Viagem a Portugal (VI): do Minho ao Alentejo

img_0019img_0025O plano, no princípio, era seguir rumo ao Norte, à Galícia e Santiago de Compostela. Mas Ponte de Lima foi mais sedutora, e por ali ficamos. Até porque aquelas montanhas a nordeste nos atraiam. E por elas fomos.

Caminhos tranqüilos, que acompanham o curso-acima do rio Lima. Natureza exuberante, às vezes até com um toque tropical. Cidades grandes não há, mas é raro andar mais de mil metros sem deparar com um aglomerado de casas. Aldeias, vilas, “lugares”. E tudo tem nome aqui, não é como alguns recantos do Brasil que parecem se chamar “Quebra Molas”, “Borracharia”, ou algo assim. E somos avisados pelas placas rodoviárias do começo e do término de tais paragens. E como elas se sucedem de forma abundante, mais uma vez se confirma o dito de que o problema, em Portugal, é o excesso, não a falta de informação.

Mas vamos ao que interessa.

Ponte de Lima, a linda, tem a poucos quilômetros uma cidade irmã: Ponte da Barca, ambas “upon” Rio Lima. Esta última, menorzinha, mas quase tão encantadora quanto. Em seu favor conte-se o fato que tem natureza mais exuberante e relevo mais montanhoso. Aqui, pelo visto, a ponte foi substituída pela barca. Mas o rio, pelo menos no momento em que passávamos por ele, seria facilmente vadeável. Seguindo em frente vai-se por aclives suaves escalando o maciço de Peneda Gerés. “Maciço” aqui, claro, é uma concessão, pois seus pontos extremos não passam de setecentos metros sobre o nível do mar. Mas estamos em Portugal e para os padrões locais é o bastante. Na Serra da Estrela, mais adiante, beiraremos os dois mil metros.

E segue a estrada, esta do bom e velho tipo vicinal, galgando suavemente as encostas, no meio de matas e sem quase nunca impedir de que se vislumbre o rio Lima, sempre muito cristalino-esverdeado e também domado à exaustão por uma série de barragens, às margens das quais não faltam áreas para camping e “refúgios de merendas”.

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Uma parada em um desses refúgios, à beira da estrada, sob o céu baixo e úmido, mas com tempo fresco, nos faculta mais uma merenda abastecida a pão, presunto cru, queijo de ovelha e bom (ótimo, aliás) vinho nacional.

E assim chegamos a Lindoso, já à beira de Espanha. Isso aqui parece saído de um conto medieval. Casinhas de pedra; ruas que mal dão passagem a uma mula; pequenas janelas, quase sempre fechadas; pessoas furtivas. O marco distintivo são as “espigueiras” (lusamente: “spigairas”), pequenas construções de pedra utilizadas para a guarda das colheitas de grãos, a salvo de roedores. À primeira vista (vejam a foto acima) mais se parecem a sepulturas, mas nelas quem manda é a vida, não a morte. E como pedra aqui é material abundante, da mesma forma que a disposição humana de talhá-la, causa forte impressão a verdadeira “mó” que cada uma dessas construções rústicas apresenta encimando seus pilares, no caso, para evitar a entrada de ratos. Mas cada uma dessas rodas de pedra deve pesar no mínimo uns duzentos kg. Impressionante!

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E vamos em frente, serrania acima. Próxima parada: Soajo, outra aldeia de pedra. Esta, ao contrário de Lindoso, que é aberta ao mundo, se cerca dentro de um círculo de pedra (aqui, a cobiça castelhana deve ter falado mais alto). Uma igreja no centro de tudo. As espigueiras continuam presentes. Lugar pitoresco, quase tanto como a aldeia vizinha. O que anotei de especial por aqui foi a menção de que é o lugar de origem dos sabujos, raça de cães de pastoreio tipicamente portuguesa. Aliás, vimos dois exemplares de tais cães atrás de um portão. Não foram muito amistosos, mas mesmo assim nos pareceram simpáticos.

