De bullying e bola

futebol-de-ruaNa minha geração, esta patologia atual a que chamam bullying já existia, embora com outros nomes, mas certamente acontecia bem menos do que agora. Aliás, esta nem era uma palavra conhecida. Para as crianças do Rio de Janeiro, talvez parecesse designar o jogo que chamávamos, em Minas, de bola de gude, que os cariocas chamavam de búlica. Não sei se alguém ainda se lembra deste nome, mesmo por lá.

É claro que os gordinhos, os muito tímidos ou os afeminados pagavam seu preço. Adolescentes costumam ser cruéis… Mas não creio que isso, embora condenável, não passasse do cometimento de alguns constrangimentos leves, devidamente corrigidos pelos professores ou pelas famílias. Porque naquele tempo as famílias cuidavam de maneira mais direta da educação dos filhos…  E a praga do politicamente correto ainda não grassava.

Mas quando disse que não havia bullying, pelo menos de modo sistemático, devo fazer uma ressalva, relatando algo que me afetou diretamente: a variedade, digamos esportiva, de tal modalidade de assédio.

Refiro-me ao que acontecia  – e creio que ainda acontece – com as crianças que não se destacavam ou pelo menos que careciam de maiores habilidades no trato com as bolas e outras ferramentas utilizadas na prática de esportes. Tal era o meu caso…

Eu bem que tentei. Joguei todas as peladas (também denominadas na ocasião de arranca-tocos) que estiveram ao meu alcance. Em vão. Meu irmão Eugênio, pouco mais novo do que eu, já se destacava, mas o meu caso parecia incurável. O resultado é que não era convidado para compor o time de ninguém e quando por acaso jogava, quando havia falta de jogadores disponíveis em campo, sofria horrores com as críticas maldosas dos demais jogadores. Perna de pau – era o mínimo que ouvia nessas ocasiões.

O fato é que acabei desistindo do futebol. E o mesmo se deu quando tentei o vôlei e o basquete. Na bolinha de gude até que me dei bem, mas sempre em patamar abaixo de alguns craques que sempre apareciam para humilhar os menos dotados.

Recentemente estive em reunião do colégio de meu filho de 13 anos, Flavinho, para que o professor de educação física apresentasse aos pais sua proposta de escolinha de futebol, que contava com grande entusiasmo por parte dos possíveis pupilos. Ali, o que mais ouvi foram palavras como campeonato, competições, atletas, penalidades, disciplina. Nada, mas nada mesmo como: cooperação, diversão, brincadeira.

Perguntei, então, ao apresentador, possível bisneto de Vicente Feola (ou, se quiserem, filho de Tite), que proposta ele tinha para aqueles garotos que não fossem efetivamente bons de bola, ou, quem sabe, preferissem o companheirismo à disciplina; as brincadeiras às penalidades; mas que mesmo assim insistissem no futebol. Eles não acabariam marginalizados pelos mais craques em tais disputas e campeonatos?

O moço ficou sem ter o que dizer… E os demais pais ali presentes fizeram cara de quem me achavam um verdadeiro marciano…

Não é que seja contra o ensino de futebol nas escolas. Mas é preciso ter em mente alguns princípios. Por exemplo, o de que a prática de tal esporte pode ser um baita processo educativo, a estimular o comportamento solidário e o respeito mútuo entre seus praticantes. E ainda: que há de haver opções menos competitivas para os que querem jogar, mas não são dotados das habilidades de tal ofício.

Minha experiência infantil, confirmada ao longo da vida, me mostra de sobra que para os menos dotados no esporte, que possivelmente são maioria,  o caminho é o do afastamento e mesmo da marginalização por parte dos ditos “bons de bola”. É realmente preciso incluí-los ao invés de excluí-los, como parece ser o caminho natural dentro deste esquema de campeonatos, competições, atletas, penalidades, disciplina.

Enfim, para os que realmente se destacam não só no futebol, mas também em outros esportes talvez o melhor caminho seja o de procurarem escolas avulsas, como aquelas que proliferam em toda parte, mas não como prática esportiva no ambiente escolar. Isso representa simplesmente a diferença entre incluir e excluir, a meu ver.

Pensando nessas coisas encontrei uma matéria de jornal, por esses dias, que reforçou, e muito, meus argumentos a respeito de tais problemas nas práticas esportivas.  Trata-se de pesquisa realizada por um professor especialista em formação de docentes, David Barney, da universidade americana Brigham Young, em artigo publicado recentemente na revista The Physical Educator. Ele parte do pressuposto que as práticas de escolha de times nas aulas de educação física ficam gravadas na memória de muitas pessoas como uma espécie de tortura. Argumentos frequentes entre os incomodados: “me escolhiam sempre por penúltimo” ou “ainda que não te escolhessem no final, você sabia que era ruim”.  O pesquisador propõe simplesmente acabar com tal tradição, que segundo ele faz as crianças associarem exercícios a algo negativo, além de não apenas ser humilhante para um adolescente, como também ter consequências emocionais de longo prazo. Assim, muitos dos estudantes que Barney entrevistou disseram não gostar de fazer exercícios, mas participavam dos jogos porque eram obrigados pelo professor. E arremata: “a prática não ajuda a dar confiança aos alunos e pode se tornar um ciclo vicioso que desencoraja crianças com pouco talento para o esporte”.

Ele propõe ainda a alternativa de se escolher as equipes de forma privada, para evitar humilhações o que traria, ainda, a vantagem de expandir o círculo de amizades dos alunos, sem se sentirem envergonhados ou excluídos, permitindo ainda que crianças e adolescentes possam avaliar seu desempenho segundo seu progresso pessoal e não de acordo com quanto tempo demorassem em se verem escolhidos por uma equipe.

Não chego ao ponto de repetir, como Churchill, quando lhe perguntaram sobre o segredo de sua longevidade, a despeito de não levar uma vida propriamente saudável. No sports, sentenciou o velho inglês. Mas acho que o esporte, do jeito que é levado no Brasil, elemento de desagregação mais do que de união entre pessoas. As cidades brasileiras, é bom lembrar, estão cheias de quadras de esportes pouco utilizadas,quando não detonadas, além de dominadas por verdadeiras gangs de jovens e mesmo adultos que são (ou apenas se consideram) melhores esportistas que os demais, excluídos.

Em outras palavras, não adianta fazer obras esportivas deste tipo se não há estrutura adequada para mantê-las. E como parte de tal estrutura a inserção pessoas capazes de falar uma linguagem que não inclua só palavras como competição e rivalidade, mas fundamentalmente cooperação e aceitação do outro.

E para substitui esta antipática palavra que é bullying, tanto em forma como conteúdo, percebo que na gíria jovem contemporânea existe uma palavra que bem o define, com bom humor e síntese: zoar.

Para quem se interessar pela pesquisa referida no texto: http://www.bbc.com/portuguese/internacional-38915422

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