Do mato e seus perigos…

CERRADO PERCY LAUMeu grande amigo Mauro Márcio de Oliveira faz o favor de preparar e me mandar um guia para os eventuais visitantes de sua Fazendinha Arvoredo, lembrando, de início que “visitar a roça pode ser um passatempo inesquecível para quem mora na cidade e, ainda mais, em apartamento. A imagem idílica do campo atrai muitas pessoas, que quando acorrem à roça, pois pensam, sobretudo, no lado agradável da visita. Mas, devo avisar que uma imersão na roça supõe riscos. Para evitar um tratamento genérico da questão, falo apenas dos que já experimentei na Arvoredo; uns com sucesso e outros com … acidentes!”.

E assim ele inúmera os inúmeros perigos que cercam uma viagem á roça, mesmo se for um dos tais sítios onde de longe ainda dá para avistar as luzes urbanas. Entre os insetos, por exemplo, ele alerta para os vespeiros, casas de marimbondos e colmeias de abelhas, sem esquecer daqueles que não andam em bando, como escorpiões, lacraias, lagartas lagartas de fogo, carrapatos e tarântulas. Quanto às formigas, então, todo cuidado é pouco, lembrando das ditas cujas de fogo, que apesar de vermelhas e pequeninas, têm um veneno poderoso. Carrapatos, especialmente na época da seca, constituem um grande perigo, seja dos redoleiros, bem grandes ou dos micuins, micrométricos. À noite, cuidado com os cupins, que embora cegos (eu nem sabia disso), são agressivos. Ele desconsidera as moscas, pernilongos e muriçocas, que mais incomodam do que produzem dores – mas mesmos estes aí eu acho que merecem cuidado especial da parte de quem se aventura no mato.

Os perigos não acabam aí, todavia. Há também uma completa antologia de animais silvestres, entre os quais se incluem os teiús, as serpentes, as ariranhas, as onças pardas, os javaporcos (?) e até mesmo os reles tatus, gambás, quatis, veadinhos, macaquinhos, seriemas, perdizes, tucanos e curicacas, quanto aos quais ele alerta que devem ser vistos a uma distância segura. E completa: se você ver o bicho e correr dele, logo adiante pode  tropeçar e cair porque o terreno não facilita fugas.

Em casa, em descanso protegido do mundo exterior, ao ver morcegos voando nos cômodos, don’t worry, eles são frugívoros. Da mesma forma, os gambás no forro da casa só fazem barulho e não chegam a representar nenhuma ameaça à integridade de uma pessoa, salvo, talvez pela emissão de mau cheiro – mas isso passa e não faz mal (nem bem) à saúde de alguém.

No reino vegetal os perigos são menores, mas não devem ser desprezados. Cipós, por exemplo, daqueles que se ajeitam rasteiros, podem se transformar em laços quem pegam  você pelo pé. E muito cuidado com algumas plantas espinhosas, como a bem denominada malícia, a lobeira, o jiló do mato e outras, havendo também aquelas que produzem alergias nas pessoas mais sensíveis, como a aroeira.

E como, em se estando no mato a tentação de muitos é fazer uma caminhada, é preciso também estar atento a tudo o que já foi descrito, mas é importante, assegura meu amigo,  estar atento também às armadilhas escondidas sob o capim, que vão desde as tocas dos tatus aos enormes buracos cavados por ele para fazer um estudo do perfil do solo, seja lá o que isso for. Então, é preciso ter cuidado não só para evitar torcer o pé, quanto a obrigar os circunstantes a chamar o Corpo de Bombeiros, para resgatar você do fundo de algumas dessas locas babilônicas.

Isso tudo para não falar dos riscos meteorológicos, que vão desde chuvas fortes a raios incidentes diretamente sobre a cabeça dos incautos excursionistas. Sorte sua se estiver apenas na Fazendinha Arvoredo, situada em agradável planície, porque nas áreas de montanha, como na Chapada dos Veadeiros, os riscos de tromba d’água são enormes – e o mais das vezes, fatais.

Lendo tudo isso, pensei, em primeiro lugar se estamos diante apenas de um exercício de escrita, como este meu amigo gosta de nos apresentar ou se realmente ele quer nos convidar para estar na Arvoredo, para lhe fazer companhia. Ou, quem sabe as duas coisas. Mas sem dúvida tudo está escrito com a graça de sempre por este escritor nem tão bissexto que é Mauro Márcio de Oliveira.

De toda forma, na minha experiência mais “bissexta” do que a dele, aliás, de estar no mato, com ou sem cachorro, resolvi acrescentar à lista de Mauro alguns outros perigos que tenho como reais.

No capítulo das formigas, por exemplo, ele se esqueceu das terríveis formigas de correição, que invadem a casa das pessoas aos bilhões, devorando tudo o que for vivo que encontrarem pela frente. Elas chegam, agem e vão embora, em poucas horas, promovendo nos domicílios humanos uma verdadeira faxina, não havendo barata, escorpião, lacraia ou mesmo lagartixa que não sucumba diante delas. Mas enquanto permanecem ali, não há ser humano que resista a suas picadas infernais e se não vencem pelo veneno, que não chega a ser forte, vencem pelo número. Eu mesmo, diante de uma das inúmeras invasões das correições em minha casa do Moinho tive que sair de casa e dormir no vizinho, sem conseguir sequer pegar minhas roupas e escova de dentes, tudo tomado pela horda de formigas. E para mal dos pecados, o costume delas é o de atacar pelas noites.

Acho que Mauro também não deu o devido peso aos ataques de abelhas, principalmente das afrodescendentes, que andam, ou melhor, voam, em enxames e matam bem mais do que atropelamento de automóver por este Brasil a fora.

Da mesma forma, ao descer na escala métrica, nunca é demais esquecer dos inumeráveis vírus e bactérias que os insetos transmitem. Na melhor das hipóteses lhe produzirão apenas febre e mal estar; do outro lado da escala, invalidez temporária, microcefalia, encefalites fatais…

Tem macacos no tal mato? Algum deles está morto ou moribundo? Corra! (com cuidado para não tropeçar nos cipós): a próxima vítima da febre amarela pode ser você.

Depois de tantas emoções, é hora de voltar pra casa. Que tal um bom vinho para relaxar. Na geladeira ou no armário não tem? Deixa a preguiça de lado e dá um pulo na mercearia da esquina.

Ao pisar na calçada, veja se não tem algum trombadinha, trombadão, pivete, punguista, descuidista ou ciclista por perto. Atravesse a rua só na faixa ou no sinaleiro e mesmo assim só o faça se a vista não alcançar algum bólido se aproximando. Com estes motoristas de hoje, nunca se sabe. Mesmo com os pés na calçada, não deixe de estar atento, pois alguns motoristas bêbados ou divergentes da norma preferem trafegar por ela…

Viver é mesmo muito perigoso, meu amigo!

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