O giro por Peneda Gerés continua por um caminho diverso para a volta, este passando por Arcos de Valdevez e um sem número de pequenos lugares, sempre acolhedores, com suas casinhas brancas, jardins e pequenos pomares nos quintais. Não há muito o que dizer sobre tal trajeto, mas uma única parada talvez possa traduzir o sentimento que tivemos ao passar por ali. São Jorge (ou Capela de São Jorge) é o nome do lugar, composto por uma igrejinha, meia dúzia de casas e uma venda. E como era sábado à tarde, havia pessoas na rua, até que abundantes, para os padrões que tínhamos visto até agora. Contemplando a igreja (antiga, sem ser uma antiguidade), fomos convidados a entrar por uma gentil senhorinha, que era zeladora do prédio, além de professora em Valdevez. Ali se ensaiava cânticos para festa religiosa próxima, com um grupo de jovens exercitando voz e instrumentos, inclusive um pequeno órgão elétrico. Eram jovens, estavam vestidos como jovens e se comportavam como tal. Mas não deixaram de nos causar a boa impressão de levarem profundamente a sério o que estavam fazendo. E isso nos pareceu constituir mais uma marca registrada de Portugal.

E agora, vamos para o Sul, cortando em linha transversa o país, à semelhança daquela faixa que os presidentes e as misses carregam consigo. Ou a camisa do Vasco da Gama, no Brasil.

Agora se trata de ganhar tempo e não haverá muito a dizer sobre tantas paragens que deixaremos de olhar de perto. Entre tais omissões que se registre, por exemplo, Vila Real, já quase às margens do Douro, cidade importante, famosa pelo vinho. Mas ficou para outra vez.

Logo nas imediações, ainda na região ao Norte do Douro, passamos pela simpática Vila Verde, onde, em pleno Domingo, uma feira de “velharias”, que é como os portugueses chamam as antiguidades, nos chamou atenção. E o que era para ser apenas uma passagem rápida se transformou em parada, que só interrompemos com dor no coração. Eis que as tais velharias nos cativaram.

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A passagem do Douro, que já havíamos feito próximo a Lamego voltou a nos encantar. Mas agora o fizemos por uma larga e longa ponte, parte da auto-estrada, que praticamente unia os planaltos dos dois lados das margens, sem descer à beira rio.

Em frente, na direção do sudeste, as cidades se repetiam, com seus nomes sempre cativantes ou intrigantes: Tarouca, Moimenta da Beira, Freixinho, Semanchele, Sequeiros, Trancoso. Nesta última, paramos, já sabendo que não iríamos encontrar absolutamente nada que fizesse lembrar sua homônima brasileira.

Trancoso é lugar de história antiga, como tudo por aqui. Cidade amuralhada, cercada por uma periferia moderna e de classe média e alta, pelo padrão dos apartamentos que se vê. Mas o que interessa é o que está dentro das muralhas, vamos entrar. Ruas estreitas, igrejas, janelas fechadas, ruínas, uma praça bem arborizada e acolhedora. Pouco movimento nas ruas e praças. Pequena vila, recém elevada a cidade em 2004. Aqui aprendemos que foi um centro judaico de importância em séculos passados. O grupo de turistas de Israel, alguns vestidos da maneira típica ortodoxa, logo confirma isso. As ruas dos judeus são conhecidas até hoje como “a Judiaria” (assim como há “a Mouraria em outras cidades, Lisboa, por exemplo). E as casas antigas dos judeus possuem uma característica interessante, qual seja a de possuírem duas portas, uma estreita, para entrada da família, outra larga, para as atividades comerciais e financeiras ali exercidas. Não chegamos a saber o que mais movimentaria a cidade, a não ser o turismo. Na partida, errando ligeiramente o  acesso à estrada principal, tivemos que aguardar a travessia de um rebanho de ovelhas, tocadas por um folclórico pastor. Quem sabe é também disso que se vive ali?

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Entretanto, para os leitores curiosos, vamos ver o que diz a wiki…  Trancoso possui numerosos monumentos, de esfera civil, religiosa ou militar, podendo mesmo ser considerada um expressivo centro histórico do país. Vejo também que ali nasceram “o profeta e sapateiro Antonio Gonçalves Annes e o Padre Francisco Costa”, mas, sinceramente, devo confessar minha ignorância a respeito da importância desses homens ilustres… Consta ainda que, na antiguidade, a antiga vila fazia parte de um conjunto de fortalezas situadas junto da fronteira com Espanha e que algumas das principais estradas romanas cortavam a região. A cidade já existia e tinha sua importância, portanto, mesmo antes de formar-se Portugal. Camões, em Os Lusíadas lembrou-se dela num verso: Já na cidade Beja vai tomar, vingança de Trancoso destruída… Não muito longe da cidade, encontra-se um importante sítio arqueológico, erigido a Patrimônio Mundial da Humanidade, com exemplares importantes de arte rupestre: o Vale do Coa, que não chegamos a conhecer.

Já estamos no Distrito da Guarda e sua cidade-sede é nosso próximo destino.

