão em direção ao estabelecimento. Aparentemente era caso apenas de se dar uma volta ao quarteirão, mas acontece que tal conceito, em cidade medieval, é muito relativo. Em suma, depois de mais de vinte ou trinta minutos de volteios intermináveis, indo mesmo até um ponto onde a cidade era vista do alto (e de longe), chegamos à conclusão que estávamos perdidos. E o GPS do carro não nos adiantava muito, eis que estava programado em alguma língua eslava, na qual nem o nome da cidade nos era possível saber se era o daquela em que nos encontrávamos. Mais meia hora de cabeçadas e alguma ansiedade por parte de alguém não queria se admitir como perdido (este que escreve), logramos alcançar o D. João de Avis.

O problema de se andar nas cidades e estradas de Portugal, como já disse antes, não é a falta de informação, talvez, mas seu excesso…

Mas a noite se encerrou em grande estilo, com umas bochechas de porco assadas com batatas, além de (mais) um bom vinho da casa, no pequeno restaurante de gentil proprietária e hostess, em estilo francês, que ficava bem defronte ao nosso Hotel.

E vamos a Braga. Este é lugar antigo também, mas entrou na história como berço do salazarismo e do conservadorismo religioso. Pobre cidade…

É bela a Bracara Augusta dos romanos, com certeza, donde o seu gentílico bracarense. A cidade é politicamente e demograficamente mais importante do que Guimarães, com mais de cem mil habitantes e seu status cidade sede regional.  Aqui predomina uma arquitetura mais cinzenta do que a de Guimarães, embora não possa garantir que nosso olhar para ela não tenha sido, ele próprio, um tanto cinzento… Aqui se revezaram romanos, galegos, suevos, árabes e sabe-se lá quem mais, antes de tomarem posse os lusos. Na era romana foi considerada uma das cidades mais importantes do Império.

Em Braga, um acontecimento cinzento, foi a reação destemperada de um vendeiro que implicou com Carmen, que tomava umas fotos de uma bela vitrina de quitanda, na qual favas, amêndoas e outros grãos era arranjados de forma artisticamente geométrica. Era pra ver, pra comprar  e pra comer, mas certamente não para fotografar. Mandamos o sujeito às favas e seguimos em frente.Vejam a foto.

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Próxima parada, Ponte de Lima.

Agora se vai pelo caminho certo: a estrada vicinal, aquela, do Portugal Profundo…  Faz frio e chove, mas longe de impedir, isso parece favorecer um contato mais próximo com as pessoas. Aqui uma carroça; mais adiante ovelhas; um ou outro cavaleiro; crianças jogando bola na beira da estrada; colegiais na volta das aulas e as eternas senhoras de xale e aventalzinho . Paisagem minimalista, casas simples, portuguesas, com certeza, com suas videiras, macieiras e outras frutíferas. Hortas, também – afinal a couve é ingrediente imprescindível do caldo verde português. Uma igreja ou outra, comércio discreto e organizado, sem aquelas placas enormes que emolduram os botecos e armazéns por aqui; portas de reparos de autos também. De vez em quando, cruzar por baixo a autopista de alta velocidade nos devolve a certeza de estarmos no melhor caminho.

Ponte de Lima… Imaginemos, primeiro, como disse Caetano Veloso, um sonho feliz de cidade. Ruas estreitas, calçadas quase artísticas, fachadas nobres em geral, embora mesmo quando simplórias, nunca deixem de estar enfeitadas com jardineiras e vasos, sempre na cor vermelha, com seus gerânios e avencas. Afastamos um pouco e logo alcançamos um gracioso caminho cercado de muros de pedra, que vai dar a uma Igreja barroca e, mais adiante, em outra freguesia. É o verdadeiro Caminho de Santiago, com tudo que ele dá direito. As fachadas brancas, as janelas com molduras de pedra e folhas de madeira pintadas de azul ou amarelo. Telhados onde o tempo pôs e continua pondo sua pátina. Voltando ao pé da colina, o Rio; mas este não será um curso d’água qualquer, como veremos a seguir. Do outro lado do rio, outra vila, menor, mas igualmente acolhedora, atendendo pelo gracioso nome de Arcozelo. Ao longo da margem de cá a alameda de choupos, podados todos à mesma altura, simetricamente, se mostrando como candelabros encimados por folhagem verde. No caminho, antigas mansões e prédios públicos e religiosos. O perfume das glicínias em toda parte é de embriagar e aqui elas se apresentam em variados tons de lilás. Nos jardins de uma pequena ermida o horto de plantas medicinais e especiarias mas completo que poderíamos ter encontrado. Eis a gentil vila de Ponte de Lima…

Aqui tem história também, claro. Reza a lenda que o rio que ao mesmo tempo nos cerca e abre caminhos, dito Rio Lima, foi durante algum tempo o limite do alcance do Império Romano, já há mais de dois mil anos. E não é que um dia os centuriões que chegavam, por ainda desconhecerem a região e menos ainda o que estava além dela, julgaram que o rio era o limite aonde poderiam chegar. Seria ele o mitológico Lethes, pelo qual quem passa deixa para trás toda lembrança, toda memória. E se recusavam a prosseguir. É então que o ousado comandante se atira às águas calmas do Lima e o atravessa a nado e, da outra margem, passa a convocar seus soldados, um a um, pelos nomes. Demonstrou, assim, que sua memória estava inteiramente preservada e não se diluíra nas águas límpidas daquele flumen. E assim os romanos avançaram e o Império deu novos passos em direção ao Norte.

