De Brasília ao Rio São Francisco e mais além: um roteiro não convencional

O rio São Francisco não banha Brasília. Nem passa perto. Mas nem por isso podemos considerá-lo como um estranho em nossa cidade.

Primeiro, porque se nos movermos umas poucas dezenas de quilômetros para o Leste, já estaremos em sua bacia. O Rio Preto, que nasce no DF corre para o São Francisco. O município de Formosa já é totalmente são – franciscano e, aliás, algumas das nascentes de um de seus afluentes mais conhecidos, o rio Urucuia, ficam ali. Esta cidade, como Brasília, fica em um divortium aquorum importante, só que na separação das águas do São Francisco e do Paranã, que é amazônico, enquanto o DF está a cavaleiro das bacias amazônica e platina. Isso pode parecer uma mera curiosidade geográfica, mas me encanta particularmente.

Mas além da geografia, acho que não deixamos de ser caudatários do Velho Chico aqui no DF, só que agora em termos humanos e culturais, pois tem muita gente aqui que trouxe seus costumes, linguajar, culinária e tradições de vastas regiões banhadas pelo tal “Rio da Unidade Nacional“, seja em Minas Gerais, na Bahia, em Sergipe, Alagoas e Pernambuco, além de Goiás.

Que tal um passeio ao rio propriamente dito? Podemos escolher: por uma via convencional, toda asfaltada ou em um programa um pouco mais aventureiro.

Se a escolha é pela primeira opção, no rumo de MG, vai-se na BR-040 até o trevo de Pirapora, onde  o grande rio pode ser atravessado, não sendo poucos os atrativos de tal caminho. Temos aqui cerca de 500 km de estradas asfaltadas, pelo que sei, em boas condições. Ainda pelas vias asfaltadas, é possível andar um pouco mais e atravessá-lo em Ibotirama ou Bom Jesus da Lapa, na Bahia, distando cada uma delas a mais de 600 km de Brasília.

Mas a minha mais recente opção foi pelo caminho da aventura… Mas como verão, talvez os mais aventureiros até peçam mais.

Assim, a viagem começa exatamente por Formosa. Via BR-020, adentraremos no Vale do S. Francisco já nos altos que ficam uns dez km antes da cidade, logo após o ribeirão Pipiripau, que ainda faz parte da bacia do nosso rio, o São Bartolomeu. Aqui podemos ver os primeiros exemplares da Acrocromia aculeata, a conhecida macaúba, que é espécie constante em todo o vale são – franciscano, embora não seja endêmica dele. Vinte km adiante da antiga Formosa dos Couros vamos tomar, pela direita, a estrada para Cabeceiras, nome muito apropriado, aliás, que nos dirigirá a duas localidades com tal designação, uma ainda em Goiás, outra em Minas. Vamos prosseguir, sempre pelo asfalto, até Arinos e Urucuia, que distam deste entroncamento mais ou menos uns 100 e 140 km, respectivamente. Tal estrada, com as plantações de soja, eucaliptos e pastagens que a margeiam, pode parecer monótona e sem-graça à primeira vista. Mas é preciso prestar atenção nos detalhes. E eu chamaria atenção para pelos dois pontos de destaque no trajeto: as veredas de buritis, embora um pouco devastadas atualmente pelo agronegócio e as chapadas que se sucedem a perder de vista, até que começaremos a descer daquela em que estamos.

A descida para Arinos nos gratifica os olhos e é bom prestar atenção na mudança radical da natureza, entre o planalto e a região mais baixa, com menos soja e eucaliptos, mas ainda com pastos, mas certamente detentora de um cerrado bem mais exuberante onde pontificam os baruzeiros, a sucupira-branca e os pequizeiros, além de esporádicas barrigudas.

E já estamos no Urucuia, rio de respeito, personagem do Grande Sertão: Veredas. Não precisa entrar em Arinos, que carece de maiores atrativos. Mas pelo menos vale a pena dar uma parada junto à ponte, para apreciar o caudal verde escuro e denso do Urucuia, barrento no tempo das chuvas, para saudá-lo e pedir passagem.