E logo vemos, ao Sul, a sombra cinza-azulada de uma grande cadeia de montanhas, não apenas para os padrões portugueses como de modo geral: a Serra da Estrela. Ao terminar sua escalada em magnífica autopista, se nos apresenta, ao cair de uma tarde luminosa, a cidade da Guarda.

Guarda é uma cidade inteiramente posta em longo plano inclinado. Não há aqui um simples metro linear ou quadrado totalmente nivelado com a superfície da terra, ao que parece. Boa cidade, movimentada, com prédios modernos em toda parte, alguns de vários andares. Afinal, trata-se de uma capital regional, que deve ter algumas dezenas de milhares de habitantes. Não chegamos a ver monumentos arquitetônicos muito marcantes, salvo a indefectível fortaleza no alto da colina. Sempre os espanhóis ameaçadores, aqui eles estão a pouco mais de 50 km…

Os alfarrábios nos informam que esta cidade tem, em seus arredores, Pinhel, Sabugal, Almeida, Belonte,  Covilhã, Gouveias, Celorico da Beira, Manteigas (é pra lá que vamos em seguida), além de outros nomes mais uma vez curiosos. Acima e além de tudo, estamos na mui afamada Serra da Estrela, terra de queijos, de ovelhas, de picos nevados até. Altitude de mil e pouquinhos metros, o que para nós, viventes em Brasília, seria bem normal, mas para os padrões de Portugal é coisa alta de fato. Aliás, isso faz da Guarda a cidade mais alta do país.

Chique mesmo, aqui, é o fato de se dispor de serviço ferroviário, a Linha da Beira Alta, totalmente eletrificada, chegando mesmo a ser o principal eixo ferroviário para o transporte de passageiros e mercadorias para o centro da Europa, com ligações à França e Espanha, via Salamanca, Valladolid e Burgos. Isso é de matar de inveja um brasileiro…

Curiosidade: Guarda é conhecida como a cidade dos Cinco “F’”. Na versão mais suave e favorável eles significariam: Forte, Farta, Fria, Fiel e Formosa. Mas como toda obra humana está longe de ser consensual e harmônica em toda parte, há quem tivesse achado por bem assim renomeá-los: Feia, Farta, Fria, Fidalga, Falsa…

E vamos a Manteigas, desta vez sem recorrer a informações enciclopédicas ou de alguma forma livrescas. No caminho, trajeto de no máximo 40 km, passa-se por um tosco lugarejo de nome Famalicão (existem outros em Portugal com tal nome estranho), que só mereceu visita, mesmo assim rápida, pela sonoridade curiosa que nos traz sua denominação. Lugar feio, cinzento, pobrezinho e alocado numa pirambeira, que logo nos convida a dar meia volta e seguir em frente, para a já mencionada cidade de Manteigas.

Mas que se registre, no caminho, a presença esfuziante dos enormes cataventos das usinas eólicas, que formam filas nos espigões, em toda parte. Ficamos curiosos em tentar descobrir por onde correm os fios que conduzem a energia que geram, ou deveriam gerar, já que não é possível enxergá-los. Não nos é possível crer que aqui também se fazem usinas estéreis em termos de geração de eletricidade, como no Brasil. Aqui, por suposto, o país é sério.

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Manteigas, que alcançamos após descer em um belo vale e subir por uma encosta aprazível, lembra as cidades do circuito das águas de Minas. Bem localizada, com seu entorno de montanhas e matas, com boas construções incrustadas nas colinas, ruas estreitas e curvilíneas, belos jardins domiciliares, ar friozinho e agradável de montanha. Um bom lugar, com atrativos apenas medianos, salvo os naturais, este sim, excepcionais.

Que fique registrado, com todo destaque, o grande acontecimento que usufruímos em Manteigas, o de termos experimentado, pela primeira vez nesta viagem, o famosíssimo Queijo da Serra da Estrela. Alguns adjetivos para ele: macio, suave, cremoso, gordo, cheiroso e, principalmente saboroso. Deixado no prato, mesmo em temperatura amena, ele logo que achata e se amolda à superfície continente. Só quem aprecia queijos, como é o nosso caso, pode avaliar corretamente uma maravilha assim. Já ouvi dizer que o nosso Queijo de Minas tem como antepassado o da Estrela. Pode ser… Mas prefiro considerá-los à parte, cada qual, cada qual… São iguarias reais, melhor não compará-las, para não ser injusto de um lado ou de outro. Até porque aqui a matéria prima é o leite de ovelhas; em Minas, o de vaca. Não voltamos a repetir a experiência. Assim, para nós, Queijo da Estrela só mesmo in loco.