Pra variar estamos em lugar antigo. Como município a Ponte existe desde cerca do ano mil e cem, por obra e graça de uma certa Dona Teresa de Leão. Está na região do Minho, eis que a fronteira com a Galícia jaz poucos quilômetros mais ao norte. Não é a cidade mais importante da freguesia: Viana do Castelo está logo ali do lado, junto à foz do Lima no Oceano, mas nada posso dizer sobre ela – não estive lá. Aliás, Ponte de Lima nem chega a ser cidade, é apenas uma Vila, mas, quem sabe, isso não chega a ser um problema, talvez seja mesmo a solução, ou um dos fatores que contribuem para o encanto especial deste lugar. Cinco mil habitantes, nada mais, a sensação que temos é a de poder vê-los todos nas ruas, em um simples passeio. Os nomes de lugares em seus arredores, por si só, fazem pura poesia: Paredes do Coura, Ponte da Barca, Peneda Gerés, Arcos de Valdevez, Vila Chã, Soajo, Entre-Ambos-os-Rios, Labrujo, Britelo, Vila Verde, Cerveira, Arcozelo, Caminha, Lindoso…

Da muralha medieval, milenar, ainda restam duas torres, além de uns pedaços esparsos, aqui e ali. Aqui, a muralha, longe de repelir, atrai…

A ponte por si só já traz uma história completa. Foi durante muitos séculos a passagem segura para se chegar ao Minho e à Espanha. Houve uma primeira ponte construída pelos romanos, da qual ainda resta um pilar na margem direita do rio. A atual, contudo, é produto da arquitetura medieval, havendo, segundo os alfarrábios, poucos exemplos que se rivalizam com ela em beleza e equilíbrio. Ela é passagem obrigatória dos peregrinos que se dirigem a Santiago de Compostela, conforme era no passado remoto e continua sendo até os dias atuais. Vejo também nos livros que as ruas da Ponte de Lima apresentam magníficas fachadas góticas, maneiristas, barrocas, neoclássicas e oitocentistas.

Mas as belezas naturais merecem também um parágrafo. Até a chegada, de quem vem do Sul (de Braga, como foi o nosso caso) a região é marcada por colinas suaves, sem grandes acidentes de relevo. Mas além do rio já se pode ver que a paisagem muda, com algumas serrinhas se dirigindo para o Norte e para o Leste. Aprendemos que nesta última direção fica o maciço de Peneda Gerês, que se estende até a Espanha. E logo logo dá vontade de mudar de rumo e ir por ali, já que Ponte de Lima era programa para um dia apenas. Em seguida pegaríamos o rumo de Santiago de Compostela, cerca de 300 km ao Norte, já em terras de Espanha (Galícia), mas nos pareceu ser de bom senso fazer ali uma parada de dois dias e meio, mesmo à custa de deixar a peregrinação para outro momento, em troca de uma subida às montanhas.

Um derradeiro comentário sobre a culinária local. Meu amigo Cristiano Barbosa já havia me dito que eu não poderia deixar de experimentar uma iguaria local ou regional conhecida como arroz de sarabulho. E já na primeira noite decidimos experimentá-la, ou melhor, decidi sozinho, pois devo confessar que me calei perante minha companheira a respeito dos ingredientes do prato: miúdos e sangue de porco…

Para quem quiser se aventurar, uma receita original garimpada na internet é a da Basílica de Santa Luzia, em Viana do Castelo. Vamos a ela:

Cozem-se as carnes em água abundante com a salsa, o casco de cebola, o louro e o sal. À parte, prepara-se um refogado pouco puxado com a cebola picada, o azeite, salsa e louro. Rega-se com um pouco da água em que as carnes cozeram e deixa-se ferver. Quando a calda estiver bem apurada e temperada, introduz-se o arroz. A calda deve ter cerca de três vezes o volume do arroz. Reserva-se a restante para acrescentar se for necessário. A meio da cozedura do arroz, junta-se o sangue e as carnes, que entretanto se desfiaram (com excepção das da colada). Mexe-se muito bem e deixa-se acabar de cozer. Serve-se o arroz assim que estiver pronto, enfeitado com as carnes da colada cortadas em bocados e algumas carnes desfiadas que se reservaram para o efeito.

Carmen, bem mais ajuizada do que eu, declinou do acepipe e jantou arroz branco com ovos fritos e salada. Eu até comi tal sarabulho, mas aquela verdadeira bacia de vísceras suínas diversas, com aquele arroz, dito malandrinho, ou seja, com o vermelho do sangue de porco bem vivo numa papa quase líquida, seria coisa para os fortes. Mas sobrevivi…

Ponte de Lima merece ainda uma flanada além ponte, com uma caminhada curta, mas inspiradora, na Arcozelo fronteira. Ali, chama atenção o belo e completo Museu Português do Brinquedo e um lindo Jardim Botânico, além da linda igrejinha colonial bem na cabeceira da ponte, de onde talvez tenham se inspirado os construtores de nossa Igreja de Nossa Senhora do Ó, em Sabará. Com um pouco de atenção para as belas chácaras (herdades) e suas vinhas, além de exemplares graciosos de residências antigas. Quem for a Santiago tem aqui uma pousada muito jeitosa, dedicada especificamente a tal clientela.

E vamos em frente. Peneda Gerés e o mundo nos esperam…

TORRE E MURALHA EM PONTE DE LIMA

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RUAS EM GUIMARÃES E BRAGA

CALÇADA E JARDINS EM PONTE DE LIMA

 

SÉ DE BRAGA

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CAMINHO DE SANTIAGO EM PONTE DE LIMA

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A BRIDGE SO FAR…

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