A estrada agora prosseguirá dentro de um cerrado ainda denso, embora previsivelmente rarefeito pelas pastagens em muitas partes. Mais adiante um trevo nos levará a Chapada Gaucha e também a Januária, mas não é por aqui que iremos desta vez.

Meia palavra sobre a tal Chapada estrangeira… O lugar é território de sulistas imigrados nos anos setenta, dentro da estratégia da ampliação de fronteira agrícola do regime militar. Era um simples povoado e agora virou cidade. É um grande pólo produtor de sementes de capim, não propriamente de soja ou cereais. Sua maior importância hoje, com todo o respeito pelas bombachas e tomadores de chimarrão que circulam por suas ruas, é ser a sede do Parque Nacional do Grande Sertão Veredas. Não é pouca coisa. Mas cuidado para o trator ou a colheitadeira não te atropelarem, ok?

Estamos agora em Urucuia, que como sua vizinha Arinos não possui grandes atrativos. Há placas indicando balneários e campings junto ao rio que lhe está próximo. Mas não chegamos a conhecer tais paragens.

Agora, fim do asfalto, mas isso não deve ser motivo para preocupação. Salvo a poeira e as ”costelas”, além da lama em tempos de chuva, a estrada é transitável durante todo o ano, e não chega a ser totalmente deserta, embora não existam nela lugares onde se possa parar para um café ou mesmo postos de gasolina. São 70 km até a chegada ao Rio, em um lugar apelidado graciosamente de “Pintópolis”. Vê se pode…

Em tal caminho, levar um guia de plantas do cerrado, para os mais curiosos pelo menos, pode ser providencial. De passagem pude ver que os pequis e o baru são frequentes por ali. Mas o que mais chama atenção, se você trafega no tempo da seca, são as primeiras presenças da “mata seca”, uma das características do lado de lá do Rio, mas já presente aqui, em manchas esparsas. A mata seca, também chamada de caducifólia perde todas as suas folhas no período do inverno seco da região, e se apresenta como um lençol cinzento-quase-azulado, que choca um pouco pela aridez e aparente falta de vida. Depois de Montes Claros ela terá presença constante, mas aqui existem apenas pequenas faixas aleatórias.

Pintópolis, cidade de primeira. Se engatar a segunda marcha, já terá passado. Vamos em frente.

Já se percebe que estamos agora em uma planície bastante achatada, com o cerrado agora mais exuberante. É que o grande rio está perto. Mas você só o verá quando chegar à barranca, pois o relevo muito plano não permite vislumbrar nada mais distante. E chegando à barranca vem o dilema: onde atravessá-lo? Sim, porque não há ponte – esqueci de informar…

Cabe então procurar o ponto onde a balsa está operando, que pode ser alguns km rio acima ou abaixo de onde estamos. É assim mesmo, ninguém manda no rio. E os balseiros têm que se virar para encontrar os “portos” mais acessíveis, porque aqui há carros pequenos, ônibus e até carretas a embarcar.

Mas você não se perderá, fique tranquilo: uma plaquinha modesta, mas bem esclarecedora, lhe indicará o caminho: balça segui abaxo

A barranca é a desolação personificada. Meia dúzia de barracas toscas vendendo cerveja, cachaça e biscoitos industrializados, nada mais. Algumas não têm paredes, com apenas uma cobertura de sapé, rodeada de lona preta. Normal, pois com as mudanças de humor do Rio é preciso mudar o ponto de embarque ou de comércio várias vezes ao ano. Mesmo para fazer um xixi, a solução é o mato mesmo. As mulheres que se cuidem.

A travessia do rio… Chegamos ao ponto culminante da viagem ou tem mais pela frente? O rio agora certamente não é o mesmo de tempos idos. Na época da seca, então, ele terá se retraído grandemente. Mas em compensação sua água azulada, seu correr macio, o reflexo do céu dentro dele, as margens em galeria, as aves aquáticas que voam e nadam em seu leito – não têm preço! Valeu a pena ter vindo até aqui. Espero que sua máquina tenha filme ou, pelo menos, seu celular disponha de boa bateria, para que você não deixe passar a oportunidade de fazer belas fotos.