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Ver Manteigas é como aplicar a dita cuja no pão: uma breve passada é o bastante. Mas seus arredores merecem algo mais. Orientados mais pela nossa intuição do que propriamente pelo Guia de Portugal que levávamos, tomamos um caminho de saída da cidade pra ver onde ia dar. E tivemos sucesso, por termos conhecido uma zona de florestas temperadas, com muitos pinheiros, mas ao mesmo tempo diversidade natural apreciável. A estradinha subia sempre, mas em nenhum momento nosso Peugeot, tão jovem que era, reclamou. Aqui e ali pontos de “merenda” e mirantes, nos quais uma paradinha sempre foi recompensada pela bela vista dos contrafortes do entorno da Serra da Estrela. Em lugar onde uma rápida e cristalina torrente cortava a estradinha, resolvemos parar e apreciar a paisagem, além de nos dedicarmos ao tradicional lanche de pão, queijo, presunto e vinho.

A natureza em Manteigas me trouxe a lembrança do capítulo inicial de “Confesso que escrevi”, em que Pablo Neruda nos apresenta o cenário de sua infância e juventude, em Temuco, no Chile, justamente um bosque temperado como aquele por onde agora passávamos.

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Por um ângulo mais prosaico, o passeio na floresta em Manteigas me trouxe também à mente o dilema dos famosos “núcleos rurais” de Brasília, entre eles o do Urubu, onde mora Carmen. Em Manteigas pudemos ver que a natureza, embora percorrida por múltiplas pequenas estradas e tendo mesmo casas de moradores esparsas aqui e ali, continuava ali, viva, pujante e respeitada. Já no DF, entra década, sai década, os tais núcleos continuam sem uma definição legal quanto a seu destino urbano ou rural, o que faz de seus moradores joguetes (às vezes cúmplices ou algozes também) do panorama de indefinição geral, nem sempre rejeitada, diga-se de passagem. E assim, não chegam estradas, não se oferecem serviços urbanos, não se confere cidadania, de fato. Mas se cobra IPTU… Entre os que talvez se alegrem com o estado de indefinição eterna, estão os especuladores e os invasores de terras, que se alimentam de um maná chamado “fato consumado”.

Moral da história: o modus operandi fundiário que vimos em Manteigas mostra que é possível, sim, regular a presença humana no seio da natureza, com rigor e respeito a direitos. Aliás, isso se vê também em Nova Friburgo, por exemplo, aqui no Brasil mesmo, onde temos ido com alguma frequência. Em suma, a convivência entre pessoas e natureza pode se fazer sem drama, sem protelação ou omissão dos governos, sem pilantragens privadas de toda natureza, inclusive daqueles que invadem terras públicas e se fazem de inocentes e proclamam “direitos” altamente questionáveis.

Ninguém vai a Portugal para ver neve, certo? Isso se resolve nos países mais ao Norte, quem sabe no Canadá, para os mais radicais. Mas em Portugal neva, acreditem! E seu epicentro é a Serra da Estrela. Não chegamos a vê-la em plenitude, apenas vimos depósitos da mesma convertidos em gelo nos pontos mais altos da estrada que tomamos a partir de Manteigas, seguindo na direção de Seia e Sabugueiro, tendo no caminho o pico mais alto da cadeia.

Neste pico mais alto, dito “da Estrela”, uma curiosidade. Sua altitude chega aos mil novecentos e tantos metros, por pouco alcançando os dois mil. Foi assim que um dom João da História Portuguesa mandou construir uma torre, na qual finalmente se alcançou a ambicionada altitude, duas vezes quilométrica. E como “Torre” ficou denominado o local, com belíssima vista em trezentos e sessenta graus e instalações de esqui em seu entorno. O pedregal que faz parte da Serra, todo de granito cinzento é um espetáculo à parte, com variadas formas e colorações. Aqui e ali, monumentos religiosos cavados na rocha. Mas cuidado com os frigidíssimos ventos que batem nessas paragens…

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As estradinhas da Serra também merecem duas palavras. É uma aventura deliciosa trafegar por elas, eis que vão subindo as encostas degrau após degrau. E se vê por ali, também, obras portentosas de engenharia, feitas aparentemente para conter o degelo e garantir fornecimento de água para as cidades das encostas.

No rumo do Alentejo, passamos por Covilhã. Impressão, de passagem: cidade elegante, em plano inclinado, muito arborizada, moderna (pelo menos é vista assim de dentro do carro). Consta que é sede de indústria têxtil importante, donde os versos imortalizados por Amália Rodrigues: Covilhã cidade neve / Fiandeira alegre e contente / És o gesto que descreve / O passado heróico e valente /…/ Covilhã és linda terra / És qual roca bailando ao vento / Em ti aura quando neva / Covilhã tu és novo tempo.