E voltamos ao asfalto. Estamos na cidade de São Francisco e daqui se acessará toda a região do Norte de Minas, incluindo Montes Claros, Pirapora, Januária, São Romão, Manga, Montalvânia, Itacarambi e mais adiante até a Bahia. A cidade é aprazível, arborizada e bem posicionada sobre o rio, com um comércio que impressiona. Finalmente se pode tomar um bom café e adquirir um pão feito na hora. Idem para um saque eventual na agência do Banco do Brasil. Quem sabe, até a compra de algum artesanato em palha ou barro, uma cachaça de fabrico local, um requeijão “moreno” e uma embalagem de castanhas de pequi se encontrará em seu mercado municipal? Se estiver com tempo, vale a pena dar um olhada.

Seguindo em frente estaremos, em pouco mais de uma hora, na grande Montes Claros, capital sertaneja, terra do pequi, urbe de cultura própria. Sempre pelo asfalto, agora.

Montes Claros é uma cidade grande, com algumas centenas de milhares de habitantes. Meio feia, meio bonita; meio grande, meio pequena; meio pobre, meio rica. Ou talvez seja 75% pobre e 25% rica, se tanto. Foi sede de um grande projeto industrial nos anos 70, mas parece não ter sobrado muita coisa do paraíso de incentivos fiscais que foi criado ali, de cima para baixo, como era costume na época (e continua sendo…). O que de fato interessa nela, hoje, tem a ver com gastronomia, sem descuidar de uma cultura local expressiva, em termos literários, musicais, plásticos. Aqui nasceu Darci Ribeiro, por exemplo, mas também Yara Tupinambá (grande artista plástica mineira), Godofredo Guedes, pai de Beto Guedes, grande músico e muitos outros.Tem um bom punhado de políticos safados, também, mas afinal, onde não se os encontra?

A gastronomia montesclarense é de alto nível. A dupla carne de sol e arroz com pequi domina o cenário, mas não se pode esquecer do requeijão dito “moreno”e das cachaças locais, embora o verdadeiro centro produtor de aguardente esteja em Salinas, um punhado de quilômetros adiante. Goianos e montesclarenses que decidam a pendência histórica relativa à verdadeira capital do pequi… Um extenso mercado municipal é passagem obrigatória, principalmente se o objetivo não for o de comprar legumes e folhas para o almoço. Mas em matéria de queijos típicos sertanejos, carnes de sol variadas, além de frutas do cerrado diversas, muito além do pequi – ali é parada obrigatória. No artesanato tem coisas interessantes também. Eu e minhas companheiras de viagem apreciamos, de com força, o que se faz em barro e talha de madeira, além de um curioso e isolado artesão que trabalha com latas usadas, delas extraindo lamparinas com formatos diversos, muito graciosas.

Meus amigos montesclarenses não me perdoariam se eu omitisse alguns fatos importantes de sua cidade. Vamos lá: ela está chegando aos 400 mil habitantes e é local de ocupação há mais de um século, podendo ser considerada uma verdadeira capital regional, em termos de indústria, comércio, educação e cultura. Na educação é sede de mais de uma universidade, com grande atração regional de estudantes. Há diversos atrativos naturais e mesmo históricos, tais como parques urbanos, igrejas, além de vários sítios arqueológicos, os quais, devo confessar, não cheguei a conhecer.

Nossa próxima parada será Grão Mogol, que fica 140 km a leste de Montes Claros. Por que Grão Mogol? É uma antiga cidade mineradora, no alto da Serra do Espinhaço, com belezas naturais expressivas e também alguma beleza pictórica no seu aglomerado humano. Deve seu nome ao achado de um grande diamante, assim designado em referência ao império de Gengis Khan. Agora já mudamos de bacia; passamos do São Francisco ao Jequitinhonha, que corre talvez a 50 ou 60 km daqui, no rumo nordeste.

Os arredores são muito bonitos, dominados pelas paisagens pedregosas esculpidas pelo rio Itacambiruçu. Estamos em altos de serra, no caso, do Espinhaço, que corta o estado de MG de fora a fora, no sentido sul-norte, donde o clima seco e um tanto frio que aqui domina. Mas na verdade o que pudemos notar, de fato (era mês de agosto), foi a grande secura da paisagem, agravada particularmente nestes tempos de instabilidade e inconstância climáticas.