Em matéria de nomes intrigantes os arredores de Covilhã são pródigos: Canhoso, Teixoso, Sarzedo, Cantar-Galo, Boidobra, Tortosendo, Pampilhosa, Arganil. Chega, né?

Agora rumo ao Tejo e além dele.

Vamos por uma região de planaltos, uma montanha aqui outra ali, sem grandes destaques em matéria de relevo. Cidades de certa importância, como Castelo Branco e Portalegre passarão ao largo. Ansiamos por logo atravessar o Tejo, mas a passagem do mesmo, de certa forma, é decepcionante, já que ele, além de não ser muito largo, está contido por uma represa. A estrada faz uma descida sinuosa, porem curta, e do Aquém passamos rapidamente ao Além-Tejo.

A primeira marca da nova etapa são os sobreiros. Quando os vimos pela primeira vez, achamos que eram árvores sem maior apelo. Mas logo percebemos as placas de numeração (contendo provavelmente as datas de extração da cortiça) e os segmentos mais claros de troncos, já devidamente descascados. Nobres árvores, que terão um repouso merecido – se é que já não o têm – com as novas tecnologias sintéticas de sucedâneos das rolhas, para não falar das tampas rosqueáveis.

Além de sobreiros começam a ser vistas, agora em maior número, muitas videiras e oliveiras, em regime agroindustrial. E a vontade de que a noite chegue para se saborear um bom vinho alentejano vai crescendo nos viajantes.

Duas amostras do Além-Tejo: Estremoz e Evoramonte. A primeira é uma cidade pequena, mas bem movimentada, provavelmente pela sua vocação vinhateira, com belos monumentos em pedra branca. De longe se vê o sol refulgindo nas torres de igrejas, muralhas e outras construções, mesmo mais modernas. O Guia escrito que nos acompanha nos explica que aqui abunda o mármore branco, que faz parte mesmo do calçamento das ruas.

 

Evoramonte é uma aldeia muito pequena. Sua grande atração é um castelo, para falar a verdade, o mais estranho e desproprorcional que vimos no trajeto. Ergue-se como uma estrutura sólida e atarracada, formado por quatro torres que praticamente se erguem juntas, com as paredes de cor cinzenta suja. Pertenceu ao clã dos Bragança e o Guia nos informou que sua principal característica arquitetônica é dada pelas paredes revestidas de “betão”. Betão? O que seria isso? Para viajar em Portugal é bom ter em mãos, algumas vezes, um bom dicionário de português… Mas a dúvida desaparece logo quando nos lembramos de “betoneira”. Ou seja, “betão” aqui é o que chamamos de “concreto” no Brasil. Apreciada a tal excentricidade dos Bragança, é hora de seguir adiante.

Além da topografia mais plana e das plantações de sobreiros, oliveiras e videiras, o Além-Tejo nos oferece outra característica marcante, esta de produção diretamente humana. Com efeito, as construções daqui têm, na maioria das vezes, paredes brancas com barrados e cantoneiras pintadas de outra cor, tipicamente o amarelo-ocre, ocasionalmente o azul-celeste. Isso dá muita harmonia e poesia à paisagem. Há aldeias, como a de Evoramonte, por exemplo, em que todas as casas, sem exceção (ou com a única exceção do monstrengo bragantino…), são pintadas de branco e amarelo-ocre. E sempre se sobressaem das residências chaminés de base retangular e bem largas, não saberia dizer se derivadas de fogões de lenha ou de lareiras, se bem que aqui é considerada uma região de clima mais quente em Portugal.

Mais adiante, ainda com dia claro, uma rotatória na rodovia nos lançou dúvidas na mente. À frente, Évora; do lado esquerdo, Castelo de Vide; à direita um lugar chamado Flor da Rosa, que ainda não tinha entrado na história. Como era cedo e Évora poderia aguardar o dia seguinte, resolvemos explorar o lado direito.

A rodovia singela, rodeada de sobreiros, já nos anunciou surpresas quando vimos a placas indicativas características dos monumentos megalíticos, que são frequentes em Portugal, em variada tipologia (cromeleques, dolmens, menires e outros). Estavam em propriedades cercadas e não chegamos a visitá-los, embora fosse possível apreciá-los à distância. Mas o melhor estava por vir. Ao longe, então, vimos uma estrutura robusta e sólida, de contorno arredondado, que me pareceu, à primeira (e equivocada) visão um daqueles silos agrícolas comuns em Goiás nos arredores do DF. Mas qual! Quando chegamos perto, constatamos maravilhados que o Castelo dos Bragança já merecia ser esquecido, pois estávamos diante de novo castelo (ou mosteiro) dos mais graciosos que vimos.

O nome do lugar é Flor da Rosa, pertencente à cidade (“Concelho”) de Crato, que fica logo adiante. E cumpre procurar nos alfarrábios.  O Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa, também referido como Mosteiro da Ordem do Hospital (ou Ordem de Malta) de Flor da Rosa é considerado o exemplo mais distinto de monastério fortificado da Península Ibérica e foi construído cerca de 1356. Suas funções, hoje, são mais profanas e pacíficas, sendo sede de uma das espetaculares unidades das Pousadas de Portugal. Coisa de quinhentos Euros a diária, mas a visita é gratuita – e vale a pena. Vejam a foto!

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Seguindo em frente, ou melhor, tomando o lado esquerdo da rodovia, que vai dar na Espanha, agora de acordo com o programado, nosso destino é Marvão, uma das aldeias históricas e tradicionais de Portugal, outrora berço de camponeses e pastores tipicamente lusitanos, mas recente território do negócio turístico. Mas as recomendações eram boas e para lá seguimos. No caminho uma surpresa, não prevista nos nossos roteiros: em uma colina à esquerda da via surge uma bela cidade, galgando o morro e encimada por um castelo, com um aglomerado de casas e sobrados alvos como a neve. Era Castelo de Vide e achamos de bom alvitre conhecê-la melhor, na volta de Marvão, quem sabe um bom pouso para se dormir e jantar.

Marvão é uma a aldeia antiga, num alto de montanha, a Serra de São Mamede, que não rivaliza com a da Estrela, mas de toda forma compõe uma das poucas cadeias montanhosas de Portugal. Ela hoje está quase abandonada por seus moradores originais, gente do campo, e os negócios ligados ao turismo é que dão o tom da vida no lugar. Lugar pra lá de gracioso e pitoresco. Imaginem duas ou três ruas estreitas, no espigão da montanha, com travessas ligando umas às outras. Casas e pequenos sobrados ajuntados, mais uma vez branquinhos, da mesma forma que a muralha, também branca caiada. Não faltam os já citados detalhes amarelos ou azuis. Ao longe se vê uma cidade espanhola de cujo nome não me recordo. A muralha, então, se explica – o perigo castelhano estava bem perto…

Em Marvão conhecemos personagem diretamente saída de uma fábula medieval, daquelas em que as bruxas pontificam. Era a dona de uma pequena loja de artesanato para turistas, portuguesa, ao contrário do habitual no país, em que tal comércio é dominado por indianos e chineses. Seu negócio era, sem dúvida, um artesanato mais sofisticado do que os Xing-ling, diga-se de passagem. Uma figura, a tal mulher: baixinha, magra, rosto encovado, olheiras profundas e uma vastíssima cabeleira encaracolada e quase branca que lhe ornava o crânio com uma circunferência de quase meio metro de diâmetro. Uma Maria Betânia miúda. Seu olhar furava paredes… Mas era do bem a tal bruxinha; permitiu mesmo que Carmen fotografasse algumas das peças à venda, embora nos alertasse que isso normalmente não era facultado aos visitantes, já que as bijuterias expostas eram criações originais suas.

A visita a Marvão incluiu breve passada na Pousada de Portugal ali instalada, luxuosíssima, antiqüíssima, caríssima. Ótimo lugar para uma lua de mel de cônjuges abonados. Mas os quinhentos euros (ou mais) que nos custariam ficar ali nos reforçaram a ideia de que o melhor seria ir pernoitar em Castelo de Vide, a bem poucos quilômetros de distância.

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Castelo de Vide, assim como Flor da Rosa, são bons exemplos de que, ás vezes, o que não está programado é o que mais nos surpreende. Com efeito, mal havíamos prestado atenção em sua indicação nos mapas, nos quais ela comparecia apenas como ponto de passagem para se chegar a Marvão, esta sim cheia de referências. Vide, seu nome íntimo, é mais uma cidade portuguesa branca, limpa, inclinada e encimada por uma fortaleza. Até aí sem novidades, como se vê. Mas valeu bem o passeio que fizemos por suas ruas estreitas e, principalmente, a intrusão em sua muralha no alto da colina, que para surpresa nossa abrigava, não ruínas ou monumentos históricos, mas um pedaço adicional da própria cidade. Aqui, ruas mais estreitas ainda e casas mais baixas. A grande surpresa foi o costume local de jardinagem personalizada em cada uma dessas ruas, com um concurso anual de escolha da mais bela rua-jardim. E nas esquinas principais se vêem placas registrando que aquela viela ganhou os concursos de anos tais e tais. Belo costume, não? E aparentemente sem dinheiro público na jogada. O que importa de fato para os moradores está em plano simbólico, apenas. Mais uma diferença cultural marcante com o Brasil, este filho grande e meio bobo que Portugal produziu Além-Mar…