Na paisagem humana, Grão Mogol é uma simpática cidadezinha no estilo colonial mineiro, com um punhado de casarões remanescentes de um período próspero. Seu grande monumento é a igreja matriz, toda de pedra, que vale a pena conhecer, com certeza. Dentro dela, pelo menos em dias de sol, a luz é espetacular, como pode ser visto nas fotos que ilustram a presente memória. A cidade é atravessada por uma verdadeira falha geológica, no fundo da qual está o Ribeirão do Inferno, afluente do Itacambiruçu e do Jequitinhonha, que faz jus ao nome, pelas suas escarpas e cortadas a prumo, em rocha negra e agressiva. Mas nesta época do ano ele não passa de um rio quase seco. Do lado de cá do ribeirão, a igreja de pedra e as casas mais ricas; do lado de lá uma parte menos expressiva, mas enfeitada com uma bela capelinha, também em pedra.

Não há muito o que ver além disso, mas algumas placas fatalmente lhe indicarão um presépio, considerado como a grande atração local. Mas não se engane… O tal presépio é um verdadeiro monstrengo! Mandado erguer por um empresário local, que ganhou dinheiro, aparentemente com muito sucesso, na capital do estado, o tal presépio poderia até ser algo notável, ao aproveitar uma grota de pedra, bem no centro da cidade, condutora de águas naturais para o leito do já citado Ribeirão do Inferno. Mas o empilhamento exaustivo de pedras e as rampas de concreto delimitadas por tubos de ferro e vidro blindex colorido (!) dão ao conjunto um aspecto artificial. E o pior nem foi narrado ainda: as efígies da Sagrada Família e seu cortejo de anjos, reis magos, animais, santos, em concreto grosseiro, sem guardar entre si nenhuma proporção ou escala. Aí, então, o que era apenas fake se encontra com o grotesco, sem qualquer limite ou censura. É ver rapidamente e seguir adiante, até porque a rua onde se aloja a tal bizarrice é das mais graciosas, com seus muros de pedra e cercas vivas de buganvílias, cactos e ora-pro-nobis.

Para não dizer que não há coisas apreciáveis em Grão Mogol, que se registre a qualidade dos aposentos do hotel Paraíso das Águas, de nome inapropriado na presente estação do ano, mas que nos ofereceu um inesquecível biscoito frito de polvilho no café da manhã.

Descrita a parte boa (ou quase…) de Grão Mogol, resta declinar o que não presta… Para chegar lá você vai ter que se arriscar na famigerada BR-251. Rio – Bahia, Regis Bittencourt?  Esqueça! Estrada ruim é essa aqui. Fomos conhecer o Ribeirão do Inferno, mas o verdadeiro inferno estava mesmo é nessa rodovia!

Algumas de suas peculiaridades: excesso de caminhões, acostamento ausente, buracos e asfalto quebrado a perder de vista, estabelecimentos de apoio totalmente dantescos. E ainda, não se falou do que é pior: cidades marginais que se mostram como verdadeiros exemplos de abandono e baixa auto-estima. Em Francisco Sá, por exemplo, uma verdadeira nuvem (ou maré) de detritos e embalagens de plástico rodeia a estrada e mesmo se insinua no meio dela, agitada pelo vento de agosto. Você só escapa de ser coberto de porcarias se estiver prestando total atenção no caminhão da frente… A subida da Serra do Espinhaço nos faz pensar que talvez o Guiness Book pudesse criar uma disputa para a pior estrada do mundo. Talvez na Índia ou na África houvesse concorrência para esta aqui.

Em tempo: a BR-251 não é uma estrada qualquer. No trecho referido, ela liga Montes Claros a Itaobim, na Rio – Bahia.  E daí? Todo um pesado trânsito de caminhões que demanda o Nordeste do País, a partir do Rio e de São Paulo, tem a mesma como escolha principal, certamente para evitar algo ainda pior na BR-116.