Andar pelas muralhas de Vide, ao por do sol, foi um espetáculo à parte, igualmente não programado, mas muito bem fruído. Dalí, a vista alcança longas distâncias, sempre na planície alentejana. Faltou um vinho ali, para brindarmos um momento tão especial de nossa viagem, mas sem problemas, deixamos para logo mais. E assim uma bela noite se cumpriu. Como a cidade é um tanto pacata e nós já saímos do hotel para procurar um restaurante passado das nove horas, custamos um pouco a achá-lo. E para desgosto inicial nosso, o único estabelecimento disponível abrigava um jantar festivo e um tanto ruidoso, que em seguida descobrimos reunir a própria família do proprietário. Mas, mesmo assim, estavam funcionando. Enquanto decidíamos nossos pedidos, já lubrificados pelo vinho da casa, que desta vez pedimos em jarra de litro, nos veio até a mesa o próprio dono, que se apartou dos familiares na mesa adiante para nos receber e fazer as recomendações de praxe sobre os pratos da casa. Foi mais um caso de empatia à primeira vista, aliás, coisa frequente para nós em Portugal. O sujeito gostava de brasileiros ou, pelo menos, gostou de nós. Era o presidente da Câmara local, ou seja, bem o que chamamos no Brasil de Prefeito Municipal. Os pratos indicados foram um tanto carregados no volume e nos temperos, para aquela hora da noite, pelo menos. Para rebater, mais um litro do bom vinho doméstico. Na despedida, o presidente mandou descer sua melhor aguardente vínica para um brinde conosco. O final da noite foi o previsível. Já não sabíamos se o hotel estava à direita, em frente ou à esquerda. Não tínhamos como certo nem mesmo a cidade onde viéramos parar. Mas a ressaca foi bem rebatida com o café da manhã, antes de seguirmos rumo a Évora.

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Évora, outra cidade amuralhada. Mas esta das maiores do que as que vimos até agora, rivalizando, talvez, com Guimarães e Braga. Suas muralhas são brancas e amarelas, bem como boa parte dos edifícios lá dentro. Cidade antiga, seus primórdios remontam a antes de Cristo. Foi possessão, romana, visigótica e moura, até se tornar totalmente lusa cerca do ano 1100. Ela hoje é a capital de um distrito, dito de Évora, com população de 50 mil habitantes. Faz parte de uma rede européia de cidades antigas. No capítulo dos nomes curiosos ela é quase imbatível, pois em seus arredores estão Arraiolos, Estremoz, Redondo, Reguengos de Monsaraz, Montemor-o-novo, São Manços, além de outras preciosidades linguísticas.

A passada em Évora foi curta, apenas uma tarde-noite e parte de uma manhã. Tal cidade, certamente, merecia mais. O centro histórico é bem movimentado, com muitas igrejas, prédios antigos, hotéis e um espetacular templo romano, muito bem preservado. A visita (rápida) a uma biblioteca pública revelou tesouros arquitetônicos e culturais, além de muita organização e um público numeroso, jovem e diletante presente em suas bancadas. Na ida para lá, uma curiosa rua abrigada na lateral de um antigo aqueduto, em cujas arcadas “cresceram” moradias, simples certamente um dia, mas hoje até sofisticadas e, com certeza, muito valorizadas por terem tal cobertura nobre. Uma rua central, com calçadas sob arcos, mostrou uma face particularmente elegante de Évora. Ali, uma loja de chapéus me provocou o consumismo para tal item – e eu já saí de lá com a cabeça coberta. No mosteiro franciscano, uma das atrações máximas da velha Évora, a capela forrada de ossos humanos, de todos os formatos, calibre e procedências. Dizem que é para evocar a falibilidade humana. O ar frio e úmido no interior meio obscuro só contribui para o clima macabro. Ufa! É ver e partir.