Nas margens de tal caminho as manchas de mata seca são cada vez maiores e contribuem mais ainda para o aspecto desolado que nos oferecem suas cidades pobres e sujas, bem como o onipresente e selvagem tráfego de carretas, com seu rastro de fumaça e graxa. Cruzes por todo lado lembram os que já perderam a vida ali.

Na volta de Grão Mogol, bem que tentamos evitar a fatídica estrada, tentado um retorno via Botumirim e Itacambira, que aparentemente possuem trajetos aprazíveis, em terreno montanhoso (a segunda, com certeza, pois já estive lá). Mas não havia mapa e nem informações disponíveis. O que pudemos apurar é que o trajeto, de não mais do que 60 km, é inteiramente dominado pelas plantações de eucalipto e que os caminhos dentro delas, mesmo que sejam bem carroçáveis, possuem diretrizes de orientação ausentes ou muito duvidosas. Mas tivemos sorte, era manhã de um domingo de agosto e os caminhoneiros possivelmente comemoravam o Dia dos Pais.

A viagem prossegue agora em rumo diverso. O objetivo é chegar a um ignoto lugar, São Gonçalo do Rio Preto. Não confundir com seu quase homônimo, do Rio das Pedras. Ambos ficam próximos a Diamantina. O primeiro é cidade; o segundo uma vila pertencente ao município do Serro. Todos dois muito graciosos. Mas é do primeiro que falaremos aqui, sede que é de um local reputado como merecedor de uma visita: o Parque Estadual do Rio Preto. Chegaremos lá. Voltando a Montes Claros pela BR-251, estamos uns 180 km a noroeste de nossa meta. O caminho passa por Bocaiúva, já no rumo de Belo Horizonte, e daí tomaremos uma estrada colateral que nos levará diretamente a São Gonçalo. Meu encantamento com a geografia me obriga a revelar aos leitores que mudaremos de bacia: do vale do Velho Chico passaremos, de novo, ao Jequitinhonha. Curiosamente, todavia, eu que esperava montanhas escarpadas em tal caminho – pois este último rio tem como marca registrada em vários lugares que o conheço um curso entre montanhas – muito me surpreendi quando pude ver que a travessia se dava no seio de um planalto, escavado em certa parte pelo Jequitinhonha. E só. Nada de montanhas, salvo se considerarmos o que se poderia ver se estivéssemos postados ao lado da linha d’água. Mas salvo esta curiosidade geográfica, que talvez só interesse a mim mesmo, trata-se de um caminho sem incidentes, com muito eucalipto e planuras sem fim.

Como se vê, a viagem anunciada era ao São Francisco, mas já vamos bem além…

Na verdade, estamos pegando o Jequitinhonha pela beirada. Se quisermos ir aos seus lugares profundos, aquele “braço de mar”, a “pedra miúda quase sem brilho”, a “estrada natural da Bahia a Minas” de que falam as canções do Clube da Esquina, território das moças namoradeiras de barro que se colocam nas janelas – é preciso andar mais algumas centenas de quilômetros, no rumo de Araçuaí, Itamarandiba, Virgem da Lapa, Joaíma e outros lugares. O Jequitinhonha aqui é pouco mais que um riacho, parido que é pelo nó de montanhas que rodeiam Diamantina e Serro. Mas já tem fama de matador, porque outra glória do mesmo, a de ter um leito rico em diamantes, já se findou há muito tempo.

Em São Gonçalo do Rio Preto (SGRP) lugar obrigatório é a Pousada Canto das Águas, cuja proprietária, Dôra, se esmera na arte de receber bem e generosamente compartilhar com todos seus hóspedes sua profunda mineiridade, que nela é algo que, de tão natural, nem se percebe. Quando você vê, já está imerso naquilo, como se estivesse ali desde sempre. Uma casa antiga reformada e acrescida de itens de conforto, as cozinhas e fornos anexos totalmente preservados e ainda operantes, o rego d’água ao longo do qual se caminha alguns quilômetros, a mata atlântica remanescente, mas ainda muito pujante – são alguns dos atrativos. Isso sem falar das comidas…  Ali se come (e se bebe) uma vez só ao dia: desde que se acorda até a hora de deitar. Do pato com laranja, iguaria inglesa que ali recebeu um batismo de mineiridade, nem vou falar… Mas faço questão de matar a muitos de pura inveja ao mencionar certo caldo noturno, de tonalidade dourada e consistência suculenta, cujo sabor nos trouxe um toque verdadeiramente intrigante, alguma coisa entre áspero, picante e perfumado. O ingrediente misterioso, descobrimos depois, eram raspas de laranja – quem diria! Nunca havíamos provado uma iguaria assim.

Viemos para ver o Parque e ao Parque fomos. O Rio Preto nasce nas encostas orientais do Pico do Itambé, também componente do maciço do Espinhaço, já citado antes. Por alguma razão, talvez ligada à dificuldade de acesso e à natureza excessivamente pedregosa (sem deixar de ser recoberta de matas), parte razoável de seu trajeto ficou preservada da agressão humana e mesmo do fogo e foi em tal área que o Governo de MG criou, em anos recentes, o Parque Florestal que agora vamos conhecer.

Nunca fui a um daqueles parques americanos, decantados em prosa, verso e gibis da Disney. Mas aqui devo admitir, mesmo que me julguem colonizado, que me senti fora do Brasil. Tudo muito organizado, limpo, bem informado, com receptivo amigável. Todos que lá chegam passam por uma palestra explicativa, ilustrada por power-point , conduzida por um guardinha que mal deve passar dos dezessete anos. Foi especialmente agradável ouvir, com a jovem seriedade do expositor, informações nas quais se privilegiava também o que você pode fazer ali, não apenas o que é proibido. E entre as coisas que podem ser feitas estão acampar (!) e utilizar, mediante reserva, as instalações de hospedagem disponíveis. Não me lembro de ter visto algo assim em nenhum dos parques brasileiros que conheço.

E o parque é realmente lindo. Fica dentro de um anfiteatro de montanhas de tom cinzento, dada a quantidade de pedras, mas em toda parte a mata de transição entre o cerrado e a atlântica se insinua e toma conta. No mês de agosto a rebrota dos paus d’óleo e outras plantas semelhantes, coloca na paisagem manchas cor de ferrugem, muito vivas, que dão encanto e fazem contraste aos tons predominantes de cinza e verde claro. O rio Preto justifica o nome, mas é completamente transparente e no seu fundo de areias brancas é comum ver peixes de tamanhos diversos, nadando tranquilamente, completamente alheios aos humanos que também querem aproveitar da água fria do rio. Brancas também são as numerosas praias que aqui e ali se formam. E aparentemente todas elas podem abrigar os acampadores eventuais. Deve ser uma delícia, realmente.

De SGRP a Diamantina, aí sim, vamos ver o Jequitinhonha de perto. E a passagem rodoviária se dá no distrito de Mendanha, que abraça o rio nas duas margens. E vale aqui uma parada, além de um breve comentário.

Mendanha é lugar antigo, ligado não só à mineração (tudo aqui o é), mas também ao fisco colonial, pois, afinal de contas, esta era uma porta de entrada (e saída) do antigo Distrito Diamantino. E em lugares assim os olhos da lei se mostravam extremamente atentos. É uma vila pequena e bem graciosa. A vista do Jequitinhonha do alto de suas colinas da margem esquerda é inigualável. Há casarões bem respeitáveis preservados, embora isso não aconteça com todos eles. Aqui, como em outros lugares do Brasil, há que se agradecer a presença de forasteiros (alguns, talvez, nem tanto) que se encantam com o lugar, compram e reformam casas antigas, com bom gosto e respeito à preservação. Sem embargo de que existam, também, os que destoam dos quesitos “bom gosto” e “respeito”. Em Mendanha se pode atravessar o rio também em uma ponte de pedestres, eqüinos e motos, bem no centro da vila, muito bem conservada e da qual se pode ter também uma esplêndida visão do rio. Diamantina está muito próxima, pouco mais de 15 km – e nos chama, mas de Mendanha se vai embora com enorme vontade de voltar.

E seguimos rumo a Diamantina, Serro e Sabinópolis, onde a grande festa de N . S. do Rosário nos espera. Mas isto é assunto para outras conversas.

 

 

 

 

 

 

 

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