O nome Reguengos-de-Monsaraz por si só nos provocou o desejo de ir até lá. Depois, graças ao porteiro de nosso hotel, que ali havia nascido, ficamos sabendo também dos bons vinhos produzidos na localidade. A descrição do Guia falava em mais uma daquelas aldeias antigas, brancas e amuralhadas. Já de partida para Lisboa, para encerrar a viagem, resolvermos dar uma chegada lá. Tomamos informação com o simpático reguenguense e lá fomos. Ou melhor, tentamos fazê-lo. Foram três ou quatro tentativas inteiramente frustradas, que nos levaram de volta ao mesmo lugar, ainda dentro de Évora ou, na melhor das hipóteses, a trafegar, segundo nos indicava a posição do sol, rumo ao Norte, quando a viagem deveria ter a direção do Sudeste. Quando finalmente julgamos estar acertando o caminho, vimos a placa de Montemor-o-novo, anunciada a uma dúzia de quilômetros. Mas aí já estávamos, sem perceber, na estrada para Lisboa e resolvemos deixar o périplo a esta localidade de nome tão simpático e intrigante para outra ocasião.

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Viajar pelo Alentejo, particularmente no rumo de Lisboa, é na verdade, um pouco monótono. A vantagem é que as distâncias são bem curtas, pouco menos de 140 km, no caso. Mas para tudo cabe um olhar… Aqui há que se apreciar a paisagem de sobreiros, de pinheiros e de videiras, sempre plana, até que a vista se perca no horizonte. Entramos em Montemor-o-novo só para ver o já visto, ou seja, outra cidade amuralhada, só que aqui, mal conservada. Digno de nota no caminho, por se constituir mais uma inesperada e agradável surpresa foi a vila de Vendas Novas, talvez uma daquelas Abadiânias da vida, lugar onde se para apenas para fazer xixi… Mas como urgia, além de urinar, comer alguma coisa – e tínhamos a ração de vinho, queijo, chouriço e pão para encerrar condignamente nossas merendas – resolvemos entrar na área urbana, já que nas estradas portuguesas quase não há lugar para paradas. E ali dentro da modesta e despretensiosa cidade não é que encontramos um parque super agradável? Ali armamos nosso pano de piquenique, fizemos o que era preciso fazer, agora com sabor de despedida e ainda tiramos uma pestana no gramado limpo e bem cuidado do parque. Ah, sim: o xixi foi devidamente executado no pequeno boteco ao lado, com o detalhe das paredes cobertas de cartazes de touradas e rodeios. Mais Portugal-profundo, impossível.

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Esqueci de dizer que nesta rota presente, viajamos pela estrada vicinal pequena. Não tanto por tê-la procurado intencionalmente, mas devido à confusa e mal sucedida procura de Reguengos de Monsaraz, que acabou nos trazendo, independente de nossa vontade, até ela. Para chegar a Lisboa, a intenção era adentrar a capital pela magnífica ponte Vasco da Gama, uma das maiores do mundo, que atravessa o Tejo à jusante de Lisboa, com 13 ou 15 km de comprimento. Isso nos remeteria a passar pela região de Moscavide, onde estão o Oceanário, as Torres Vasco da Gama, o Pavilhão Atlântico, marcos de uma arquitetura moderna e pujante portuguesa, além de ser uma região aprazível, beira Tejo, repleta de jardins e prédios  interessantes. Logo percebemos, entretanto, que pela tal estradinha iríamos dar em outro lugar, sem acesso à autopista que conduz a tal passagem sobre grande rio. O resultado é que fizemos uma larga volta, 50 km ou mais, que só nos permitiu atravessar o Tejo em um ponto situado acima, Vila Nova de Xira, se não me engano. Pelo menos pudemos apreciar uma região quase deserta, embora muito próxima a Lisboa, dominada por pinheiros selvagens e pouquíssimas obras humanas. Tudo vale a pena, se a alma não é pequena…

Atravessado finalmente o Tejo, os mapas dessa vez nos ajudaram, de forma que fomos realizar um sonho de consumo mais a Oeste, em Loures, onde uma gloriosa loja Ikea nos esperava.

Comentário final: entramos em Lisboa lá pelas 19 horas, momento em que as vias de acesso e saída das grandes cidades aqui no Brasil ficam coalhadas de veículos, com seus motoristas estressados, além de poluição e buzinaços. Aqui, não. Tudo tranqüilo, padrão “domingo de manhã” em termos brasílicos.  Os comboios passando rápidos, muitas vezes rente à estrada principal, nos esclareciam a razão de tanta calma.

De volta a Olisipo. Hotel, saída para jantar, cama e aeroporto. Quem quiser que conte outra…

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